Últimas Imagens

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

II Expedição Tropeira Brasil Paraguay (Parte 01 de 05)

Vamos lá!! Em 5 etapas tentarei relatar um pouco dessa incrível viagem internacional que fizemos, levando mais uma vez a bandeira da (e de) SP para além das fronteiras. Os personagens: Walter Vespaparazzi, Hernán Rebaldería, Rafael Assef, Fabio Much e eu, Marcio Fidelis. O tema: II Expedição Tropeira Brasil-Paraguay, apelidada, por questões profissionais, para The Business Road Trip, patrocinada pela JWT. Período: 12 dias. Objetivo: realizar um tiro longo e prestigiar o grande encontro sul-americano de vespistas. 


28 de Outubro, São Paulo-Assis
ERA UMA VEZ NO OESTE

7h da manhã, era segunda-feira e a semana começava em São Paulo. Com a ajuda do Diego Pontes, Vespaparazzi e eu levamos nas Vespas nossos pertences e as peças de reposição (consignadas pela Free Willy) da Mooca até o Paraíso. Hernán ajudava a equipe a arrumar o carro com o João Unzer e o Diego Koba, respectivamente Diretor de Arte e Produtor. O carro era um Ford Fiesta com pneus Bridgestone, e dentro um combo com diversos produtos que utilizaríamos durante toda a viagem, como os enlatados Gomes da Costa, latas de Coca-Cola, lenços Kimberly Clark, ferramentas Tramontina, produtos da Drogasil, da Pernambucanas, da Avon, Windows etc. Tínhamos a Shell envolvida nisso também, e daí veio o combustível e o óleo 2 Tempos. Bom, tudo isso ficava aos cuidados da equipe patrocinadora, a JWT. Da gente mesmo, a Scooteria Paulista, faríamos o de sempre: acelerar, realizar reparos, conhecer pessoas e desfrutar dos caminhos. Vamos lá!! Tomamos a Marginal Pinheiros, passamos pelo primeiro pedágio da Castelo Branco, ainda apreensivos com o futuro da viagem e com a presença de um carro conosco. Já na saída da metrópole fomos cumprimentados por dezenas de motociclistas e motoristas. Mas nada era comparável a festa que João Medeiros fez quando nos viu. O nosso camarada simplesmente passava pela rodovia ali pela região de Barueri no mesmo exato momento. João estava vibrante e aquela coincidência nos enchia de confiança. Rodamos 100 kms na média dos 80 por hora. Na primeira parada Hernán me alertou sobre o risco da antena com a bandeirola do Estado de São Paulo instalada em minha Vespa se quebrar na ventania. Saquei ela fora e aproveitei para trocar o pneu dianteiro, quase careca. Todavia durante a troca detectei uma bolha no step semi-novo. Destino: lixo. Voltei com o velho barrachão malhado pra Castelo Branco, e seguimos, revezando posições na formação rodoviária. Na segunda parada João e Diego identificaram um problema no acendedor automático do painel do carro, indispensável para carregar as baterias dos equipamentos. O sol se firmava conforme a manhã se esvaia. Dizia Hernán que "o clima estava ideal e tomara que continue desse jeito: sol, algumas nuvens, e não muito calor". Vespaparazzi estava tão contente que contagiava. Tanto ele quanto eu sabemos  bem o que é passar apuros financeiros e encarar centenas de quilômetros em Vespa só com o dinheiro do combustível e do óleo. Dessa tínhamos a conta paga, e aí morava o barato das coisas. O clima era dos melhores, um prenúncio de uma história sem fim que vai deixar saudades. Ultrapassando caminhões, surpreendendo motoristas, cortando a ventania, rumávamos para o oeste. Depois de 200 kms rodados, já na hora em que o sol nos derretia os cabelos, paramos pro almoço, margeando a cidadela de Iaras. O oeste paulista tem um cheiro peculiar, que tem a ver com um cheiro da terra misturado ao da cana-de-açúcar, temperado pelo mormaço do asfalto irregular das menores rodovias. Pela Raposo Tavares víamos pilhas e pilhas de máquinas agrícolas de outrora abandonadas ao relento, dando à fotografia da viagem um algo de Tarantino. 


O objetivo nesse dia era chegar em Assis, cidade que já foi minha, e aonde vive parte da minha família. E às 18h tomamos a avenida principal. Para a nossa surpresa não havia nada (nadinha) de trânsito. E para o espanto do povo local, emparelhamo-nos, lentamente, por aquelas ruas, como três forasteiros a galope com o pó da viagem na testa e um cigarro no canto da boca. Deixei os rapazes todos engatilhados num recomendado hotel da cidade e já de noite segui para o subúrbio, para finalmente desfrutar dos cuidados e do amor da mamãe. Vespaparazzi tinha que trabalhar um pouco à distância em seu site Vespaparazzi. Enquanto João e Hernán se concentravam no tratamento das imagens do dia e no diário de bordo escrito pela ótica da JWT. Diego organizava a contabilidade e tudo o que precisávamos. Nesse dia percorremos 430 kms. Tema do dia: Once Upon a Time in West - Ennio Morricone.

29 de Outubro, Assis-Campo Mourão: 
RIO VERMELHO

Às 8h30 da manhã nos reunimos na oficina do Xandão, lambrettista-mecânico e ex-competidor das corridas de rua dos anos 60 e 70. Xandão fora amigo do meu avô Chico Fidelis, e minha presença ali outra vez dispensou apresentações e cerimônias. Enquanto ele me mostrava as fotos do passado, Vespaparazzi ali mesmo deitou no chão e por uma hora trabalhou na troca do retentor rachado. No meio da conversa toda, entusiasmado com nossa visita, o velho lambrettista pegou o telefone e comunicou ao Diário de Assis da nossa passagem pela cidade. Vinte minutos depois o carro da reportagem parava na porta. (Na próxima semana publico aqui a matéria). As 11h deixamos Assis pela Rodovia Miguel Jubran. Muito sol e céu aberto, o que me preocupava, pois seguia com o pneu careca - não encontrei nenhum compatível na cidade. Hernan e Vespão seguravam um pouco o ritmo por causa dos buracos e irregularidades da pista. Ali eu estava familiarizado e pilotando (motocicleta) já rodei nessa estrada por mais de cinquenta vezes no passado. Ao chegarmos na divisa entre São Paulo e Paraná paramos para o João fazer alguns testes com a câmera aérea. Não foi dessa vez. Seguimos viagem, com o carro junto realizando os registros. No Paraná pagávamos os pedágios mais caros. Antes de entrar em Londrina tomamos o caminho pra Arapongas pela PR986. Passamos Cambé, Rolândia e alguns vilarejos. Encarávamos aqui os primeiros desafios rodoviários com os caminhões, pois rodávamos por pistas estreitas e de mão dupla. A cada parada eu procurava por um ponto de Wi-Fi para me comunicar com o Assef, que estava (quase) decidido a tomar a estrada na madrugada e nos encontrar pelo caminho. Quase em Mandaguari paramos à beira-pista para um piquenique. Até aquele momento já tínhamos cumprimentado mais de 100 pessoas pelo caminho, acho que muito devido à presença do mascarado Vespaparazzi, cuja figura militar um tanto sombria me faz remeter ao personagem Jonah Hex, um anti-herói confederado do gênero western. Do outro lado da estrada a soja seca da cor de palha tornava o momento bastante lúdico, diga-se de passagem, como em algumas capas do The Catcher in the Rye (O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D.Salinger). Por volta das 15h30 recolhemos a coisa toda e seguimos na mesma tocada, e a cada quilômetro avançado, mais belo ficava o sol baixo na nossa direita.



Passamos por Maringá e a magia da viagem só aumentava. Vespão brincava com os caminhoneiros como se conhecesse todos eles. Hernán se portava como um velho estradeiro, firme ao guidão, já familiarizado com a pegada rodoviária. Diego levava o carro com prudência e João tentava capturar todas as cenas e detalhes da gente em pista. Depois de Peabiru o dia partia rapidamente, e os insetos saíam para jantar. Muitos deles carregamos esmagados nos escudos das nossas Vespas até Campo Mourão. Sim, chegávamos, às 19h, depois de 320 kms cravados. Negociamos dois quartos apertados e nos esprememos ali mesmo, pois a contabilidade da viagem era curta.


Pelas 21h30 saímos a pé para tomar umas e comer um lanche de praça. Foi nessa que o Vespaparazzi contou pra gente uma parte da sua tocante infância. (Um dia ele contará pra vocês). Preciso dizer aqui que, na mesma noite, antes de dormir acessei a net, e li a reclamação pública de um colega (??) que gratuitamente incomodado com a nossa viagem, se referia a mim (ou a algum dos nossos) como anti-scooterista sendo aplaudido e blablablá. Ok. Mas o que é que vou contar lá em casa? Qual é a real necessidade disso? Acho mesmo que está mais do que na hora de cada um cuidar da sua vidinha, da sua saúde, das suas posses, da sua mente, do seu clube, das palavras que usa. Parafraseio o Christian Orellano nessa hora: "muita gente se acha o neto do Enrico Piaggio". Tema do dia: O Mundo é Um Moinho - Cartola.

30 de Outubro, Campo-Mourão-Foz do Iguaçú
SANGUE AVENTUREIRO

Após o café recebemos no hotel a ilustre visita do sr.Ferreira, ex-vespista pai do Emerson Mestrinelli, um dos nossos. Sua visita dava um tom familiar para a nova etapa da viagem, conectando-nos ao amigo que ficou na capital paulista. O sr.Ferreira nos acompanhou até uma loja de pneus, ao posto de combustível e à saída da cidade. O lance dos pneus foi o seguinte: eu ainda estava com o dianteiro irregular, careca, na esperança de encontrar pelo caminho um compatível - que não fosse o mesmo das scooters modernas. Não foi dessa vez. Seguimos pela PR369 sempre no ritmo dos 80km/h. Havia uma certa preocupação do pessoal em filmar muito pela região, o que segurava um pouco a viagem. Sem problemas (como diria Jorge Colman), a gente parava, combinava o take, gravava e seguia adiante. Foi numa dessas que conhecemos o sr.Walter Otto, um argentino portenho de 73 anos que desfrutava sozinho de sua juventude com seu fusca 1961 pelo Brasil. Scooterista veterano que nos contou da sua Siambretta LD 1957 e sua BSU 1963. Imagine a satisfação do Hernán ao encontrar um compatriota aventureiro no meio da cruzada...


Em Corbélia paramos para o almoço e atualizamos notícias. Hernán bem observou em seu diário: "A gente já começou a entender a melhor dinâmica para não cansar tanto, mas também avançar o máximo possível. A cada 50 km a gente pára, descansa um pouco, bebe água, tira algumas fotos, e continua". Vespaparazzi como sempre era bastante solícito com as mil perguntas dos motociclistas e motoristas que conhecíamos a cada parada. E todos queriam uma foto com ele ou com sua Vespa, a Esmeralda. Naquelas redondezas saquei a câmera da cinta e tentei fazer alguns takes malabaristas com a câmera na mão esquerda acelerando a 80km/h. João lá atrás no carro abria o sorriso a cada arriscada, devia estar passando o filme todo na cabeça dele. Depois de Cascavel o trânsito aumentava. Muito porque a cidade serve de trevo para três ou quatro rodovias de intenso tráfego carreteiro. Desenvolvíamos ali um forte sentido de proteção, e o Vespão puxava a frente, uma vez que já tinha realizado a mesma rota ao lado do Eder Vespa na I Expedição Brasil-Paraguay (2012). Depois de Medianeira a sensação de conquista começava a se fazer presente. Vespão notara a minha chateação durante o dia de viagem - devido ao raso julgamento feito pelo "neto do Enrico Piaggio". É, um estradeiro não tem muito a fazer senão refletir, sendo embaixo do seu chapéu ou dentro do seu capacete. E foi entrando em Foz do Iguaçú, naquele pequeno caos comercial, que a gente, finalmente, pôde brindar o progresso da viagem. Antes disso, um guia turístico - tem milhares por lá te caçando a unha na rua - nos levou para um hotel barato, próximo da fronteira. Negociamos um quarto para cinco pessoas e por lá ficamos. E eis que então chega o ilustre Jorge Colman, membro do Vespa Club Paraguay que vive em Ciudad del Este. Veio para nos dar as boas-vindas antecipadas, e dizer que estava em contato com o Fabio Much, e que buscaria o nosso amigo no aeroporto logo pela manhã. No mesmo instante leio a incrível notícia de que o Rafa Assef decidira, de veneta, tomar a estrada com sua Vespa Super, e que sairia nas próximas horas de São Paulo. Nesse dia tínhamos percorrido 320 kms. A coluna pedia arrego. Tema do dia: Let It Be - The Beatles.


31 de Outubro, Foz do Iguaçú e Santa Terezinha de Itaipú
OS PROFISSIONAIS

Tiramos o dia pro lazer. (Na real tiramos 12 dias pra isso). A equipe se dividiu em duas: João e Diego saíram às compras das coisas pro churrasco, enquanto que o Vespão, Hernán e eu, fomos tirar a tal da Carta Verde, um seguro exigido no Mercosul para o livre trânsito de veículos estrangeiros. Era meio-dia quando recebi a mensagem do Assef dizendo que já estava em Ourinhos (SP). A notícia foi um tanto animadora pra gente. Passei para ele algumas coordenadas e retornamos para o hotel. Eis então que chega o Jorge Colman com o Fabio Much (wooou!!). A gang aumentava. Colman voltou para o trabalho e Much seguiu conosco para o churras num parque em Santa Terezinha de Itaipú. Nesse dia quase me joguei no fundo do rio pois a turma esqueceu de comprar as cervejas. Caso sanado a tempo pelo Muchiba, que voltou pra Foz com o Diego para buscar parte dos equipamentos esquecidos. Os rapazes da JWT estavam a mil aproveitando cada detalhe do dia para captação de imagens. Puseram em prática o helicóptero no meio do campado de trigo da região, tiraram fotos artísticas e algumas cenas noturnas. Às 20h retornamos pro hotel, e para a nossa surpresa, dois membros do Moto Club Cataratas vieram até nós e nos convidaram para a reunião/jantar na Sede deles, do outro lado da rua. Topamos, e fomos muito bem recebidos. Vespaparazzi, que é amigo dos moto clubes, se sentia mais à vontade ainda. A Sede era constituída de sala, cozinha, banheiro e um quarto administrativo. Na sala ficavam os cartazes, souvenires e troféus trazidos das dezenas de eventos que participaram na última década. Na cozinha preparavam uma carne acebolada no pão francês. Nos fartamos e tivemos um raro momento de identificação entre as categorias. Nesse meio tempo o pessoal da JWT trabalhava nas imagens, no blog da viagem e na contabilidade do dia. A meia noite nos encontramos no bar da frente do hotel, e ali brindamos a viagem e alinhamos as idéias sobre a Scooteria Paulista nisso tudo. Fabio Much se apertou no mesmo quarto que a gente, e pela metade da madrugada a parte boêmia da viagem foi pro sono. Tínhamos rodados nesse dia algo em torno de 100 kms. Tema do dia: Why Try To Change Me Now - Frank Sinatra.

Próximo post: Da Viagem Pelo Paraguay...

Relato por Marcio Fidelis
Fotos por João Unzer, Hernan e Fidelis

Um comentário:

Anônimo disse...

EMOCIONANTE ESSE DIÁRIO DE BORDO. MUITO BEM ESCRITO. PARABENS FIDELIS, GOSTEI DEMAIS.

PJ LAMMY