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domingo, 15 de dezembro de 2013

IV Raduno da Primavera (Parte 02 de 02)

Domingo de Raduno, era a quarta edição do evento mais tenso de todo o calendário da Scooteria Paulista. Estava anunciado que o giro aconteceria independente das condições climáticas. Leo Russo preparou a arte e a Sociedade aqui fez a parte dela. Ao todo reunimos 44 motonetas, entre Vespas, Lambrettas, Bajaj e Star 4, das cidades de São Paulo, Santos, Guarujá, Taboão da Serra, Osasco, Itapevi, Campinas, São Roque e São Sebastião. Mesmo debaixo de muita água realizamos a prova, e mesmo com tantas precauções na viagem, o pior fato narrável de nossa história veio à tona. Foi assim...



Às 9h em ponto enfileiramos as motonetas na Rodovia dos Imigrantes e antes da partida instruímos o grupo quanto aos perigos da rodovia, a velocidade de cruzeiro e a formação do comboio. Antes mesmo de passar São Bernardo do Campo a chuva já descia fria castigando. Após o pedágio o trânsito travou, acontecia ali a "operação comboio", a descida dos veículos controlada pela Polícia Rodoviária. A princípio acompanhamos a operação, na velocidade média dos 10km/h. Como a chuva apertava e o horizonte de carros não tinha mais fim, conversamos rapidamente, o João Macruz, Mestrinelli, sr.Artur, Koré e eu topamos levar o grupo em fila indiana pelo corredor. Vivemos aí o primeiro ponto de tensão. Enquanto Mestrinelli nos guiava, Favero seguia no ferrolho com seu colete e eu me acotovelava com os carros no corredor paralelo para me certificar de que não tínhamos deixado ninguém pra trás. No começo dos túneis o comboio já tinha se dividido. Emerson não parou mais e levou com ele um grande bloco pista abaixo. Eu me preocupava com as M4's na neblina pois era impossível notar a lanterna ou o farol delas no meio daquelas nuvens. Então no segundo túnel pedi para que alguns encostassem até termos certeza de que todos estavam bem. Foram cinco minutos ali até represarmos os mais cautelosos. Nesse meio tempo haviam fechado a Imigrantes novamente, e dali em diante era tudo nosso. Talvez more aí o dado divertido mais marcante desse IV Raduno: uma rodovia toda só pra gente e mais ninguém. Descemos aos risos com o fato, promovendo um buzinaço na acústica dos túneis. João Medeiros e Fabio Much com o Diogo na garupa desceram por último. Douglas com sua M4 também sumiria na lentidão enquanto a gente descia nos 65km/h de olho no horizonte em busca de um sinal de fumaça do comboio maior, puxado pelo Mestrinelli. Esse lá estava, já na entrada de Santos, aguardando-nos no acostamento sob uma garoa insistente.




Entramos na cidade organizados, todos numa faixa só, controlados à mão de ferro. A 100 metros do portal da cidade represamos a turma num bolsão vazio de ônibus. Era ali ou nunca! E batata! Na recontagem foi que demos falta de três Vespas, um deles era o Douglas com sua M4. Seu amigo ligaria pra ele enquanto o Paulo De Vito detectava uma pane elétrica na sua PX200. Sempre prestativo, Reginaldo ali mesmo sacou a vela fora e no ato passou o diagnóstico: faísca fria, ou trocando em miúdos, fraca. O problema estava no CDI. Por precaução o próprio havia trazido um de reserva e foi o que salvou tanto o Paulo quanto o comboio de atrasos maiores. Ainda assim aguardamos ali, sob a garoa fina, por vinte minutos ou algo mais. Partimos então rumo à Portuguesa Santista, aonde o Delacorte nos aguardava com os amigos da baixada: Luca, Eric, Maturino, Breno e Ilídio. Legal mesmo foi ver a cara de felicidade dos caras quando viu aquele enxame se acotovelando em duas faixas. Pelo Canal 1 seguimos para a orla, de onde lentamente fomos guiados pelo Delacorte até a balsa. Nesses 6 kms turísticos fomos flechados por mais de 30 pessoas pelo que vi. É divertido lembrar! Na balsa aguardamos a nossa vez até nos acotovelarmos no corredor das duas rodas. São apenas 3 minutos de travessia, mas a brisa é diferente. Veio aí a dica do Ambrósio: "acho melhor subir metade na balsa, e na próxima viagem a outra metade, porque se isso afundar toda a Scooteria vai pro saco"... kkkkkk. Ao aportarmos no Guarujá a PX do Diogo, guiada pelo Much, acusou um problema na embreagem. Como Delacorte seguia com o comboio no rastro, saí em disparada para pedir que o grupo esperasse uma resolução do caso. Enquanto isso o Marcio e o Túlio, ambos de São Sebastião, nos aguardava no primeiro posto de combustível do caminho. Foi lá então que concentramos todo mundo outra vez. Para ganhar tempo então pedimos para que todos abastecessem e realizassem seus reparos. Mestrinelli aproveitou para recolocar o cavalete da Bajaj, que tinha caído no portal de Santos. Depois de uns minutos chega a Vespa quebrada rebocada pelo Filizola com uma cinta amarrada em seu bagageiro. De PX pra PX, que briza! Leo Russo já estava conosco ali, e fazia a proteção da frota de carro a algum tempo. Depois de tudo pronto seguimos até a Praia do Tombo, aonde mais uma vez encontramos o nosso espacinho cativo vazio. Estava tudo bem até ali, não fosse a furada master que o quiosque, reservado a semanas, deu. Havíamos combinado tudo com eles, pessoalmente, para o Raduno. Só que como choveu, seus funcionários decidiram dormir até mais tarde e não abriram, ou melhor, abriram, mas quando já tínhamos nos instalado no vizinho. Manjare!!! Ali passaríamos duas horas de boa prosa, rango etc.


Estava tudo combinado para sairmos às 15h30. Às 15h um colega um pouco inconveniente começou acelerar o pessoal para a volta. (Fica a dica: quando combinado um horário para a volta, seguimos ele, e se você quer voltar antes, não seja mala, volte sozinho discretamente). A turma do Douglas resolveu passar a tarde por la e rebocar suas motonetas até São Paulo pois tinham bebido umas a mais. A dupla de Campinas voltou mais cedo pois a viagem era maior e o céu não trazia notícias melhores. A gente então partiu, dessa vez por um novo caminho, de volta pra Santos. Tomamos a balsa mais uma vez e seguimos em comboio pela zona portuária. Dali em diante a bruxa estaria solta. Um acidente de pequenas proporções aconteceu. Francisco e Angelina seguiam com o grupo no ritmo dos 20km/h quando, ao tentar passar pelos trilhos do trem que corta a rua, "perderam a frente" e caíram. O pneu deslizou no aço molhado e escorregou, levando-os ao chão. O susto foi geral, e Angelina ficou ali no chão por cinco minutos. Enquanto uns organizavam o trânsito ali, outros retiravam o excesso de motonetas da rua. Breno, que é médico, foi verificar as condições de Angelina. Entrou em cena a importância do carro de apoio, com Leo Russo e Cláudia. Às vezes um utilitário ajuda menos, nesse dia não seria preciso. Angelina tinha machucado a perna esquerna, e seguiria com o casal no carro até seu hospital em São Paulo. Francisco estava bem, ou parecia estar, e acompanharia o comboio na temível tarefa de levar as crianças de volta pra casa. O susto desencadeou uma nova brisa na maresia. A tensão estava no ar. Delacorte e os amigos da baixada nos guiaram até um posto, aonde fizemos a última parada de abastecimento, café e despedida. Era 16h15. Em blocos conversei com quase todos, orientando novamente sobre a formação de comboio e a atenção com a pista molhada pois a subida da Serra é mais perigosa por causa da volta dos turistas mamados pro conforto dos seus lares. Sr.Artur se mostrava preocupado com Francisco e até se sentia culpado pelo acidente com o amigo. (Na verdade ele caiu sozinho, sem influência de ninguém mais). Enquanto eu conversava com o pessoal sobre a formação de comboio e cuidados, o coroa inconveniente veio novamente me acelerar pra puxar o grupo para ir embora logo. Essa foi a última vez que ele apita alguma coisa aonde a gente estiver!!! Antes mesmo de concluir o assunto uma parte já tinha ido pra pista. Ainda fiquei por lá aguardando o restante que ligava as motonetas, deixando meu afetuoso abraço aos amigos da baixada, e os parabéns pelo trabalho mais bem-feito que Delacorte, Luca, e seus camaradas, tiveram conosco até hoje. Simplicidade e lógica foram a chave dessa organização.



Enfim. A garoa não dava tréguas, e por isso a nossa velocidade não passava mesmo dos 60km/h. A atenção da equipe se voltava para alertar os condutores sobre o uso dos faróis e setas, e a regra do comboio. Alguns verdadeiros vacilões não conseguiam se estabelecer no plano Z e realizavam ultrapassagens desnecessárias durante a viagem. Ainda assim o comboio estava firme no chão ocupando apenas uma pista, compenetrados no caminho. Só que as fatalidades podem acontecer quando menos se espera, e se deu, pela primeira vez em quase quatro anos de Scooteria Paulista, e em quase seis anos de concentrações e giros que organizo. Na subida da Imigrantes após a Rod.Cônego Domênico o motor da 150 Super da Rosa travou. Mário Baraçal, seu marido, que vinha atrás numa PX200, ao frear derrapou no asfalto molhado e veio a colidir bruscamente na lateral da setentinha. Na queda Mário foi atingido na costela pelo pneu da Vespa PX do Índio que vinha na sequência, vindo ao chão com seu filho na garupa. Eu vi a cena, uma fotografia triste e eterna que nunca fugirá da minha e de tantas outras lembranças que testemunharam o fato. Paramos no acostamento rapidamente, e enquanto uns sinalizavam para os carros, Favero trouxe a Super que estava lá na segunda faixa da rodovia. O comboio se desintegrou ali, pois os pontas não notaram o acidente e seguiram adiante, levando alguns na rabeta. Índio machucara a mão e reclamava, e seu filho sentia dores na perna. Em ambos os casos não havia nada de mais além dos machucados. Com a Rosa idem, apenas umas dores no joelho. Todavia o estrago mesmo ficou com nosso amigo Mário, deitado no chão molhado com fortes dores, já esbranquiçava, assustando ainda mais a todos nós a cada desmaio subito. Enquanto o resgate vinha, outra parte do comboio seguiu viagem para não arriscarmos o grupo. Edu Parez e Silvia, que haviam chegado a pouco de carro na traseira do comboio seguiram junto oferecendo proteção na retaguarda do agrupamento. Falei com Hernán e Ambrósio pelo telefone, e de nada adiantaria eles nos aguardarem no meio da estrada, então decidiram tocar até São Paulo. Favero, Reginaldo, Faverinho e eu ficamos com os acidentados enquanto Much levaria rodando a PX do Mário pra São Paulo. O resgate chegou rápido e com todos os cuidados levou Mário para o Pronto Socorro de Cubatão. A tristeza e o desolamento era expressivo na face de cada um ali do lado da ambulância. Força Super Mário!! Restava-nos levar a Rosa pra casa com sua Super sem farol. Reginaldo injetou mais óleo e destravou o motor. E rapidamente deixamos o acostamento, formando um campo de proteção para a amiga. Pelo nebuloso fim de tarde de forte chuva subimos a Serra, que àquela altura já tinha perdido toda a graça. Sem gracejos passamos por São Bernardo, Santo André e Diadema até a zona sul de São Paulo. Segui com a Rosa até sua casa, para ter certeza de que chegaria de fato bem, e talvez já conseguir alguma notícia do Mário. No caminho passamos batido pela turma da frente que nos aguardava em peso num posto de combustível da Av.Ricardo Jaffet. Mas era tarde para parar, e desnecessario, diante da pressa médica. A noite na Free Willy tentavamos entender o que exatamente aconteceu, e o que mudar dali em diante.

Mario ja esta em sua casa, fraturou cinco costelas e precisa de uns meses para se recuperar. Indio e Gustavo estao bem, e caberao aos acidentados entrarem num senso comum quanto aos prejuizos. Rosa esta ok, com sua Super necessitando de um bom martelinho de ouro. Francisco teve tres costelas fraturadas e assim como Mario, esta de molho. Angelina teve so escoriacoes na perna, nada de mais diante dos outros. Mais uma vez o Raduno divide aguas para o ano seguinte, novamente ele trouxe a tona as necessidades do proximo ano. Crescemos muito a cada Raduno, sobretudo corrigindo os erros, e separando naturalmente o joio do trigo. Por mais que tenhamos tentado de tudo para manter o comboio protegido e organizado, nem sempre acertamos. Enquanto refletimos sobre os fatos e organizamos a planilha de uma nova etica pra 2014, esperamos que esses relatos  e essa experiencia sirva de referencia e exemplo para os futuros comboios do mundo das duas rodas. Em fracoes de segundos um sonho pode virar pesadelo, e a amizade pode virar rusga. Agradecemos a todos pela compreensao e pela ajuda nos momentos necessarios. Esperamos que todos assumam agora uma postura mais preventiva durante as viagens em comboio. Faremos por onde para que isso seja parte da cultura dos errantes. Fica aqui diretamente do interior paulista o Dead Rocks, com o tema Boogie Splash Crash.

Fotos por Mestrinelli e Fidelis
Relato por Fidelis 

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