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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

II Expedição Tropeira Brasil Paraguay (Parte 05 de 05)

E deixo aqui meu último relato da nossa Road Trip internacional. Lembrando que somos quatro dois-tempistas: Vespaparazzi (Vespa M3), Hernán (PX200), Assef (Vespa Super) e eu Fidelis (Originale). Além do carro de apoio da patrocinadora JWT com o João e Koba. Estamos na reta final, é Brasil minha gente...



Quarta-feira, 06 de novembro: Laranjeiras do Sul - Curitiba
PIRATAS DA ESTRADA

A agradável manhã em Laranjeiras do Sul começava com um típico café da manhã caseiro - de casa, não de condomínio. (Café, queijo, bolo...). Tínhamos 400 kms a fazer naquele dia. E a tocada prosseguia em meio aos grandes caminhões da região. Madeira em quase todos eles. Imagine o que não passaria na sua cabeça rodar espremido com os seus entre duas carretas pilhadas de tronco? Rodamos uma hora, sentindo o Vespaparazzi perder fôlego na subida. A princípio Vespão cria que fosse o peso das bagagens e dos acessórios da M3. E aí a média do grupo caía para 70 km/h. Passávamos muito tempo travados no meio de frotas e mais frotas de caminhões, isso foi até Curitiba. Depois de 70 arrastados quilômetros Vespão parou no acostamento e pediu um tempo. Sacou suas ferramentas, tirou o parafuso do óleo do câmbio e verificou o nível: vazio. Era preciso abrir o motor para resolver esse vazamento, ou completar o nível a cada dia. Depois de cheio ele já recobraria, na primeira subida, a velha força da Esmeralda. Conforme Hernán narrou no blog da "Etiqueta": "a decisão foi ele ir na liderança e eu no segundo posto. Por que? Porque Vespão não tem velocímetro, então eu ia marcar quando ele estava indo muito devagar, ou muito rápido. E deu certo. Também ajudou um esquema para as subidas: eu ultrapassava o Vespão e ele ficava no vácuo da minha Vespa. Isso ajudou bastante e a gente conseguiu avançar num ritmo muito bom, fazendo percursos de até 100 km de uma só vez". Em Guarapuava abastecemos rapidamente e tocamos, puxando nova formação comigo de ferrolho comunicando com os veículos e com o nosso ponta ao mesmo tempo. Hernán tinha o motor mais forte, e La Negrita puxava forte nas ultrapassagens de longa distância. Era 12h30 quando paramos para abastecer em Guarapuava. O pessoal estava com fome e decidira ali mesmo almoçar. O aspecto da viagem mudava por completo, tínhamos uma combinação de belas paisagens com a bruteza do caminho estreito e congestionado. Um caminhoneiro sugeriu, por segurança, que tomássemos um rumo diferente do usual: pela 373 até Ponta Grossa. Rodaríamos 30 kms a mais. E o conselho pareceu ter sido bom, até porque foi o que ouvimos quando chegamos em Ponta Grossa, depois de 170kms de giro alto. A dinâmica da viagem já era outra, mais ligeira, esperta, era o Carrossel Holandês de 74, com Assef e Hernán revezando posições na vertical, Vespão puxando o ataque em velocidade e comigo fazendo a linha de impedimento. Motonetas e condutores em plena forma tiravam da Laranja Mecânica o sumo e o bagaço.


Em Ponta Grossa abastecemos e descansamos as motos. Creio que era 17h quando pedimos uns lanches leves na chapa com café. Um sujeito boa praça que passava no contou um pouco da sua história, de quando viveu na Itália e tivera algumas Vespas. Era um apaixonado pela marca, falou da PX, da Sprint, e da LX. Até a próxima parada de combustível a viagem ficava mais emocionante, o campo abria e o vento batia forte baixando a temperatura a cada minuto. Em Campo Largo completamos os tanques pela última vez, e foi quando me comuniquei diretamente com o Farid (que tinha chegado do Paraguay dois dias antes). Dali em diante a nossa atenção se concentraria mais na mudança de pistas do que nas ultrapassagens a que éramos ingratamente submetidos hehehe. Mantínhamos os 80km/h sob um céu da cor de chumbo e um ar cheirando o diesel queimado ao óleo: um tempero forte para apimentar as napas! E pela BR376 entrávamos em Curitiba, dessa vez por uma porta inédita: a porta do oeste. Entre placas e informações eis que passeávamos no trânsito tranquilo da metrópole paranaense até o bairro Barigui, aonde abastecemos e checamos o caminho até a JWT curitibana - um compromisso profissional. Thaís Picelli nos recebeu na empresa com simpatia, nas linhas do Hernán: "Sujos, com 400 km de estrada e onze horas de viagem em cima, conhecemos o prédio. Muito bonito mesmo, dava vontade de armar as barracas no playground". 

Então seguimos para o apartamento do Farid, o vespista do Vesparaná Club - presença no SP em Vespa e Lambretta 2013 (que veio pra andar de Vespa e andou escorregando para a esbórnia com travecos kkkkk) e no I Encuentro de Vespas en Paraguay. O parceiro nos ofereceu tudo o que queríamos, e o que não podíamos também. Entre um trago e outro no whisky da casa eis que chega o nosso amigo Ito "8" e seu filhão. Foi uma visita rápida para um abraço, mas o bastante para transmitir-nos confiança e calor humano. Depois dos banhos Farid nos levou para o Centro Cívico da cidade. Caminhar pelo centro de Curitiba a noite é uma outra história. As rua limpas e vazias, as luzes amarelas e o sereno do frio curitibano foi a fotografia mental da nossa última noite. No Alemão nos fartamos de verdade, acompanhados de algumas cervejas na caneca e dos "Tirinhos do Farid", uma sequência surreal e extremamente ilária de alucinações humorísticas que deixaria o Marcelo Adnet ou o Porta dos Fundos inteiro no banco de reservas. O cara é um figurassa!! Depois da separação e da visita ao encontro paraguaio decidiu bater o martelo e pôr na cabeça o projeto de morar pro lado de lá da fronteira. Quem sabe aqueceríamos o mercado brasileiro de acessórios e peças raras pela porteira do vizinho... crê ele. A meia-noite voltamos aos tragos nos santos cigarrinhos. A turma capotou pela sala enquanto Hernán foi direto pro quarto solo. Eu passei mais uma hora tomando uns tragos e trocando uma idéia com o Farid. O som da vez então fica do papo com o Ito, que falou do Gabba, vespista Mod da cidade (que hoje vive fora), e esse tema tem na Vespa um dado existencial: Os Carros - Tarja Preta.

Quinta-feira, 07 de novembro - Curitiba - São Paulo
O ÚLTIMO DUELO

Acordamos com o café na mesa. Farid cuidava de tudo, e vale lembrar que era a segunda vez que o Vesparaná Club nos hospedava com tamanho carinho. Depois dos banhos, reunimos nossas coisas e partimos pra estrada, na companhia do curitibano mais rápido que um linguista poderia conhecer. Depois da foto de despedida num posto da zona urbana da Regis Bittencourt, nosso cicerone nos acompanhou pelos kms finais, tomando o retorno num buzinaço de agradecimento ao parceiro.


Era 11h e a chuva apertava na saída de Curitiba. Passamos beirando o portal da Estrada da Graciosa, e assim como foi no Curitiba em Vespa 2010, ali a bendita água caía sem tréguas do céu. Seguíamos firme na chuva, tomando um rastro de 200 metros na pista, uma questão de segurança para a ocasião. Depois de Campina Grande do Sul fizemos uma forçosa parada para combustível e manutenção: Vespão precisou improvisar uma tampa para o carburador no local da falta (necessária) da mangueira de ar. E foi uma santa parada. Precisávamos de mais um café, daquele biscoito de polvilho que o Diego e o João trouxeram, do par de luvas que o Assef comprou. Um sujeito veio contar-nos da Vespa que seu pai teve, e estava admirado com nossa aventura. Bom, dali tocamos mais ligeiramente. Hernán estava preocupado com o fato daquela estrada ter ganho, no passado, o apelidinho de "rodovia da morte". E a gente estava nela, numa "singela tarde de chuva e ventania", dividindo pista com imensos caminhões carregados a 120 km/h. E a gente a 80. Por causa de uma reforma, passamos pela ponte da mão oposta da Represa do Capivari, uma das mais belas paisagens que existe nesse caminho todo. Quando a chuva deu uma trégua resolvi dar uma voltinha e acelerei um pouco a mais. Sumi na frente por uns minutos, afim de curtir um pouco mais meu motor naquelas curvas da serra. Antes da divisa diminuí para que passássemos juntos por ela. A alegria era geral: "Bem-vindos ao Estado de São Paulo". Nos sentíamos em casa! E dali em diante uma ansiedade "quebra-regras" acelerou as nossas Vespas. Vespão na frente puxava pra 95km/h a tocada. Assef acompanhava atento a retaguarda enquanto Hernán e o carro sumia 500 metros pra trás. Era divertido, ali de fato era. Mas a brincadeira durou no máximo 25 kms. No segundo pedágio da viagem Hernán encostou em mim e indignado disse "Marcio, a xente fiaxou 3000 quilômetros a 80 km/h e acora em plena rotofia da muerte, com chufa e caminhões focês querem correr?". Eu ria, e mandei ele lá pro Vespão. "Reclame com ele"!! kkkkkk De longe Assef rachava o bico vendo o Hernán gesticular com o pescoço arqueado falando o mesmo pro Vespaparazzi. Revezávamos os pagamentos do pedágio afim de economizar tempo. Então Hernán tomou a frente no comboio, determinando que voltássemos pro velho ritmo, os combinados oitenta. Era quase 15h quando paramos para o almoço em Cajati. O clima de despedida já pairava no ar. Já falávamos de outros projetos e expedições, de armarmos um churrasco nosso para ver os vídeos, e "zas e zas e zas". Comemos um verdadeiro PF, algo mais próximo do marmitex a que o Vespão tanto se referia durante toda a viagem. "Marmitex é o que há!"


Reta final. Passamos por Miracatu e todo aquele bananal, e na sequência a cidade de Registro. Os velhos buracos naquele trecho foram recapeados, e de fato o chão estava bom. Foi em Juquitiba que fizemos a última parada rodoviária de toda a Expedição. O farol do Assef havia queimado a pouco, então nesse tempo da troca atualizamos a net e tomamos um café. De repente toca meu telefone - meu Tim e Claro voltaram a funcionar -, era o Koré perguntando por nós. Na internet os amigos mandavam saudações e boas-vindas. O coração batia mais forte sabendo que dentro de duas horas estaríamos dentro da grande cidade da qual partimos a 11 dias e algumas horas atrás. Então as 17h tomamos o rumo da serra, um trecho terrível, que já anunciava a qualquer passante o caos a que estava se inserindo. Usei a câmera no peito e prezei pelos takes mais difíceis em meio aos caminhões. A velha formação de comboio já tinha ido para as cucuias. Tínhamos que nos infiltrar nos corredores, driblar buracos, e buscar a marcha certa para cada trecho. Aquele lugarzinho terrível é chamado São Lourenço da Serra, e mais parece um pátio de caminhões do que uma rodovia.


Às 18h passamos por Itapecerica da Serra, e a quantidade de motos populares pela pista já nos ambientava com a metrópole. A cultura motociclística já era outra. Diferente do que rolou em toda a Expedição, os motoqueiros e afins ali passavam rindo com suas CG's de roda rosa... hehehehe, melhor que não entendam mesmo o que a gente faz. E nós já comemorávamos como se fosse São Paulo ali, como ter o placar ao seu favor aos 40 do segundo tempo no segundo jogo da final. Depois do Rodoanel de Embú chegamos em Taboão da Serra encarando um carregado trânsito da hora do rush. Depois de "empurrar" nossas motonetas e o carro por meia hora paramos num posto Shell da Av.Francisco Morato para a triste despedida. Apesar do cansaço e da saudade das coisas todas que tínhamos deixado pra trás, a sensação geral era de completude, e de querer mais. De certa forma parecia inacreditável que o fim havia chegado. Até enrolamos um tempo desnecessário por lá, afim de eternizar aquela viagem em nossas lembranças e corações. Nos abraçamos repetidamente. Alguém gritou "é tetraaaaa é tetraaaaa" enquanto Pelé pulava na cabine. Era 20h quando ligamos nossas Vespas e partimos juntos em comboio, insistindo em manter a união que tão poucos podem desfrutar durante suas confortáveis vidas. Chorei no capacete, disfarçando bem para não ser notado. Vespão foi o primeiro a deixar-nos, tomando a Marginal Pinheiros rumo ao norte. Depois foi o Hernán pros caminhos de Pinheiros. Então o carro com João e Diego e em seguida o Assef. Para mim a Radial Leste parecia triste e solitária. Mas foi mais ou menos assim meus amigos. São minhas palavras e minha percepção da viagem, o que não conta nem um décimo do que foi essa viagem.

Agradeço aos meus amigos de estrada Vespaparazzi, Hernán, Assef, João e Koba. Também ao Much que veio a adentrar a história paraguaia. À JWThompson pelo investimento. Ao Eder Vespa por ter aberto o caminho da Expedição a um ano atrás com o Vespão. À Free Willy pelo empréstimo das peças e todo o apoio moral. Ao Vespa Club Paraguay pela iniciativa de organizar esse tremendo encontro, ao Jorge Colman e ao Farid pelas prestatividades e ao Corradino D'Ascânio por criar essa espécie metade humana de máquina chamada Vespa. Espero que essas mal-traçadas linhas inspire pessoas à vida enquanto há, e a respeitar seus amigos enquanto eles o tem em alta quota. Até a próxima viagem!! E essa foi a que os caras cansaram de me ouvir cantar na volta do Paraguay (sabe-se lá porque): Stand By Me - The Beatles.



CONSIDERAÇÕES FINAIS
Realizar uma viagem dessas, em grupo, em motores clássicos de baixa cilindrada, por duas semanas, pra fora do seu país, é uma coisa fatalmente lúdica na vida de um homem. É capaz de tirar de órbita a sua cabeça para nunca mais voltar ao plano da razão ou do senso-comum. Eu confesso que quando cheguei da trip senti um vazio existencial sem fundo, uma escuridão dentro do peito. Anunciei na internet: "Fidelis vende tudo". Saí de órbita, talvez foram meus amigos que me seguraram um pouco mais aqui em São Paulo. Esse é o tipo de turnê que se der certo, a amizade se eleva ao nível da cumplicidade no crime; mas se der errado, tudo vai pro saco, inclusive o seu clube. Prezamos pela segurança total, e pra começar considerei um critério como ponto de partida dessa II Expedição: o comboio só seria formado por membros da Scooteria Paulista. Todos concordaram, e não havia nisso um pingo de diferença com os colegas e amigos de outros clubes e afins. Foi uma conduta conversada. Tratava-se de um projeto sério, que envolvia uma grana e muitas marcas, com contrato assinado e reconhecido em cartório via JWT. (Vai sair um "vídeo show" disso, e talvez até mesmo o Assef não apareça nele por ter decidido de última hora alcançar-nos no caminho). Fato é que não fosse isso, teríamos realizado a viagem do mesmo jeito, mas com a grana da janta, trocando cartões postais por gasolina, e pedindo uma ajuda para o povo brasileiro. Estamos felizes pelo que vivemos, e da maneira como foi, e não vemos a hora de partir voltar pra estrada novamente. A gente sabe dos nossos limites e de todo o azar do amadorismo, mas o encanto está na máxima: "ser ou não ser". Do pó viemos, ao pó voltaremos, e não, não temos medo, porque quem somos sabemos. glu glu yeyé!

Relato por Marcio Fidelis
Fotos: João Unzer

3 comentários:

Anônimo disse...

MUITO BOM, FICOU LEGAL O DIARIO DE BORDO, DA VONTADE DE ESTAR LÁ. FIDELIS GUARDA UM CARTÃO POSTAL PRA MIM E OS MOTORINOS. VOU COMPRAR.

PJ LAMMY

Anônimo disse...

MUITO BOM, FICOU LEGAL O DIARIO DE BORDO, DA VONTADE DE ESTAR LÁ. FIDELIS GUARDA UM CARTÃO POSTAL PRA MIM E OS MOTORINOS. VOU COMPRAR.

PJ LAMMY

Frederico disse...

voces vieram na minha cidade miracatu no vale da ribeira
ja tinha acompanhado antes o blog e vi no gogle que voces passaram denovo. aqui ninguem anda de lambreta mas eu to querendo. pessoal aqui me conhece de frederico, do armarinho frederico