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sábado, 30 de novembro de 2013

II Expedição Tropeira Brasil Paraguay (Parte 04 de 05)

Depois de sete dias longe de casa, de quase quatro dias de Paraguay, chegou a hora da volta, correria que narraremos em duas etapas finais em nosso registro virtual. Pois bem, Rafael Assef havia chegado no sábado, a tempo de curtir a reta final do evento, ao lado do Vespaparazzi, Hernán Rebalderia, Fabio Much e eu, Marcio Fidelis. Da equipe patrocinadora - JWT -, havia um carro de apoio, com Diego Koba e João Unzer. E foi assim...



Segunda-feira, 04 de Novembro - Encarnación (PAR) - El Dorado (ARG)
OS PISTOLEIROS DA FRONTEIRA

A turma acordou no pique, já com as motonetas lavadas, menos eu. Vespaparazzi havia trocado o óleo de câmbio de todas elas, prevenções de um rodoviário ativo. Diego Lopes, sim o paraguaio, mais dois de seus amigos estavam conosco até os últimos momentos, e acamparam no Parque Quiteria também. Nano Aliaga, sim, o nosso amigo argentino, idem. Sua Vespa estava num reboque, que seguiria para não sei aonde, e por isso ele rodaria por umas horas com uma LML de motor clássico. Por precaução decidi abandonar o pneu usado que havia ganho do Jorge Colman em Ciudad del Este, pois detectei nele umas rachaduras cabulosas. Vespaparazzi me emprestou o step e segui assim, sem mesmo trocar o aro. Aconteceu então que na saída ouvimos um barulho diferente na mesma roda. Era o bico da câmera que tocava no garfo a cada volta. Encostamos num posto de combustível então para um reforçado café da manhã e reparos dos pneumáticos. Durante o ajuste duas câmeras de ar furaram. Não tínhamos mais reservas, eram elas. Nano me emprestou a LML e saí a procura de um borracheiro rodando naquela dois-tempista novidade do passado indiano. Paguei ao borracheiro 15 mil guaranis para que consertasse as duas câmeras. Nas volta flagrei o Vespão fazendo umas fotos com uma escopeta de verdade na mão, a do segurança do posto. Como é que alguém convence um guarda a emprestar a sua arma assim? "Já já te devolvo" (??) kkkkkkkk. Tudo certo com os pneus e com o desjejum dos mamíferos, então "simbora"!!


Era quase 11h quando chegamos na fronteira do Paraguay com a Argentina. Cruzamos a Ponte Internacional e paramos em frente à bandeira da Argentina para fazer uma foto. Um fardado do exército nos negou permissão. (Dizem que é por uma questão de segurança pois a base do exército fica atrás do mastro). Hernán, o nosso argentino, ficou bravo no ato e impulsivamente deixou escapulir a frase "argentinos chatos de mierda". Aí apareceu um militar nas costas dele e perguntou algo como "que dijiste? Ojo"! Hernán teve que se explicar, e fez bem, e "hablando" a mesma língua disse: "yo soy argentino, puedo decir lo que quiera de mi pais". Ah se fosse eu, estaria por lá até hoje kkkk. Na Duana queimamos quase uma hora, entre filas, documentos e câmbio da moeda, até que entramos em Possadas. Pra mim estar lá tinha um ar nostálgico, pois tinha conhecido a cidade em 2003 numa viagem beatnik mucho loca - (mochileira/cultural) de carona em carona entre Londrina e Buenos Aires. 


Hernán foi pra ponta, orgulhosamente conduzindo sua PX200 brasileira no seu hermoso país natal. De cara tomou o caminho errado: ao invés de nos tirar de Possadas ele nos levava mais para dentro ao não entender a lógica de uma rotatória imaginária em construção. A poeira se erguia e a gente driblava tanto os carros como as pedras das obras. Depois de um tempo a gente percebeu o erro e retornamos pela mesma rota, era a Av. Brigadero Rosas, o início da Ruta 12, o início da viagem de fato. O sol das 12h30 começava a cozinhar nossos cascos. Mas não passaria muito disso. A primavera na província de Missiones era das mais generosas de toda a viagem. Na média dos 80km/h seguíamos com a doce sensação de cruzar um novo país, conhecendo em Vespas uma outra cultura e geografia. Depois de uma hora e meia paramos num posto de combustível a beira do município Jardín América, e por ali Hernán se mostrava bastante desapontado com o tratamento que recebíamos pelo caminho. Fato é que tínhamos feito o câmbio de poucos Pesos, contando que a Argentina seria uma rota de passagem, e além disso o Hernán levava seus cartões de crédito e débito. Só que os mesmos não eram aceitos naquele pedaço. Ele tentou um caixa eletrônico, mas não conseguia sacar. Preciso dizer que havia uma família indígena vendendo artesanatos com suas crianças pedindo dinheiro aos passantes, e um velho hippie numa bicicleta sem freios dando voltas e mais voltas pelo pátio do posto, e eu sei que era hippie pela estampa da camiseta e da mini-bolsa de tricô que levava pendurada. Devia ter ali uma poção ou elixir dos tempos do finado Albert Hofmann. Fui me certificar!! Não, não fui. No retorno pra Ruta 12 os parceiros do carro sumiram lá atrás, e começava a nos preocupar. Naquele momento era eu que esbravejaria calado. Hernán se ligou e alertou os caras para que não tirassem o olho da gente. Assef era o quarto elemento da viagem e dizia "calma", e naquele momento espontaneamente fomos encontramos uma nova dinâmica. Assef tomou pra si a câmera Go-Pro e amarrou no peito. Havia ainda uma situação desconfortável, que era o fato do novo elemento não estar nos planos da patrocinadora, e tão logo, fora das filmagens. Eu insisti para o "foda-se, ele é dos nossos, deve rodar ao nosso lado e estar nos vídeos pois se isso o que está acontecendo é a mágica imprevisível da Scooteria Paulista". E naturalmente as coisas foram acontecendo nesse sentido, e novamente o inconsciente daquela meia-dúzia trabalhava concentrado em prol da II Expedição Tropeira Brasil-Paraguay. Voltando, então o Assef tomaria a câmera e fazia takes dinâmicos de pé no assoalho da Vespa a 80km/h com o corpo e as mãos apoiados no guidão. Hora avançava, hora recuava. Vespaparazzi revezava posições, e nas subidas tomava sempre a direita pois fatalmente ficaria por último pois perdia potência. Hernán seguiu na ponta durante a maior parte do caminho. E devo confessar que raras voltas são tão excitantes quanto idas. Geralmente a viagem de casa ao destino é o que nos faz gastar neurônios, é quando funciona o super-foco. A volta é aquela pesarosa tarefa de levar as crianças pra casa, e muitas vezes é feita com mais pressa e menos deslumbre. Seria isso, se não fosse  tão fantástica a rota, se não houvesse tanta beleza naqueles lagos e riachos, ou se não fosse a inspiração do verde imponente da primavera misionera sob o azul celeste ao tom da bandeira. Era uma estrada de mão dupla - uma ia e outra voltava - e de pouco tráfego. Pista livre!!


Hernán sobretudo estava bastante apreensivo com a falta do vil metal, a escassez do Peso pesava na sua consciência. Por isso resolveu parar na primeira cidadela a frente, em Capioví. O "vilarejo" me lembrou aqueles que muito frequentei no oeste paulista, como Cândido Mota, por exemplo. Uma família nos guiou até o banco na praça central, e lá finalmente o hermano pôde sacar 1000 pesos - o limite diário. Não era muita coisa não, mas sanaria nossas preocupações. Dava 15h e a fome apertava. Meu mau humor era notável e não conseguia disfarçar. Era uma irritação qualquer, mais provocadoa pela fome do que pelas idéias. Os restaurantes da cidade estavam fechados. Prezávamos por um prato local, mas ali não degustaríamos muito da gastronomia típica. Com o estômago nas costas puxei os amigos pela contra-mão até uma marginal rodoviária que havia e paramos numa lanchonete bastante simplória. Como não estava servindo refeições naquele momento - a não ser meia dúzia de empanadas -, o proprietário deixou-nos utilizar as mesas enquanto nos alimentávamos com os lanches da "rotiseria" do mercado ao lado. Ali foi um embaço dos grandes. Primeiro porque a cozinheira ainda não tinha chegado, depois porque o padeiro estava atrasado. Resumindo, perdemos uma hora e mais um pouco naquele lugar. Mas nos alimentamos. Os lanches eram grandes, e bons também. Vespaparazzi fez um amigo boêmio por lá, e nesse meio tempo já tinha caído a ficha de que os nossos planos de entrar no Brasil até o fim de tarde era uma doce ilusão, e insistir nisso tornaria as coisas um amargo delírio. Conversamos sobre as possibilidades, e elas eram: (1) acampar no quintal de alguma casa de família, (2) acampar aonde der, (3) tentar uma pousada baratíssima, (4) avançar no escuro. Deixamos no ar a meta de chegarmos pelo menos na cidade de Eldorado. E assim prosseguimos, com tanques e buchos cheios. A viagem era maravilhosa, e o clima já era outro, sem pressa, num ritmo de entrega às paisagens do caminho. Passamos por gigantescos Pinhais e imensas plantações de mate. E mantínhamos a boa comunicação com os veículos durante as ultrapassagens, enquanto Assef dividia a câmera com o Vespão e com o Hernán. João se descabelava com as imagens do quarteto em pista. Eu ficava atento às possibilidades de registrar da maneira mais fiel o espírito do momento. Meus registros todos eram feitos pela câmera do meu celular, como essa abaixo na ponte sobre o Rio Paranay, postada no Instagram In_Vespa_Fidelis durante a Expedição.


Então finalmente, depois de parcos 300 kms rodados, as 19h invadimos a elegante cidade de El Dorado. Já na primeira avenida, a Ruta 17, paramos em praticamente todos os (dez) semáforos até que Hernán viu o cartel do A.C.A., o Automóbil Club Argentino. Seu pai é sócio dessa grande entidade nacional, e a sua influência seria decisiva nessa noite. Acostumados com os acampamentos e hotéis extremamente baratos, nos surpreendemos com a imponência do A.C.A.: belas paisagens, escadaria, recepção, cervejaria, cardápio rebuscado e pessoas de muita elegância falando baixo somente o necessário. Por algum motivo um amigo do pai do Hernán falou com o gerente do hotel pelo telefone, e o mesmo se dispôs de fato a colaborar conosco, compreendendo a nossa necessidade. Queríamos um quarto para seis. Primeiro ele nos ofereceu um pelo mesmo preço cobrado dos sócios do clube. Apesar de justo, corríamos o risco de precisar dessa grana no dia seguinte. Então nos deu a opção de acamparmos no gramado dos fundos. Até que então, num momento de graça ele nos ofertou o valor exclusivo cedido às agências de turismo. Foi muita gentileza, não podíamos recusar. Nos apertamos no quartinho entre as camas e colchões infláveis, e depois do banho jantamos como príncipes, compartilhando algumas cervejas de litro. Diego se mostrava bastante cansado e  irritado com o fardo da responsabilidade de produtor. Dirigir o carro por um dia todo era o mais simples. Sua função como produtor, via JWT, era auxiliar em tudo o que fosse preciso, tudo! E sobretudo, cuidar da contabilidade da viagem, das notas fiscais e anotações, e era aí que sua cabeça fritava, na conversão das três moedas: Real, Guarani e Peso Argentino. João nos mostrava os takes que o Assef tinha feito de pé na Vespa. Talvez tenha sido esse o uso mais perfeito da Go-Pro durante toda a Expedição. Vespaparazzi já morria de saudades da esposa e não escondia. Imagine você deixando a sua mulher em casa para viajar por dias e dias com cinco machos a sua volta... kkkkkk.
Hernán estava especialmente mais contente naqueles momentos de Argentina, talvez também porque sabia se comunicar muito bem com os seus, fazendo-se compreender, e tanto fez que estávamos lá naquele "palácio" sendo tratados da mesma forma como os empresários das mesas a nossa volta. A meia-noite todos foram dormir. Eu pedi a saideira e passei mais um bom tempo tomando um vento com breja enquanto refletia apaixonadamente sobre as experiências da viagem. Durante a noite conheci o Luis, um jovem funcionário do hotel, um sujeito muito atencioso e divertido. Dentre tantas coisas ele me dizia que em El Dorado havia muito mais mulheres do que homens, muito mais, e que qualquer pessoa de onde viesse seria capaz de conseguir emprego nas indústrias locais. Parece convidativo pra você rapaz? Aos risos Luis me contava histórias pitorescas dos últimos anos da cidade. Não fosse o cansaço eu passaria a noite ouvindo e fazendo perguntas. Mas caí no sono. Boa noite gente!

Terça-feira, 05 de Novembro - El Dorado (ARG) - Laranjeiras do Sul (BRA)
A ÚLTIMA FRONTEIRA

Depois de um generoso café-da-manhã no Automóbil Club Argentino, partimos pra Ruta 12. Não sem antes completarmos os tanques (num Shell local). Era quase 10h. Aliás, bem ali um jovem veio contar pra gente que tinha uma Siambretta Standard em casa e que não sabia aonde encontrar peças. Passamos nossos contatos pra ele, pois temos nossos amigos da classe lá do meio do país pra baixo. A Ruta 12 ficava, a cada quilômetro, mais bonita. Fazia sol e um calor tão intenso quanto o da manhã anterior. Depois de Puerto Esperanza e Wanda paramos para abastecer em Puerto Libertad. Compramos um monte de pães de queijo argentino, um lance diferente mas muito bom, temperado com erva doce. Concluímos ali que de fato o tratamento que tivemos na maioria dos lugares da Província de Misiones era naturalmente frio. A bola da vez eram os frentistas malas. Não é nada pessoal, cabrón!! Talvez a região, por ser exposta a duas grandes fronteiras, fazia do nativo um tipo pouco convidativo. Também era notável o senso de limpeza e organização de tudo, e aquele zelo só pode ser mantido por pessoas de um apaixonado espírito de amor à própria terra.


Quilômetros adiante paramos sobre a ponte da Represa Urugua-í "Norberto Velozo", a hidrelétrica que abastece toda a província. Foram 20 minutos de fotos e vídeos. Dali esticamos numa tocada mais agressiva, tínhamos mais 100 kms de viagem pela frente até a fronteira. Uma das cenas mais lúdicas dessa estrada foi um trecho de dez ou vinte quilômetros abonados de borboletas amarelas voando pela pista. Elas dançavam no ar em bando, contrastando com os cinquenta tons de verde da vegetação. Em mais uma hora de viagem chegávamos então em Puerto Iguazú, a pequenina cidade que margeava o Brasil. Era meio-dia de sol. Hernán sugeriu queimarmos nossos últimos Pesos ali mesmo, em combustível e alimento, para não perdermos tempo ou juros com o câmbio monetário. Num primeiro YPF havia uma imensa fila para combustível, o que nos levou a tentar ganhar tempo em outro. Só que nesse outro não tinha gasolina. Então tomamos um café rápido e partimos para a fronteira. Passamos rapidamente para o lado brasileiro. Voltavam as preocupações do Hernán com seus documentos de condutor quase regulares, ou "quase quase isso". Bom Argentina, ficamos por aqui, muchas gracias hermosa. Hasta la vista.


BRA$IL
Às 13h30 estávamos em Foz do Iguaçú abastecendo com o sorriso na orelha e uma pontinha de saudades dos países que deixamos. Vespaparazzi saiu para fazer uma comprinha, e vinte minutos depois voltou dizendo que vira três vespistas seguindo na direção oposta a que viemos. No mesmo instante liguei minha Vespa e saí em disparada a procura desse "mistery trio". Driblando retrovisores e furando semáforos encontrei-os em poucos minutos. Eram os Charlie Satans Scooter Club, que depois do Encuentro Internacional en Paraguay resolveram dar uma esticada até as Cataratas do Iguaçú e naquele dia tomariam o rumo pra casa, para Mar del Plata. Trocamos algumas palavras em movimento, e na despedida ouvi essa frase do Cristian em alto e bom tom: "Marcio, hasta Sao Paulo, a la Copa del Mundo". Excelente!! Até lá camaradas!! No posto nos alimentamos rapidamente e seguimos para a BR277. Foram 150 kms nela, a mesma que passamos na ida, dias atrás. Resumindo: de uma viagem de 3500 kms, repetimos o prato por 150 deles apenas, com três diferenças em termos de novidades: a primeira foi que passamos por uma intensa blitz do Exército Brasileiro, o que quase nos segurou por muito tempo pois estávamos com o carro carregado (de equipamentos de áudio e produtos da JWT, claro!); e a segunda porque o Vespaparazzi fez todos se arquearem de rir com as garotas de um posto de combustível de Céu Azul, e a terceira era que estávamos os quatro juntos. Ah, durante a rota tentei parar o comboio para fazer uma foto no km 666, mas o Assef estava muito à frente e não ouvira meu buzinaço.


Passamos em Cascavel por volta das 15h30. Eu sentia muito sono, e começava a sonhar acordado. Contei pro Vespão mas disse também que não queria diminuir o ritmo da viagem. Avançar e recobrar o tempo perdido era uma necessidade. Mas era preciso parear as urgências. Visto isso, Vespão puxou a tropa pro acostamento ao pé de uma sombra, e ali tiramos meia hora de descanso, e entre umas bolachas com atum (Gomes da Costa) e cigarros, tirei um cochilo de cinco minutos. Foi pouco mas suficiente para reiniciar o computador cerebral. Dali em diante sentíamos a necessidade de proteger o grupo como um todo. Carro e motonetas fecharam um bloco só, impenetrável e imponente na rodovia. Era uma pista simples e estreita mas de intenso tráfego de carros e principalmente de caminhões cargueiros, muitos deles levando madeira e espalhando suas fuligens pelo ar. Coordenamos a viagem como maestros. É preciso ter força na comunicação com os motoristas. É preciso convencê-los de que você está tão certo quanto um policial naquela hora. Alguns, apressados e abusados, realizavam manobras arriscadas pela contra-mão pois não se submetiam à velocidade dos 80km/h até a próxima duplicação da pista. (E haviam muitos trechos duplicados, assim como o acostamento, que frequentemente servia de escape). E foram 140 kms dentro do tom, regendo a orquestra com precisão e pulso. Fora isso, contemplávamos boquiabertos a natureza do caminho. Vespão já tinha nos avisado disso. Ganhávamos um fôlego sobrenatural a cada descida. Aliás, vale dizer que a formação de comboio nesse trajeto se deu nessa ordem: Vespão, Hernán, Assef e Fidelis - e atrás o carro de apoio fechando a pista e trabalhando com as setas. Em Guaraniaçu abastecemos pela última vez e refinamos a estratégia de rodovia pois o sol partia dessa pra melhor. Por isso eu fui pra frente, a minha Vespa tinha o farol mais forte das quatro. Então os últimos 75 kms de viagem foi um tenso percurso feito no breu. Mais tenso ainda foi quando quase atropelamos um filhote de cachorro no meio do asfalto. Ao avistar o vulto do animal ao longe mostrei para o Assef, que seguia do meu lado. Apesar do buzinaço o cachorro titubeou e não saiu do lugar. A freada geral por pouco não provocou um strike em 2 Tempos. Mas não passou de um susto, e tirando isso nada mais fugiu da regra. Aliás, foi o desenho do comboio que nos favoreceu nesse incidente, porque quando cada um sabe da sua posição e do lugar do parceiro, logicamente na hora do improviso se sabe no mínimo para aonde não se deve ir. Passamos na sequência por uma reserva indígena mas não pudemos ver nada além de alguns nativos andando no acostamento. Depois de Nova Laranjeiras a ansiedade e o cansaço se confundiam na mente. Era noite, e a missão estaria cumprida em questão de minutos. Ao entrarmos em Laranjeiras do Sul uma viatura da Polícia Militar nos acompanhou até um hotel sugerido por um morador local. Nos divertíamos com o fato. Enfim tiramos nossas botas e jogamos nossos pés para o alto num quarto espaçoso e suficiente. Depois dos banhos saímos a pé para lanchar num trailler na praça central, seguido de um rolê para o cigarrinho santo. Boa noite amiguinhos. Cansei até de escrever kkkkk. Fica a dica da Argentina pra vocês: De Nuevo en el Camino - Los Gatos.

Relato por Marcio Fidelis
Fotos por Fidelis e João Unzer

domingo, 24 de novembro de 2013

II Expedição Tropeira Brasil Paraguay (Parte 03 de 05)

I ENCUENTRO DE VESPAS EN PARAGUAY

Encarnación, sexta-feira 20h. Huracan Ramirez, Psicoprata, Caveira A Lenda do Trevo e o Esqueleto Brasileiro chegavam (chegávamos) de São Paulo (e Jacareí) para o I Encuentro Internacional de Vespas Paraguay, guiados pelo Pistoleiro Paraguayo à moda galopeira.


01 de Novembro - Encarnación
NIGHT PASSAGE


Num certo hotel tinha umas vinte e poucas Vespas estacionadas e três carros com reboques. Muitos argentinos e Uruguaios pelos quartos. Pouco a pouco conhecemos os primeiros: Juan, Luis, o pessoal de Córdoba, de Rosário e do Uruguay. Encontramos os amigos Diego Lopes (presidente do Vespa Club Paraguay, organizadores do evento), e Pedro Colotuzzo, o veterano mais rodoviário que já se viu - membro do Los Antiguos Vespa Club Uruguay. De repente desceu o pessoal de Vespa Club Rosário e do Charlie Satans Scooter Club, junto a outros afortunados, e com eles seguimos para a Costanera, aonde se daria o início das atividades oficiais. Ao chegarmos, de cara avistei os curitibanos Coca, depois o Farid, na peita do Vesparaná Club. Então a colombiana viajante Elizabeth Benitez na sua Star4 da LML, uma guerreira a dar exemplo pra muito machinho por essas tribos. Por lá uma das grandes satisfações da gente era rever o amigo paraguaio Gustavo Mendieta, ele que estivera em São Paulo - com Diego e Colman - no IV Encontro Nacional. Depois o gaúcho Fernandinho e esposa, com sua PX da Confraria VMC. Aí quem? Quem mesmo? Nano Aliaga - aquele argentino que esteve conosco em São Paulo com sua Originale 150. Inacreditável, pois nosso amigo não tinha confirmado presença até então. Revimos o Jose Rotela (aquele que encontramos na Ruta 6), agora já acelerando sua Sprint Veloce. E de Sprint Veloce o evento estava rico. Conheci ali o Juan Samudio na sua farda do clube nacional debaixo do colete sinalizador, compenetrado na organização do comboio em sua Vespa GT 1962 bicolor. Monica Echeverria reconheci das fotos de street punk pela internet, e ela estava lá, com o Carlos na estica beat em cima do solado grosso. O pessoal se conhecia, se cumprimentava, tomava um trago e festejava sem cerimônias. Fazia calor, a noite estava agradável como tão poucas vezes pudera ter sido para a maior parte daquela gente. Eram 90 pessoas, fácil, em 70 motonetas, fácil. Já tínhamos os cinco países reunidos em algumas frotas, e no dia seguinte, mais scooteristas chegariam. Demos um giro pela Costaneira, a orla da praia artificial de Encarnación. Muchiba na minha garupa segurava o banner da Scooteria Paulista - feito pelo Vespaparazzi especialmente para o evento. Foi nessas que o Canal 9 filmou a gente com alguma insistência. No meio do buzinaço achei o Hernán procurando o Vespão. Ficamos juntos, como viemos. Em meio à esfumaçante celebração Farid passava sem capacete gritando "brachooolaaaa". Colotuzzo abria seu enorme sorriso a cada acelerada. Resolvi tirar o casco e tomar um vento na cuca também. A polícia era amiga, havia um combinado em prol do evento. Pista livre!!




Da Costanera seguimos em comboio rumo ao Parque Quiteria. Felipe Aquino guiou os perdidos, e Hernan, Vespão e eu estávamos nele, com Elizabeth e alguém mais. Rapidamente o agrupamento se reuniu em auto-pista. No caminho um acidente se deu, envolvendo duas personalidades caras na cena sul-americana: Paola Diaz e Pedro Colotuzzo. A argentina seguia pela Marginal Sur quando o pneu traseiro estourou. O uruguaio, que vinha atrás, deu em cheio, levando ambos ao chão. Ela sofreu algumas escoriações entre a perna e o pé, e Pedro teve o paralamas amassado e parte do parabrisas quebrado. O pessoal se mobilizou ali mesmo em ajudá-los, e em ligeiros minutos trocaram o pneu da Caderona. Enquanto isso Colman me cedia o sinal do celular para que eu procurasse informações sobre o Assef na internet. Diego e João (JWT) procuravam pela gente no comboio. Nisso estourou o cabo de embreagem da PX do Coca. Desci da Vespa e empurrei-o para que tentasse levá-la no braço até a parada definitiva. Quase chegando no Parque Quiteria noto, sem capacete, numa Vespa PX, a colombiana Maryzabel Cárdenas, uma das principais ativistas do movimento Dois Tempista em Bogotá (COL). Nos cumprimentamos em giro, e levamos uma idéia até chegarmos no Parque. E por lá era tudo buena onda: vespistas se conheciam ou se reencontravam. Em algum momento conversei com Alejandro Morel, que levava a sua Super Sprint sob a bandeira paraguaia. E por aí adiante. Alguns seguiram pro banho. O banheiro ficava a 300 metros do salão do acampamento. Tinha gente que ia de Vespa. Esqueci de alguns detalhes, mas me lembro que uma turma chegou com cerveja enquanto a outra convocava a geral para o jantar. Ainda me demorei naquelas muitas prosas com os locais, em algumas frustradas tentativas de aprender Guarani - língua oficial no Paraguay. Uma grande mesa foi armada enquanto a churrascada descia da casa ao lado. Conversei ali com Alejandro Balsamo (Vespa Club Argentina), um senhor calmo e bastante atencioso com os acontecimentos. Sua Vespa é uma das novas. Nessa ocasião também tive a feliz oportunidade de conhecer, através do Colotuzzo, seus companheiros de viagem, os membros do Vespa Club Salto: Ever (Forever) e Nelson Irace. Dois sujeitos muito simpáticos e bem dispostos a queimar os pneumáticos. Fiquei desiludido em saber tardiamente que havia um clube de motonetas muito próximo a Taquarembó (URU), por onde passei quando fui sozinho pro Argentina (no DSC#3, em dezembro de 2011). Ok, agora eu sei! Agora sabemos! Passado o jantar - a paella estava deliciosa - uma turma voltou para o acampamento, enquanto a outra se distribuiu pelos dois hotéis. Comprei umas cervejas e me sentei por ali no chão na companhia de Marizabel, Elizabeth e Fabio Much. Proseamos até umas horas, e eu queria saber exatamente por que os colombianos são tão loucos, cheios de vigor de sair para o mundo. O assunto foi longe, até Much pegar no sono ali mesmo e mijar no meio da roda ainda sonâmbulo (gente, o que foi aquilo? rsrsrs). Depois da chuva ainda levei um lero com a moçada e fui dormir. Vespão, Hernán, Diego e João tinham arrumado tudo. Nossas barracas estavam armadas num dos boxes do camping (coberto): Vespão, eu e Much numa, Hernán em outra, João e Diego em outra. Ao lado a Elizabeth na dela, Nano na sua, e Paola na sua também. Era o nosso quarteirão!!

02 de Novembro - Encarnación-Trinidad
JESUIT JOE

O passeio programado para a manhã miou. Chovia, e o céu da cor de chumbo não animava os visitantes. Hernán preparava o café com produtos do patrocinador JWT, enquanto que João checava os registros audio-visuais feitos no dia anterior. Uma das coisas mais improváveis de se acontecer num grande encontro é o dia amanhecer com chuva. Mas nesse aconteceu! A turma se preparava mas o céu não abria. Nos reunimos, pouco a pouco, na área de convivência coberta do Parque. Ali vendi alguns Almanaques Motorino e distribuí adesivos. Elizabeth fazia um dinheiro para a sua viagem vendendo souvenires. A turma chegava aos poucos, lembro do Cristian Ariel, Martin, Agustín, Ini, Pato, David, Federico, Daniel e companhia. Eles traziam um repertório de hinos e cantorias. Pareciam um bando de hooligans na porta de um estádio de futebol. Buena gente!! Conheci nesse dia o Cae, parte da equipe do evento, junto do Arsenio, Gaston Cardoso, Jorge Dancuart, Oscar Alberto.
Também com a turma estava o Diosnel Marin, que me fez questão de apresentar a sua belíssima Vespa 1955, a do guidão pelado. Impecável, funcionava, a relíquia do evento. Vespaparazzi fazia diversas fotos e Hernán estava deveras contente em reencontrar o conterrâneo Nano Aliaga, quem conheceu em São Paulo, no ano passado. Em meio às fotos e prosas lá estava o Oscar Argüello, membro do clube nacional e mecânico da cidade de San Lorenzo. Assef já tinha entrado no Paraguay e seguia sem mais notícias. Mendieta acendia a churrasqueira e dominaria a brasa até a metade da tarde. Sim, como a chuva não dava tréguas, o passeio matinal estava cancelado. Alguém teve a idéia de fazer fotos das placas emparelhadas, e Colotuzzo gritou "Fideeeelis". E na ordem se deu a foto das visitas: Elizabeth, eu, Diego, Ini e Colotuzzo. Representando assim a Colômbia, o Brasil, o Paraguay, a Argentina e o Uruguay. Como disse Pedro: "Cinco paises representados en matriculas, tripulación y común voluntad integradora!!"



Degustei com a turma de Assunção uma bebida diferente: vinho com Fanta e gelo, acho que era isso. De bicada em bicada fui me contentando junto das Brahmas. Diego reuniu a moçada e confirmou que o passeio da tarde aconteceria às 15h30, com chuva ou sem. Essa já tinha dado uma trégua a um tempo, mas precisamente no horário da saída, ela voltava. Dentro das roupas apropriadas a turma foi saindo assim mesmo, em blocos. Vespaparazzi decidiu ficar. Fabio Much pegou uma Vespa emprestada, a Sprint Veloce do Walter Fabian (vespista da cidade) e seguiu conosco. Hernan idem. Nosso carro com João e Diego seguia na rabeta. Achamos uma turma um pouco a frente e seguimos junto. Firmava-se uma leve garoa. Depois de 3 kms rodados notei lá atrás um pequeno comboio perdido. Senti que era preciso dar uma mão na organização e assim decidi represar num posto de combustível os que estavam conosco enquanto eu saía à caça dos perdidos pela cidade. (Nessa hora lembrei da boa vontade do Ito 8). Encontrei a turma de Córdoba e os guiei até o posto. Depois de alguns minutos encontrei outra turma na Colectora Sur e os trouxe. Paola arrastava a perna dolorida do tombo da noite anterior, e estava decidida a prosseguir na garupa. "Todos ok? Então vamos!!" Só que na hora da partida Hernán reclamou que sua Vespa não ligava. Nessa hora bateu o espírito "Reginaldo". Saquei a vela fora e identifiquei falta de faísca. Pane elétrica! Puxei a capa que protege os conectores do CDI e "tcham tcham tcham tchaaaam": havia uma poça d'água ali. Aí foi só bater um ar, reconectar e funcionar. Foi nesse momento que conheci o Michel Mendoza e sua PX. Ele tinha um sotaque híbrido, e ao perguntar foi que ele me contou que vivera por algum tempo no Rio de Janeiro, e que ainda tem parentes por lá. Então partimos pela Marginal Sur, até a divisa com Trinindad, aonde encontramos um pessoal parado no acostamento. Foram cinco minutos por ali, aonde alguns abasteceram, aguardando outros, até que fomos guiados (por não lembro quem) à grande atração do evento: as ruínas jesuíticas de Trinidad. Um lugar fantástico, preservado com carinho pelo povo sulista, e carregado de histórias e lendas. Um instrutor respondia com atenção a todas as perguntas sobre o passado local. Havia cinco ou seis construções arruinadas, sendo a primeira delas datada de 1706. As Vespas ficaram do lado de fora. E foi na grande capela que fizemos a foto oficial do evento, reunindo quase todos os participantes. Conheci aí a Andréa, repetindo o ligüajar do Muhiba: "é nóis", "vem comigo". Também o vespista Demian, que tinha a fama de esquecer insistentemente o nome das pessoas, então "é nóis". Lá estava Dieter e sua T5 bicolor. Enfim... Eram 19h30 quando chegou o Vespaparazzi, do nada, na hora do show de luzes nas ruínas. Um lance totalmente lúdico, um espetáculo new-wave-gregoriano, algo fantástico!!


A volta foi tensa. Além da garoa e da escuridão, o comboio estava disperso. Não tínhamos certeza sobre quem seguir. Em dado momento vi uma Vespa Rally 200 encostando. Uma ruiva reclamava com o piloto, o Denis, ou David, ou sei lá o nome do pobre rapaz. Ela pediu-me que a levasse, subiu sem capacete em minha garupa e então ele foi atrás acelerando desconcertado. Fiquei apreensivo pois podia ser a namorada ou paquera do rapaz, e aí um simples favor poderia custar caro. Mas não, ela se divertia mesmo era pulando de garupa em garupa, e nessas tinha chegado a minha vez. O cara da Rally passou duas ou três vezes por mim tentando provocar um racha ou qualquer coisa, mas sem sucesso. Minutos depois tive que dar um basta nas brincadeiras do xovem gagoto, primeiro quando ele parou bem no meio da estrada, e depois porque queria levar o comboio para uma parada cervejeira num posto de combustível. Então procurei puxar o comboio até o Parque Quiteria, porque lembrava do caminho, e principalmente porque havia uma programação no evento, com um jantar nos esperando, junto a um monte de gente que foi embora antes ou que nem tinha saído das redondezas. Aí aconteceu com a gente também (viu Ito)!! A 100 metros do Parque Quiteria, confuso quanto ao portal correto do evento entrei no parque errado. Much, que vinha logo atrás, se confundiu também, e ao frear no pé, a Vespa derrapou pros dois lados e o jogou ao chão. Paramos por ali, mas em 10 segundos ele já estava de pé dando a partida no motorino, dizendo "ai ai aaaai" em grunidos reprimidos "aaaaaai". O prejú na lata ficou pequeno, e Walter não se importou, dizia que poderia resolver facilmente ali na sua cidade mesmo. Já no Parque, eis que encontramos por lá o Rafa Assef recém-chegado. O amigo tinha tomado a rota errada e rodado por mais de 500 kms dentro do Paraguay. Agora sim o time da Expedição estava formado por cinco autênticos membros da casa. Outra turma da pesada que chegara naquele fim de tarde eram os gaúchos dos Herdeiros do Passado e os do Vale dos Sinos Scooter Club. Com grande prazer revia o Danilo Lauxen, Kiko e Vania, Jacque, Paulo, Stello e Cris, Cleberto e cia ilimitada. Eles tiveram diversos imprevistos durante a viagem, atrasando a chegada em praticamente um dia. Teriam poucas horas para desfrutar do evento e da companhia dos camaradas dois tempistas.


Depois do banho pouco a pouco a turma se reuniu no refeitório. Depois do jantar Diego Lopes abriu o plenário. Representantes de diversos clubes tomaram a palavra. Pedro Colotuzzo emocionou a todos com uma homenagem ao finado Mário de Las Heras. Sim, o presidente do Vespa Club havia cometido suicídio a dias atrás. Pessoa boa, quieta, focada, que eu conheci pessoalmente no DSC3 de Buenos Aires. Foi chocante saber ali de tamanha tragédia. Voltei pensando muito nisso. David Casero virou o mestre de cerimônias da noite, enquanto Cristian anunciava "tiempoooo". Fui chamado ao discurso, e falei por um bom "tiempoooo", valorizando os viajantes, a equipe colombiana de resistência dois tempista, o projeto Vesparolliando el Sur de Elizabeth Benitez e anunciando, finalmente, para a América do Sul, o MUNDIAL DE MOTONETAS BRASIL 2014 (evento que organizaremos em São Paulo durante a COPA DO MUNDO). Durante os sorteios Hernán foi contemplado com uma camiseta do sponsor Klein Soldaduras. Vespaparazzi fazia uma série de fotos. E Assef cuidava da banca dos Motorino's. Depois da gastronomia toda a gente foi com parte da turma para uma festa numa casa noturna, mas voltamos cedo pois o cansaço era grande e a festa parecia miada. Passei a madrugada com parte da turma de Córdoba, de Assunção e de La Plata, e amanheci com eles. Não conseguia me embriagar apesar da insistência. Era mágico tudo aquilo, aquele encontro, essas tantas pessoas que citei aqui, e outras dezenas que não pude conhecer em tempo ou que não me recordo agora. E simplesmente acabou!! O I Encuentro Internacional de Vespa Paraguay oficialmente chegava ao fim.




03 de Novembro - Encarnación
ADIOS AMIGO

Difícil dizer em que momento começou o dia 3. Mal dormimos. Assef por exemplo pegou um colchão inflável furado e acabou dormindo no chão gelado. Durante a noite o João, Diego e Hernán passaram medicamentos curativos no pé da Paola enquanto ela dormia. E de manhã já estávamos em meio à moçada novamente. Uns iam e outros voltavam do banheiro. A turma carregava os reboques e a gente dava uma mãozinha. Vespão fazia as fotos da turma que partiria de volta pra Asunción. Hernán fazia o café para todos, literalmente, a conta-gotas os copos se enxiam. João me cedia o sinal e Diego tirava o dia para lavar o carro, assim como os outros faziam também com suas Vespas. Uma hora depois descemos pro refeitório e tivemos uma conversa longa e produtiva com o Christian, Victor e Esteban, do VC Córdoba. Nano, também da mesma cidade, levava muito a sério o assunto também. E o assunto era sobre a formação de clubes nacionais na América do Sul. Falamos de gente, de intenções opostas, do que era necessidade e do que era fetiche, e da real dimensão prática de se Viver em Vespa. Ao final de tudo, Christian tirou sua camiseta polo oficial do clube e me deu. Foi uma das atitudes mais sinceras que já presenciei nesse nosso universo 2 tempista. E mesmo tendo esse breve contato com os cordobenses, vê-los partindo nos deixava saudades ali mesmo. E ficamos nós, somente: a Scooteria e o Nano, que já é da casa. Tiramos a tarde pro lazer, e seguimos lá pra Costanera, curtir um sol na areia com mate quente e amigos: Vespaparazzi, Hernán Rebalderia, Rafa Assef, Nano Aliaga, João Unzer, Diego Koba e eu Fidelis. (No caminho encontramos alguns argentinos voltando). Horas se seguiram por lá, ainda vislumbrados com os encantos e com os costumes paraguaios. Quando o sol baixava seguimos pro Parque Quiteria, aonde passamos a noite com alguns dos organizadores do evento, podres de cansaço. Praticamente não haviam dormido. Então capotaram por 12 horas direto. A gente pediu uma pizza, nos alimentamos e dormimos, pesadamente, depois de uma boa conversa com Dieguito Lopes e Nano.


Tentei aqui fazer um relato pessoal sobre o evento, destacando fatos que vi e que senti. Certamente esqueci de coisas e de pessoas, então durante a semana, conforme vocês me lembrarem e me corrigirem, vou retocando o artigo aqui. Parabenizamos ao Vespa Club Paraguay pelo primeiro encontro internacional de vespistas. Apesar da chuva e contra-tempos comuns à toda espécie de grande evento, vocês conseguiram tirar de si o melhor, e proporcionarem aos visitantes o prazer de conviver e de viver em Vespa. Pra gente que tem na Vespa (e na Lambretta ou na Bajaj) muito do nosso sangue e suor diário, a dimensão das nossas idéias podem ser diferentes do geral. Então as coisas podem brilhar ou ofuscar numa outra intensidade por dentro das lentes. Não é bom ou ruim, nem melhor ou pior. É viver o dia-a-dia. E falo porque aqui pra gente, vocês fizeram a história pulsar, a amizade firmar chão, e o mundo virtual e o que ele esconde, voltar para o plano da realidade e sob a luz do sol. Parabéns!! Três bravos para o Vespa Club Paraguay. Fica o tema: Adios Morena - Quemil Yambay y Los Alfonsinos.

Relato por Marcio Fidelis
Fotos por Fidelis, Vespaparazzi e Demian Florentin

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

II Expedição Tropeira Brasil Paraguay (Parte 02 de 05)

01 de Novembro, Foz do Iguaçú - Encarnación
TROVÕES NA FRONTEIRA


Chegava o grande dia, o da recompensa à moda galopeira. De pé as 7h30, metade acordava de ressaca, metade no ponto da bala. Meu lábios estavam rachados da insolação das outras tardes, o sangue pingava e o pulso ainda pulsa. "Ok não viaja"!! Depois do café reforçado juntamos a coisa toda (que não era pouca), e partimos, já pelas 10h, em meio ao trânsito confuso. Disse o Hernán: "essa coisas tão simples demoram, no mínimo, 40 minutos". Jorge Colman nos aguardava do lado de lá com um pneu usado pra mim. Lentamente, quase que levando nossos veículos a pé, atravessamos a Ponte da Amizade. Ela é o que é, estreita, cercada por grades, muito movimentada e vigiada pela Polícia Federal do nosso lado e pelo Exército do outro. E embaixo dela passa o Rio Paraná. Sem demora tiramos a documentação aduaneira enquanto o Diego fazia o câmbio da moeda (Real x Guarani). Veio um soldado e me disse que tinha passado um pessoal numas Vespas a um pouco mais de uma hora. Era o Farid e o Coca, do Vesparaná Club. Nesse corredor de 500 metros dezenas de pessoas pulavam em cima da gente oferecendo serviços de câmbio, guia, despachos, e sabe-se lá o que mais. Quando finalmente estávamos prontos para a partida, em Ciudad del Este, notei dois rapazes sem capacetes numa moto de baixa cilindrada convencendo o João (que guiava o carro de apoio) a puxar a tropa e segui-los por um tal caminho alternativo, porque supostamente no quilômetro seguinte estava acontecendo uma passeata dos professores públicos. Cheguei do lado deles, comecei a rir e disse "você fala isso para todos né". Eram tremendos caras de pau levando um trocado desinformando turistas. Ok, ameaçamos segui-los, mas na primeira esquina o Vespão tomou a frente e acelerou pra Ruta 7. De fato adiante não havia protesto algum. Havia sim o Jorge Colman, esperando a gente num posto de combustível com sua Vespa Sprint Veloce e o meu pneu na mão. Obrigado Mr.Colman!! Ali nos demoramos por quase uma hora. Rafael Assef, que acordava um pouco tarde em Campo Mourão (PR), estava perto de Foz do Iguaçú, e torcíamos para que ele nos alcançasse. Digitei no celular as instruções do Vespaparazzi e partimos na ventania que levantava a poeira das fazendas, dobramos à esquerda no início da Ruta 6, na pequena Minga Guazú. A estrada nos levaria, pelas próximas 6 horas, até a cidade de Encarnación, extremo sul do Paraguay.


Já nos primeiros quilômetros o Jorge Colman firmou uma velocidade própria e ficou nela: 65km/h. Seu receio era que o pistão travasse ou que grudasse o platinado. Respeitamos o seu ritmo e assim desfrutamos mais do visual pela frente. Inacreditável foi passar por uma imensa plantação de girassóis. Mais lúdico ainda foi o túnel de arvoredo próximo à cidade de Santa Rita. Nessa cidade paramos pro almoço, e nos sentimos no Brasil, muito por causa da culinária mesmo. Fui entender depois. O dono do restaurante era catarinense, e a cidade é reconhecida também pela quantidade de imigrantes brasileiros que compraram casas por lá. Estávamos no Departamento do Alto Paraná. A família do Colman, que nos acompanhava numa pick-up de apoio, fizeram toda a questão de nos pagar o almoço. Era uma gentileza multiplicada por meia dúzia de barrigudos. Os Colman são gente do melhor tipo. É uma honra ser tão bem recebido em outro país. É um bom sinal também. Agradecidos e bem alimentados seguimos satisfeitos, na tocada máxima dos 70km/h, administrando por mímica e setas o domínio da pista diante dos carros e caminhões. Quanto as motos, com elas não era preciso, o pessoal enrolava o cabo pelo acostamento mesmo, acelerando contra o vento, sem capacete (ou documento). Doctor Juan León Mallorquin é o nome da Ruta 6.


Passamos por uma cidadela chamada Naranjal, ela me lembrou um pouco do oeste paulista antigamente, com seus muros baixos, quarteirões planos e jovens de mobilete ensurdecendo a vizinhança. Acho que foi em San Rafael del Paraná que fizemos uma parada para combustível. Era o início do Departamento de Itapúa, conhecido como o "el granero del país", aonde a agricultura da soja, do milho e do arroz predomina. O campo estava bonito de se ver.
Achei interessante que em algumas propriedades os trabalhadores ergueram suas casas às margens da cerca, o que por ventura propiciava às famílias montarem pequenos comércios, como borracharias, sucos naturais, salames em promoção, sacos de laranja, utensílios de cozinha etc. Era 15h30 e o sol não dava tréguas. E foi nessas que o motor da Sprint do Colman travou, a 70km/h. Rapidamente ele puxou a embreagem e parou no acostamento. Enquanto a gente esperava o seu motor esfriar, do norte vinha mais um vespista, o Jose Rotela, que na verdade vinha da capital, trazendo a sua Sprint Veloce rebocada no carango. Bela ragazza!! Pronto, já era o segundo vespista paraguaio e a segunda Sprint Veloce com a gente. É um bom sinal também. Voltei pro motor do Colman, e pelo buraco da vela injetei WD no cilindro, e passo a passo destravei seu motor. Dali em diante isso não se repetiria.


A viagem estava gostosa, no ritmo rodoviário dos Radunos da Primavera. E enquanto revezávamos a formação do grupo, Diego tomava diversas partes da pista para que o João se redobrasse nos takes pela janela. Os caminhões pesavam, até porque, em alguns momentos, sem muitas opções de ultrapassagem, cresciam em nossas costas. Ficávamos no centro de um eclipse. A gente se comunicava o tempo todo com eles com setas e sinais, e buscávamos o acostamento sempre que possível, abrindo passagem para a fila represada atrás de nós. Hernán e Colman revezavam-se nas filmagens com a Go-Pro no peito. Vespaparazzi despertava a curiosidade e a simpatia de todos por onde passava. E no clima da viagem, revezávamos rapidamente a formação, dançávamos pelo asfalto todo e fazíamos os takes mais arriscados quando a pista abria. A gente parou para abastecer numa cidade chamada Edelira e um frentista lá me contou um pouco sobre a expressiva imigração alemã para a região durante as grandes guerras. "Vene Quá", chamou o "soldado" Vespaparazzi para um beijo na boca do frentista. Os caras se mijavam de rir. Às 17h30 fazíamos a última parada geral, na cidade de Bella Vista. Estávamos a 50kms de Encarnación. Vespão roubava a cena no Paraguay, e dessa vez um grupo de uma dúzia de adolescentes veio pedir uma foto com a gente. "dia divertido, tivemos uma especie de cheerleaders (que isso novinha!) da expedição!",  escreveu o Hernán. Então prosseguimos vendo o sol cair como areia na ampulheta. Depois de Trinindad a ansiedade aumentava, e às 19h finalmente estávamos em Encarnación. Abastecemos as Vespas, arrumamos as coisas e partimos, mascarados na noite paraguaia, na ordem da foto abaixo: Huracan Ramirez, Psicoprata, Caveira A Lenda do Trevo e Pistoleiro Paraguayo com o Esqueleto Brasileiro na garupa. E numa noite de calor e boa onda, a cidade de Encarnación parou para ver acontecer o I Encuentro Internacional de Vespas en Paraguay (evento associado ao XV Encuentro Internacional de Vespa Clubs). Tema do dia: Mi Oracion Azul - Herminio Gimenez.



Relato por Marcio Fidelis
Fotos por Fidelis e João Unzer

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

II Expedição Tropeira Brasil Paraguay (DIÁRIO DE ASSIS)


Deu na capa do Diário de Assis: Expedição Tropeira Brasil-Paraguay. A reportagem foi para as bancas e praças da cidade no dia 30 de Outubro (e também no site para os assinantes), no dia seguinte da nossa passagem por lá. A foto foi feita diante da Oficina do Xandão, que conforme citado no post anterior, é a lenda viva da região no quesito motonetas e corridas de rua. Obrigado mamãe pelos jornais enviados aqui pra Sede. Vespaparazzi dá o recado: "É nóis Mulekada". Hernán imagina um velho num cafezinho do centro da cidade olhando a foto e lendo o texto. Eu acho um grande barato!! Recomendo pra vocês uma velha dupla caipira de Assis: Filho de Pobre - Jacó e Jacózinho

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

II Expedição Tropeira Brasil Paraguay (Parte 01 de 05)

Vamos lá!! Em 5 etapas tentarei relatar um pouco dessa incrível viagem internacional que fizemos, levando mais uma vez a bandeira da (e de) SP para além das fronteiras. Os personagens: Walter Vespaparazzi, Hernán Rebaldería, Rafael Assef, Fabio Much e eu, Marcio Fidelis. O tema: II Expedição Tropeira Brasil-Paraguay, apelidada, por questões profissionais, para The Business Road Trip, patrocinada pela JWT. Período: 12 dias. Objetivo: realizar um tiro longo e prestigiar o grande encontro sul-americano de vespistas. 


28 de Outubro, São Paulo-Assis
ERA UMA VEZ NO OESTE

7h da manhã, era segunda-feira e a semana começava em São Paulo. Com a ajuda do Diego Pontes, Vespaparazzi e eu levamos nas Vespas nossos pertences e as peças de reposição (consignadas pela Free Willy) da Mooca até o Paraíso. Hernán ajudava a equipe a arrumar o carro com o João Unzer e o Diego Koba, respectivamente Diretor de Arte e Produtor. O carro era um Ford Fiesta com pneus Bridgestone, e dentro um combo com diversos produtos que utilizaríamos durante toda a viagem, como os enlatados Gomes da Costa, latas de Coca-Cola, lenços Kimberly Clark, ferramentas Tramontina, produtos da Drogasil, da Pernambucanas, da Avon, Windows etc. Tínhamos a Shell envolvida nisso também, e daí veio o combustível e o óleo 2 Tempos. Bom, tudo isso ficava aos cuidados da equipe patrocinadora, a JWT. Da gente mesmo, a Scooteria Paulista, faríamos o de sempre: acelerar, realizar reparos, conhecer pessoas e desfrutar dos caminhos. Vamos lá!! Tomamos a Marginal Pinheiros, passamos pelo primeiro pedágio da Castelo Branco, ainda apreensivos com o futuro da viagem e com a presença de um carro conosco. Já na saída da metrópole fomos cumprimentados por dezenas de motociclistas e motoristas. Mas nada era comparável a festa que João Medeiros fez quando nos viu. O nosso camarada simplesmente passava pela rodovia ali pela região de Barueri no mesmo exato momento. João estava vibrante e aquela coincidência nos enchia de confiança. Rodamos 100 kms na média dos 80 por hora. Na primeira parada Hernán me alertou sobre o risco da antena com a bandeirola do Estado de São Paulo instalada em minha Vespa se quebrar na ventania. Saquei ela fora e aproveitei para trocar o pneu dianteiro, quase careca. Todavia durante a troca detectei uma bolha no step semi-novo. Destino: lixo. Voltei com o velho barrachão malhado pra Castelo Branco, e seguimos, revezando posições na formação rodoviária. Na segunda parada João e Diego identificaram um problema no acendedor automático do painel do carro, indispensável para carregar as baterias dos equipamentos. O sol se firmava conforme a manhã se esvaia. Dizia Hernán que "o clima estava ideal e tomara que continue desse jeito: sol, algumas nuvens, e não muito calor". Vespaparazzi estava tão contente que contagiava. Tanto ele quanto eu sabemos  bem o que é passar apuros financeiros e encarar centenas de quilômetros em Vespa só com o dinheiro do combustível e do óleo. Dessa tínhamos a conta paga, e aí morava o barato das coisas. O clima era dos melhores, um prenúncio de uma história sem fim que vai deixar saudades. Ultrapassando caminhões, surpreendendo motoristas, cortando a ventania, rumávamos para o oeste. Depois de 200 kms rodados, já na hora em que o sol nos derretia os cabelos, paramos pro almoço, margeando a cidadela de Iaras. O oeste paulista tem um cheiro peculiar, que tem a ver com um cheiro da terra misturado ao da cana-de-açúcar, temperado pelo mormaço do asfalto irregular das menores rodovias. Pela Raposo Tavares víamos pilhas e pilhas de máquinas agrícolas de outrora abandonadas ao relento, dando à fotografia da viagem um algo de Tarantino. 


O objetivo nesse dia era chegar em Assis, cidade que já foi minha, e aonde vive parte da minha família. E às 18h tomamos a avenida principal. Para a nossa surpresa não havia nada (nadinha) de trânsito. E para o espanto do povo local, emparelhamo-nos, lentamente, por aquelas ruas, como três forasteiros a galope com o pó da viagem na testa e um cigarro no canto da boca. Deixei os rapazes todos engatilhados num recomendado hotel da cidade e já de noite segui para o subúrbio, para finalmente desfrutar dos cuidados e do amor da mamãe. Vespaparazzi tinha que trabalhar um pouco à distância em seu site Vespaparazzi. Enquanto João e Hernán se concentravam no tratamento das imagens do dia e no diário de bordo escrito pela ótica da JWT. Diego organizava a contabilidade e tudo o que precisávamos. Nesse dia percorremos 430 kms. Tema do dia: Once Upon a Time in West - Ennio Morricone.

29 de Outubro, Assis-Campo Mourão: 
RIO VERMELHO

Às 8h30 da manhã nos reunimos na oficina do Xandão, lambrettista-mecânico e ex-competidor das corridas de rua dos anos 60 e 70. Xandão fora amigo do meu avô Chico Fidelis, e minha presença ali outra vez dispensou apresentações e cerimônias. Enquanto ele me mostrava as fotos do passado, Vespaparazzi ali mesmo deitou no chão e por uma hora trabalhou na troca do retentor rachado. No meio da conversa toda, entusiasmado com nossa visita, o velho lambrettista pegou o telefone e comunicou ao Diário de Assis da nossa passagem pela cidade. Vinte minutos depois o carro da reportagem parava na porta. (Na próxima semana publico aqui a matéria). As 11h deixamos Assis pela Rodovia Miguel Jubran. Muito sol e céu aberto, o que me preocupava, pois seguia com o pneu careca - não encontrei nenhum compatível na cidade. Hernan e Vespão seguravam um pouco o ritmo por causa dos buracos e irregularidades da pista. Ali eu estava familiarizado e pilotando (motocicleta) já rodei nessa estrada por mais de cinquenta vezes no passado. Ao chegarmos na divisa entre São Paulo e Paraná paramos para o João fazer alguns testes com a câmera aérea. Não foi dessa vez. Seguimos viagem, com o carro junto realizando os registros. No Paraná pagávamos os pedágios mais caros. Antes de entrar em Londrina tomamos o caminho pra Arapongas pela PR986. Passamos Cambé, Rolândia e alguns vilarejos. Encarávamos aqui os primeiros desafios rodoviários com os caminhões, pois rodávamos por pistas estreitas e de mão dupla. A cada parada eu procurava por um ponto de Wi-Fi para me comunicar com o Assef, que estava (quase) decidido a tomar a estrada na madrugada e nos encontrar pelo caminho. Quase em Mandaguari paramos à beira-pista para um piquenique. Até aquele momento já tínhamos cumprimentado mais de 100 pessoas pelo caminho, acho que muito devido à presença do mascarado Vespaparazzi, cuja figura militar um tanto sombria me faz remeter ao personagem Jonah Hex, um anti-herói confederado do gênero western. Do outro lado da estrada a soja seca da cor de palha tornava o momento bastante lúdico, diga-se de passagem, como em algumas capas do The Catcher in the Rye (O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D.Salinger). Por volta das 15h30 recolhemos a coisa toda e seguimos na mesma tocada, e a cada quilômetro avançado, mais belo ficava o sol baixo na nossa direita.



Passamos por Maringá e a magia da viagem só aumentava. Vespão brincava com os caminhoneiros como se conhecesse todos eles. Hernán se portava como um velho estradeiro, firme ao guidão, já familiarizado com a pegada rodoviária. Diego levava o carro com prudência e João tentava capturar todas as cenas e detalhes da gente em pista. Depois de Peabiru o dia partia rapidamente, e os insetos saíam para jantar. Muitos deles carregamos esmagados nos escudos das nossas Vespas até Campo Mourão. Sim, chegávamos, às 19h, depois de 320 kms cravados. Negociamos dois quartos apertados e nos esprememos ali mesmo, pois a contabilidade da viagem era curta.


Pelas 21h30 saímos a pé para tomar umas e comer um lanche de praça. Foi nessa que o Vespaparazzi contou pra gente uma parte da sua tocante infância. (Um dia ele contará pra vocês). Preciso dizer aqui que, na mesma noite, antes de dormir acessei a net, e li a reclamação pública de um colega (??) que gratuitamente incomodado com a nossa viagem, se referia a mim (ou a algum dos nossos) como anti-scooterista sendo aplaudido e blablablá. Ok. Mas o que é que vou contar lá em casa? Qual é a real necessidade disso? Acho mesmo que está mais do que na hora de cada um cuidar da sua vidinha, da sua saúde, das suas posses, da sua mente, do seu clube, das palavras que usa. Parafraseio o Christian Orellano nessa hora: "muita gente se acha o neto do Enrico Piaggio". Tema do dia: O Mundo é Um Moinho - Cartola.

30 de Outubro, Campo-Mourão-Foz do Iguaçú
SANGUE AVENTUREIRO

Após o café recebemos no hotel a ilustre visita do sr.Ferreira, ex-vespista pai do Emerson Mestrinelli, um dos nossos. Sua visita dava um tom familiar para a nova etapa da viagem, conectando-nos ao amigo que ficou na capital paulista. O sr.Ferreira nos acompanhou até uma loja de pneus, ao posto de combustível e à saída da cidade. O lance dos pneus foi o seguinte: eu ainda estava com o dianteiro irregular, careca, na esperança de encontrar pelo caminho um compatível - que não fosse o mesmo das scooters modernas. Não foi dessa vez. Seguimos pela PR369 sempre no ritmo dos 80km/h. Havia uma certa preocupação do pessoal em filmar muito pela região, o que segurava um pouco a viagem. Sem problemas (como diria Jorge Colman), a gente parava, combinava o take, gravava e seguia adiante. Foi numa dessas que conhecemos o sr.Walter Otto, um argentino portenho de 73 anos que desfrutava sozinho de sua juventude com seu fusca 1961 pelo Brasil. Scooterista veterano que nos contou da sua Siambretta LD 1957 e sua BSU 1963. Imagine a satisfação do Hernán ao encontrar um compatriota aventureiro no meio da cruzada...


Em Corbélia paramos para o almoço e atualizamos notícias. Hernán bem observou em seu diário: "A gente já começou a entender a melhor dinâmica para não cansar tanto, mas também avançar o máximo possível. A cada 50 km a gente pára, descansa um pouco, bebe água, tira algumas fotos, e continua". Vespaparazzi como sempre era bastante solícito com as mil perguntas dos motociclistas e motoristas que conhecíamos a cada parada. E todos queriam uma foto com ele ou com sua Vespa, a Esmeralda. Naquelas redondezas saquei a câmera da cinta e tentei fazer alguns takes malabaristas com a câmera na mão esquerda acelerando a 80km/h. João lá atrás no carro abria o sorriso a cada arriscada, devia estar passando o filme todo na cabeça dele. Depois de Cascavel o trânsito aumentava. Muito porque a cidade serve de trevo para três ou quatro rodovias de intenso tráfego carreteiro. Desenvolvíamos ali um forte sentido de proteção, e o Vespão puxava a frente, uma vez que já tinha realizado a mesma rota ao lado do Eder Vespa na I Expedição Brasil-Paraguay (2012). Depois de Medianeira a sensação de conquista começava a se fazer presente. Vespão notara a minha chateação durante o dia de viagem - devido ao raso julgamento feito pelo "neto do Enrico Piaggio". É, um estradeiro não tem muito a fazer senão refletir, sendo embaixo do seu chapéu ou dentro do seu capacete. E foi entrando em Foz do Iguaçú, naquele pequeno caos comercial, que a gente, finalmente, pôde brindar o progresso da viagem. Antes disso, um guia turístico - tem milhares por lá te caçando a unha na rua - nos levou para um hotel barato, próximo da fronteira. Negociamos um quarto para cinco pessoas e por lá ficamos. E eis que então chega o ilustre Jorge Colman, membro do Vespa Club Paraguay que vive em Ciudad del Este. Veio para nos dar as boas-vindas antecipadas, e dizer que estava em contato com o Fabio Much, e que buscaria o nosso amigo no aeroporto logo pela manhã. No mesmo instante leio a incrível notícia de que o Rafa Assef decidira, de veneta, tomar a estrada com sua Vespa Super, e que sairia nas próximas horas de São Paulo. Nesse dia tínhamos percorrido 320 kms. A coluna pedia arrego. Tema do dia: Let It Be - The Beatles.


31 de Outubro, Foz do Iguaçú e Santa Terezinha de Itaipú
OS PROFISSIONAIS

Tiramos o dia pro lazer. (Na real tiramos 12 dias pra isso). A equipe se dividiu em duas: João e Diego saíram às compras das coisas pro churrasco, enquanto que o Vespão, Hernán e eu, fomos tirar a tal da Carta Verde, um seguro exigido no Mercosul para o livre trânsito de veículos estrangeiros. Era meio-dia quando recebi a mensagem do Assef dizendo que já estava em Ourinhos (SP). A notícia foi um tanto animadora pra gente. Passei para ele algumas coordenadas e retornamos para o hotel. Eis então que chega o Jorge Colman com o Fabio Much (wooou!!). A gang aumentava. Colman voltou para o trabalho e Much seguiu conosco para o churras num parque em Santa Terezinha de Itaipú. Nesse dia quase me joguei no fundo do rio pois a turma esqueceu de comprar as cervejas. Caso sanado a tempo pelo Muchiba, que voltou pra Foz com o Diego para buscar parte dos equipamentos esquecidos. Os rapazes da JWT estavam a mil aproveitando cada detalhe do dia para captação de imagens. Puseram em prática o helicóptero no meio do campado de trigo da região, tiraram fotos artísticas e algumas cenas noturnas. Às 20h retornamos pro hotel, e para a nossa surpresa, dois membros do Moto Club Cataratas vieram até nós e nos convidaram para a reunião/jantar na Sede deles, do outro lado da rua. Topamos, e fomos muito bem recebidos. Vespaparazzi, que é amigo dos moto clubes, se sentia mais à vontade ainda. A Sede era constituída de sala, cozinha, banheiro e um quarto administrativo. Na sala ficavam os cartazes, souvenires e troféus trazidos das dezenas de eventos que participaram na última década. Na cozinha preparavam uma carne acebolada no pão francês. Nos fartamos e tivemos um raro momento de identificação entre as categorias. Nesse meio tempo o pessoal da JWT trabalhava nas imagens, no blog da viagem e na contabilidade do dia. A meia noite nos encontramos no bar da frente do hotel, e ali brindamos a viagem e alinhamos as idéias sobre a Scooteria Paulista nisso tudo. Fabio Much se apertou no mesmo quarto que a gente, e pela metade da madrugada a parte boêmia da viagem foi pro sono. Tínhamos rodados nesse dia algo em torno de 100 kms. Tema do dia: Why Try To Change Me Now - Frank Sinatra.

Próximo post: Da Viagem Pelo Paraguay...

Relato por Marcio Fidelis
Fotos por João Unzer, Hernan e Fidelis

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Encuentro Internacional en Paraguay (TV)

Nos dias 01, 02 e 03 de Novembro aconteceu em Encarnación, sul do Paraguay, o I Encuentro Internacional de Vespas (junto ao XV Encuentro Internacional de Vespa Clubs). Rolou a cobertura do Canal 9 paraguaio - ainda não sabemos qual foi. A gente aparece por diversas vezes aí no vídeo, algumas segurando o banner da Scooteria, também numa rápida entrevista.



Como você sabe, estivemos por lá, em 5 membros: Fidelis, Vespaparazzi, Hernán, Assef e Fabio Much, tendo daqui, os quatro primeiros, rodado 3500 kms rodoviários entre o Brasil, Paraguay e Argentina. Nos próximos dias contaremos como foi. Só sei que foi bom demais!!!!!

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

IV RADUNO DA PRIMAVERA

No dia 01 de Dezembro puxaremos o IV Raduno da Primavera, o giro litorâneo da SP e amigos. Preparem suas motonetas, documentos e fiquem atentos aqui ao nosso blog para futuras informações. Rota: São Paulo - Santos - Guarujá.

Data: 01.12.13
Concentração: 8h no Posto Frango Assado do começo da Rodovia dos Imigrantes (logo que acaba a Av.Ricardo Jaffet). Destino: Santos e Guarujá. Preparem suas motonetas, atualizem documentos, confiram parafusos e pneus pois NÃO teremos carro de apoio. Até lá!!

SOMENTE MOTONETAS CLÁSSICAS, ESPECIALMENTE DE MOTORES 2 TEMPOS, EXEMPLO: VESPA, LAMBRETTA, CEZETA, ISO, BAJAJ... O EVENTO É ABERTO A TODOS, MAS 100% VOLTADO AO VELHO CHASSIS. E É PELO CHASSIS QUE ABRIMOS UMA EXCEÇÃO ÀS STAR 4 DA LML.

Aos amigos da baixada, aguarde-nos às 11h na entrada da balsa (do lado de Santos).
Infos com Fidelis (11 95497-8344) ou Gustavo (13 99124-3929)

Tema de hoje: Nós Vamos Invadir Sua Praia - Ultraje a Rigor
Arte por Leo Russo