Últimas Imagens

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Jundiaí 2013 em Seis Atos

Domingo de sol e pista livre. Um dos eventos mais esperados do ano abria as portas em nova Sede. Assinado pelo Clube da Lambretta de Jundiaí, o X Encontro de Lambrettas, Vespas e Motos Antigas da cidade levou centenas delas. De São Paulo a Free Willy puxava o comboio pelo décimo ano consecutivo. A gente faria a cobertura. Então às 9h da manhã o campo do Nova Odessa Futebol Clube de Jundiaí recebia os seus primeiros visitantes, e o Largo do Arouche de São Paulo abrigava a espetacular saída das máquinas.  O comboio da capital levou 30 motonetas pra lá. Em Jundiaí chegou-se a 100 unidades de motonetas em expo ou venda. O evento manteve as características dos anteriores: exposição e festa. Então pra variar, a respeito desse evento quem vos escreve é o vespista paulistano Edu Parez, contando a sua história na viagem toda. Vai lá Edu!!


SEM CÂMARA. SEM AR. SEM CHÃO

Primeiro Ato: A Ansiedade
Acordei. O despertador da Silvia é implacável as 8h da manhã do domingo. Levantamos. Banho, café, roupas confortáveis. Lá fora o céu azul, aquele friozinho de uma manhã clássica de inverno. Eu de jaqueta Vespa, ela de sobretudo clássico. Torradas, frutas, café e rua. Montados na nossa PX 200 com destino ao Largo do Arouche para a concentração dos amigos rumo ao X Encontro de Vespas e Lambrettas de Jundiaí. Já no Largo do Arouche umas 20 Vespas e Lambrettas esperando impacientemente a saída rumo a Anhanguera com destino ao Esporte Clube Nova Odessa, local da reunião dos apaixonados por motocicletas antigas. Amigos reunidos, cumprimentos sonolentos, cores e estilos diferentes lado a lado. Fotos, registros, admiradores e pronto: basta um ligar a sua que todos já se movimentam, é hora do comboio sair rumo a estrada. Mais um passeio e a delícia de pegar uma estrada montado em uma motoneta clássica. Como de costume, por onde passamos arrancamos sorrisos, pessoas apontando, fotos e curiosos. É sempre um orgulho. Parada no posto para reabastecer, calibrar os pneus e reunir mais amigos e mais motonetas. 20 minutos de parada e pronto, todos reunidos. Agora cada um de nós sente-se parte de algo, sente-se protegido no comboio rumo a Jundiaí. Cerca de 60 quilômetros até a sede do encontro. Algumas paradas e alguns platinados de Lambretta resolvidos e pronto: chegamos triunfalmente em nosso destino. Entramos radiantes, esperados e bem recebidos. Uma banda de rock, uma cervejinha, um espetinho e centenas de motocicletas clássicas. Bate papo com os amigos na sombrinha. Sol forte e tempo seco. Ideal para um passeio de domingo com os amigos. Mas é chegada a hora de retornar para São Paulo. 



Segundo Ato: A Melancolia 
Voltar sempre é a parte mais triste desses encontros. Porque sempre passa muito rápido e você sempre sente que poderia ter falado com mais gente, que poderia ter feito mais coisas, enfim, você já fica esperando o próximo. Tirei a jaqueta e fiquei só de camisa e a Silvia só de regata. Montamos na Vespa, paramos para abastecer e rumo a Bandeirantes para a volta. Cerca de 14h30. Sol forte, asfalto quente. No comboio de volta estávamos em poucas clássicas: cerca de 8 PX 200, mas todos juntos.


Terceiro Ato: O Prazer
O comboio seguia unido, todos na mesma tocada. Velocidade média de 75km/h. Um dia lindo, um céu azul espetacular. Sem vento, sem trânsito pesado. Íamos curtindo a tocada e aproveitando a paisagem. Uma prazer enorme. Em determinado momento, vi uma subida grande a frente e decidi acelerar mais para embalar. Como estava com garupa pensei que mais embalado não exigiria tanto do motor na subida e chegaria no topo sem forçar tanto o motor 86 da minha PX. Após a subida, obviamente, um pequeno declive. A Vespa, embalada, estava a exatos 90 km/h. O motorzinho está com saúde, pensei. Sim, o motor está com saúde, mas foi aí que percebi que meus pneus com câmara não gozavam da mesma forma física. E a 90 km/h ouço um pequeno estouro. Era o início dos 10 segundos mais aterrorizantes que passei sentado em uma motoneta.

Quarto Ato: O Terror
A expressão “A vida é curta” nunca fez tanto sentido naquele momento. Já havia “tomado um rola” em um dos Desafios de Motonetas. Não me machuquei gravemente, apenas uma torção no pé bem dolorida. Mas nada grave. Foi tudo tão rápido que até hoje eu não sei contar como foi que caí. Mas agora era diferente: eu tive extensos 10 segundos para poder imaginar como seria a minha queda. A minha queda e a da Silvia, que estava na garupa comigo a 90 km/h. O pneu traseiro havia estourado e esvaziou rapidamente e a única coisa que eu ouvia era o som da roda roçando no asfalto, e a Vespa transformou-se em um touro de rodeio. A roda traseira começou a serpentear pela rodovia. Ainda lembro da Silvia me perguntando: “ O que tá acontecendo, o que tá acontecendo??” A sensação era de que a qualquer momento iríamos cair e a idéia de rolar no asfalto naquela velocidade é aterrorizante até mesmo nesse momento sentado nesse sofá escrevendo esse texto. Eu de camisa e calça jeans, ela de vestido e regata. No mínimo alguns ossos quebrados e ralados por todo o corpo iríamos ter. E tudo isso passou pela minha cabeça naquele momento. A velocidade ia diminuindo aos poucos e eu pensava que ainda a 40 km/h o tombo seria forte. No meio disso tudo lembro de ter jogado meu corpo pra frente, e da Silvia ter me agarrado forte pela cintura. Tentei ao máximo manter a frente da Vespa alinhada e ir freando lentamente somente com o dianteiro. O som da roda no asfalto era impressionante. Aos poucos a Vespa foi parando e retomei o controle da situação. Como estávamos na pista da direita consegui levar a Vespa para uma saída de pista. A Vespa foi diminuindo a velocidade lentamente. Só lembrava de nem pensar em encostar o pé no freio traseiro. Sabia que se encostasse o pé no freio traseiro a possibilidade da Vespa rodar seria enorme. E talvez isso tenha salvado nossa pele e nossos ossos naquele momento. Pra não dizer nossas vidas. Após reestabelecer o controle da situação, com a ajuda da Silvia na garupa que se portou perfeitamente e que não se desesperou em nenhum momento, a Vespa parou. E para minha surpresa, estava em ponto morto. Sem perceber eu também reduzi as marchas durante a frenagem. Como fiz? Não lembro, não me pergunte. Só lembro que paramos e que a Vespa ainda estava ligada e funcionando. Ato contínuo, fechei a gasolina, desci, A Silvia desceu. Nos olhamos, começamos a gargalhar nervosamente, fizemos um “hi-five” e nos abraçamos.


Quinto Ato: A Solidariedade
Eu deveria estar pálido, branco de susto. Mas a expressão dos que vinham atrás de mim e pararam logo após era muito mais surpreendente: “Eu vi vocês caindo umas 4 vezes”, “ Se fosse eu estaria dentro de uma ambulância agora!! “, “ Nunca vi isso na minha vida, tô tremendo mais do que vocês!” O comboio todo parou e foi só ali que eu percebi o quanto tudo foi grave. Só naquele momento eu tive a nítida impressão de 
que tudo poderia ter terminado muito pior. Rapidamente tiraram minha Vespa da saída da estrada, levaram para o acostamento e começaram a trocar meu pneu. Eu não conseguia nem me manter em pé direito, tamanha a tremedeira que estava, anestesiado. Não teria forças naquele momento para girar uma porca, quanto mais para trocar um pneu. Mas a irmandade foi mais forte, e pessoas que eu nunca conversei ou havia cumprimentado antes estavam ali, debruçadas sobre minha Vespa, se sujando de graxa, fazendo força, se sujando para me ajudar. Ali deu vontade de chorar. Um misto de “nasci de novo” com “minha mulher está bem” com “eu realmente faço parte de algo bem bacana”. Mas não consegui chorar, talvez o nervoso, talvez a vergonha. Não sei, mas não chorei ali. Pneu trocado, agradeci imensamente a todos e o pior, nem lembrei de perguntar os nomes. Estava tão nervoso que nem ao menos me lembrei disso. Mas podem ter certeza que sou imensamente grato. Lembro de todos sempre. Agora a volta seria muito mais lenta, seria muito mais preciosa. Chegar é o mais importante, sempre. O comboio se reuniu novamente e todos a 60 km/h. Acredito que todos ali também sentiram que isso poderia ter acontecido com qualquer um, e naquele momento a prudência, e por que nao dizer o medo, estava mais evidente. Paramos em um posto de gasolina a 40 km de São Paulo, calibramos os pneus, trocamos o pneu de outra Vespa do grupo por precaução e seguimos viagem reunidos. Nos despedimos de dois heróis no rodoanel e ao chegar na entrada de São Paulo cada um de nós seguiu seu caminho para casa. Atentos, felizes pelo pior não ter acontecido e com a certeza de que juntos na estrada sempre teremos a irmandade e a solidariedade como nossa maior companheira. Mais uma vez obrigado a todos.


Sexto Ato: A Conscientização
Os passeios de Motonetas ficaram mais frequentes e estão reunindo mais adeptos e participantes. Além das precauções normais com a manutenção de nossas motonetas: motor, câmbio, freios e parte elétrica, eu ressalto a importância crucial de trocarmos nossas rodas e pneus. E falo isso por uma questão de segurança. Nos passeios em estrada a velocidade é quase sempre maior do que costumamos desenvolver na cidade. E além de estarmos mais rápido, nós permanecemos nessas velocidades durante longos períodos, aumentando a pressão e a caloria em nossos pneus e câmeras. Os pneus e rodas com câmara são confiáveis até determinado ponto. Condições de piso, temperatura, calibragem e qualidade do composto da borracha do pneu e da câmara influem diretamente na possibilidade de um acidente como esse. No meu caso o fator foi um descolamento do remendo de um furo anterior. Mas em outra situação, durante um Desafio de Motonetas já tive outro pneu furado, e a causa foi um rompimento da emenda da câmara devido à pressão e temperatura exigidas durante a prova. E eu não fui o único: já tivemos outros 3 casos iguais em provas nos Desafios. É mais comum do que se imagina. Mas uma coisa é um furo na pista onde estamos devidamente equipados e muitas vezes a pequenas velocidades devido a circuitos travados. Outra situação completamente diferente é estar a 90 Km/h com garupa em uma Rodovia com grande movimento de carros e caminhões. Aí sim é assustador. Por isso ressalto: procure sua oficina de segurança e realize as trocas de suas rodas e pneus. Talvez não esteja dentro de seu orçamento, ou quem sabe você ache até caro. Após meu acidente eu já troquei as da minha Vespa. Se foi caro? Acho que até foi um pouco sim, mas eu ainda estou vivo para fazer isso. E se não puder pagar eu peço emprestado pra Silvia. Por que depois, ainda vivos, a gente sempre arruma um jeito pra pagar, não é mesmo?

Fotos 1, 3, 4, 5 por Valery
Foto 2 por Fidelis

O autor desse relato, Edu Parez, sugere a audição de:
Rory Gallagher: Shadow Play

8 comentários:

Silvia Helena disse...

Pois bem, o susto foi grande e na volta só pensava estar dentro de um carro em toda a segurança.
Mas essa emoção faz parte e o prazer que nos envolve de estar nas ruas e participando é muito maior que qualquer medo que eu possa vir a ter....por tanto, troca o pneu pelo amor de Deus e bora...
Silvia

Scooteria Paulista disse...

Um dos relatos mais intensos que já li por aí sobre giros em motonetas. Vou atrás do tubeless agora... ;)

Fidelis

Rosemeri disse...

Nossa foi punk hein!? Estou aqui assustada, arrepiada e com os olhos cheios de lágrimas pelo susto que vocês passaram, mas DEUS é muito bom e protegeu vocês! Que DEUS esteja sempre à frente de nós, em nossas vidas e em nossos passeios sempre!!

Rose

Anônimo disse...

NOSSA QUE HISTORIA FOI ESSA? ESTOU ASSUSTADO SE ISSO ACONTECER COM MINHA LAMBRETTINHA EU NUNCA MAIS SUBO NUMA.

PJ LAMMY

Animal Taylor disse...

Ééé galera! Isso acontece MESMO! Sei exatamente o que é isso Edu. Ja aconteceu exatamente a mesma coisa comigo e a Paraguaya na garupa uma vez na Regis. Outras vezes aconteceram aqui por perto mesmo (digo outras vezes pq foram varias mesmo), e eu sei exatamente como é essa sensação de 'touro brabo'. A pior de todas tb foi na Regis mas eu tava sozinho e beem carregado de bagagem (na minha viagem pro PY), mas daí estourou a lateral do pneu mesmo, e o chao foi praticamente instantâneo. Ralei por uns 20-30 metros e fiquei desacordado já no acostamento da pista (sorte, pq tava numa curva, se ficasse no meio da pista ja viu né?).

Enfim, a lição q eu tive foi NUNCA MAIS USAR PNEU BOQUETA!

eu insistia em economizar dinheiro, e usava pneus Maggion.
Pra usar aqui dentro, pra peqs passeios, até que 'funciona' ,mas nem arrisque a forçá-los pq não güenta. Levorin, Rinaldi, Maggion e outras marcas xebréus sao todos assim. Pneu bom é Pirelli, Metzeler, Michelin e olha lá!

Animal Taylor disse...

Ééé galera! Isso acontece MESMO! Sei exatamente o que é isso Edu. Ja aconteceu exatamente a mesma coisa comigo e a Paraguaya na garupa uma vez na Regis. Outras vezes aconteceram aqui por perto mesmo (digo outras vezes pq foram varias mesmo), e eu sei exatamente como é essa sensação de 'touro brabo'. A pior de todas tb foi na Regis mas eu tava sozinho e beem carregado de bagagem (na minha viagem pro PY), mas daí estourou a lateral do pneu mesmo, e o chao foi praticamente instantâneo. Ralei por uns 20-30 metros e fiquei desacordado já no acostamento da pista (sorte, pq tava numa curva, se ficasse no meio da pista ja viu né?).

Enfim, a lição q eu tive foi NUNCA MAIS USAR PNEU BOQUETA!

eu insistia em economizar dinheiro, e usava pneus Maggion.
Pra usar aqui dentro, pra peqs passeios, até que 'funciona' ,mas nem arrisque a forçá-los pq não güenta. Levorin, Rinaldi, Maggion e outras marcas xebréus sao todos assim. Pneu bom é Pirelli, Metzeler, Michelin e olha lá!

VCS disse...

Bom post.
Não facilitem com pneus, câmaras de ar e jantes ferrugentas. Jantes e pneus tubeless em condições são fundamentais, como foi dito.

Vasco

http://respiroscooter.blogspot.pt/

Anônimo disse...

Na última photo, parecem todos 'playmobiles'!

Debbie C.