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sábado, 4 de outubro de 2014

LOCÔMBIA: DUAS SEMANAS DE COLÔMBIA (Parte 02 de 03)

Foram 14 dias entre Bogotá, Medellín, El Carmen de Viboral, Bello, Rionegro e outros povoados. 1200 kms rodados com La Pelada, a Vespa PX150 cedida por uma das pessoas mais ativas e contagiantes da cena old scooter da América do Sul: Maryzabel Cárdenas (Vespa Club Bogotá / Mi Corazón Late en 2T). Na primeira parte desse relato contei da capital e sua admirável cena dois-tempista. Agora vem o lado B, vivido no departamento de Antioquia, quando enterro meu coração na Colômbia.


Terça-feira, 09 de Setembro. Despertamos antes do sol, era a primeira noite da lua cheia. Acho que vê-la horas antes tão bem pintada no buraco de uma nuvem me fez dormir pensando demais. Juan Montoya e eu teríamos uma cruzada de doze horas até as redondezas de Medellín - 450 kms. Ele falava com orgulho dos paisas, os oriundos do departamento de Antioquia. Falava do estilo de vida, do calor, das festas, da natureza, das motonetas, antigos amigos. Na saída da cidade paramos para abastecer e consertar o manete da embreagem da La Pelada. Entrei numa borracharia procurando por uma porca de 7 polegadas e me deparei com uma visão horripilante. Saiu uma mulher de uns trinta e poucos anos, de estatura baixa, pele vermelha, indígena. Notei no dorso da sua mão duas pequenas tatuagens grossas e desbotadas; cheguei mais perto quando pude, e para meu espanto havia ali no coro cravados uma Suástica nazista e a Sigma integralista. Eu me perguntava por que catzo aquilo? Talvez um dia ela tivesse sido violentada por neo-nazis? Ou vítima de algum tatuador ignorante, e da própria ignorância? Ela tinha algo de cansada, ombros altos que formava uma corcunda e escondia o seu pescoço, olhar caído ao chão, mãos grossas e marcadas do trabalho bruto. Seria irônico se não fosse trágico.

Já saindo de Bogotá, lá estava o sol, como se esperasse do lado de fora da cidade. Era 8h30, fazia calor. Juan disparava na frente, ele conhecia bem aquela pista, era a sua décima quarta viagem pela Ruta Medellín-Bogotá. Eu sentia alguma insegurança pairando, algo diferente no "manejar da carruagem", e me demorei para lembrar do dado geográfico: estávamos a 2500 metros acima do nível do mar. Talvez isso justifique o acidente que sofri na hora seguinte. Foi numa curva cega, estreita, cercada por enormes rochedos, descida. De repente um cachorro atravessou a pista, tranquilamente, como se fosse hábito. Pisei no freio e gritei pro animal, ele deu ré assustado e eu caí. A roda traseira derrapou para um lado e para o outro quatro vezes. A queda era inevitável, eu até poderia controlar a moto se fosse em linha reta, mas acertaria em cheio alguém na mão contrária. Tinha que manter a trajetória arqueada e garantir o menor dos estragos. Ai como dói. A Vespa tombou para a esquerda e eu voei por cima do guidão. Foi sapato para um lado, celular para o outro, e eu feito um saco de batatas caindo da Kombi a caminho da feira. Deitado no acostamento mexi a cabeça e vi La Pelada sobre uma poça de gasolina. Motoristas paravam. Alguém sacou o telefone e pediu uma ambulância; foi quando dei falta do celular. Na base do saci fui pulando e recolhendo os cacos do asfalto; ergui a Vespa e me deitei outra vez. Apesar da dor, sentia alívio. Tive sorte. Ralei as mãos e a perna, nada mais. Estava de jeans e jaqueta Bomber. La Pelada era toda escovada, Rat, e com pouco ela voltaria ao estado no qual a peguei. Toquei adiante, e nada de Juan. Numa das barreiras de obras da pista, um funcionário ao me ver machucado, veio ao meu apoio, trazendo anti-sépticos e curativos. Cordialidades comum a brasileiros e colombianos que me fazia sentir em casa.

Máquinas: de rodar e de lavar
Curativos na pista













Cinco quilômetros adiante encontro Montoya voltando. O painel da La Pelada estava solto e o cabo da embreagem arrebentaria na hora seguinte. Num vilarejo qualquer consegui um par de elástico e amarrei o painel no guidão. Era 11h, o mormaço baixava no asfalto, a dor e a tensão transformava aquela viagem numa prova estilo "12 Horas de Resistência", mas sem revezamento de pilotos. Tomamos um café em Guaduas e abastecemos em Honda. A tocada seguia forte, no ritmo de Montoya. Quando estourou a embreagem a coisa ficou tensa. Estávamos a meia hora de qualquer civilização. Ah se aquele motor travasse, seria de novo chão. Chegando em La Dorada (no departamento de Caldas) Juan foi comprar um cabo enquanto eu caçava um sinal de wi-fi para avisar Maryzabel do acontecido. "La Pelada es Rat! Cada golpe es una historia. Lo único importante es que ande para que sigas tu camino", ela respondeu, me enchendo de motivação. Juan trocou o cabo, eu paguei o almoço.

De barriga cheia naquele calor o sono descia igual pai-de-santo. As imagens da estrada se misturavam com algum sonho, e no capacete ouvia o barulho do motor misturado com vozes falando qualquer coisa em espanhol.  De La Dorada a La Florida o motor travou cinco vezes, mesmo com o autolub e a mistura de óleo no tanque. Como fazem os lambreteiros que vão pra longe, saquei a tampa do cofre (a saia direita), acomodei-a no assoalho junto da mochila, e "taquei-lhe pau".

Por Puerto Triunfo entrávamos finalmente no departamento de Antioquia, aonde nasceu, viveu, prosperou e morreu Pablo Escobar, o maior narcotraficante da história do país. Sua fazenda (Nápoles) hoje é um zoológico e museu, e na entrada o avião monomotor usado nas operações do Cartel de Medellin figura em exposição, o que me fez pensar no quanto a Colômbia parecia alimentar um sentimento contraditório por seu personagem. Por que preservar, e bem visível, esse avião? O que se quer comunicar com isso? Dali em diante eu perderia a conta de quantos Tuk-Tuks Bajaj cruzaria o nosso caminho. Só uma dúzia ali nas redondezas era da própria Hacienda Nápoles. Aliás, a história da Vespa na Colômbia também passa por Escobar, e muitos sustentam que seu dinheiro era lavado também na Itália, trazendo PX150 e outras especiarias. Lambrettista que foi, vai saber...

Na fazenda de Pablo Escobar
O final da rodovia era estreito e curvo, com caminhões indo e vindo às pressas, compensado pela natureza generosa, carregada de vida, de vento, de verde, de Vespas. Sim, já as via pelas ruas e garagens. Rionegro é um povoado à moda antiga, com suas casas de janelas grandes, postes baixos e pessoas felizes. Ela teve a sua importância na história do país; lá foi escrita a Constituição da independência. São cem mil habitantes, um deles é Juan Montoya.

El Carmen de Viboral fica a 15 kms de Rionegro. É a terra das porcelanas, cidade de artistas. Terça-feira a noite as pessoas vão para a praça central, na quarta, na quinta, todos os dias vão. Na rua de cima funciona a Sede do Parche Scooter Oriente, um bar de esquina, exclusivo, com capacidade para 40 pessoas em festa. Arley, Hugo e Free nos conduziram até lá. Sair, presidente-fundador, é cinco vezes mais entusiasmado do que a média da humanidade sobre a Terra, daqueles que procura te agradar, que puxa assunto, que faz de tudo para que seus amigos e visitas se sintam bem em comunhão. Eu precisava de um banho urgente, lavar os machucados, fazer a barba e melhorar minha cara de laranja ressecada. Foi uma água santa na casa da mãe de Sair. Quando voltei à Sede já havia ali vinte e tantas motonetas, uma mais linda que a outra. Reuniu-se o Parche Scooter Oriente e o Vespa Club Medellín, com seu presidente Jonny Garcia e a primeira dama Carolina, acompanhado do Mod Nacho Caleano, Wilsoooooon, Burro, Jaiber, Wil, Laura, Andrés Gonzales, Alejo, Estefania, Sebastian e companhia. Um encontro relâmpago, com quase cinquenta paisas, metade da cidade grande, metade dos povoados. Ali Nacho me presenteou com um par de botas para cavalete antigo, e um outro Juan, com o um pára-choques cromado de fabricação própria. Era uma nova Colômbia aquela. Tomávamos cerveja antes de conduzir, ouvíamos rock eclético e falávamos daquilo que nos unia: motonetas. Que chimba!! Lá dentro meia PX decorava o mezanino. O pessoal tinha preparado petiscos e hot-dogs. Sair me acompanhou a pé pela praça; as casas adornadas com porcelanas e pinturas davam um tom de cenário de novela de época. Juan Montoya me chamou para confidenciar algo. Perto dali estava bem guardada simplesmente aquela Vespa, a original, com a qual viajou pela América do Sul, a que conhecemos. Ele a reproduziu fielmente, guardando o chassis com adesivos e marcas da viagem que a eternizou. Ver aquilo me respondia alguma coisa. Dava todo um sentido para as escolhas de vários amigos meus; os anos passam e suas motonetas continuam sendo reconhecidas de longe. Sair também se orgulhava da sua, num branco perfeito, repletas de acessórios e kits da S.I.P. Scootershop. Corria muito, ninguém pegava. Vi na volta. Montoya, eu e Free dormiríamos no sítio do Daniel Zuluaga, um vespista diferente de todos os que já conheci. Ator de teatro, planta o que consome, aprendeu tudo de Vespa assistindo a tutoriais e ouvindo  dicas dos amigos. Jovem de 28 e membro do Parche Scooter Oriente, nos ofereceu um cigarro de ervas que havia plantado naquelas hortas. E esse dia interminável, de um sol escaldante, fechava as cortinas numa imensa lua amarela.

Parche Scooter Oriente - Chess, Fidelis, Sair, Fred, Juan e Daniel
Quarta-feira, 10 de Setembro. El Carmen de Viboral amanhecia ensolarada. Passamos um café e nos sentamos diante das vacas. Daniel contava da sua nova peça pelos teatros brasileiros. (São Paulo à confirmar). Depois de um banho gelado, tocamos para o município vizinho, San Antonio, aonde Juan fazia planos de visitar um amigo. Nessa tarde a equipe Mi Corazón Late en 2T, clubes e scooteristas cachacas anunciariam o Bogotá Scooterfest para domingo. De Medellin Jonny Garcia escrevia "Cómo así que Marcio Fidel ya está organizando eventos acá?", com direito a uma honrosa réplica de Maryzabel:  "El vino a hacer historia y a ponernos a trabajar... mientras viaja y disfruta en Medellín!"

Medellin
El Carmen de Viboral














Chegamos no pôr-do-sol da cidade grande. Pelo caminho muitas motonetas, a maioria desgastadas, de uso comum, desprovidas de qualquer senso scooterista nos seus proprietários. Eu achava o máximo! Definitivamente, Colômbia é um país dois-tempista. Descemos pela serra cortando uma favela. Em outros tempos ouvi sobre o perigo, traficantes violentos, bandoleiros em toda a parte. Não achei. Para mim aquelas "comunas" (favelas) tinham muita vida própria: homens voltando do trabalho, motociclistas sem capacetes, cheiro de janta, crianças brincando de pique-esconde, mulheres falando alto, Plus Bajaj vindo e indo. Inclusive no dia seguinte eu fotografaria um cara carregando uma máquina de lavar no garupa da motoneta. (Foto lá em cima do post).

No pé do morro, no bairro Villatina, chegávamos à Vespa Estazione, oficina de Andrés González. Lugar apertado, e infinito. Suas capacidades vão além do espaço. Foi de lá que Montoya saiu, também de onde saiu algum suporte à Elizabeth Benitez durante essa viagem pela América do Sul. Andrés González, el Apá - mais que um papá, por Juan - é um mecânico distinto, daqueles que parecem fazer pela causa, que querem ver os seus nas estradas. Um tipo amigo para sempre. Junto das cervejas chegavam os cicerones do Vespa Club Medellin: Jonny Garcia, Nacho Galeano, Silvio Andrés e Laura Rubio. Passamos essa noite proseando sobre acessórios, clubes e encontros, e ouvindo reggaeton entre goles e tragos até as 23h. Laura Rubio me levaria no carro para o seu apartamento, no bairro de Boston, perto dali. Lau vive com as duas gatas, filhotinhas hiperativas, as suicidas Mia e a Gaya. Eu só dormiria depois das gatas, e acordaria com elas pulando na minha cabeça, um possível comportamento dos bichos paisas.

Vespa Estazione - Medellin
Quinta-feira, 11 de Setembro. Laura saiu cedo, fiquei com as gatas, um café, e os meus pensamentos. Meditando me descia na cabeça frases assim: "não adianta buscar dinheiro (porra), busque seus sonhos." E outras mais, bastante pessoais. Ler no timeline do Facebook é meio ridículo, na própria cabeça, dependendo da ocasião, faz algum sentido. Desatava um nó emocional, queimava 4 quilos de gordura mental. Juan veio me buscar com a PX200 de Andrés, a única "alta" cilindrada do pedaço. A questão aí era que em Medellín, por causa de crimes com uso de motocicletas, está proibido conduzir engarupado. Tremi as pernas quando um policial parou ao lado. Fez que não viu, e passamos. Aonde houvesse sinal de wi-fi, eu lá estava mexendo na tela quebrada do celular. Em Bogotá se preparava uma grande festa. Na "cidade da eterna primavera" Silvio Andrés tinha planos para a tarde, Jonny para a noite.

Estava Juan, Silvio, Jorge Vásquez, Elmer Ramírez, Santiago Espinosa, eu. Em seis Vespas rodamos pela cidade até Pueblito Paisa, a réplica colorida de um vilarejo do final do século XIX, nas alturas do Cerro Nutibara. Medellin é cercada por sete montanhas, mas essa em especial era tida como patrimônio histórico, turístico e artístico. Não por menos.

Cerro Nutibara - Medellin
De repente o céu fechava, e com a ventania veio a chuva, interrompendo a aula de história da "Silvio's Tour" (segundo já apelidam em Bogotá). Tocamos na chuva para a casa do Jorge, que nos prepararia um chocolate quente com arepas. Eu gosto das casas das pessoas, sejam grandes, pequenas, simples ou sofisticadas, ela fala de criação, de estilo de vida. Comecei a notar que dentro delas ventava e entrava mais luz, que sem tantas paredes dividindo cômodos as pessoas pareciam passar mais tempo em comunhão, conversando com alguém da sala enquanto frita um ovo, ou tocando no piano um tema para a esposa que descansa com pés pro alto na rede. Era assim por toda a Colômbia. Lá fora a chuva fina trocava de turno. Anoitecia. Nos despedimos de Jorge e Sebastian e tocamos para o Hamburgo Bar, aonde acontecia o Juelves Vespa, o tradicional encontro de quinta-feira do Vespa Club Medellín.

Motorino em mãos: Nacho, Andrés, Fidelis, Sebastian, Hugo e Jaiber
Vespa Club Medellín - 15 Anos
Hamburgo Bar - Maria, Santiago, Wilson, Silvio, Elmer, Alexa, David, Dilan
No fim escuro de uma rua sem saída, a cena das motonetas nos cavaletes e os cromos brilhando na garoa pareciam sair de um cartão postal. Vinte e tantas passariam por lá. Começando às avessas, conheci os estrangeiros do clube: Gustavo Adolfo, de Portugual, e Mateo Jaramillo com Willian Casadiego, da Venezuela. Enquanto vendia meus materiais ficava à par do grupo. Sebastian Gaviria me contava da cena skinhead paisa. Andrés López me mostrava uma mão sem dois dedos, havia perdido num acidente de Vespa. Conhecia Dilan, David Restrepo, Maria Alejandra, Lucy Puerta, Hugo Boss, e outros que vou incluindo nessa linha nos próximos dias conforme lembrança. Nessa noite o dono do bar fez questão de passar os vídeo-clipes do W.A.C.K. - banda que eu toco bateria - nos televisores do bar. Era cômico ver Willian "dançar Oi". Nacho e Jonny não me deixava de bico seco. Era especial estar com essa gente toda, são jovens, festivos, sonhadores, investem tudo no bom gosto e tocam com orgulho o maior e mais antigo clube da Colômbia. Jonny, com ares de mafioso dos anos 90, me perguntou "Fidel, que quieres hacer hoy?". Como respondendo ao gênio da lâmpada, pensei até besteira para fazer piada, mas disse "quero que me leves a um legítimo bar de salsa". E para lá nós fomos, o Jonny com Carol, Hugo, Andrés e eu, na chuva mesmo, rumo ao município de Bello.


Descemos umas cervejas e doses sobre doses de Ron Viejo de Caldas (Rum). Jonny é um cara caricatural. Está sempre metido numa camiseta mais apertada do que seu físico pede, usa um óculos bolha retangular que me lembra aqueles televisores dos anos 70, está sempre com o mullet umedecido e anda numa Vespa Originale 150 em dois tons de verde no legítimo estilo Mod, ainda que não seja um. Já Hugo é um dançarino nato, entre um gole e outro cantava com expressão de sofrimento os temas do salão. Me trouxe todas as mulheres para dançar salsa. E que vergonha, eu não sei dançar nada. Parodiando a Plebe Rude, "nunca fui tão brasileiro". As 2h fomos para a casa de Jonny e Carol, lugar de notável tradição etílica. Até as 4h não largaríamos a garrafa de Whisky, na companhia dos mesmos loucos. Mas não sem antes forrarmos o estômago com os sanduíches de praça mais saborosos que já comi desde que morei em Londrina/PR, no início do século. Dormi tão embriagado quanto naqueles tempos dormia.

Jonny Garcia, il capo
Vespa Ride TV gravando











Sexta-feira, 12 de Setembro. Jonny saía para o trabalho enquanto Carol preparava mil refeições, a começar com ovo mexido acompanhado de arroz e arepas, seguido de um suco de maracujá, e um derradeiro café. Silvio, Jorge, Elmer e Santiago chegavam de Medellin para mais um Silvio's Tour. Perto dali uma das construções mais emblemáticas do povo paisa era a casa na qual meu quase-xará, Marco Fidel, Presidente da Colômbia no início do século XX, teria nascido e vivido. Era pequena, baixa, feita em barro e madeira, de telhado de palha, constituída de três cômodos apertados, protegida por uma construção que servia de cúpula desse pedaço da história. Um dos seguranças do local nos contava com orgulho a história de Fidel, da sua infância pobre e sofrida à suas capacidades como filósofo, escritor, poeta e político. Um pioneiro em seu tempo. Na metade da tarde chegávamos em Carlos Restrepo, na casa de Silvio, aonde sua mãe, doña Amparo, havia preparado um banquete incrível, com arroz, bife, salada e batatas, etceteras, fechando com uma pratada de brownie de chocolate. Que chimba!!! Depois da breve siesta, mastiguei uma folha nativa e segui com a tropa até Ciudad del Rio, aonde gravaria uma entrevista para a Vespa Ride TV, iniciativa de Edwin e Wilson. Juan Montoya chegaria com a chuva. Silvio andava preocupado com as questões do seu clube, queria saber da Scooteria, do modo como fazemos as coisas. E eu queria aprender com eles. Já aprendia, uma delas é que generosidade em excesso não fazia mal a ninguém, ela enobrecia a cena e desarmava os desconfiados. Ali nos separamos, com a promessa de replay.

Na Vespa Estazione Juan e eu nos despedimos de Andrés. Fazíamos planos de viajar para Rionegro naquela noite. Desde a primeira vez que pisei lá estava de olho num pára-brisas sujo pendurado na parede do banheiro. Lancei uma proposta para Andrés, que pensou e repensou. Dinheiro ele não aceitaria, me deu a peça e pediu-me que pagasse a Montoya o que ele precisasse. Os olhos de Juan se encheram d'água; o aventureiro naquela tarde havia tomado uma multa de quase "200 Reais" por estacionar em local proibido, e andava perturbado com a falta da grana. Havia muita generosidade naquele povo, me impressionava, por compreender também que o brasileiro (do sudeste e do sul) vem perdendo esse tempero. No apartamento de Laura Rubio aprontamos tudo, nos banhamos, e as 20h, quando estávamos quase prontos, olhei para aquele morro ladrilhado das luzes das casas, para as árvores balançando ao vento, o céu estrelado, as pessoas nas ruas, e sugeri uma cerveja derradeira, para fechar Medellin com uma cereja no bolo. Laura sorria como que dando pulos por dentro, e Juan me dizia: "parce, eso que yo quiero, que usted desfrute de todo; yo estoy acá para hacer lo que quieres". De pronto saímos a pé. Era essa a Medellin que me faltava. Fomos ao Parque del Periodista, aonde centenas de jovens se reúnem para fumar algo, beber cerveja barata e trocar ideia, a maioria estudantes, artistas e afins. Bares abertos, algum jazz rolando ao vivo, jovens prostitutas tatuadas, uma tradicional sexta-feira do bairro. Comemos dois pastéis e tocamos de táxi até o Parque del Poblado, a 7 quilômetros dali, num bairro de jovens abastados. Ali tomamos alguma coisa estranha que me fazia ver tudo diferente. E caminhamos muito, andamos pelo bairro todo, duas vezes, por duas horas, que brisa! Estávamos em El Poblado, a "Vila Madalena" de lá - bairro boêmio de São Paulo. Nas ruas se ouvia de tudo, num bar tocava salsa, no outro Black Flag. Medellin é a cidade das mulheres de perna grossa. Ela é toda montanhosa, e as pessoas caminham, desfrutam do espaço. Lá no topo entramos numa festa de música eletrônica. Juan e Laura queriam visitar alguém lá dentro, e falavam com apreço do espaço, que funcionava como que um coletivo de artistas, tatuadores, grafiteiros. Eu não gosto desse estilo musical. A grosso modo gosto de músicas dos anos 60, variantes do punk e trilhas sonoras de western-spaghetti. Apesar disso, naquela hora era mágico ficar parado feito totem observando o modo como os paisas se divertem. Eles riem o tempo todo, e se orgulham de serem felizes, e têm consciência disso. Visitam-se, falam ao telefone, aonde chegam reconhecem alguém. São livres, desprovidos de qualquer senso de sofisticação. E quanto mais cervejas, mais amigos, mais tempo por lá, mais paisa você fica. Rica Perrone é um paulista que foi morar no Rio, e a sua descrição do carioca, ao meu ver, se aplica ao paisa: "Gosto deles. Gosto de sol, de abraço, de rir muito alto e de não me achar um merda por estar sem grana. Gosto de como eles se viram. Gosto da simplicidade e da informalidade que os aproxima do amadorismo. A vida não tem que ser profissional."


Sábado, 13 de Setembro. Deixamos o apartamento de Laura, Mia e Gaya, as 11h, dando início a mais uma saga rodoviária. Passamos antes no centro da cidade para negócios. Me sentei com o dono de uma das maiores tapeçarias de Antioquia, a Tapivan, e negociamos um anúncio no Almanaque Motorino, com possibilidade de futuras encomendas ao Brasil. Depois passamos nos camelôs para comprarmos uma camiseta do Deportivo Independiente Medellín para um amigo boleiro de Mauá/SP. Essas coisas atrasaram a nossa partida e deixava Juan preocupado. Rodamos por quase uma hora até Rionegro, sua mãe havia preparado um banquete. Voltamos à estrada as 17h, quase com o sol se pondo. Tínhamos pouco dinheiro, algo como que um tanque de combustível para cada Vespa, e moedas para alguns pães. Isso nos deixava preocupados, só que não. Vamos até aonde for possível. No impossível improvisamos.

A noite chegava e os caminhoneiros não cessavam o expediente. A rodovia era perigosa, estreita, movimentada, escura, e cercada de mata. Redobrávamos a atenção ao guidão. Aliás, aquela concentração toda não evitou que eu colidisse com um cachorro na rodovia, outro. Definitivamente eu rebatizaria essa rodovia de "Ruta de los Perros". Eu seguia na faixa central ultrapassando um caminhão, quando um cão, preto, forte, atravessou meu caminho. Atrás dele vinha um boi, correndo como uma locomotiva. Num golpe de reflexo decidi atropelar o cão mesmo, o estrago seria menor e ele não me esmagaria numa patada. Acertei-o com a roda dianteira e saí cambaleando. Pensava: "não acredito que vou cair outra vez". O cão rolava na contra-mão, atrás de mim o caminhão freava. Tive sorte, mais uma vez saía aliviado. Não caí, o boi passou, e o cão saiu mancando. Toquei adiante, amedrontado. Rodamos no escuro por mais uma hora e meia, até Santa Ana ou Las Vegas, aonde paramos para descansar num posto a beira-pista. Ali fomos abordados por dois soldados do exército, que saíram das sombras desconfiados da gente. Pediram documentos e explicações. É uma operação de praxe quando as coisas saem do comum, muito porque aquela rota ainda é reconhecida pelas movimentações da guerrilha. Tocamos mais uma hora de viagem até a região de Rio Claro. Ali vendemos cartões postais em troca de combustível, e até que nos demos bem. O dono de uma pousada nos ofertou um dos seus quartos. No cair do primeiro pingo de chuva, topamos. Conviver com o acaso o tempo todo te dá alguma leveza na forma de conduzir a vida. Deveria ser o contrário, talvez seja mesmo, para quem não está disposto... enfim, cada um sabe aonde o sapato aperta, cada cabeça um simulador de realidade. Passamos a noite compartilhando cigarros de ervas, contemplando a chuva; os relâmpagos clareavam o verde escuro a perder de vista. Estávamos no coração de uma selva. Juan contava que ali já foi uma das zonas mais perigosas de toda a Colômbia. Era a rota do narcotráfico de Medellin, quando até a poucos anos atrás os guerrilheiros mandavam e desmandavam em tudo. Por exemplo, as rodovias fechavam as 18h e só eram liberadas no dia seguinte as 6h. Todos viviam com medo. Agora não mais. Eu só tive medo mesmo (e me tranquei lá dentro) quando Juan falou dos casos de febre amarela na região. No ano passado ele mesmo tinha pego.

Juan Montoya e Fidelis - Vespa: La Pelada PX150
Aqui dorme o segundo tempo dessa pelada, laricando pão seco e ouvindo a tempestade. Ainda tenho alguma coisa para compartilhar com vocês, pessoas a conhecer, breves giros, considerações finais e agradecimentos eternos. Colômbia é o país mais brasileiro da América do Sul, eu gostava disso. Identificar nossas qualidades no outro talvez nos faça mais bem-resolvidos. Febre amarela eu não pegaria, mas nesse momento já estava contaminado pelo incurável rotavírus da espécie Locômbia. Dormia doente um paulista-brasileiro metade cachaca, metade paisa.

Eeee Ave Maria pues hombre!!!
Relato por Marcio Fidelis
Fotos por Fidelis, Jonny Garcia, Montoya, Silvio etc

Um comentário:

Anônimo disse...

Adoro isso que você faz hauahuahauhauhauha

PJ LAMMY