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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

VII RADUNO DA PRIMAVERA "GUSTAVO DELACORTE" E GRANDE ELENCO

No domingo de 20 de novembro realizamos a sétima edição do Raduno da Primavera, dessa vez dedicado ao finado irmão Gustavo Delacorte, que por tantas vezes encabeçou o nosso encontro litorâneo. Manhã de sol, de veteranos e novatos na estrada, de testes físicos e mecânicos, um giro que parece simples mas que em nome do Raduno nunca é lá tão como parece. Ao final contabilizamos a participação de 46 motonetas clássicas das cidades de Santos, São Vicente, São Sebastião, ABC Paulista, Taboão da Serra, Suzano, Campinas, São Roque, Itapevi, Osasco e Córdoba (ARG). Tentarei relembrar os fatos com alguns detalhes, se a memória ajudar.


Por Marcio Fidelis

Era 9h30 quando chegamos no Posto Frango Assado do começo da Rodovia dos Imigrantes, alguns amigos e eu, saídos da nossa Sede. Prevista para as 10h, a partida rumo à baixada sofreu ainda um atraso de quase meia hora devido a dois problemas em Vespas. Na conta estavam os nomes: Gabriel Forte, Rodrigo Sonnesso, Vitor Hugo, Gabriel Corazzin, Reginaldo Silva e Rose, Fernando Pastorelli, Seu Artur Biscaia, Marcelo Santana, Marcelo China e Leika, Vanessa Amado e Nano, Diogo Reis, Daniel Turiani e Gisele, Guilherme Rocha, Diego Pontes e Cintia, Eliseu Jr, Adriano Stofaleti, Rosa Freitag, Diogo Vinícius e eu, Fidelis, todos devidamente batizados nas águas barrentas desse clube (a somar os nomes dos meliantes que nos encontraria lá na baixada, que virão mais abaixo nessa história); e os amigos Eduardo Deccó, Marli, Welson Rabelo, Vanderlei Facina, Zé Mario, Animal Taylor e Fernanda, André Palazzo, Sergio, Brenha, Darci, Robson, André e Thaís, Paulo "Devito", Valdir Melo, Caio Perez etc - posso ter esquecido de alguém, por favor me diga, sem frescura, a gente não tem memória de elefante.



















Já na saída, dois contratempos prenunciavam o desafio que seria essa sétima edição. (O Raduno da Primavera é, de sobra, o evento com mais quebras possíveis do calendário nacional. Você repara que quase todos chegam com suas motos de performance, ou suas relíquias revisadas. Teoricamente é só passar marcha e curtir a brisa em comboio. Só que não. Porém esse de 2016 superou todos os outros). Era 10h e os rapazes ainda estavam empenhados no problema do Forte: o China, o Eliseu e cia. Eles tiraram o filtro sujo da gasolina e emendaram a mangueira com um teco de antena de cortar pipa. (O melhor do Brasil brasileiro!!). Funcionou lindamente!! Então na saída anunciada, após o briefing, foi a vez do Sonnesso: pneu traseiro furado. Apesar do céu nublado o sol pesado já dava as caras. Reginaldo foi ao apoio do Rude Boy, e em dez minutos a moto estava de pé no grid.

As 10h30 entramos na Imigrantes, numa formação de comboio espetacular! Na ponta Koré com sua segunda PX, a Rat, e o estreante Zé Mário, veterano do Ipiranga que abria a sua nova temporada em M3. Na staff o Pastorelli, Vitor, revezando posições do meio para o ferrolho, enquanto eu fazia o meio até a ponta com o Animal. Na altura de Diadema Welson integrou o comboio com sua PX vermelha. E ainda na altura do Rodoanel mais um integrou o grupo - mas agora não lembro quem era. Então chega o Leo Russo e a Claudia com a Gabi, de carro, fazendo o para-choques traseiro do comboio que se esticava por 1 km na estrada. Se você olhasse para o meio via o desenho geométrico preciso, a formação em Z, com seu corredor central espaçado, passo-a-passo, esquerda e direita com a distância do contato visual dos retrovisores. Capice?


Passamos os túneis, a água do chão, as irregularidades do asfalto, na pista da direita, na média dos 65km/h, respeitando as máquinas mais antigas e a possível inexperiência de alguns nos aros 8 e 10. Com fantástico equilíbrio, sincronia, sintonia, o comboio trocava de pista com facilidade, numa das mais bem-sucedidas operações rodoviárias. Passamos Cubatão, e debaixo da Ponte Estaiada nosso embaixador raduneiro Carlos "Peixinho" nos esperava com seu amigo Michel, em duas Lambrettas LI. Daí em diante nosso veterano puxaria a tropa sob o sol escaldante de São Vicente. Já na cidade, por volta das 11h40, alguém vem à ponta e comunica que o China encostou com o pneu da Super furado. Foi uma parada de 10 minutos, bem próximo da centenária Ponte Pênsil. Era a segunda vez que atravessávamos a ponte em comboio, repetindo o gesto da edição inaugural do evento. Quando abriu o semáforo Diogo Reis travou a segunda rua de acesso à ponte para mantermos nosso grupo compactado. (Comboio urbano é outra história: tem que negociar espaço com motos, bikes, segurar e liberar os carros no melhor momento, calcular o tempo dos semáforos e decidir rapidamente se passa ou represa). Do outro lado Túlio Parodi nos esperava com sua PX, vindo de São Sebastião na tocada solo. Mais uma pra conta!


A cada movimento o comboio crescia, e os representantes do litoral iam surgindo, trazendo todo o terroir raduneiro à receita. E por fim as gratas surpresas aconteceriam no Cemitério Vertical Metropolitano de São Vicente, onde nosso irmão Gustavo Delacorte fora sepultado em setembro. Ali nos aguardava a sua família: Valdir, Fátima e Giovanna, com a nossa amiga e ex-namorada do irmão, Karla Jales. Também os vespistas da baixada: Lucca Perucchi e sua PX (vindo de São Paulo um dia antes), Elídio em sua Vespa M4, o Eric e a PX "Marilena", o João “Levy Fidelix” de PX e seu amigo Emídio numa Lambra. E de longe chegava o Alessandro Poeta e sua oitentista estradeira, vindo de uma cruzada solo na Serra do Rio do Rastro (SC). Releiam isso: o cara sozinho fez tudo e muito mais, nos dando a honra de coroar um Raduno com o desfecho dessa incrível saga particular. Estávamos no âmago do nosso momento de reflexão, de religiosidade ou de respeito ao finado querido. (Esse vem sendo, de longe, o ano-moral da SP, temporada de pautas existenciais e maior valorização dos irmãos. E parte disso é devido à força de vontade e algumas decisivas atitudes que o presunto dois-tempista nos deixou desde a primeira edição desse evento).


Dominamos a rotatória diante do cemitério num grande zero barulhento de quase cinco minutos, e partimos então para a Praia do Itararé, onde aportaríamos o grupo para o almoço e a singela homenagem aos familiares do amigo. Chegamos as 12h50, sob um tremendo sol e calor para além da primavera. Nos reunimos no entorno de dois quiosques para refeições, porções e lanches, com vista para o mar, para a Ilha Porchat, para a Pedra da Feiticeira. A água ali está longe de ser das mais limpas (mas muito melhor do que quando fiz o pré-raduno solo, em 2009, ocasião em que se via boiando um pouco de tudo nas ondas duras: de caixa tetra-pak de leite à camisinha usada), mas raros raduneiros descem na intenção de salgar os cabelos, então a preocupação mesmo é com o custo-benefício do almoço para a geral, e com o horário da volta, pois quanto mais tarde é maior o trânsito e a possibilidade de chuva. E dessa vez o restaurante não se preparou devidamente para atender a cinquenta pessoas, como o combinado entre o Peixinho e o pessoal do Route 66. Alguns almoços atrasaram demais, comprometendo a volta em uma hora além. "Tá ruim mas tá bom". Raduno tem dessas. Dada hora nos reunimos para a entrega da nossa homenagem à família Delacorte: o quadro do evento assinado pelos membros do clube e pela maioria dos raduneiros presentes. Para nós eles mereciam muito mais, e Delacorte merecia mais tempo talvez, e queríamos ter passado bem mais tempo com ele. Algo acontece: Forte está no pátio ensinando a Martina (filha do Lucca) a andar de Vespa.


Antes da subida alguns já haviam formado suas crews para a volta antecipada, como no caso dos rapazes de Itapevi e São Roque - mais tarde soube que Ed Purga teve que deixar sua PX com problemas, e dessa vez com os anéis quebrados, subindo na garupa de alguém. Outro que teve problemas foi o Guiba, que deu uma escapada profissional durante o almoço, e nessas ficou sem cabo de embreagem pelo caminho, tendo de voltar à noite para buscar a PX. A maioria dos participantes da baixada já haviam se despedido também. Batia o sino das 16h quando tomamos o rumo da volta. Foram vinte minutos para abastecimento geral e Peixinho nos deixaria na saída para a Imigrantes. 




Os primeiros dez quilômetros de estrada foram perfeitos: comboio alinhado, pista seca, ritmo médio em quase 70km/h. Quando deixamos Cubatão para trás iniciando a subida da Serra do Mar, a sorte mudou, como prevê a cartilha do raduneiro dois-tempista. Um infinito e vagaroso trânsito toma todo o espaço, nos deixando o estreito corredor para dividirmos com os motociclistas e motoqueiros. Daí pra frente é braço e improviso, e a meta é avançar o máximo todo o comboio sem deixar ninguém perdido à beira do caminho. Estiquei rumo ao futuro a fim de saber o motivo daquela lentidão toda, e chegando em 2021 parei no acostamento para a recontagem do grupo. Da rabeta, fazendo companhia para a Rosa, via o grupo altamente concentrado no caminho, tomando dois corredores rodovia acima. Então na boca do primeiro túnel, o Emerson Fittipaldi, vejo o Sonnesso descendo da Vespa. Sinalizei à Rosa para que não se preocupasse, e encostei. O motor havia apagado sem sequer avisar. Tentamos de tudo um pouco, e nada. Então quase que ao mesmo tempo os rapazes de Itapevi e São Roque chegam e param para nos ajudar, e o Vitor Hugo aparece do além, saído à pé da escuridão do túnel – ele tinha notado o amigo com problemas, mas precisava manobrar a moto entre os carros até encontrar um lugar mais seguro para estacionar. Então Darci meteu a luz do celular no buraco da vela e deu o diagnóstico: “é pistão furado, já era a viagem pra você”. Sem muito mais o que fazer por nós eles tocam viagem acima, enquanto eu converso com o Corazzin pelo telefone, que me conta que a Vespa do Turiani também parou, vinte quilômetros acima, e pelo mesmo motivo. Santo Pistão, Batman! E aí me pergunto: que motivação suspeita é essa que fura dois pistões de duzentas cilindradas, de dois vespistas experientes – um deles mecânico -, num evento de um tanque e meio de combustível, e olhe lá? Tenho duas hipóteses: a porcaria da gasolina desse país de miseráveis, e o fanfarrão do Gustavo Delacorte aprontando a maior quebra de motonetas da história da Scooteria num mesmo dia. Nisso sai do buraco do túnel o Flavio Mendonça com seu filho, perdidos num Raduno solitário. Se passou que eles perderam a hora da saída e também ficaram sem bateria do celular, e não tendo memorizado as informações sobre o roteiro e almoço, ficaram à deriva na baixada, chegando à essa história aos trinta e nove minutos do segundo tempo, ainda em tempo de um abraço, um sorriso bem grande e uma mão amiga. E falando em mão amiga, o “túnel da fé” ainda nos traria o santo salvador: um rapaz que vinha subindo na sua pick-up vazia notou o problema, e decidiu parar o carro depois do túnel e voltar a pé para oferecer um reboque até São Paulo. Espetacular! Sonnesso, Vitor, Mendonça e o reboque amigo empurraram então a Vespa túnel acima enquanto eu e o filho do Mendonça aceleramos solo na tentativa de alcançar o segundo grupo parado à frente. Ventava bem, esfriava, o sol ia baixando, o trânsito já dissipava. Passava das 18h. Na saída para o Rodoanel parei para checar o Whatsapp da SP, onde o Diogo Vinícius me informa que estão dois quilômetros acima. E lá estavam eles fazendo companhia ao Turiani e à Gisele enquanto esperavam o caminhão rebocador: Diogo, Forte, China, Welson. A maior parte do grupo havia seguido fazia quinze minutos. Ali assistimos a passagem da pick-up com a Two Tone do Sonnesso na caçamba, depois um rolê de uns cavalos pelo acostamento, a chegada do Vitor e do Mendonça, e por fim o reboque da estradeira do Turiani. Então seguimos viagem ABC acima até a Av.Ricardo Jaffet, quando bate aquela sensação de que o Raduno chegava ao fim, de que já estávamos em casa, de jogo ganho nos pênaltis, com prorrogação e muitas bolas na trave. Só que não. O destino – chamaremos de destino esse fato metafísico – quis quebrar mais uma Vespa, só por diversão. Foi a vez do Diogo Vinícius, que perdeu todas as marchas, restando apenas a segunda. China ainda tentou resolver ali, mas sem sucesso. O jeito era tocar até a zona leste no “modo walk machine” (como bem ironizou Diogo), a 20 km/h, conosco na proteção sinalizando aos motoristas. 


E assim terminamos o VII RADUNO DA PRIMAVERA, um pouco diferente em roteiro e ambientação, recordista em quebras, unidos na alegria e na tristeza. E foi maravilhoso, para mim, para a maioria foi. Um Raduno marcado pela homenagem a um dos mais nobres amigos que já tivemos em nossa casa, em nossas vidas, embaixador desse evento, irmão de óleo, e apoiador ativo da cena dois-tempista nacional. Sem Gustavo Delacorte certamente teríamos mudado o Raduno de cidade nos idos de 2012, teríamos menos amigos, um pouco menos de vida, e desconheceríamos a lição da qual mais insistimos em aprender nesse ano: cuidar e amar quem nos quer bem. A gente agradece de coração à Karla Jales pelas tantas e tantas participações nos Radunos, Giratas, Anivespaulos, SP em 2T’s, Acampamento de Verão, Lindóia’s, Jundiaí’s, Campinas, Sede, noites paulistanas, horas e horas de prosa e amizade, por ter valorizado e apoiado o nosso saudoso presunto em tudo no que se referia às motoneta clássicas. Também à família Delacorte: Valdir, Fátima, Giovanna, e cia. Pessoas maravilhosas, que emanam carinho e bondade, pessoas que estarão para sempre em nossos corações. Que esses seis anos juntos da gente se multipliquem infinitamente. Nós os queremos! E parabéns aos raduneiros de 2016 por fazerem direitinho a lição de estrada. E antes de encerrar esse relato, que diga-se de passagem, é puramente pessoal, devo registrar aqui mais um fenômeno metafísico que nunca me ocorreu ante. Costumo escrever e diagramar essas postagens todas dentro da plataforma do blogger, e às vezes vou fazendo aos poucos, conforme dá tempo, salvando aqui mesmo cada etapa evoluída. E dessa vez tive que escrever quatro vezes esse relato, isso porque a cada vez que abria o blogger para retomar a história, ela simplesmente havia se apagado, sumido sem deixar vestígio, justamente do ponto onde nos despedíamos de Santos. Para mim faz sentido...

Agora descanse em paz fanfarrão Gustavo Delacorte. A gente se reencontra em 2 Tempos.

Relato por Fidelis, sujeito à alterações.
Fotos por Fidelis, Giovanna Delacorte, Rose Moreira.