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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

LOCÔMBIA: DUAS SEMANAS DE COLÔMBIA (Parte 01 de 03)

Foram 14 dias entre Bogotá, Medellín, El Carmen de Viboral, Bello e outros povoados. 1200 kms rodados com La Pelada, a Vespa PX150 cedida por uma das pessoas mais ativas e contagiantes da cena old scooter da América do Sul: Maryzabel Cárdenas (Vespa Club Bogotá / Mi Corazón Late en 2T). Situando a Scooteria no assunto, desde a fundação (abril de 2010) até hoje já recebemos sete colombianos viajantes. Tanta sugestão uma hora nos levaria para lá. E esse dia chegaria para Fabio Much e para mim. Contei aqui do "Mods vs Rockers" (Enmca1) e do "Bogotá Scooterfest", ambos com conceitos bastante enraizados nas subculturas juvenis da segunda metade do século XX. Agora, a quem possa interessar, contarei um pouco dessa experiência como visitante. Faça um mate, feche a porta, desça o cursor.

Fabio Much e Marcio Fidelis - Scooteria Paulista
Quarta-feira, 03 de Setembro. O avião pousava em chão molhado. Mayra Garcia foi de carro ao Aeroporto Eldorado (mesmo odiando dirigir quatro rodas), e me levou até Chapineiros, o bairro aonde Maryzabel Cárdenas tratou de me hospedar, no apartamento do seu irmão Alejandro. Mayra, para quem não se lembra, esteve em São Paulo e no Rio durante a Copa do Mundo, e participou da II Girata D'Inverno, em Taboão da Serra/SP, e de uma reunião de batismo da SP. Na Calle 63 me esperavam Maryzabel e Oscar Matiz, sujeito bem-humorado - chistoso - de posse de uma Vespa T5. Me aguardava também, e em especial, o amigo paisa Juan Montoya, na cidade a duas semanas. Desde que o escrevi anunciando minha chegada, ele que é de Medellin - a 450 kms de Bogotá -, tratou de arrumar um trabalho qualquer na grande cidade para viver conosco a maior parte dessa história que vem abaixo. Ali já me sentia na melhor fase de Jack Kerouak. E falando nele, pessoalmente conheci Maryzabel no Paraguay, no acampamento de um Encontro de Vespas. Quer mais beatnik do que isso? Começava a maratona...


De pronto seguimos para o praça Quinta Camacho, no bairro Carulla, aonde semanalmente os Escuteristas Bogotá se reúnem. Fui apresentado a Gerardo Rodriguez, Anderson, Jaime, Elmer, Daniel, Luis, Alfonso, Bob, e mais gente. Não sei se ouvi direito, mas ao me cumprimentar Gerardo, presidente do clube, disse algo como "que puedas mejorar el clima de las cosas acá". Sujeito calmo, quase sempre escutando atentamente os seus enquanto traga devagar um cigarro, sua deixa me fez pensar noite adentro no que catzo aquilo significava. De Kerouak a embaixador de qualquer coisa, eu chegava na garupa de Juan Montoya, a que considero um Dean Moriarty sem benzedrina, a cruzar a América, só que de norte a sul. Uma versão vespista de "On the Road".

Nessa noite fui apresentado ao modelo Plus 150 da Bajaj, bastante similares às 150 Super da Piaggio. Também à Vespa GS160 espanhola, um misto de três ou quatro modelos dos anos 60, incluindo a própria GS italiana. Vale lembrar que em toda a Colômbia é obrigatório o uso de coletes ou fitas refletivas nas jaquetas durante a noite. Além dos cromos, os humanos refletem luz.

Maryzabel Cárdenas













Juan Montoya me levava na garupa, a exatos quatro anos depois de quando nos conhecemos. Em setembro de 2010 o recebemos naquela Vespa PX150 preta da Raf Mod, no Curitiba em Vespa, na Scooterboys, na capital; e entre festas e giros aprendemos com ele que distância pouca é bobagem. Como viajante creio que ele tenha alimentado um lado internacionalista no nosso imaginário, anunciando um novo Zeitgeist - espirito do tempo - que nascia no sul da América. Seu projeto se chamava Sur Sueño Vespa. (China, Much, Isbú, Andreas, Koré, Emerson, e eu, te saudamos aqui de casa, parceiro).

Céu nublado, pista molhada, borracha no asfalto. A 50 quilômetros por hora tudo parecia calmo pela Carrera 68, só que não. Em uma fração de segundo nossas vidas podem mudar de rota para sempre. Sem precisão, "viver não é preciso". Foi de súbito que, bem na nossa frente, uma Plus Bajaj derrapou e levou Anderson ao chão. Escapamos por pouco, estávamos logo atrás. Paramos o trânsito para recolher os cacos, o colega sangrava no rosto, no queixo, estava atordoado. Ele caiu rolando todo torto, usava capacete aberto, quase foi um estrago. Seu clube tratou de trocar o farol e alinhar a roda dianteira. Oscar, que é médico, daria um diagnóstico imediato. A judiaria foi que Anderson havia pintado a moto a poucos dias num verde metalizado; ela era a mais admirada da noite. A derrapada tinha a ver com o freio dianteiro, que a princípio parecia estar só muito apertado. E não é que sobrou pra mim? Conduzi a sua Plus Bajaj até mais tarde, quando fizemos a foto abaixo, aonde provei o Ajiaco Santafereño, prato típico, um caldo cremoso de frango acompanhado de uma enorme coxa cozida. Lugares aonde vendem esse tipo de comida durante a madrugada se chamam "Caldo Parado".

Três horas que pareciam seis, e essa quarta-feira inaugural fecharia com umas aromáticas e uns tragos em qualquer esquina do caminho. Se eu descuidasse do pensamento minha mente voltava para São Paulo, como se aquelas esquinas me fossem costumeiras. Nunca antes viajei de avião para tratar de motonetas. E de repente, como num pulo lá estava eu. A distância e o tempo na estrada te prepara, e talvez por isso a gente já chega no espírito, e com a pele queimada e os lábios rachados do sol da estrada. Talvez seja isso.
Quarta-feira: Reunião oficial dos Escuteristas Bogotá + Mary + Juan
Quinta-feira, 04 de Setembro. Juan me levaria para fazer o câmbio. 600,00 Reais virou 420.000,00 Pesos Colombianos, que era compensado pelo baixo custo de vida no país. Vendo tudo sob a luz do constante céu nublado bogotano me surpreendia nas ruas a quantidade de pessoas metidas em botas inglesas, sobretudo nas tradicionais Doctor Martens. Tão logo descobri uma filial da marca na Carrera 7. Como levar criança a uma loja de doces, só me faltou chorar na porta. Tocamos para a Avenida 127, aonde a Andes Motos, a representante da Piaggio na Colômbia, promovia um esquenta para o "Mods vs Rockers". Reuniu-se ali algumas dezenas de scooteristas clássicos. Conheci Jonatan Alape, Alejandra "Omaira" Vargas, German, Crystian Ruiz, Camilo Bernal, Andres Archila, Julian, Kisis/Mara, Vivi Neva e outros tantos. Alguns eram dos Mottoretos, outros do Vespa Club Bogotá e do Vespané. Surpresa para mim, além dessa boa gente toda que me era apresentada, foi conhecer de perto a nova Vespa Primavera, e a 946. Lindas ordinárias.

Estávamos em 18 motonetas pela noite. Por lá os comboios correm, represam nos semáforos, esticam, aglomeram em algum posto, e tocam adiante, cada qual alertando o companheiro dos buracos no chão, que não eram poucos. Me recorria lembranças dos nossos giros de uns anos atrás, aqueles sem instruções, de pouca experiência, totalmente espontâneos. Só que eles são rodados, fazem da Vespa um modo de vida, os vespistas de lá são o reflexo do cotidiano. E tudo acabaria na Monapizza, um lugar rústico, de três andares apertados, num bairro boêmio e gastronômico chamado La Macarena. Aliás, devo dizer que a pizza lá é tão saborosa e recheada quanto a nossa, talvez até mais leve. Dormi digerindo.

Vespa 946

Sexta-feira, 05 de Setembro. Fabio Much chegaria com o sol. As 4h da manhã fui pra rua, e me perderia por mais de meia hora até encontrar a rota para o Aeroporto Eldorado. (Fui parar em Monserrate, o lado contrário da cidade). Tive de enganar a Juan, Mary, e Mayra, que apesar das obrigações diurnas, faziam planos para madrugarem. Eu não queria incomodá-los, então inventei que o nosso amigo tomaria um táxi, e que racharíamos as despesas mais tarde. Mentirinha. Na ponta dos dedos, no tranco esquina afora, pelas ruas vazias me sentia muito bem, e sentia muito frio. As luzes amarelas vistas através da neblina me lembrou alguma coisa de São Paulo nos anos 80. Estava cá e lá. As 6h resgatei o soldado Much na base aérea.
Juan, Fidelis, Camilo, Hernan, Mayra e Much
Antes de abrir o comércio abrimos nossas primeiras cervejas: Poker, Costeña e Club Colômbia, seguidas de um pão prensado feito a base de milho, parecido com arepas, essas que são como que acompanhamentos de todas as refeições do menu colombiano. Durante a tarde Juan nos levaria até a casa de câmbio mais próxima. Pensando em economia, comemos algo barato na rua, algo que não caiu muito bem no Much, salvo pelas goladas na Colombiana - uma espécie de tubaína - e dois cigarros seguidos. Na Plaza Lourdes o movimento de sexta-feira era voraz, pessoas nas calçadas se atropelavam em fim de expediente enquanto táxis e ônibus paravam o trânsito por toda a parte. Pombos, comediantes, índios mendigos, alguém fumando um baseado às pressas, duas belas garotas apressadas, ventania arrastando cartazes, vendedores de relógios falsificados, o barulho das portas dos comércio fechando, essas coisas me remetiam ao centro velho de São Paulo, de Porto Alegre, do Rio de Janeiro. Funcionários dos bares quase nos puxavam pela camisa. Aliás isso é um outro dado: vendedores vão te chamar para conhecer seus produtos, vão te agradar para isso, vão insistir. Entramos em alguns, todos escuros, com canais de esportes ligados no silencioso enquanto a cumbia era tocada no volume máximo. Decidimos pelo mais discreto da praça, ou melhor dizendo, pelo mais obscuro: um bar de rock'n'roll setentista, de três andares, com cervejas a bons preços e barbudos desconfiados vestindo jaquetas jeans surradas. Não, também havia um pessoal naquele pique de happy our, e metade das cadeiras estavam ainda vazias. Avisamos aos amigos que por lá ficaríamos. Começava o amistoso "Brasil x Colômbia" - vitória canarinho que passaria como que desapercebida. Abrimos a rodada portanto com Fabio, Juan Montoya, Mayra Garcia e eu, seguidos da Maryzabel, do Alape, do Oscar, Juan Pablo, os irmãos Camilo London e Hernán. Foi uma noite especial, com direito a um Vallenato na saída...


Sábado, 06 de Setembro. Metade da motivação dessa viagem estava depositada nesse dia, aconteceria nas próximas horas o primeiro "Mods vs Rockers" oficial da América Latina. Como poucos sabem, toquei em duas bandas que foram consideradas por aí como Garage / Mod Revival: Os Migalhas e Sprint 77. Minha escola em motonetas, a zona leste de São Paulo, Os Tralhas Scooter Club, a Scooterboys, as bandas da cena, é a quem devo algum crédito nisso que vivo. Fabio Much, no caso, é testemunha ocular, tendo crescido na quebrada e antecipado o surgimento da cena Mod/Sixties da Z/L em seis ou sete anos. Numa entrevista para o Almanaque Motorino #1 (capa vermelha) ele contou: já são vinte anos em 2 Tempos. Noto que a maioria dos vespistas e lambrettistas que conheço não sabem de fato do que estou falando, e nem precisam. Acho que a motoneta por si já é um legado que temos preservado muito bem, e que assim seja. Sinto tédio com vergonha alheia quando rola um desaforo gratuito sobre a identidade, e a cidade alheia. Lembro de um completo imbecil debochar no Orkut do termo "scooterboy". Isso faz uns anos. Tento imaginar hoje aonde é que anda esse fedelho cheio de auto-estima. Me desce imagens de um cara que a anos não vê o seu próprio pênis sem esforço ou espelho, daquele tipo classe média que um dia comprou uma Vespa e entrou para um clube, e ponto. Bem, ninguém vai se esforçar para ser o que não é, ou para saber do que não quer. Tudo bem ter uma PX e não viver com ela. Mas como disse o filósofo: "a asneira é sempre faladora". O melhor que fazemos é fazer-nos melhores. E voltando às raízes da nossa escola, não era Brighton (UK), mas como se fosse, Bogotá falava de 1964: MODS vs ROCKERS.

Much e as Cherry Pin-Ups
Nessa noite rodamos em quinze, no comboio mais tenso desses dias. Foram quase duas horas desde o Encontro até o coração da cidade. Passando por pontos históricos e turísticos, Mayra tentava me contar às pressas do que se tratava o caminho. Nas alturas de La Candelaria ver a cidade, os limites pelos postes amarelos, a civilização num sábado a noite, foi fantástico, como descer pra Santos pela primeira vez na vida. Ancoramos na Plaza Chorro Quevedo, aonde Camilo London insistia em nos levar para uma festa de Ska Music. Abraçamos sua idéia e quase nos demos mal. Ao chegarmos notamos o clima um tanto hostil. Um sujeito suado, zoado, usando uma camiseta amarrotada do DRI nos olhava com ares de deboche. Na sequência Camilo tomaria dois chutes na bunda, e era posto a correr. Em um minuto todas as motonetas já estavam na esquina outra vez. Sobramos nós, Fabio Much e eu, ali no beco com a Vespa afogada. Os mesmos estúpidos que bateram em Camilo vieram pra cima da gente. Pensávamos no pior. Dois caras - um deles com uma cicatriz no canto do rosto, falante, acelerado, "louco" - vieram nos intimar. Na segunda frase eles entenderam que éramos brasileiros, desinformados do que cobravam, que estávamos pela música e pelas motos. Os dois maloqueiros nos saudaram e até se desculparam pelo escândalo, explicando o desafeto antigo. Não vou dizer que não ficamos assustados com o possível desastre: imagine você sair de um Mods vs Rockers contente e limpo - um evento com histórico mundial de confusão -, cruzar a cidade com seus novos amigos em suas Vespas adornadas, e sem saber o porque, tomar uma surra num beco escuro cheirando urina, e pasmem: na porta de uma festa de ska... ah, tenha dó. Mas La Candelaria estava linda aquela noite, com seus transeuntes, bares abertos e música em toda a parte. Daniel contava pra gente a história da praça central, a Chorro Quevedo, o berço de Bogotá.

Fechamos a noite com uns sanduíches e mais tarde algumas cervejas com Mary, Jonatan, Andres Felipe, Viviana e Mayra, naquele "bar de sempre". Que dia!
Much, Fidelis, Topo, Andy, Laura e Albert
Domingo, 07 de Setembro. Frio, ressaca, domingo preguiçoso. Seria assim se fosse no Brasil, mas lá o entusiasmo não acaba. Na metade da tarde Maryzabel passaria para recolher o que sobrou da gente. Estava com Jonatan Alape, Carlotica, Andy Shot, Laura Pérez, Andres e Viviana. Fomos à Plaza Usaquén, aonde experimentaria os melhores pães até então. (Mayra falou tão bem desses pães, no quarto dia eu entendia). Quando a noite caía, as 18h45, tomamos outro café na Quinta Camacho, na companhia de Alejandra "Omaira", Mayra, Rafael Rubio e Carlos Vigoya. Aliás, rodar entre cafés e postos de serviços é bem comum também.
Moonstomp Riders
Alejandra "Omaira"














Tocamos para o miolo da cidade, dessa vez para a Plaza Bolívar, o coração da história. Ali conheci um boêmio que cheirava uma mistura de aguardente com azedo de sovaco, e metido num sobretudo preto meio sujo, me olhava de canto, medindo meu ar de turista deslumbrado. Passou por mim e disse baixo: "lo que usted estás mirando es una Puerta Secreta". "O que"? - disse em português. Daí em diante tivemos uma verdadeira aula de Colômbia. Guilherme era o nome desse distinto boêmio à moda antiga. Sem gaguejar, contaria, por meia hora a fio, a história de cada prédio e as personalidades que andaram por eles, com precisão de datas e detalhes. Quando falava das guerras civis e das conquistas populares, seus olhos tremiam e enchiam d'água, seguido de uma fungada mais forte. Não sei o que ele fazia lá, apareceu como um fantasma do século XVIII, e naquela calmaria ele sumiu na neblina. Foi mágico, surreal, não sei. E o domingo que amanheceu para o nada, terminou com tudo...

Segunda-feira, 08 de Setembro. Religiosamente as manhãs começavam do outro lado da rua, com um copo de aveia com leite e uns pares de buñuelo - uma bola de massa frita feita com farinha de trigo e um queijo tipo qualhada -, seguido de um café. Viciei nos buñuelos, num dia comi oito. Valia como que cinquenta e cinco centavos brasileiros, era delicioso, do tamanho de uma bola de tênis. Para não passar em branco o lado exclusivamente turístico dos turistas que éramos, Fabio Much e eu tomamos umas cervejas e um táxi até o pé de Monserrate. Por algo equivalente a 18 Reais um teleférico te leva até o mirante da cidade. Lá em cima tem a igreja, tem restaurante, lanchonetes e diversas tendas de souvenires, colecionáveis e especiarias. Aliás, é o único lugar da cidade aonde se vende o chá de coca. (Não se enganem, ele me dava muito sono). Fizemos uma hora por lá e voltamos com a chuva. No pé do morro uma llama:
As 17h Juan Montoya chegaria para nos acompanhar na despedida do amigo brasileiro. Na sequência Maryzabel Cárdenas trazia Jhon Gonzales. Faltava ele. Sujeito magro, bem-humorado, daqueles que observam tudo sem virar muito os olhos. Um dos fundadores do Vespa Club Bogotá, deixou a presidência e o grupo recentemente, e ainda ressentido se prepara para integrar a cena mexicana. Uma personalidade, estava conosco por consideração. No caminho do Aeroporto Eldorado, pela tortuosa hora de corredores estreitos e buracos enormes, Jonatan Alape nos esperava na marginal da Calle 26. Jonatan, aliás, estava em todas, o Mottoreto tinha um aspecto calmo e discreto, otimista e ativo. Parceiro para todas as horas! Até que chega a triste despedida, mais uma de Fabio Much, outra da qual ele parte antes, levando aos nossos as boas, deixando para mim o final da história. Foi a quarta viagem internacional do Muchiba, a terceira ligada à Scooteria Paulista em eventos da classe. Clique nos links abaixo e relembre as outras duas:


Dia Del Scooter Clásico #3 (Argentina 2011)


Depois de uma parada num café pelo caminho, tocamos para a Chapineros de novo. Lembrando que era segunda-feira. Escolhemos um bar estreito da Plaza Lourdes, e ali dois funcionários, e um casal tragando algo, acompanhados de uma terceira mulher impaciente segurando vela, era o que tínhamos de mais animado nas redondezas. No rádio, salsas de amor e desamparo. Eu estava cercado de pessoas que são como mestres dos magos: Juan Montoya,  Maryzabel Cárdenas, Jhon Gonzales e Jonatan Alape. No passar dos dias elas me surpreenderiam demonstrando um pouco de suas capacidades em criação e execução, coisa que raramente vi se manifestar em tão curto tempo em prol de um espontâneo encontro de motonetas. Na mitologia grega o Rei Midas era o personagem que transformava em ouro tudo o que tocava. Naquela semana eu entenderia que andei me sentando com uma cúpula de magos, na qual tudo o que era dito era transformado em fatos. Sugeri uma festa, e dito e feito: em seis dias aconteceria o primeiro BOGOTÁ SCOOTERFEST.

Fidelis, Tatiana, Leonardo Castañeda e Jhon Gonzales

Duas da manhã, sentando na ponta do colchão o coração apertava. Juan Montoya e eu, entre uns goles e tragos, devaneamos pelos assuntos da vida, das viagens, da Vespa, do destino dos homens, das garotas, do futuro. Ele se preparava para outra trip beatnik, agora rumo ao México. O que me tocava a pensar na minha condição humana era não somente o fato de estar lá, mas a cumplicidade com que a vida me conectava às certas coisas que beiram o absurdo do improviso. Nunca uma viagem é só uma viagem. Eu andava motivado por causas novas que poderiam existir em algum lugar do coração ou das ideias de alguém. Perdido e acolhido em outra capital, a poucas horas de um tiro longo para Medellin ao lado de quem bem entende do riscado, éramos nós: confusamente confiantes. Eu parecia um tolo sem resposta ao desamparo a que tenho consciência de viver sem querer ou sempre que a grana acaba, e Juan um sonhador com um otimismo contagiante, que todos os dias mantinha limpo e bem visível o projeto da próxima aventura. Alguns vespistas são fora-de-série, tão valentes quantos seus motores, criam um elo com a máquina de modo a fazer com que nenhum outro veículo possa lhe cair tão bem quanto uma Vespa. Desse marco em diante começa um estilo de vida sério e impreciso: a liberdade de escolha pela liberdade escolhida. 

Relato por Marcio Fidelis
continua...

2 comentários:

Anônimo disse...

Um dos relatos mais lindos que já li. Meu, que poesia, dá vontade de sair por aí de vespa e nunca mais voltar...

PJ LAMMY

Afonso Pimenta disse...

Boa tarde Marcio Fidelis,

Nunca emiti um comentário no blog da Scooteria Paulista, mas diante desse texto maravilhoso eu me vejo na obrigação de parabenizá-lo. Tens um grande futuro como cronista. Se depure que esse é o teu caminho.

Afonso Pimenta - Salvador/BA