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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

VESPARICANA E A SP (Alemanha / 3 Américas)

A bordo de uma P125, a mais baixa cilindrada já vista rodando as Américas a que se tem notícia, o alemão Alexander Eischeid viaja o continente de ponta a ponta. Seu projeto, batizado de Vesparicana, consiste em percorrer por solo do Alasca à Patagônica. Até o momento já foram 56 mil kms em um ano e meio de estradas. Falta pouco: mais três países e pronto. Só que não será tão fácil assim, tem mais 18 mil kms de chão até o dia 13 de março, quando embarcará de Buenos Aires para Körl, cidade-natal. Nesses quase cinco anos de Scooteria recebemos dezenas de viajantes da América e da Europa, e todos eles carregam algum estilo na moto, e Alex não foge à regra, e seu avatar era dos mais curiosos: uma legítima motoneta dos "Correos" da Espanha. Contaremos aqui um pouco sobre a passagem desse mensageiro da Alemanha.
(Parte 01, São Paulo e ABC, por Marcio Fidelis)


Terça-feira de 25 de novembro e eis que chega em nossa Sede o nobre aventureiro. Esperávamos por ele, e ele por nós. Aden Lamounier lembrará dessa por muito tempo, a surpresa de ouvir isso no primeiro brinde com Alexander: "no México os vespistas falavam que se viesse ao Brasil procurasse a Scooteria, na Colômbia, no Equador, no Perú... então decidi vir conhecer vocês", contou pra gente entre umas cervejas e outras das suas primeiras horas de Mooca. Tão logo provou da caipirinha no "bar da Ju-Juvem" na Rua Javari. Ébrios cambaleamos na chuva até a Sede, cantando alto qualquer Frank Sinatra pisando nas poças do caminho, rolando na correnteza beirando a descida da Madre de Deus. Praticamente dormiu molhado. (Ouvi algo a respeito das suas capacidades etílicas lá em Medellín, por isso então o colocaremos à teste daqui em diante).

Quarta-feira, 26 de novembro. Alex dormiu muito, acordou, comeu, dormiu de novo. Estava fadigado. Durante a tarde o levei à Scooterboys, oficina de customização do Marcelo China, na Mooca. Tarde de cerveja e Yalisoba, comandado pela chef Leika Morishita. Alex ficou embasbacado com a personalidade que transpira nas paredes daquele espaço, um lado obscuro do scooterismo clássico, extensão dos anos 80 britânico, que revivalizava a sua essência, a explosão juvenil e o modernismo dos anos 60.

Quinta-feira, 27 de novembro. Estava tudo combinado para uma concentração de boas-vindas na nossa Sede às 18h. Abrimos a primeira das muitas latas da noite, e recebemos os primeiros visitantes. Veio a Rosa Freitag, trazendo o Nuno e companhia. Veio o André Lopes, o Gabriel, o Favero, Assef, Muchiba, Leo Russo, Diego Pontes e Cintia, Daniel Turiani, eu e Debbie, Aden e mais amigos que agora me foge da memória. Delacorte subiu de Santos especialmente para trazer os cumprimentos ao errante. Alex distribuiu adesivos a todos, e me presenteou com um kit de ganchos para adaptar pneus comuns às estradas de terra (off-roads). Mais tarde me daria também seu par de rodas. Ele vinha preparado para tudo, era o viajante com mais peso e bagagem de todos os que já passaram por aqui. Racional e louco, numa só cabeça.

Sexta-feira, 28 de novembro. Mais um dia de ressaca, seguida de outra e de outra. Tão logo o alemão compreenderia que de caneco éramos tão capazes quanto os seus. Alex precisava trocar a tela do notebook, e dar um rolê na cidade, claro; então lá fomos, em duas Vespas ao centro velho. Em uma hora seu computador estaria em ordem, o que o deixou embasbacado, pois na Alemanha esse tipo de serviço em eletrônica levaria dias e custaria muito mais. Passeamos pelo centro, a pé e em Dois Tempos, também pela Estação da Luz e seu Parque defronte; jantamos no Mercado Municipal (sanduíche de mortadela e pastel de bacalhau), e encaramos a "hora do rush" paulistana de sexta-feira. Nessa noite o nosso amigo recobraria seus escritos de viagem, atrasados desde que seu computador quebrara, no Chile.

Sábado, 29 de novembro. A convite do Deni Roque partimos para São Caetano do Sul assistir à palestra do Finho, vocal/guitarra da lendária banda 365 ("sem São Paulo o meu dono é a solidão"), na tradicionalíssima Rick and Roll Discos (since 1987). Aden foi conosco. Lá estava o Much, Favero, Diego e Deni (com família) em suas PX. Dia esse que renderia histórias e lorotas pra vovó. Antes de escurecer tocamos todos para Santo André tomar umas e outras ao som de Jimmy Cliff na Juke Box do Bar do Ceará. (Horas depois Diego e Cintia guiaram o visitante cansado para a Sede).


Domingo, 30 de novembro. Alexander Eischeid havia me contado que era carpinteiro e trabalhava com grandes estruturas. Coincidências da vida, pedi para que ele me ajudasse no projeto da cobertura extra no quintal da nossa Sede, desenhando a estrutura e o que fosse preciso para um leigo feito eu. Com as ferramentas na mala e o conhecimento na mente, ele não só explanou sobre o projeto como começou a trabalhar ali mesmo. Aos goles no tereré paraguaio preparamos as madeiras, o corte, as medidas, e depois que o Diego e o Everton trouxeram a furadeira, botamos tudo de pé. Mais ele do que qualquer um de nós fizemos ou faríamos. Passamos seis horas de trabalho intenso. Depois de findado o primeiro passo, saímos para um rango, nas entranhas da zona leste: a Fogazza do Sr.Zé, no bairro da Água Rasa. O lugar é parecido com aqueles quiosques argentinos: uma porta estreita e dentro a família preparando as massas e servindo os petiscos nas mesas distribuídas pela calçada. Nos sentamos do outro lado, beirando a movimentada avenida Salim Farah Maluf, encostado em nossas Vespas, brindando diante de uma inimitável porção de berinjela apimentada. Alex achava tudo ali muito lúdico, inédito. Ele gostava disso, da simplicidade das coisas, da vida pelo lado popular e espontâneo. Contaria do seu sonho literário, da carpintaria, do noivado, das viagens em Vespa pela Europa, da sua família, das estradas da América. Que dia!!

Segunda-feira, 01 de dezembro. Comprei as telhas, parafusos e itens mais, e a tarde trabalhamos duro na montagem do telhado: Aden, Alexander e eu. O gringo por duas vezes chegou a cair do alto e quebrar as telhas, mas como um ninja nato se salvou se pendurando como um pêndulo entre os sarrafos já fixados, o Bruce Lee alemão. E a poucos minutos antes de cair a tempestade o nobre carpinteiro findou o projeto. Nesse meio tempo eu pintava o madeirado. Estávamos orgulhosos, e se tivéssemos mais dias e dinheiro, faríamos uma casa inteira de madeira. Passada a chuva caiu a noite, e vieram alguns amigos: Koré, China, Oliver e Andrea. Noite de seresta, pizza e breja.

Terça-feira, 02 de dezembro. Depois de uma semana conosco o nosso amigo nos deixaria para conhecer o Cristo Redentor. Bem cedo o acompanhei até a Rodovia Presidente Dutra, aonde nos despedimos com emoção contida. Todas as vezes que recebemos um aventureiro com sua motoneta me sinto gratificado. Quase sempre eles - e nós, pois também somos aventureiros sem fronteiras - chegam fadigados, sem grana, necessitando de coisas mil; e fazemos o máximo para ajudá-los. Mas esse cara nos surpreendeu, veio como um mensageiro do "faça você mesmo"; deixando-nos o legado de uma obra incrível, expandindo nossos horizontes e enchendo a nossa bola. Determinado, engatou a primeira e sumiu para o Rio, com a promessa de visitar os nossos em Santos...

(Parte 2, Santos e Mairiporã, por Delacorte)

Sábado, 06 de dezembro. Pontualidade é uma características dos viajantes. O Alex não é diferente. No dia anterior ele avisou que se conseguisse chegar no sábado seria por volta das 18h, e chegou mesmo. Logo nos cumprimentamos e seguimos para o hostel onde ele ficou hospedado. Celebramos a chegada com cerveja e depois bebemos mais algumas em um posto de gasolina, onde encontramos o vespeiro Sam, antes dele voltar ao hostel para descansar.



Domingo, 07 de dezembro. Acordamos um pouco tarde, por volta das 9h00. Na noite anterior combinamos de ir até o restaurante Velhão, em Mairiporã, onde aconteceria o almoço de confraternização de fim de ano da loja Free Willy. Alex queria rever os amigos que fez em seus dias pela Mooca e se despedir da turma. Saímos de Santos as 11h30 com o tempo meio nublado. Na subida da Imigrantes pegamos a comum neblina. Na chegada ao planalto o céu se abriu para a nossa felicidade. Alex vibrou com a maneira como o tempo virou para um dia lindo de céu azul. Aproveitamos bem o Velhão com sua incrível variedade de ambientes, comidas e bebidas juntos da turma, e por volta das 17h decidimos voltar com medo que a ameça de chuva das nuvens no céu se tornasse realidade e complicasse a nossa volta para o litoral. Felizmente a chuva não veio e chegamos em Santos antes do sol se por. Depois, nosso amigo viajante descansou até o dia seguinte.


Segunda-feira, 08 de dezembro. Dia de trabalho. Alex foi guiado por seu GPS até o Empório Motoneta, onde demos uma geral  e um banho na PX viajante. Mais tarde nos encontramos novamente, para uma volta pela cidade e depois umas cervejas. Fizemos um giro pelo centro velho, porto e orla da praia, onde paramos para comer o famoso sanduíche do Zelito, tomar algumas cervejas e prosear (observações de Alex sobre o Brasil até aquele momento). Do pior, ele ficou de bobeira com a péssima qualidade da nossa gasolina, de termos que pagar mais caro por uma gasolina um pouco melhor, que ainda assim é pior que todas vendidas pela Europa, e o quanto a gasolina brasileira faz mal para nossas vespas. Do melhor, a hospitalidade brasileira e a imensidão do nosso país ganharam o coração germânico. Entre Europa e América, Alex foi direto: "a América, com certeza, por toda a simplicidade e pelo calor humano que os países exalam". Depois dos sanduíches e da prosa fomos para a saideira no posto de gasolina e encerramos a noite.


Terça-feira, 09 de dezembro. Fui até o hostel deixar algumas de suas bagagens que ficaram em minha casa por questão de espaço e nos despedimos enquanto Alex carregava a sua vespa viajante para seguir em diante. Dei as coordenadas a ele para que seguisse rumo a Curitiba. De todos os viajantes que conheci, foi a vespa mais carregada que vi.

Alexander Eisheidt é um europeu incomum. Motivado por questões subjetivas se revelou uma espécie de beatnik dois-tempista, apesar de toda uma boa criação e prosperidade profissional. Foram dez dias conosco, o que nos encheu de satisfação, pelo visto, recíproca, traduzida no seu relato sobre nós: http://vesparicana.jimdo.com/deutsch/süd-amerika/52-mods-und-skins/

Thanx bro'. See ya, you know where.

Um comentário:

Anônimo disse...

Outro loco da cabeça

PJ Lammy