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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

VII SÃO ANIVESPAULO - Relato #2

O VII São Anivespaulo foi inesquecível, a boa vontade e um desejo preso em nós por união fez dessa sétima edição a melhor de todas. 123 motonetas de um monte de cidades vieram, e todas elas rodando, e deram o ar da graça ao ar da mais cinza das cidades, divertindo as ruas com suas cores, pilotos e motores. Nas redes sociais todo mundo posta e compartilha fotos, vídeos e os comentários mais legais sobre o evento. Agora é a minha vez.


VII SÃO ANIVESPAULO
por Marcio Fidelis

9h da manhã de um domingo diferente. Era o aniversário de São Paulo, sétimo São Anivespaulo, o evento mais sagrado do calendário da SP. Os santos conspiravam ao nosso favor, e deram um lindo céu azul para aquele inesquecível retrato nas alturas. Foi uma hora e quinze minutos de concentração, escondidos atrás da caixa d'água da Vila Mariana. Vespas, Lambrettas e Bajaj's chegavam de todos os cantos, de diversas cidades, do ABC, Guarulhos, Osasco, Santos, Ferraz de Vasconcelos, São Sebastião, Campinas, Valinhos, Ribeirão Preto, Taboão da Serra, Americana, Mauá, (etc etc) e claro, São Paulo. Fotógrafos independentes e câmeras do rock'n'roll andavam entre nós registrando tudo, maravilhados com o que viam. E da maneira mais raçuda fizemos. No grito, sem polícia ou política, reunimos 123 motonetas ao todo, quase todas elas nas ruas, nos modelos PX200, 150 Super, Sprint, Originale, M3, M4, LI, LD, Cynthia, Xispa, BR Tork, etc. Consegui cumprimentar quase todos, enquanto entregava em mãos cartões postais e adesivos. Conosco a equipe de filmagem da Crasso Records com três câmeras captando tudo, também fotógrafos independentes e "instagramers" alucinados. No grito reunimos a tropa perto de algum teco de sombra e passamos algumas instruções de trânsito. Nessas, fiz um pedido que soou estranho e virou deboche (também, por que será?): "pessoal, vamos tentar ser discretos". Na ponta dos dedos ligamos os motores. "Tudo pronto? Simbora SP".


E começava a sinfonia das bielas, o balé dos chassis de ferro rumando à Avenida Paulista. Delacorte ia pra ponta controlar a velocidade da locomotiva. Favero ia pra contenção. Guiba levava o terceiro rádio da Staff. Koré e Russo levavam os câmeras para todos os ângulos do comboio. Stofaleti dessa vez ia na garupa da garota, filmando motos, rostos e edifícios. E tudo fluía em harmonia. Todos riam e se divertiam, em comunhão pelo santo dois-tempista São Anivespaulo. Foi lúdico, surreal, que misturado ao sol que São Pedro Lambreteiro nos dava de presente, eu diria que foi a pintura que Salvador Dali não fez.















E vinha a Avenida Paulista, com carros, motos, pedestres e ciclistas ao nosso redor, dobrando pescoços, desmoronando seus queixos. Voltávamos aos bons tempos com o Conjunto Nacional à nossa esquerda, e numa delirante busca pelo passado entramos na Rua Augusta. Stofaleti, que havia desenhado o roteiro pela Consolação, veio voando para a ponta. A partir daí o tropeiro foi ele, na garupa da esposa Debora, filmando aquele que seria o vídeo mais compartilhado das redes sociais. Lá embaixo entramos na Avanhandava e baixamos o ritmo para aglomerar o comboio. Juan e Animal ajudavam a guiar a tropa. Aliás, muitos faziam isso, só não me lembro quem pois tudo era urgente, frenético, e quando nos demos conta o Copam estava ao lado, e o Edifício Itália. Invadíamos a zona dos velhos prédios, da São Paulo clássica. E o trânsito colaborava, o paulistano estava de bem com a cidade. Veio a biblioteca Mário de Andrade, o Theatro Municipal, o Viaduto do Chá, a Prefeitura de São Paulo. Lado a lado os edifícios São Paulo e Banco Mercantil Finasa pareciam que estavam nos esperando há algumas horas. Também o CBI Explanada refletindo a luz do sol. Era muito mágico, os prédios pareciam se mexer, e nos cumprimentavam, esses gigantes cicerones. Dali em diante fizemos valer a expressão “vai pela sombra”: as construções do tempo escondiam o sol da gente. Adiante, a Praça da Sé se preparava para uma festividade, e ali represamos novamente o comboio. Em poucos minutos passávamos pelo Páteo do Colégio, marco inaugural da cidade. E finalmente, com a tropa completa, chegamos ao Edifício Martinelli. No improviso consegui um esquema de estacionamento ao lado – no improviso porque é muito difícil encontrar no Centro um estacionamento que receba motocicletas e afins. Convenci os funcionários dessa maneira: “olha ali na curva, tá vendo aquele pelotão descendo? A gente vai invadir o seu estacionamento agora, e ninguém pode controlar isso. Fecha um preço agora e te daremos paz”. E assim pudemos guardar as centenas de motonetas num lugar seguro e exclusivo, evitando aquela chatice de carregar capacetes e malas elevador acima. Fernanda Borges agilizava a lista de visitantes do edifício, enquanto eu voava de detalhe em detalhe. E esse foi o dia em que o comboio virou passeata. Vamos ver mais fotos...

Um monte de fotos do Maurício Constantino - CLIQUE AQUI

Pelos elevadores da história subimos o evento ao topo do Martinelli. Sua história é fantástica, e todos os funcionários de lá trabalham com amor, num amistoso clima que não se vê nessa cidade desde o tempo dos nossos pais e avôs. A poucos metros estava o Banespão (Altino Arantes), como se pudéssemos tocá-lo. Também o Conde Prates de um lado, e o Banco do Brasil de outro. Aquilo era o céu, lugar para onde as pessoas boas vão depois que morrem. E como compor uma pintura viva, a foto oficial desse encontro parece um prenúncio do ano que viveremos nessa cena 2T paulista: todas as idades, cidades, clubes, e amigos que se importam e nutrem altruisticamente a cena paulista, essa que insistimos há anos em amar com todo o ódio, e a odiar com todo o amor – não é assim Tom Zé? O tempo urge, vamos celebrar!


Bem, tínhamos que voltar à Terra, as nossas motonetas estavam num estacionamento escuro, e uma festa estava preparada para os anjos caídos. Em blocos tocamos para a Trackers, a menos de um quilômetro dali, no Largo do Payssandu, ao lado da Galeria Olido e da Galeria do Rock. Rubinho saiu em disparada para abrir as portas do estacionamento do prédio aonde faria acontecer o segundo tempo do evento. Guardamos as motonetas com segurança e um pouco de caos também. Mais amigos chegavam em em dois tempos para a festança, outros já estavam lá. Acho até que ao todo tivemos algo como 130 motonetas participantes. Mas ficamos no 123 que é uma bela sequência. A Trackers na real é um projeto cultural e escolástico aonde funciona muitas ideias malucas e pioneiras em arte, música, tecnologia e cultura juvenil. O prédio se chama Edifício Vitória, e foi inaugurado em 1939, tendo abrigado inúmeras empresas da área de diversões. (Vale lembrar que outrora aquela era a região dos circos, cinemas e cafés). Assista ao vídeo das motonetas no estacionamento, ao som da minha banda W.A.C.K. (Skin Ska Reggae):


Lá em cima o Julião discotecava “inconsciente" seu velho punk rock, enquanto o Pastifício Primo servia saborosas porções de nhoque com molho e parmesão. Tudo da melhor qualidade e a um preço excelente e exclusivo para o evento. Ivan Bornes e Nivaldo trabalhavam a mil para servir aquele monte de barrigas d'água esfomeados. Fiquei de conseguir alguém para ajuda-los, e não consegui ali diante de mais mil detalhes. E mesmo atribulados foram primorosos. Destaque total para a performance dos caras. Aliás, vale comunicar e registrar aqui que ao final do almoço, Ivan, proprietário da rede Pastifício Primo, me entregou um pacote e disse: “metade do que vendemos hoje estamos doando para a Scooteria Paulista”. Ou seja, mais de 600 Reais para essa sociedade dois-tempista sem fins lucrativos. Existem níveis diferentes de se apoiar uma causa, o do Primo conosco é de nível “hard”, e fazem porque acreditam na gente, acreditam nos movimentos culturais, conhecem as ruas, amam as motonetas clássicas, a cultura italiana, e são verdadeiros em tudo o que fazem. O Pastifício Primo completa cinco anos nesse sábado, e vai ter piquenique na praça, cheque o site e participe. Falaremos mais deles no decorrer dos dias, e dos anos.

Pastifício Primo

E a festa seguia recebendo mais e mais amigos, a pé ou com seus diversos veículos. No miolo da tarde sobe no palco o conjunto de ska/reggae Marzela, com nosso amigo da casa Rodrigo Sonnesso no contra-baixo. Junto com os caras a Crasso Records em três câmeras registrava tudo para o futuro vídeo-clip da banda. (Diga-se de passagem que esse material volta para o nosso acervo). Um baita show, cheio de energia, surpreendendo muita gente. Não nos aguentamos, o Animal Taylor e eu, tocamos o puteiro e aceleramos as nossas Vespas lá dentro, e a turma rachava o bico. Aliás, diga-se de passagem, alguém aqui já apostou corrida de Vespa no terceiro andar de um prédio? Pois rolou...



Na sequência entrou o Modulares, o único conjunto Punk Mod que reconheço em toda a América Latina. São performáticos, expressam a urgência da cidade, a raiva contida no jovem. Duas guitarras se duelam enquanto o Barbosa chuta tudo na bateria. E o Gabriel na ponta dos dedos dava o ingrediente final para o dançante baile dois-tempista.  Dado momento Jun Santos me chama pra cantar o tema “Na Contramão”, e cantei, do jeito que eu vivo: “Muitos se incomodam por eu ser assim / Não adianta colocarem a culpa em mim / O problema não é meu, eu não estou nem aí / Esse mundo ao meu redor é que não é tão bom assim!!!”. Acabou a música não me aguentei, chamei o Animal Taylor, pegamos nossas Vespas e esfumaçamos o fim do show, acelerando “até abrir o retentor”. Que dia!!!


Nas pick-ups Everton Mendes revelava para a categoria uma outra subcultura de muito apreço para nós: o chamado "espírito de 69". São as referências da música jamaicana que ao chegarem na Inglaterra na segunda metade dos anos 60 deu origem ao estilo e movimento Skinhead – sim, esqueça o que você (não) sabe sobre esse crucificado estilo de vida. Também não vou ficar explicando isso aqui. E todos dançavam no ritmo da Northern Soul e da Rocksteady Music, coroando o evento do jeito que gostamos de fazer. Mais tarde Rubinho Peterlongo tirou os discos da sacola e fez do fim de tarde um ambiente onírico, numa trilha sonora nunca antes ouvida, trazida de suas viagens para lugares estranhos. Sei lá, muito free jazz com efeitos e instrumentos inusitados, que ia do fuzz ao xilofone.
E a noite caía na Avenida São João. Aos poucos a casa esvaziava, os resistentes se embriagavam, o volume aumentava, e a festa prosseguia. Era meia-noite e não queríamos ir embora, estávamos em 20 ou mais. 

Enfim, do mesmo jeito que queríamos viver esse dia de São Anivespaulo eternamente, minha compulsão é ficar aqui escrevendo cada detalhe e sentimento vivo nessa comunhão. Mas é isso, foi isso, ficamos por aqui. Não sem antes agradecer e deixar registrado a importância dessas instituições nos bastidores desse VII São Anivespaulo: PASTIFÍCIO PRIMO, TRACKERS, FREE WILLY MOTO PEÇAS, EMPÓRIO MOTONETA, CRASSO RECORDS, MDZ TATTOO BOOKS e EDIFÍCIO MARTINELLI. Um enorme abraço a todos os participantes desse que foi o melhor encontro em giro já organizado por nós, a Scooteria Paulista. Peço desculpas pelos esquecimentos nesse relato. Darei um acabamento nisso nas próximas horas ou dias. 

Aos participantes que queiram se tornar membros da SP, chegue mais perto, fale conosco, a gente não morde. Basta ser honesto e ter respeito pela casa. Nós somos aqueles por quem sempre esperamos. Com muito orgulho e emoção, o nosso muito obrigado.


Membros da SP presentes nesse dia: Marcio Fidelis, Leonardo Russo, Gustavo Delacorte, Everton Mendes, Fernanda Borges, Artur Biscaia, Raphael Favero, Rodrigo Sonnesso, Guilherme Rocha, Vitor Hugo, Rafael Assef, Luis "Koré", Sergio Andrade, Adriano Stofaleti, Rosa Freitag, Reginaldo Silva, Diogo Reis, Daniel Turiani Taino, Afonso Antunes, Luciana Silva, João Macruz, Laercio Rodrigues, Gabriel "Vesparock", Marcelo Santana, Hernán Rebalderia, Fabio "Much", Emerson Mestrinelli, Guilherme Castrezana, Aurélio Martimbianco, Edelcio Pasqualin .

Fotos: Maurício Constantino (P e B), Dário Oliveira (com marca d'água), Davilym Dourado (indoor foto e vídeo) e "Instagramers" com a tag #scooteriapaulista

3 comentários:

Anônimo disse...

Orgulho TOTAL!
Parabéns!

Anônimo disse...

Passei lá na trakers a tarde rapidinho mas não deu pra ficar. vi uma lambretta amarela estilo rocker do jeito que eu queria pintar a minha. Agora vou ter que fazer diferente. Ei Scooteria, vocês estão de parabéns pelo AniVesPaulo, estava muito show. Nunca vi tantas motonetas ao vivo.

PJ LAMMY

Anônimo disse...

Brother, foi realmente um dia muito especial. Mas descobri agora que não faço parte da Scooteria! Instruções no meu inbox pelo Facebook, my friend!

Abração e parabéns. Você não é fraco, não. Ao contrário, e é um orgulho ser seu amigo.

Flavio Gomes