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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

MODS vs ROCKERS (Colômbia)

Por mais de uma década pensamos numa grande reunião entre Mods e Rockers. Poderia acabar em confusão, certa noite em São Paulo aconteceu. Já o propósito em Bogotá era outro, mais ligado à cultura motociclística do que à rivalidade passada das subculturas juvenis. Muitos lojistas patrocinaram e apoiaram o grande evento, a maioria voltados à demanda vintage, e quem capitaneava o "I Encuentro Nacional de Motos Clásicas y Antiguas" era a Candelaria Motorcycles e a ScooterClassic Art, com o suporte da Triumph e apoios. Ainda assim tratava-se do primeiro Sul-Americano. Por isso comprei minhas passagens, imprimi os Motorinos, dobrei as roupas e tomei o avião. Fabio Much fez o mesmo, rumo à sua terceira aventura internacional. "Ninguém entende um Mod".


Era 06 de Setembro, fazia o frio de sempre em Bogotá, cerca de 15 graus. Logo cedo nos reunimos no meio do caminho em vinte e tantas motonetas em um posto de combustível na Autonorte, uma via expressa extremamente congestionada para uma manhã de sábado. Eu estava com La Pelada, a Vespa PX150 emprestada por Maryzabel Cárdeñas, e levava na garupa o Fabio Much, como que representando a Scooteria Paulista e o Brasil nisso tudo. Jonatan Alape e Mayra Garcia nos guiaram até o bolo, e o comboio contaria com os membros do Mottoretos, Vespa Club Bogotá, Vespañeee, Moonstomp Riders e amigos. Conosco seguia um carro de apoio e muitas garupas. Bob levava sua Serveta GP 1972, um achado. Maryzabel, Jonatan, Carlotica, Oscar e outros tantos chegaram para a ruta.Um ar de festa se estabelecia na Carrera 5. No caminho duas Vespas apresentaram problemas com embreagem - cabo e braço seletor -, resolvidos ali a beira-pista. Chegávamos numa estilosa frota. Disparados, a maior banca. (We are the Mods, We are the Mods, We are, We are, We are the Mods).

Alejandra "Omaira" Vargas trabalhava em diversos setores do evento, a começar pela recepção e inscrição dos visitantes. Enquanto isso a Bogotá Soul Club tocava alto seleções dos anos 50 e 60 norte-americanas e inglesas. Conheci muita gente por aí, de imediato Camilo Bermúdez, um exímio restaurador de motonetas, baterista da banda street-punk Urban Noise e importador de peças e artigos para vestir. Junto a ele seu sócio na Vespaccessorios, o Alejandro Vallejo, representante da marca em Medellin. A tenda deles mais parecia um expositor de artigos inusitados, a começar pela Lambretta DL roxa carregada em cromos do acervo pessoal do Camilo. Botas, camisas, acessórios, um Fusca 58, e a companhia ilimitada de Topo, Espanhol, Andy, Leonardo, Bryan, Tatiana, Hernán e a cambada de Moonstompers apimentavam o espírito do encontro. O espaço era como que o nosso kartódromo Pinheirinho (de Araraquara), lá chamado de Autódromo XRP de Cajica; era cercado por arquibancadas de terra, e com infra-estrutura completa: alimentação, banheiros limpos, expositores, áreas cobertas e abertas.
Fabio Much - ENMCA 1
Quando chegou Juan Montoya com Andrés e Paola (viajantes de Medellin), armamos o nosso stand também, inaugurando ali o Almanaque MOTORINO #4 (capa branca, Mod Rod). Vendíamos camisetas do W.A.C.K. - minha banda -, também CD's do Marzela, Thee Butchers Orchestra, Transistors, e Brasil Oi. Além disso Juan Montoya ofertava seus cartões postais do projeto Asfalto, visando arrecadar fundos para a segunda parte do seu desbravamento em Vespa pelas Américas: Colômbia-México. Perto da gente estava o stand do Cristian Bernal e Marcela Garzon, do Mottoretos, com patches, camisetas, acessórios, pins, stickers etc. Assinando Corner Design, foi ele o criador de todas as artes do evento. Haviam stands para motocicletas e motonetas, para Mods e para Rockers, para todas as pessoas de bom gosto. Me surpreendeu também o baixo consumo de bebidas alcóolicas nesse encontro. Quase nulo. Com tantos rigores da lei colombiana - multas caríssimas, prisão e perda da carta por anos a fio -, comparado ao comportamento do povo de lá, o brasileiro e o argentino são tipos alcóolatras.
DESAFIOS E GINCANAS

Largada "Le Mans" na corrida das motonetas
A inscrição no evento dava direito ao pin, camiseta, cartaz, uma refeição e ao kartódromo. Eu não havia entendido isso até então, e quando vi já estava na pista. Maryzabel aprovou, Ivan González me emprestou as luvas, e lá fui com La Pelada; eu com a roupa do corpo. 22 motonetas se espremeram no grid para as instruções. Com as bandeiras verdes, amarelas e preta com branco ainda limpas abríamos os jogos. Vespas, Lambrettas e Bajaj Plus de 150 cilindradas saíam para as três voltas classificatórias. O kartódromo Cajica tem um pouco mais de dois quilômetros, instalado entre montanhas, em terreno declinoso, com oito ou dez curvas. Uma ambulância e uma equipe de paramédicos faziam plantão. Cem pessoas assistiam ao inédito "Desafio de Motonetas" colombiano. Um espetáculo nunca antes visto ou vivido pela maioria ali.
Na ordem: Gerardo, Fidelis, Vigoya, Dexter e Oscar
As voltas de classificação abriram o apetite da "criançada". Não havia cronômetro nem qualquer outro equipamento de controle. Na base do "olhômetro", a equipe do evento se confundia, afinal, eram 22 motonetas. No meio da discussão sugeri que optássemos pelo estilo "Le Mans" de largada, proporcionando mais humor à competição. A ideia foi acatada por todos, e lá fomos nós. (Rola um vídeo amador disso na internet; e outro mais profissional está sendo preparado).
Autódromo de Cajica - Bogotá
Foram mais cinco voltas, quinze desafiantes minutos. Ao final da primeira eu estava em quinto colocado, tendo sido ultrapassado por uma Lambretta. Uma chocante disputa se instalou entre Dexter e eu. Sua LI série 3 de 150 cilindradas estava tinindo, e o piloto andava no apetite. "Minha" PX150 puxava bem nas saídas, mas na quarta marcha o ritmo caía (e na terceira explodiria). Buscava fôlego nas embreagens, sempre tomando o vácuo da Lambra. Freio? O motor. E assim eu compensava o tempo perdido nas retas. Mas Dexter tinha braço, fechava a porta e seguia o traçado. Ainda que eu o ultrapassasse, era questão de três curvas para cair nas desgraças do seu vácuo outra vez. E falando em cair, foi Oscar e sua Vespa T5 os contemplados do "Desafio". Ao sair de uma curva o camarada tocou o pé do motor na guia e voou pra o meio da pista, tendo ralado a perna e a moto. (Alguém mais caiu, não lembro da figura). E veio a bandeirada, como um coito interrompido. Estava incrível, nos realizávamos. O colombiano é um tipo corredor, se vê no tráfego, nos comboios, o modo de direção agressiva. Resultado: peguei o quarto lugar, dez centímetros atrás de Dexter. O vencedor foi Alexander Pineda, um apaixonado por competições e exibições motociclísticas. Que corrida!

(Nota: relembrarei ao cidadão de bem que os Desafios de Motonetas contemporâneos no Brasil começaram em Junho de 2012 capitaneados pelo Motonetas Clássicas Campinas; naquele período eu viajava com minha Vespa 150cc da capital até Paulínia/SP, corria, e nem sempre voltava pra casa com ela, por problemas mecânicos. Fazíamos 300 kms num só dia, contando a corrida. No ano seguinte deixei as competições. Os Desafios por aqui evoluíram para o nível nacional e diria que chegou ao caráter mais profissional da categoria amadora. Seguimos apoiando e acompanhando de perto e de longe). 






A tarde seguia e então veio a categoria feminina. Meia dúzia de Vespas e duas motocicletas entraram no asfalto debaixo de chuva. Era o momento mais tenso do dia. Com prudência elas seguraram a bronca nas cinco voltas mais difíceis da tarde. À beira da grade assistíamos apreensivos nossas amigas tocarem o barco: Carlotica, Mary e Mayra. Johana com sua Vespa LX150 rosa levou a melhor. Acabou a corrida, acabou a chuva.
Corrida de Motos e Vespas - Categoria Feminina
E fechando os desafios, a categoria especial esquentava o movimento. Uma Vespa GT e outras quatro super-preparadas voaram baixo nas retas de Cajica. O espetáculo tirava gritos e sorrisos dos espectadores. Ainda veríamos as corridas das motocicletas clássicas, um ápice para a outra metade dos participantes.
Categoria Scooter-Pro
A festa acontecia no entorno do kartódromo. A Red Bull distribuía amostras grátis do energético que dá asas, e por terra mais gente chegava a todo minuto. Havia um ar de admiração e respeito mútuo entre as cenas juvenis e motociclísticas. Café racers e motonetas customizadas eram a atração, o motivo pelo qual funcionava tudo aquilo; e seus proprietários na estica de época, nos seus melhores trajes, conviviam harmoniosamente, cada um na sua.

E os jogos não paravam; as divisões eram essas: scooters-stock, scooter-pro, clássicas japonesas, clássicas européias, clássicas modernas, categoria feminina, parada scooter e café racer. Na sequência vinha a prova dos obstáculos, uma verdadeira gincana. Fomos divididos em pares, e duelávamos em "traçados germinados". Os obstáculos eram feitos com cones, fitas, barreiras e marcas no chão. Topo (Jhon Gimenez) era meu adversário, queimou um obstáculo e perdeu a brincadeira. A TV Uno filmava tudo de perto. No dia seguinte estávamos no jornal nacional.
O Desafio dos Obstáculos
E a brincadeira de encerramento no Autódromo Cajica ficou com as provas de arrancada. Também em formato de duelo, uma rocker no clássico traje Pin Up dava a bandeirada e os motores saíam em disparada fritando a embreagem. Perdi todas, sete vezes.
Scooter Parade - Provas de Arrancada
Era tudo muito lúdico e feito no capricho. Havia um quê de beleza e conhecimento do assunto. Os rockers eram rockers de verdade, os Mods e Skins - estilo que evoluiu dos Modern Boys da primeira metade dos '60 - viviam da essência, entendiam do riscado. E se o conceito do evento era esse, lá estivávamos: "Mod Rods".


Ao cair da tarde nos reunimos em doze motonetas ou mais, e em meio a gigantesco e caótico tráfego voltamos até centro de Bogotá, por entre carros, desviando dos buracos, cortando caminho pelo acostamento esburacado e engolindo fumaça dos caminhões. Foram 40 loucos quilômetros nessa noite de lua cheia; ela era uma criança...

















Esse meu relato é pontual, e despretensioso, é muito mais um diário de mais uma experiência internacional. Deixamos aqui um brinde a todos os organizadores desse fantástico e inesquecível I Encuentro Nacional de Motos Clásicas y Antiguas, ou como queremos, Mods vs Rockers. Um aprendizado para a América do Sul. Fabio Much e eu agradecemos a todos em nome da Scooteria Paulista. Essas lembranças para sempre ficarão em nossas mentes e corações.

Marcio Fidelis e Fabio Much
Relato por Marcio Fidelis
Fotos por Mauricio Vargas, Fidelis, Gina, Alejandra, etc etc

Um comentário:

Anônimo disse...

Um dos relatos mais lindos que já li. Meu, que poesia, dá vontade de sair por aí de vespa e nunca mais voltar...

PJ LAMMY