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terça-feira, 28 de abril de 2015

O CLUBE DAS LAMBRETAS (São Paulo, Anos 50)

por Mario Lopomo

Na verdade esse clube não existiu oficialmente. Nunca teve ata, documentação, diretoria e outros que tais. O que tinha era um grupo de pessoas que adoravam andar motorizado.

Antes da febre das lambretas 1958, meu irmão José “doutor em motores” já era um motociclista. Desde que saiu da bicicleta e montou uma moto velha transformando-a numa de corrida. E quantas corridas loucas ele fez! Quando as Lambretas viraram realidade naquele maravilhoso ano de 1958, vindo em larga escala da Itália, eram todas em sua maioria do tipo Vespa. Ou seja: eram mais largas e tinha o motor coberto por lataria. Meu irmão deu preferência por uma Stand, ano 1957. A diferença é que a Lambreta Stand tinha o motor à vista, o acento do carona e o estepe junto ao baolete (caixa de ferramentas o objetos). Logo ele já deu sua nota. Desmontou a lambra, e mandou cromear as peças do motor que brilhava quando o sol estava posto. Seus amigos lambretistas eram: Nelson, Mario (seu Cunhado) e Carioca e Luiz Anim. Quando esse quinteto saia às ruas era um barulho só com escapamento boca larga sem silencioso. Não tinha tímpanos que agüentavam. Todos corriam e chegavam sempre juntos. Não havia favorito. Isso enquanto o Zé Lopomo não botasse a cabeça para funcionar. Um dia ele foi na Duque de Caxias e perguntou se eles tinham coroa de pinhão de corrida. E não é que tinha! Quem desenvolveu esse projeto foi o Láu, deu em consignação para saber se estava tudo certo com a peça. Realmente o negócio funcionou. Aí já começou a pintar o favorito. O desnível era tamanho, que quando o Zé dava poeira nos amigos, todos ficavam cabreiros. E como ele era mecânico, logo imaginavam que a máquina estava envenenada. Nelson que era seu co-cunhado e tinha mais liberdade com ele o chamou para uma conversa no tete a tete: - Olha aqui Zé, tem alguma coisa que você esta nos escondendo. Sua máquina esta envenenada e nós estamos em desvantagem.

- Bem, eu consegui uma coroa de pinhão especial. Se você quiser, eu coloco na sua também. Para ninguém ficar no prejú.

Todos ficaram sabendo do fato, e somente o Mario continuou como frango (gíria de medroso) no volante da Lambreta. O brilhareco dos quatro, já que Mario tinha ficado na categoria de frango, era tamanho que a estrada que eles pegavam para ir até Bragança e voltar, estava ficando curta com a lambras envenenadas. Meu irmão era relapso. Não tinha habilitação, a lambreta não tinha placa. Uma noite vindo pela avenida Brigadeiro Luiz Antonio, recebeu o sinal do guarda de trânsito para parar. Que parar nada. Rodas pra que te quero. Deu aquele pau na bichinha, e o guarda com uma moto grande e potente atrás. Só que a do guarda não tinha coroa de pinhão de corrida, mas mesmo assim a distância dele para meu irmão era de uns 10 metros. Quando terminou a Brigadeiro na rotatória do largo da Maná, Zé deitou a máquina fez o contorno do jeito que vinha. O guarda entrou direto pela praça dentro. Quando a moto do guarda estava virando de cabeça pro ar e voltando, ele estava já entrando na avenida Santo Amaro. Foi até em casa. Guardou a lambreta e voltou de ônibus descendo lá no largo da maná, para ver o estrago. Todos ficaram danificados. A moto e o guarda. 

Um dia apareceu na oficina do meu irmão, Rua Arandú, próximo ao córrego da Traição, uns caras da Vila Mariana. Todos cantando de galo em terreno alheio. 

- Por acaso é aqui que tem uns lambretistas metidos a besta, e que são os tais?
Zé Lopomo com aquele sorriso de Monalisa, ficou quieto. Quem falou alto foi o Nelson.

- Xará é aqui mesmo! Olha, eu escalo aquele ali para qualquer parada.
O cara no caso era meu irmão que sem falsa modéstia estava quietinho.
- Então vamos para uma parada. Quero ver se é bom mesmo - falou o gostoso da vila Mariana, de blusão de couro, topete, mascando chicle, dando uma de Elvis Presley.
Na corrida, que se repetiu por três vezes, eles perderam todas, e na poeira.
Quando se pensava que a coisa tinha acalmado, eis que um dia lá vem os caras de novo.
- Olha aqui, meus camaradas. Querem uma parada no nosso território?
- E onde é vosso território? - Perguntou Nelson.
- É no inicio da Domingos de Moraes. Linha reta, 100 metros e só na primeira marcha.

Zé olhou para Nelson e meneou a cabeça afirmativamente. Como a dizer vai que é mole.
Sabia ele que, com coroa de pinhão especial, o arranque da lambretta dele era bem maior. E com a distância inicial e só com a primeira marcha dificilmente seria pego. Nelson topou, e com grana alta. Era nada mais nada menos que 10 notas de 1000,00 aquelas alaranjadas, com a efígie de Cabral. 

Foi num domingo pela manhã, que quase não tinha ninguém para atrapalhar ou chamar o DST. Departamento de trânsito da época. Foi uma tremenda frescura antes de começar a corrida. Uma régua de dois metros e meio para fazer a linha demarcatória. Esquadro para que as rodas não ficassem uma em desvantagem da outra. Coisas de rir muito. Quando o árbitro deu o apito de partida, a lambreta do meu irmão já pulou rápida e tomou a frente com quase dois metros de vantagem, quase estouraram os motores com aquela força de primeira.

Conclusão: Mais uma vez eles perderam. E com a cara no chão tiveram o dissabor de ver Nelson devolvendo o dinheiro da aposta e ouvir: Toma essa merda. Enfia no rabo...
e-mail do autor: mlopomo@uol.com.br

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