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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

LOCÔMBIA: DUAS SEMANAS DE COLÔMBIA (Parte 03 de 03)

Foram 14 dias entre Bogotá, Medellín, El Carmen de Viboral, Bello, Rionegro e outros povoados. 1200 kms rodados com La Pelada, a Vespa PX150 cedida por uma das pessoas mais ativas e contagiantes da cena old scooter da América do Sul: Maryzabel Cárdenas (Vespa Club Bogotá / Mi Corazón Late en 2T). Contei de Bogotá, contei do departamento de Antioquia. Agora, encerrando o assunto, volto pra capital, quando assino contrato com a seleção dois-tempista da Colômbia.


Domingo, 14 de Setembro. Acordamos as 5h, Juan Montoya e eu, na Cabañas Hotel, uma pousada na mata que circunda o vilarejo de Rio Claro, pertencente ao município de San Luis, Departamento de Antioquia. Sem delongas ligamos as Vespas e partimos; teríamos 320 kms pela frente ainda, sete horas. Seguimos concentrados apesar do sono. Não sei se acontece com todos, mas comigo é chapante, eu sonho acordado, interajo na vida real ouvindo vozes das últimas pessoas que estiveram comigo, dos meus pais, e dos caras do meu clube por exemplo. (É muito louco isso). Em meia hora passávamos pela Hacienda Nápoles, e na sequência pelo largo Rio Magdalena. Valia uma foto, mas com sono e sem tempo, nem cogitamos parar. Cortamos Palonegro e saímos na encruzilhada de acesso à Ruta 45. O povo acordava cedo e abria as janelas. Em Antioquia há muita vida, água, vento, bichos, verde, gente. 

Já na região de La Dorada, no Departamento de Caldas, paramos para um café a beira-pista. Por todo lado se ouvia os caminhões, um motor ligando, algum passando, porta batendo, fotos numa parede. Caminhoneiro acorda com o galo em qualquer lugar, e trabalha de domingo em qualquer país. Foram três rodadas de café com o pão de ontem. Ali rolou uma coisa chata. Ao contrário de tudo o que vivi e descrevi, naquele café me "passaram o chapéu". Por toda a viagem eu confundia a nota de 2.000 Pesos com a de 20.000. Para mim eram parecidas. Ao pagar a conta me pareceu que a atendente do caixa estava sendo censurada pela que me atendeu por me cobrar o triplo. Era como que 3,50. Paguei, peguei o troco, e saímos. Só quando paramos para abastecer, nas redondezas de Honda, que me dei conta do prejuízo. Enganado, eu havia pago com a nota maior, e ela me devolveria o troco errado, se fazendo de desentendida para um desenganado. Ingenuidade a minha. Com a grana que tínhamos não chegaríamos. Recorremos aos cartões-postais. Fomos implacáveis, Juan sabia como abordar as pessoas. Eu aprendia e dava o meu tom. Uma coisa é certa, e isso é sério: é mais fácil vender postais de uma aventura vespista num posto de combustível para estranhos do que num encontro de Vespas. É claro que a situação muda, num encontro você não aborda as pessoas da mesma forma, você joga um pano no chão ou abre uma mesa e espera que elas valorizem aquilo que você fez e para onde você foi. Chegamos à essa conclusão ali no posto, em vinte minutos estávamos com os tanques cheios, 14 litros para duas. O litro vale como que 2.20 Reais. Que viagem! Rolava uma dinâmica. A noite no hotel Juan me perguntava se eu preferia puxar o ritmo ou ser o ferrolho nas viagens. Eu me adapto, não me importo. A ida foi como "12 Horas de Resistência", com direito a acidente na prova. Já a volta estava divertida, tinha um quê de dever cumprido, de soldados voltando pra casa. Ainda assim haviam cachorros, no acostamento, no mato. Juan se mijava de rir, depois daquele primeiro, todos os cachorro pareciam ter combinado de saírem junto para a estrada. A ironia da espécie na "Ruta de los Perros".

Fidelis, Montoya, Cristian e Karolina

Essa última, a Ruta 50 foi a mais desafiante das quatro que percorremos. Engolindo fumaça e ultrapassando caminhões no aperto, é onde os fracos não têm vez. Falei da pista estreita, do meio-acostamento, dos vai-e-vem de motoristas alucinados. Falei dos cachorros, dos buracos, e do meu motor travando (e ele ameaçaria mais um pouco na volta). Surpresa de verdade, e para a noooooossa alegria, aconteceria ali naquela pista, ali no asfalto. Creio que foi na região de Guaduas, ou talvez em La Vega. Na mão contrária passava um casal numa Vespa nova de cor marrom metalizado, era uma Primavera 150. Depois de alguns segundos me caiu a ficha, olhei pra trás e eram eles: Cristian Ocampo e Karolina Quintero. Foi uma festa incrível, e encontrá-los na estrada, ao acaso, tornava essa viagem completa. Como já escrevi aqui, dcumplicidade com que a vida me conectava às certas coisas que beiram o absurdo do improviso, nunca uma viagem é só uma viagem. Eles voltavam de Bogotá para Manizales com a mais nova aquisição da Karol (pegou zero). Era um dia completamente especial para todos nós. Ela é super entusiasmada, sorri, faz festa, dá abraço, demonstra. Cristian é calmo, observador e com ganas de produzir. Que combinação essa a dos dois!?!?!?! Eles são de Manizales, que fica no departamento de Caldas, a 310 kms da capital, cidade em que nasceu e viveu o aventureiro John Silva - hoje no Equador - e que sediou Encuentro Nacional de 2013 pelas mãos do grupo Motonetas Manizales. O casal comprou Motorinos, postais do Montoya, e trocamos regalos. Foi fantástico encontrá-los, fazíamos planos mas não deu certo, e quando não combinamos, acertamos. Nos despedimos debaixo daquele sol pesado e tocamos por mais duas horas no meio dos caminhões, cortando a ventania. Resumindo, chegamos em casa quase as 14h. E inacreditavelmente tudo funcionava.

Mayra Garcia
La Candelária













Foi tempo para um banho e qualquer coisa goela adentro. Da Calle 63 tocamos para a Carrera 13, aonde começava, as 15h, o BOGOTÁ SCOOTERFEST 2014. A equipe dos clubes havia preparado tudo: cartazes, stickers, decoração, stands, pick-ups, brindes, subido motonetas pelas escadas, divulgado o evento em corrente, marcado presença em peso. (Eles tinham parte com o Rei Midas, já falei quase isso). Mais de 50 motonetas passariam pela festa, a maioria associados ou envolvidos com o Vespa Club Bogotá, Moonstomp Riders, MottoretosVespañeee ClubMi Corazón Late en 2T, Vespa Club Medellin, e a SCOOTERIA PAULISTA . Ali se concentrava muita energia, e pessoas com capacidades que talvez até desconheçam.

Moonstomp Riders
Plaza Chorro Quevedo

Segunda-feira, 15 de Setembro. Pulei cedo e Bogotá trabalhava. Carros, ambulâncias e motocicletas se acotovelando, camelôs e transeuntes se atropelando, táxis parando por toda a parte, fumaça. E o Monserrate bem alto para a cidade toda admirar. Os ares eram de despedida. As 13h30 desci a pé ao apartamento de Laura Pérez, aonde Leonardo Castañeda me esperava para tatuar um desenho de sua autoria: um vespista colombiano ao estilo old school. Um presente e tanto, para a vida. Leonardo tem uma Vespa 150 Super na estica inglesa, tem 22 anos, é tatuador profissional a dois, e membro do Moonstomp Riders. Recentemente pegou o primeiro lugar numa das categorias da Primera convención Expo Tattoo Internacional de San Cristobal, Venezuela. A noite Mayra e eu saímos para um giro pelo centro histórico, com parada na Bogotá Beer Company e um giro noturno pelas ruas desertas da Candelária. Havia ali um pedaço do bairro vigiado pelo exército, preservando a história daquelas fachadas e monumentos de séculos. Foi uma noite divertida. Mayra é reservada, vespista do dia-a-dia, cheia de impulso para o mundo, de uma boa prosa, uma pessoa a se confiar. Essa foi a minha última visita ao centrinho. Dormia com tais lembranças, dos tantos amigos que estiveram comigo por lá, da grande invasão do Bogotá Scooterfest na Chorro Quevedo, do ska que quase virou confusão, da boemia, dos artigos, cafés, das motonetas.

Mottoretos Bogotá D.C.
Terça-feira, 16 de Setembro. Maryzabel havia marcado um giro para a minha despedida. Antes dele, as 17h fui com Mayra conhecer a Universidad Nacional de Colômbia, no bairro Nicolás de Federman. Um grande centro científico público, com muito verde e estudantes politizados. Pelas paredes as marcas de revoltas e lutas ideológicas fazendo referência às FARC, ao Sionismo, ao Comunismo, à Che. Mayra contava do seu pai e da vida acadêmica, também das vezes que a tensão se instalou naquele lugar quando a polícia fazia a varredura. Estudantes desapareciam. Detalhe: a Colômbia nunca teve uma ditadura reconhecida. E foi lá em Bogotá que pela primeira vez senti saudades do meu tempo de estudante, e pensar que chegaria o dia em que eu diria "no meu tempo".

E passamos mais uma noite nas alturas de Bogotá, dessa vez no Mirador de la Calera: Mayra, Mary, Montoya, Carlótica, Daniel, Jhon, Andy, Laura, Camilo, Hernan, Tavo, Juan, Daniel, Oscar, Andres, Steven, Bovver, Carol, eu. Que vista. Era para coroar a viagem, pois faltava-me conhecer esse lado. Da lanchonete a gente via as motonetas na luz do poste, e a cidade lá embaixo, diante dos meus olhos molhados. As dedicatórias, os presentes, as ruas, os amigos, as motonetas e seus 150cc inquietos, a centro da cidade, Antioquia, os clubes e giros, La Pelada. Cada disso me marcava para a vida. Como se eu já fizesse parte daquilo tudo, preferia não me despedir demais. Descemos na base da diversão, do jeito que o Animal Taylor gosta de fazer em rodovias litorâneas...

Andy, Daniel, Mary, Andres, Hernan, Juan, Tavo, Camilo, Juan, Alape,Mayra, Yo
A meia-noite Montoya e eu deixamos as Vespas na garagem e subimos naquele bar rockeiro da Plaza Lourdes. Chapamos um pouco, e pude ter com ele a conversa que queríamos. Durante a viagem sentia Juan apreensivo com os mil atrasos do projeto Asfalto rumo ao México. Queria ir, não tinha grana. Conversamos disso, eu me colocava na situação dele a toda hora Talvez no bar ele tenha deixado um fardo moral que carregava a um tempo. Juan precisa escrever um livro, e nós podemos ajudá-lo, simples assim. Sua viagem pela América do Sul além de motivadora para quem o conheceu, foi contemplada com acontecimentos incríveis e hoje é contada com a habilidade de um geminiano paisa. Sua Vespa por exemplo, no fim da viagem, chegou em Bogotá transportada por um avião de pescados. Já ele, num outro com mais 80 soldados. Mas só ele consegue contar com vida, ele viveu.

Quarta-feira, 17 de Setembro. E o fim chegaria, e de ressaca, claro. No começo da tarde saí com Mayra para um giro e almoço na La Macarena; paramos num restaurante todo lúdico, como que feito para crianças, havia mais de dois mil brinquedos antigos decorando o espaço, e esse simpático cantinho do bairro se chama La Juguetería. Os garçons se vestiam como figurantes de programa infantil, tinha brinquedos dos anos 40 aos 80, norte-americanos, mexicanos, soviéticos e regionais. Recomendável em todos os aspectos. Comi um churrasco típico com batata assada, e claro, aquela arepa. A gente gostava de conversar, ela é racional e eu um irracional. Nossas vidas eram assunto. Depois passamos na casa de Camilo Bermùdez para levar-lhe os materiais culturais do Brasil e trocar umas ideias. Camilo é caprichoso e suas motonetas funcionam e são para estradas; ele é restaurador, revendedor de vestuário ingleses e acessórios italianos (pela Vespaccessorios Bogotá), além de baterista da banda de street-punk-oi Urban Noise. Ele me presentou com algumas polos da Fred Perry e Ben Shermann, favoritas do meu pequeno guarda-roupas. Que chevere!!


Camilo Bermùdez
Leonardo Castañeda














As 17h Maryzabel e Juan Montoya passaram no apartamento para me conduzirem até o Aerouperto Eldorado. Em três Vespas tocamos pelo trânsito sem fim nem trégua. Mary pilota muito, tem braço, e levou os 81 quilos de Brasil na garupa com facilidade. Difícil despedida, ligeira e sem muito drama pra não parecer eterna. Essas três pessoas foram decisivas para toda essa viagem. Montoya por nossa amizade, viagens, ideias, um cara que eu tenho como irmão de óleo. Assim como a Maryzabel, por reconhecer nela o espírito agregador e apaixonado nas questões (vejam bem) dois-tempistas latino-americanas. E a Mayra, a garota que me deu aquele empurrão para estar lá - isso é muito sagitariano: "vamos? você precisa conhecer lá". Enquanto tomava minhas últimas Pokers no aeroporto compreendia que alguma coisa tinha feito todo o sentido do mundo nessa viagem. Hoje eu sei que ela me tornou um cara melhor, de alguma maneira que vou entender quando acabar esses relatos. As coisas deram certo, tudo se conectou, vivi muito bem, estive com os melhores, deixei alguma mensagem subliminar, e ficamos nisso. E nessas de viver em 2 Tempos pra cá e pra lá, conhecer aqueles que vão ser seus melhores amigos ou não, pode estar aí o grande barato da Vespa para mim. Elevado ao universo, se hoje eu comparasse o perfil da Scooteria Paulista com a cena dois-tempista de algum país da América Latina, eu poderia passar horas tentando te explicar porque hoje somos os mais colombianos dos clubes. Fabio Much talvez diria o mesmo, ele que esteve na Argentina por duas vezes, no Paraguay e agora na Colômbia.

Bem, amiguinhos, essa foi mais uma empreitada minha e do meu irmão de óleo Fabio Much, grande parceiro de clube, de breja, de ruas e viagens. Foi um prazer compartilhar com o leitor um pouco dessas experiências, e sentir o feedback desses relatos pelas redes sociais. Parte da minha parte na viagem foi custeada pelo próprio Almanaque Motorino #4. E pelo apoio, confiança e bom-gosto eu agradeço a essas marcas que anunciaram nessa edição de capa branca, tornando-se parte dessa história narrada aqui: Free Willy Moto Peças (São Paulo), Pastifício Primo (São Paulo/Sorocaba), Mi Corazón Late en 2T (Colômbia), Empório Motoneta (Santos), The Firm Records (ABC), Ordinary Recordings (São Paulo), Sergio Andrade Fotografia (São Paulo), Soul Suor e Sacanagem (São Paulo), Luis das Vespas (Santos), Trece Shop (São Paulo), Crasso Records (São Paulo), Marzela (São Paulo), W.A.C.K. (ABC), Piazza Zini (S.Paulo), Clausen Aromas e Perfumes (S.Paulo), Zini Alimentos, (S.Paulo), Barra Forte Racing Team (São Paulo), projeto Asfalto (Colômbia) e Vespa Club Bogotá (Colômbia). 

Me disseram que havia uma propaganda (??) por lá que dizia que a Colômbia era perigosa. E hoje, mais do que nunca, eu concordo! De fato, a gente corre muito perigo de acabar ficando por lá para sempre. Um dia eu volto, e que esse dia não demore. A todos os colombianos que conheci em dois-tempos, o meu afeto e mais sinceros sentimentos.

"So remember, out there somewhere you've got a friend, and you'll never walk alone again"
 From São Paulo with love.

Relato por Marcio Fidelis

Um comentário:

bernardo disse...

meu irmão já foi pra colombia, e ele fala que é um otimo pais pra se morar.