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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

RETROSPECTIVA 2013

Considero esse ano como o mais tenso e intenso em termos de relacionamento no universo old scooter sul-americano. No Brasil especialmente foi nos paradoxos da vida virtual que muito aconteceu. Foi também um ano de grandes encontros, rupturas, viagens incríveis, patrocinadores de peso, aprendizado e superação. Mas como aqui o nosso negócio são com os fatos, é baseado neles que faremos a nossa retrospectiva dos eventos coletivos que "de fato" fizeram renascer das cinzas a Scooteria Paulista.

V São Anivespaulo

JANEIRO - "2013 começou treze". Escrevi isso no primeiro dia do ano quando levei minha Vespa "no braço" com pistão furado de Guarulhos até Jacareí. Duas semanas depois cai a bomba: um acidente em Vespa levou o nosso amigo-veterano sr.Luiz de Castro aos 81 anos. A quinta edição do SÃO ANIVESPAULO (Um giro pelas alturas da cidade) foi marcada pela homenagem em pano, e apesar das 70 motonetas reunidas, faltou uma. Na sequência levaríamos ao ar a quinta edição do "Ata no Ar", um programa da Rádio Motoneta, com presença do Mestrinelli e Reginaldo.


FEVEREIRO - O mês abriria com o IV Encontro Nacional na cidade, evento esse que reuniu ao todo quase 200 motonetas durante três dias, foi o SP EM VESPA E LAMBRETTA 2013, recorde histórico, que só seria superado um ano depois, pelo VI São Anivespaulo, também na capital. A Rádio Motoneta daria seus últimos suspiros nesse mês, com os programas "SP-2013" (ao vivo durante a abertura do Encontro Nacional), e "Especial Vespa Club Paraguay" (quando contamos com a presença de três membros).

MARÇO - A I Etapa do Desafio de Motonetas do ano aconteceria em Araraquara, seguido do II Passeio de Vespa e Lambretta em São Roque. O mês foi marcado também pela presença do colombiano Brandon Quintero entre nós em meio a sua viagem em Vespa pela América do Sul. Se daria a partir de março uma radical mudança de comportamento na base do grupo.


ABRIL - Na noite em que comemoraríamos 3 anos de Scooteria Paulista (21 de abril), eu Marcio Fidelis, reuni no bairro do Brás os que considerei meus conselheiros e propus a extinção da velha ideologia de "Rede do Scooterista Clássico do Estado de São Paulo", e a re-fundação da mesma como "Sociedade 2 Tempista". (A outra opção seria a livre-gestão do grupo sem a minha liderança, ambas negadas pelo Conselho). Foi uma decisão difícil e chocou a muitos, sobretudo aos menos próximos e mais fuinhas. Passaríamos por um longo processo de auto-análise e re-adaptação social.

MAIO - Entre pequenas reuniões e visitas a encontros de autos antigos, lançamos, ao final deste, o número #0 do Almanaque Motorino (La Muerte de La Scooteria Paulista). O fanzine foi uma novidade para a classe, feito ao estilo velha escola, nele começaríamos uma simbólica "campanha": sem ideologia o scooterista não existia. O lançamento foi na Barra Funda, na capital, numa festa especial do coletivo Soul, Suor e Sacanagem. Dias depois nos encontraríamos no XVIII Encontro Paulista de Autos Antigos de Águas de Lindóia, aonde tudo começou a ficar diferente: viagem noturna, acampamento, literatura a venda...



JUNHO - Faríamos outra viagem totalmente diferente dos costumes que nós mesmos tínhamos estabelecido a anos atrás. Dessa vez o objetivo era conhecer mais de Minas, sobretudo Ouro Fino. Três de nós fizemos uma nova rota enquanto outros dois chegariam direto de carango em Poços de Caldas. O destino era ela, a pré-inauguração da Taberna Old Time, num encontro de motos clássicas. 



JULHO - Consideramos esse o nosso primeiro giro aberto da SP desde o Encontro Nacional: I Girata D'Inverno. Optando por pisar em ovos, decidimos sentir o clima primeiramente entre nós, então realizamos o evento em dois tempos: o primeiro fechado entre os membros pela cidade de São Paulo, e o segundo aberto, rumo à Paranapiacaba. A ideia foi um sucesso, recobrando o velho clima dos passeios de outrora, e contou com três dúzias de motonetas de várias cidades. Ainda nesse mês aconteceria o II Desafio de Motonetas, no Kartódromo de Paulínia. Ao final desse produtivo mês veio o Almanaque Motorino #1 (A Way of Life), no Bar do Peppe, no Tatuapé, com shows do Oskarface e Brazilian Cajuns. Aliás musicalmente podemos dizer que ambas fizeram a trilha sonora da SP nesse ano, com diversas festas, companheirismo e muitos brindes. 




AGOSTO - No mês do cachorro louco invadimos a Áustria. Daniel Turiani e Gisele estiveram por dois dias com o Vespa Club Pinzgau e seu presidente Franz. Eles participaram de uma reunião administrativa do clube e fizeram dois giros nos arredores da cidade. Na sequência participaríamos oficialmente das comemorações dos 457 anos do bairro da Mooca - motivo maior: a SP nasceu aqui e a nossa Sede continua, numa legítima e saudosa maloca. Ao final do mês puxaríamos, junto com a Free Willy, um grande enxame de quase 40 motonetas rumo ao X Encontro de Lambrettas, Vespas e Motos Antigas de Jundiaí. Enquanto isso Luiz Lavos e Clausen viajavam pelo sul da Alemanha e visitaram a SIP Scootershop, participando do evento promocional da loja "SIP Shop Opening".


SETEMBRO - Nada de novo no Front. Nosso foco estaria nos preparativos da II Expedição Tropeira Brasil-Paraguay, do Raid de Marrocos e do MUNDIAL DE MOTONETAS 2014 (em São Paulo, durante a Copa do Mundo).


OUTUBRO - Koré e Cris fizeram uma rápida visita com Alvisi (Poços SC) à Autoclasica 2013, uma grande expo de veículos antigos em geral, em San Izidro, na Argentina. Na sequência lançaríamos novamente no Tatuapé o Almanaque Motorino #2 (Mi Corazón Late en 2T). Enquanto isso a equipe Barra Forte (Brazilian Team Vespa) realizaria uma incansável bateria de treinamentos para o Vespa Raid Maroc, que começaria no fim do mês. O fim do mês chegou e lá em Marrocos descobriram que as Vespas alugadas eram uma grande cilada, e todo o esforço deles findou num desapontamento sem tamanho. Uma das piores notas da SP para clube/grupo/entidade em 2013 infelizmente fica com a espanhola Desert Adventure, a organizadora do evento. Enquanto isso partíamos também para a II Expedição Tropeira Brasil-Paraguay, dessa vez patrocinados pela JWT, a quem "vendemos" o projeto como The Business Road Trip. Os personagens: Fidelis, Vespaparazzi, Hernán e Assef, com equipe de apoio. A rota compreendeu o Paraguay, Argentina e Brasil. Um encontro marcante, tanto quanto a nossa presença por lá.



NOVEMBRO - Continuidade do anterior, até quase a metade desse mês o assunto aqui seria internacional: Marrocos, Paraguay e Argentina.


DEZEMBRO - O mês começou com um IV RADUNO DA PRIMAVERA incrível em termos de comboio: 44 motonetas de diversas cidades numa manhã chuvosa rumo ao litoral. Só os bravos!! O evento foi diferente de todos os outros, ainda que faria paralelo com o primeiro lá no Guarujá, a marca deste em termos de comboio seria trágica: o primeiro acidente entre condutores. Nossos velhos planos de fazer valer uma formação de grupo voltaram à tona, e marcará o próximo ano. Na sequência participamos em peso da Confraternização da Free Willy, na cidade de Mairiporã. E findamos por vez este ano (que se fosse comum não seria 13) com a II NOITE DA MOTONETA, um giro pelas luzes paulistanas de Natal. Giro simples e que preparou os participantes para o futuro das formações urbanas de deslocamento.



SCOOTERIA PAULISTA
Sociedade 2 Tempista

"Juntos vocês são invencíveis"
(Antonio Carlos Mattioli - Ribeirão Preto/SP).


2013 foi um ano tenso e cheio de "atravessos". O que lemos, escrevemos e vivemos ficou muito mais intenso, como se fosse a primeira vez que todos se reconheceriam como Classe. Alguns se separaram outros se aproximaram, e o deslocamento das placas tectônicas realmente aconteceu - (eu falei Assef... heheheh). O relacionamento virtual e a descoberta do que é possível (e do como), colocou todo mundo na estrada, nas ruas e na internet com mais frequência per-cáspita. A três anos atrás puxar um giro da capital para Jaguariúna era um parto, uma campanha que começava dois meses antes. Agora até os desenganados entraram pra moda e estão se divertindo com estilo. Todo mundo está botando a mão na massa por seus clubes ou egotrips. Mas estão fazendo, existe iniciativa. E para cada um existem muitas finalidades diferentes.

Da nossa parte 2013 se tornou um ano de resistência. Nos voltamos aos cuidados de nós mesmos, da história da Scooteria Paulista e os seus homens e mulheres. Vivemos um relativo isolamento, e claro que a boca brazuca manteve a tônica das indiretas e críticas voltadas à nós e à minha conduta a frente dela. (Mesmo quando estamos quietos). Queremos ser nós mesmos, queremos ser deixados em paz. Foi esse  o motivo que nos tornou encouraçados nesse ano. Seguiremos no mesmo ritmo, o nosso. Saiba que estamos de olho vivo e da linha vermelha em diante a chapa esquenta. A pedana de uma motoneta não vai ser pra sempre um escudo da sua real personalidade, e não é pelo motor que você vai expressar pra sempre o que realmente é. Se todos querem ter uma longa vida, e fortalecer uma cena pela qualidade dos valores pessoais, apresente os seus, sem esse papo de união forçada ou "diga não à tarifa de busão". Que 2014 possa trazer de volta o purismo que tínhamos há pouco mais de um ano atrás, e que Grândola Vila Morena e We're Comming Back voltem a fazer sentido para a cena como um todo. Ou, não sendo assim, que seja para a nossa realidade aqui.

A cada um que fez valer o meu e o nosso voto no scooterista clássico, o nosso muito obrigado, vocês foram a frente dessa escola 2 Tempista.

-------------- Feliz 2014 --------------


Há um quê "lha de Lost" no ar. A cena está imersa na fumaça, uns não conseguem respirar e a cada palavra tosse e engasga, e outros não enxergam o que está a sua frente. Os motores estão quentes e quanto mais alta a aceleração mais os homens gritam para se fazer entender. Um pouco dessa fumaça o vento vai levar, e trazendo a brisa do mar, as águas vão rolar. Então desejamos a todos sabedoria e proteção. Que 2014 traga fraternidade e discernimento, paz e compreensão.

Marcio Fidelis
Presidente-Fundador

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

II NOITE DA MOTONETA

Na noite de 18 de Dezembro tomamos de assalto o Natal paulistano com um belo enxame. As 32 motonetas presentes: Vespas Originale 150, PX200, M3 e LX150, também a Star4. Foi numa quarta-feira, e a bancada chegava de nove cidades paulistas.


A maioria vinha direto do trabalho, tanto que 40 minutos antes do horário combinado já estávamos na baixa luz da Cinemateca Brasileira, o antigo matadouro da Vila Mariana. De Jacareí chegava o Vespaparazzi trazendo Edgar e Antonio Guerra, que os acompanhou de Mogi das Cruzes em diante. De Itapevi os três parceiros eram novamente puxado pelo Érico. Do ABC o Marcelo Santana e Aurélio com Erica chegavam. Com a placa de Osasco chegava Favero na sua "PXresley. E da capital a trupe da casa com Emerson Mestrinelli, Afonso Antunes, Stofaleti, Reginaldo e Rose, Hernan, Luiz Lavos, Fabio Much, Daniel Turiani, Diego Pontes com Cintia e Gustavo Delacorte subindo no gás de Santos. Aliás ele apareceu direto na Av.Paulista, aonde nos encontrou a tempo. Estavam presente também os amigos Beto, Davilym, Anderson Cabral, Vitor Hugo, Ane e Bruno, Roberto, Diogo, Sergio, Edu Parez e Helena, Chico, Flavio e esposa e tantos outros que vou citando aqui conforme lembrança. O princípio dessa noite se daria (simbolicamente) do ponto em que "acabou" o Raduno da Primavera: próximo do casal Mário e Rosa, que ainda não podem pilotar suas Vespas por questões médicas. Eles vieram de carro e conversaram com todos, que queriam saber do estado de saúde do Super Mário.


A saída se deu em formato de grid. Expliquei pra cada um o método que tentaremos aplicar em 2014 para formação de comboio em deslocamentos de médio e alto risco (nível 3, 4 ou 5). No caso da Noite, a intenção seria para reduzir riscos de contato e incidentes dentro do próprio grupo, uma vez que as ruas estavam tomadas pelo trânsito natalino. E dessa maneira saímos, com ares de desfile da classe. E a sensação de estar num grande comboio noturno é outra mesmo, sobretudo sendo num dia útil. Pessoas estão com pressa, os carros estão nas ruas.

Passamos pelo Parque do Ibirapuera às 21h30. Subimos a Brigadeiro Luis Antônio até a Av.Paulista, o grande palco. Todos estavam lá: pedestres, papais noeis, ônibus, carros com vidro fechado, ciclistas, motociclistas, e a lua cheia atrás das nuvens também. A partir das 22h invadimos a faixa de ônibus e o giro fluiu, ainda que na lentidão dos 20km/h. No final dela Reginaldo incentivou a gente para que voltássemos nela para uma foto oficial no portal do Natal. Ok, a noite estava aí pra isso mesmo. Todavia foi só sairmos  um pouco do planejado, do roteiro, que apareceram as primeiras confusões. Na primeira foi embaixo do portal. Ninguém se entendia e todos querendo ajudar a fechar o trânsito para a foto, se confundiam ainda mais. Ao final conseguimos fechar a grande avenida por um minuto. Ali na saída o Beto tomou um tombo, assim: ele acelerou demais a Vespa engatada, e quando soltou a embreagem a moto voou pra cima e ele tombou. Cuidado com isso amigos, em qualquer tipo de veículo!! Foi tudo bem, ele levantou e seguimos com o passeio. Tomamos o retorno pela Alameda Santos e pela própria Paulista seguimos pra Av.Consolação. Ali os semáforos seguravam a gente, e naquela altura já estávamos com fome, sede e cansaço. Alguns seguiram direto pra suas casas, como o Favero, que para participar e ajudar na organização do comboio nessa noite deixou sua mulher em casa, na data em que comemoravam 5 anos juntos. Como já era tarde, decidi abortar o passeio pelo Centro velho. Então ancoramos nas luzes Praça Roosevelt para uma despedida geral e para tentarmos contato com alguns amigos que se perderam da gente. E assim se sucedeu. E como disse o Emerson Mestrinelli: "a noite paulistana nunca mais será a mesma". Trilha: Merry Christmas - Ramones

Um Feliz Natal a todos!!


Relato por Marcio Fidelis
Fotos por Chico Oliveira e Aurélio Martimbianco

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Scooteria Paulista na MOTO ADVENTURE


A Expedição Tropeira Brasil-Paraguay, ou a The Business Road Trip, está na revista Moto Adventure desse mês numa bela matéria de oito páginas. Antes de comprá-la, consulte o conteúdo pela página 132 e arredores. A matéria fala da viagem, do evento internacional, do patrocinador e da Scooteria Paulista.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

SJC Antigamente #3


Essa é mais uma chegando de São José dos Campos. O grupo virtual SJC Antigamente é um dos mais ativos no Facebook. O tempo não pára no "museu de grandes novidades", e essa vem do Paulo Roberto Gonsalles, uma foto sessentista da extinta Oficina do Espanhol, da Rua Antonio Ruis Vilanova. Casotti destaca: "Da esquerda pra direita: Aero Willys, LAMBRETTA LD, Pedal Car, dois Jeep's e uma Kombi. Essa é o nosso último post sobre a cidade que nos recebeu de braços abertos no SP em 2T 2012. Deixamos aqui um saudoso abraço aos amigos de lá, que espero rever no começo no novo ano. Boas festas SJC. Essa é a trilha do Guerreiro pra vocês: Castle in the Air - Don McLean

domingo, 15 de dezembro de 2013

IV Raduno da Primavera (Parte 02 de 02)

Domingo de Raduno, era a quarta edição do evento mais tenso de todo o calendário da Scooteria Paulista. Estava anunciado que o giro aconteceria independente das condições climáticas. Leo Russo preparou a arte e a Sociedade aqui fez a parte dela. Ao todo reunimos 44 motonetas, entre Vespas, Lambrettas, Bajaj e Star 4, das cidades de São Paulo, Santos, Guarujá, Taboão da Serra, Osasco, Itapevi, Campinas, São Roque e São Sebastião. Mesmo debaixo de muita água realizamos a prova, e mesmo com tantas precauções na viagem, o pior fato narrável de nossa história veio à tona. Foi assim...



Às 9h em ponto enfileiramos as motonetas na Rodovia dos Imigrantes e antes da partida instruímos o grupo quanto aos perigos da rodovia, a velocidade de cruzeiro e a formação do comboio. Antes mesmo de passar São Bernardo do Campo a chuva já descia fria castigando. Após o pedágio o trânsito travou, acontecia ali a "operação comboio", a descida dos veículos controlada pela Polícia Rodoviária. A princípio acompanhamos a operação, na velocidade média dos 10km/h. Como a chuva apertava e o horizonte de carros não tinha mais fim, conversamos rapidamente, o João Macruz, Mestrinelli, sr.Artur, Koré e eu topamos levar o grupo em fila indiana pelo corredor. Vivemos aí o primeiro ponto de tensão. Enquanto Mestrinelli nos guiava, Favero seguia no ferrolho com seu colete e eu me acotovelava com os carros no corredor paralelo para me certificar de que não tínhamos deixado ninguém pra trás. No começo dos túneis o comboio já tinha se dividido. Emerson não parou mais e levou com ele um grande bloco pista abaixo. Eu me preocupava com as M4's na neblina pois era impossível notar a lanterna ou o farol delas no meio daquelas nuvens. Então no segundo túnel pedi para que alguns encostassem até termos certeza de que todos estavam bem. Foram cinco minutos ali até represarmos os mais cautelosos. Nesse meio tempo haviam fechado a Imigrantes novamente, e dali em diante era tudo nosso. Talvez more aí o dado divertido mais marcante desse IV Raduno: uma rodovia toda só pra gente e mais ninguém. Descemos aos risos com o fato, promovendo um buzinaço na acústica dos túneis. João Medeiros e Fabio Much com o Diogo na garupa desceram por último. Douglas com sua M4 também sumiria na lentidão enquanto a gente descia nos 65km/h de olho no horizonte em busca de um sinal de fumaça do comboio maior, puxado pelo Mestrinelli. Esse lá estava, já na entrada de Santos, aguardando-nos no acostamento sob uma garoa insistente.




Entramos na cidade organizados, todos numa faixa só, controlados à mão de ferro. A 100 metros do portal da cidade represamos a turma num bolsão vazio de ônibus. Era ali ou nunca! E batata! Na recontagem foi que demos falta de três Vespas, um deles era o Douglas com sua M4. Seu amigo ligaria pra ele enquanto o Paulo De Vito detectava uma pane elétrica na sua PX200. Sempre prestativo, Reginaldo ali mesmo sacou a vela fora e no ato passou o diagnóstico: faísca fria, ou trocando em miúdos, fraca. O problema estava no CDI. Por precaução o próprio havia trazido um de reserva e foi o que salvou tanto o Paulo quanto o comboio de atrasos maiores. Ainda assim aguardamos ali, sob a garoa fina, por vinte minutos ou algo mais. Partimos então rumo à Portuguesa Santista, aonde o Delacorte nos aguardava com os amigos da baixada: Luca, Eric, Maturino, Breno e Ilídio. Legal mesmo foi ver a cara de felicidade dos caras quando viu aquele enxame se acotovelando em duas faixas. Pelo Canal 1 seguimos para a orla, de onde lentamente fomos guiados pelo Delacorte até a balsa. Nesses 6 kms turísticos fomos flechados por mais de 30 pessoas pelo que vi. É divertido lembrar! Na balsa aguardamos a nossa vez até nos acotovelarmos no corredor das duas rodas. São apenas 3 minutos de travessia, mas a brisa é diferente. Veio aí a dica do Ambrósio: "acho melhor subir metade na balsa, e na próxima viagem a outra metade, porque se isso afundar toda a Scooteria vai pro saco"... kkkkkk. Ao aportarmos no Guarujá a PX do Diogo, guiada pelo Much, acusou um problema na embreagem. Como Delacorte seguia com o comboio no rastro, saí em disparada para pedir que o grupo esperasse uma resolução do caso. Enquanto isso o Marcio e o Túlio, ambos de São Sebastião, nos aguardava no primeiro posto de combustível do caminho. Foi lá então que concentramos todo mundo outra vez. Para ganhar tempo então pedimos para que todos abastecessem e realizassem seus reparos. Mestrinelli aproveitou para recolocar o cavalete da Bajaj, que tinha caído no portal de Santos. Depois de uns minutos chega a Vespa quebrada rebocada pelo Filizola com uma cinta amarrada em seu bagageiro. De PX pra PX, que briza! Leo Russo já estava conosco ali, e fazia a proteção da frota de carro a algum tempo. Depois de tudo pronto seguimos até a Praia do Tombo, aonde mais uma vez encontramos o nosso espacinho cativo vazio. Estava tudo bem até ali, não fosse a furada master que o quiosque, reservado a semanas, deu. Havíamos combinado tudo com eles, pessoalmente, para o Raduno. Só que como choveu, seus funcionários decidiram dormir até mais tarde e não abriram, ou melhor, abriram, mas quando já tínhamos nos instalado no vizinho. Manjare!!! Ali passaríamos duas horas de boa prosa, rango etc.


Estava tudo combinado para sairmos às 15h30. Às 15h um colega um pouco inconveniente começou acelerar o pessoal para a volta. (Fica a dica: quando combinado um horário para a volta, seguimos ele, e se você quer voltar antes, não seja mala, volte sozinho discretamente). A turma do Douglas resolveu passar a tarde por la e rebocar suas motonetas até São Paulo pois tinham bebido umas a mais. A dupla de Campinas voltou mais cedo pois a viagem era maior e o céu não trazia notícias melhores. A gente então partiu, dessa vez por um novo caminho, de volta pra Santos. Tomamos a balsa mais uma vez e seguimos em comboio pela zona portuária. Dali em diante a bruxa estaria solta. Um acidente de pequenas proporções aconteceu. Francisco e Angelina seguiam com o grupo no ritmo dos 20km/h quando, ao tentar passar pelos trilhos do trem que corta a rua, "perderam a frente" e caíram. O pneu deslizou no aço molhado e escorregou, levando-os ao chão. O susto foi geral, e Angelina ficou ali no chão por cinco minutos. Enquanto uns organizavam o trânsito ali, outros retiravam o excesso de motonetas da rua. Breno, que é médico, foi verificar as condições de Angelina. Entrou em cena a importância do carro de apoio, com Leo Russo e Cláudia. Às vezes um utilitário ajuda menos, nesse dia não seria preciso. Angelina tinha machucado a perna esquerna, e seguiria com o casal no carro até seu hospital em São Paulo. Francisco estava bem, ou parecia estar, e acompanharia o comboio na temível tarefa de levar as crianças de volta pra casa. O susto desencadeou uma nova brisa na maresia. A tensão estava no ar. Delacorte e os amigos da baixada nos guiaram até um posto, aonde fizemos a última parada de abastecimento, café e despedida. Era 16h15. Em blocos conversei com quase todos, orientando novamente sobre a formação de comboio e a atenção com a pista molhada pois a subida da Serra é mais perigosa por causa da volta dos turistas mamados pro conforto dos seus lares. Sr.Artur se mostrava preocupado com Francisco e até se sentia culpado pelo acidente com o amigo. (Na verdade ele caiu sozinho, sem influência de ninguém mais). Enquanto eu conversava com o pessoal sobre a formação de comboio e cuidados, o coroa inconveniente veio novamente me acelerar pra puxar o grupo para ir embora logo. Essa foi a última vez que ele apita alguma coisa aonde a gente estiver!!! Antes mesmo de concluir o assunto uma parte já tinha ido pra pista. Ainda fiquei por lá aguardando o restante que ligava as motonetas, deixando meu afetuoso abraço aos amigos da baixada, e os parabéns pelo trabalho mais bem-feito que Delacorte, Luca, e seus camaradas, tiveram conosco até hoje. Simplicidade e lógica foram a chave dessa organização.



Enfim. A garoa não dava tréguas, e por isso a nossa velocidade não passava mesmo dos 60km/h. A atenção da equipe se voltava para alertar os condutores sobre o uso dos faróis e setas, e a regra do comboio. Alguns verdadeiros vacilões não conseguiam se estabelecer no plano Z e realizavam ultrapassagens desnecessárias durante a viagem. Ainda assim o comboio estava firme no chão ocupando apenas uma pista, compenetrados no caminho. Só que as fatalidades podem acontecer quando menos se espera, e se deu, pela primeira vez em quase quatro anos de Scooteria Paulista, e em quase seis anos de concentrações e giros que organizo. Na subida da Imigrantes após a Rod.Cônego Domênico o motor da 150 Super da Rosa travou. Mário Baraçal, seu marido, que vinha atrás numa PX200, ao frear derrapou no asfalto molhado e veio a colidir bruscamente na lateral da setentinha. Na queda Mário foi atingido na costela pelo pneu da Vespa PX do Índio que vinha na sequência, vindo ao chão com seu filho na garupa. Eu vi a cena, uma fotografia triste e eterna que nunca fugirá da minha e de tantas outras lembranças que testemunharam o fato. Paramos no acostamento rapidamente, e enquanto uns sinalizavam para os carros, Favero trouxe a Super que estava lá na segunda faixa da rodovia. O comboio se desintegrou ali, pois os pontas não notaram o acidente e seguiram adiante, levando alguns na rabeta. Índio machucara a mão e reclamava, e seu filho sentia dores na perna. Em ambos os casos não havia nada de mais além dos machucados. Com a Rosa idem, apenas umas dores no joelho. Todavia o estrago mesmo ficou com nosso amigo Mário, deitado no chão molhado com fortes dores, já esbranquiçava, assustando ainda mais a todos nós a cada desmaio subito. Enquanto o resgate vinha, outra parte do comboio seguiu viagem para não arriscarmos o grupo. Edu Parez e Silvia, que haviam chegado a pouco de carro na traseira do comboio seguiram junto oferecendo proteção na retaguarda do agrupamento. Falei com Hernán e Ambrósio pelo telefone, e de nada adiantaria eles nos aguardarem no meio da estrada, então decidiram tocar até São Paulo. Favero, Reginaldo, Faverinho e eu ficamos com os acidentados enquanto Much levaria rodando a PX do Mário pra São Paulo. O resgate chegou rápido e com todos os cuidados levou Mário para o Pronto Socorro de Cubatão. A tristeza e o desolamento era expressivo na face de cada um ali do lado da ambulância. Força Super Mário!! Restava-nos levar a Rosa pra casa com sua Super sem farol. Reginaldo injetou mais óleo e destravou o motor. E rapidamente deixamos o acostamento, formando um campo de proteção para a amiga. Pelo nebuloso fim de tarde de forte chuva subimos a Serra, que àquela altura já tinha perdido toda a graça. Sem gracejos passamos por São Bernardo, Santo André e Diadema até a zona sul de São Paulo. Segui com a Rosa até sua casa, para ter certeza de que chegaria de fato bem, e talvez já conseguir alguma notícia do Mário. No caminho passamos batido pela turma da frente que nos aguardava em peso num posto de combustível da Av.Ricardo Jaffet. Mas era tarde para parar, e desnecessario, diante da pressa médica. A noite na Free Willy tentavamos entender o que exatamente aconteceu, e o que mudar dali em diante.

Mario ja esta em sua casa, fraturou cinco costelas e precisa de uns meses para se recuperar. Indio e Gustavo estao bem, e caberao aos acidentados entrarem num senso comum quanto aos prejuizos. Rosa esta ok, com sua Super necessitando de um bom martelinho de ouro. Francisco teve tres costelas fraturadas e assim como Mario, esta de molho. Angelina teve so escoriacoes na perna, nada de mais diante dos outros. Mais uma vez o Raduno divide aguas para o ano seguinte, novamente ele trouxe a tona as necessidades do proximo ano. Crescemos muito a cada Raduno, sobretudo corrigindo os erros, e separando naturalmente o joio do trigo. Por mais que tenhamos tentado de tudo para manter o comboio protegido e organizado, nem sempre acertamos. Enquanto refletimos sobre os fatos e organizamos a planilha de uma nova etica pra 2014, esperamos que esses relatos  e essa experiencia sirva de referencia e exemplo para os futuros comboios do mundo das duas rodas. Em fracoes de segundos um sonho pode virar pesadelo, e a amizade pode virar rusga. Agradecemos a todos pela compreensao e pela ajuda nos momentos necessarios. Esperamos que todos assumam agora uma postura mais preventiva durante as viagens em comboio. Faremos por onde para que isso seja parte da cultura dos errantes. Fica aqui diretamente do interior paulista o Dead Rocks, com o tema Boogie Splash Crash.

Fotos por Mestrinelli e Fidelis
Relato por Fidelis 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

IV Raduno da Primavera (Parte 01 de 02)

Bravo! Relembrando o primeiro ano de SP e, particularmente, meu primeiro contato com a SP, o Raduno deste ano voltou a Praia do Tombo, em Guarujá. Na véspera, a chamada pela internet foi direta e reta: iríamos de qualquer maneira, até mesmo se os polos da Terra se invertessem e congelassem a água do mar. Dito e feito, 44 malucos não ligaram para a garoa chata que ia e voltava, nem pro tempo nublado, e foram comer um peixinho a beira mar.


Nesse ano seis vespistas de Santos se reuniram para esperar o povo que descia a Serra para juntos irem até o Guarujá: eu, Luca, Eric, Breno, Ilídio e Maturino (ou Motorino, hehe) . Se o tempo estivesse aberto, com certeza teríamos pelo menos mais uns quatro. Perderam, fica pra próxima! Nos encontramos em um posto de gasolina, e pude notar que todos estavam realmente contentes por estarem ali, todos juntos com suas motonetas, ansiosos para se reunirem com a penca que vinha pela Imigrantes debaixo de chuva e neblina.


Depois de um pequeno atraso por conta da neblina, o povo chegou! De longe pude ver o pessoal saindo do túnel e os vespistas da baixada se organizando para se unirem ao grupo e tocarmos até o Guarujá. É sempre bom rever os amigos, principalmente rodando. Além de mais amigos da região, também me surpreendi com outros dois caras de São Sebastião, o Marco Túlio e o Márcio, que vieram rodando para o passeio. Olha o litoral paulista aí esboçando um povoamento de fazedores de fumaça para os próximos anos!
Chegamos ao Tombo, estacionamos nossas motonetas e depois de descobrirmos que o quiosque que havíamos combinado de almoçar deu o cano na gente e não abriu, fomos para um que tinha do lado que nos atendeu perfeitamente. Almoçamos, demos muitas risadas e contemplamos o mar (sem sol, fazer o que). A atmosfera do passeio estava realmente muito boa. É como li em um comentário na internet, no álbum de fotos do Raduno: "essa galera é muito unida, juntos somos invencíveis!"


E foi justamente esse companheirismo e amizade que fizeram com que, mesmo com dois acidentes no retorno, um leve e outro grave, que o IV Raduno da Primavera não ficou com aquele sentimento de que faltou algo. No acidente mais leve, um casal de vespistas se desequilibrou no trilho do trem, enquanto passávamos pela Avenida Portuária, e foram ao chão. Felizmente não passou de um susto. Já o outro acidente envolveu três vespas na subida da Imigrantes. Uma das vespas apresentou um problema, o que desencadeou o choque entre as motonetas, e quem levou a pior foi o grande Mário, que fraturou uma costela e teve que ficar alguns dias de molho internado. Ficamos todos muito preocupados, mas felizmente o susto maior passou e o Mário logo menos estará pronto pra fumaçar por aí de novo! (Detalhes sobre isso tudo no próximo post aqui no blog).

Deixo aqui meu agradecimento a todos os bravos que compareceram. Rodar por aí em Vespa e Lambretta realmente tá no sangue de vocês! O Raduno da Primavera, embora tenha todo um ar de “VAMOS A LA PLAYA, OH, OH, OH, OH!”, não é um evento mamão com açúcar de se fazer pra quem tem a missão de guiar a galera. Assim como aprendemos com as edições anteriores, vamos fazer a lição de casa sobre a desse ano e nos preparar para o do ano que vem. E se preparem para mais aventuras no litoral, pois em breve teremos outra farofada pra fazer. Let’s party hard in the beach, bitch! 


E fica a dica da baixada: As Curvas da Estrada de Santos - Roberto Carlos.
Texto: Gustavo Delacorte - Fotos: Delacorte e Mestrinelli.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

II NOITE DA MOTONETA


Vem aí a II Noite da Motoneta, e nessa segunda edição o evento vai pras ruas. O giro consiste num giro de uma hora pelas luzes de Natal da cidade de São Paulo, e a partida será da Vila Mariana, em homenagem ao amigo e membro da SP Mário Baraçal, que está se recuperando de um acidente. Portanto estaremos lá às 20h30 para um abraço no parceiro e um giro sob a última lua cheia de 2013.

Saída: Cinemateca Brasileira - Vila Mariana
Data: Quarta-feira, 18 Dezembro, às 20h30.
Destino final a confirmar.
Arte por Luiz Lavos
Tema de hoje: Here Comes the Night - Them

domingo, 8 de dezembro de 2013

SJC Antigamente #2


Antes do aguardado post sobre o desfecho do IV Raduno da Primavera segue aqui uma do túnel do tempo, lá dos anos 60, postada por José Zanini no grupo São José dos Campos Antigamente, no Facebook. E a deixa de hoje vem de skate: Stay Away - Nirvana.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

II Expedição Tropeira Brasil Paraguay (Parte 05 de 05)

E deixo aqui meu último relato da nossa Road Trip internacional. Lembrando que somos quatro dois-tempistas: Vespaparazzi (Vespa M3), Hernán (PX200), Assef (Vespa Super) e eu Fidelis (Originale). Além do carro de apoio da patrocinadora JWT com o João e Koba. Estamos na reta final, é Brasil minha gente...



Quarta-feira, 06 de novembro: Laranjeiras do Sul - Curitiba
PIRATAS DA ESTRADA

A agradável manhã em Laranjeiras do Sul começava com um típico café da manhã caseiro - de casa, não de condomínio. (Café, queijo, bolo...). Tínhamos 400 kms a fazer naquele dia. E a tocada prosseguia em meio aos grandes caminhões da região. Madeira em quase todos eles. Imagine o que não passaria na sua cabeça rodar espremido com os seus entre duas carretas pilhadas de tronco? Rodamos uma hora, sentindo o Vespaparazzi perder fôlego na subida. A princípio Vespão cria que fosse o peso das bagagens e dos acessórios da M3. E aí a média do grupo caía para 70 km/h. Passávamos muito tempo travados no meio de frotas e mais frotas de caminhões, isso foi até Curitiba. Depois de 70 arrastados quilômetros Vespão parou no acostamento e pediu um tempo. Sacou suas ferramentas, tirou o parafuso do óleo do câmbio e verificou o nível: vazio. Era preciso abrir o motor para resolver esse vazamento, ou completar o nível a cada dia. Depois de cheio ele já recobraria, na primeira subida, a velha força da Esmeralda. Conforme Hernán narrou no blog da "Etiqueta": "a decisão foi ele ir na liderança e eu no segundo posto. Por que? Porque Vespão não tem velocímetro, então eu ia marcar quando ele estava indo muito devagar, ou muito rápido. E deu certo. Também ajudou um esquema para as subidas: eu ultrapassava o Vespão e ele ficava no vácuo da minha Vespa. Isso ajudou bastante e a gente conseguiu avançar num ritmo muito bom, fazendo percursos de até 100 km de uma só vez". Em Guarapuava abastecemos rapidamente e tocamos, puxando nova formação comigo de ferrolho comunicando com os veículos e com o nosso ponta ao mesmo tempo. Hernán tinha o motor mais forte, e La Negrita puxava forte nas ultrapassagens de longa distância. Era 12h30 quando paramos para abastecer em Guarapuava. O pessoal estava com fome e decidira ali mesmo almoçar. O aspecto da viagem mudava por completo, tínhamos uma combinação de belas paisagens com a bruteza do caminho estreito e congestionado. Um caminhoneiro sugeriu, por segurança, que tomássemos um rumo diferente do usual: pela 373 até Ponta Grossa. Rodaríamos 30 kms a mais. E o conselho pareceu ter sido bom, até porque foi o que ouvimos quando chegamos em Ponta Grossa, depois de 170kms de giro alto. A dinâmica da viagem já era outra, mais ligeira, esperta, era o Carrossel Holandês de 74, com Assef e Hernán revezando posições na vertical, Vespão puxando o ataque em velocidade e comigo fazendo a linha de impedimento. Motonetas e condutores em plena forma tiravam da Laranja Mecânica o sumo e o bagaço.


Em Ponta Grossa abastecemos e descansamos as motos. Creio que era 17h quando pedimos uns lanches leves na chapa com café. Um sujeito boa praça que passava no contou um pouco da sua história, de quando viveu na Itália e tivera algumas Vespas. Era um apaixonado pela marca, falou da PX, da Sprint, e da LX. Até a próxima parada de combustível a viagem ficava mais emocionante, o campo abria e o vento batia forte baixando a temperatura a cada minuto. Em Campo Largo completamos os tanques pela última vez, e foi quando me comuniquei diretamente com o Farid (que tinha chegado do Paraguay dois dias antes). Dali em diante a nossa atenção se concentraria mais na mudança de pistas do que nas ultrapassagens a que éramos ingratamente submetidos hehehe. Mantínhamos os 80km/h sob um céu da cor de chumbo e um ar cheirando o diesel queimado ao óleo: um tempero forte para apimentar as napas! E pela BR376 entrávamos em Curitiba, dessa vez por uma porta inédita: a porta do oeste. Entre placas e informações eis que passeávamos no trânsito tranquilo da metrópole paranaense até o bairro Barigui, aonde abastecemos e checamos o caminho até a JWT curitibana - um compromisso profissional. Thaís Picelli nos recebeu na empresa com simpatia, nas linhas do Hernán: "Sujos, com 400 km de estrada e onze horas de viagem em cima, conhecemos o prédio. Muito bonito mesmo, dava vontade de armar as barracas no playground". 

Então seguimos para o apartamento do Farid, o vespista do Vesparaná Club - presença no SP em Vespa e Lambretta 2013 (que veio pra andar de Vespa e andou escorregando para a esbórnia com travecos kkkkk) e no I Encuentro de Vespas en Paraguay. O parceiro nos ofereceu tudo o que queríamos, e o que não podíamos também. Entre um trago e outro no whisky da casa eis que chega o nosso amigo Ito "8" e seu filhão. Foi uma visita rápida para um abraço, mas o bastante para transmitir-nos confiança e calor humano. Depois dos banhos Farid nos levou para o Centro Cívico da cidade. Caminhar pelo centro de Curitiba a noite é uma outra história. As rua limpas e vazias, as luzes amarelas e o sereno do frio curitibano foi a fotografia mental da nossa última noite. No Alemão nos fartamos de verdade, acompanhados de algumas cervejas na caneca e dos "Tirinhos do Farid", uma sequência surreal e extremamente ilária de alucinações humorísticas que deixaria o Marcelo Adnet ou o Porta dos Fundos inteiro no banco de reservas. O cara é um figurassa!! Depois da separação e da visita ao encontro paraguaio decidiu bater o martelo e pôr na cabeça o projeto de morar pro lado de lá da fronteira. Quem sabe aqueceríamos o mercado brasileiro de acessórios e peças raras pela porteira do vizinho... crê ele. A meia-noite voltamos aos tragos nos santos cigarrinhos. A turma capotou pela sala enquanto Hernán foi direto pro quarto solo. Eu passei mais uma hora tomando uns tragos e trocando uma idéia com o Farid. O som da vez então fica do papo com o Ito, que falou do Gabba, vespista Mod da cidade (que hoje vive fora), e esse tema tem na Vespa um dado existencial: Os Carros - Tarja Preta.

Quinta-feira, 07 de novembro - Curitiba - São Paulo
O ÚLTIMO DUELO

Acordamos com o café na mesa. Farid cuidava de tudo, e vale lembrar que era a segunda vez que o Vesparaná Club nos hospedava com tamanho carinho. Depois dos banhos, reunimos nossas coisas e partimos pra estrada, na companhia do curitibano mais rápido que um linguista poderia conhecer. Depois da foto de despedida num posto da zona urbana da Regis Bittencourt, nosso cicerone nos acompanhou pelos kms finais, tomando o retorno num buzinaço de agradecimento ao parceiro.


Era 11h e a chuva apertava na saída de Curitiba. Passamos beirando o portal da Estrada da Graciosa, e assim como foi no Curitiba em Vespa 2010, ali a bendita água caía sem tréguas do céu. Seguíamos firme na chuva, tomando um rastro de 200 metros na pista, uma questão de segurança para a ocasião. Depois de Campina Grande do Sul fizemos uma forçosa parada para combustível e manutenção: Vespão precisou improvisar uma tampa para o carburador no local da falta (necessária) da mangueira de ar. E foi uma santa parada. Precisávamos de mais um café, daquele biscoito de polvilho que o Diego e o João trouxeram, do par de luvas que o Assef comprou. Um sujeito veio contar-nos da Vespa que seu pai teve, e estava admirado com nossa aventura. Bom, dali tocamos mais ligeiramente. Hernán estava preocupado com o fato daquela estrada ter ganho, no passado, o apelidinho de "rodovia da morte". E a gente estava nela, numa "singela tarde de chuva e ventania", dividindo pista com imensos caminhões carregados a 120 km/h. E a gente a 80. Por causa de uma reforma, passamos pela ponte da mão oposta da Represa do Capivari, uma das mais belas paisagens que existe nesse caminho todo. Quando a chuva deu uma trégua resolvi dar uma voltinha e acelerei um pouco a mais. Sumi na frente por uns minutos, afim de curtir um pouco mais meu motor naquelas curvas da serra. Antes da divisa diminuí para que passássemos juntos por ela. A alegria era geral: "Bem-vindos ao Estado de São Paulo". Nos sentíamos em casa! E dali em diante uma ansiedade "quebra-regras" acelerou as nossas Vespas. Vespão na frente puxava pra 95km/h a tocada. Assef acompanhava atento a retaguarda enquanto Hernán e o carro sumia 500 metros pra trás. Era divertido, ali de fato era. Mas a brincadeira durou no máximo 25 kms. No segundo pedágio da viagem Hernán encostou em mim e indignado disse "Marcio, a xente fiaxou 3000 quilômetros a 80 km/h e acora em plena rotofia da muerte, com chufa e caminhões focês querem correr?". Eu ria, e mandei ele lá pro Vespão. "Reclame com ele"!! kkkkkk De longe Assef rachava o bico vendo o Hernán gesticular com o pescoço arqueado falando o mesmo pro Vespaparazzi. Revezávamos os pagamentos do pedágio afim de economizar tempo. Então Hernán tomou a frente no comboio, determinando que voltássemos pro velho ritmo, os combinados oitenta. Era quase 15h quando paramos para o almoço em Cajati. O clima de despedida já pairava no ar. Já falávamos de outros projetos e expedições, de armarmos um churrasco nosso para ver os vídeos, e "zas e zas e zas". Comemos um verdadeiro PF, algo mais próximo do marmitex a que o Vespão tanto se referia durante toda a viagem. "Marmitex é o que há!"


Reta final. Passamos por Miracatu e todo aquele bananal, e na sequência a cidade de Registro. Os velhos buracos naquele trecho foram recapeados, e de fato o chão estava bom. Foi em Juquitiba que fizemos a última parada rodoviária de toda a Expedição. O farol do Assef havia queimado a pouco, então nesse tempo da troca atualizamos a net e tomamos um café. De repente toca meu telefone - meu Tim e Claro voltaram a funcionar -, era o Koré perguntando por nós. Na internet os amigos mandavam saudações e boas-vindas. O coração batia mais forte sabendo que dentro de duas horas estaríamos dentro da grande cidade da qual partimos a 11 dias e algumas horas atrás. Então as 17h tomamos o rumo da serra, um trecho terrível, que já anunciava a qualquer passante o caos a que estava se inserindo. Usei a câmera no peito e prezei pelos takes mais difíceis em meio aos caminhões. A velha formação de comboio já tinha ido para as cucuias. Tínhamos que nos infiltrar nos corredores, driblar buracos, e buscar a marcha certa para cada trecho. Aquele lugarzinho terrível é chamado São Lourenço da Serra, e mais parece um pátio de caminhões do que uma rodovia.


Às 18h passamos por Itapecerica da Serra, e a quantidade de motos populares pela pista já nos ambientava com a metrópole. A cultura motociclística já era outra. Diferente do que rolou em toda a Expedição, os motoqueiros e afins ali passavam rindo com suas CG's de roda rosa... hehehehe, melhor que não entendam mesmo o que a gente faz. E nós já comemorávamos como se fosse São Paulo ali, como ter o placar ao seu favor aos 40 do segundo tempo no segundo jogo da final. Depois do Rodoanel de Embú chegamos em Taboão da Serra encarando um carregado trânsito da hora do rush. Depois de "empurrar" nossas motonetas e o carro por meia hora paramos num posto Shell da Av.Francisco Morato para a triste despedida. Apesar do cansaço e da saudade das coisas todas que tínhamos deixado pra trás, a sensação geral era de completude, e de querer mais. De certa forma parecia inacreditável que o fim havia chegado. Até enrolamos um tempo desnecessário por lá, afim de eternizar aquela viagem em nossas lembranças e corações. Nos abraçamos repetidamente. Alguém gritou "é tetraaaaa é tetraaaaa" enquanto Pelé pulava na cabine. Era 20h quando ligamos nossas Vespas e partimos juntos em comboio, insistindo em manter a união que tão poucos podem desfrutar durante suas confortáveis vidas. Chorei no capacete, disfarçando bem para não ser notado. Vespão foi o primeiro a deixar-nos, tomando a Marginal Pinheiros rumo ao norte. Depois foi o Hernán pros caminhos de Pinheiros. Então o carro com João e Diego e em seguida o Assef. Para mim a Radial Leste parecia triste e solitária. Mas foi mais ou menos assim meus amigos. São minhas palavras e minha percepção da viagem, o que não conta nem um décimo do que foi essa viagem.

Agradeço aos meus amigos de estrada Vespaparazzi, Hernán, Assef, João e Koba. Também ao Much que veio a adentrar a história paraguaia. À JWThompson pelo investimento. Ao Eder Vespa por ter aberto o caminho da Expedição a um ano atrás com o Vespão. À Free Willy pelo empréstimo das peças e todo o apoio moral. Ao Vespa Club Paraguay pela iniciativa de organizar esse tremendo encontro, ao Jorge Colman e ao Farid pelas prestatividades e ao Corradino D'Ascânio por criar essa espécie metade humana de máquina chamada Vespa. Espero que essas mal-traçadas linhas inspire pessoas à vida enquanto há, e a respeitar seus amigos enquanto eles o tem em alta quota. Até a próxima viagem!! E essa foi a que os caras cansaram de me ouvir cantar na volta do Paraguay (sabe-se lá porque): Stand By Me - The Beatles.



CONSIDERAÇÕES FINAIS
Realizar uma viagem dessas, em grupo, em motores clássicos de baixa cilindrada, por duas semanas, pra fora do seu país, é uma coisa fatalmente lúdica na vida de um homem. É capaz de tirar de órbita a sua cabeça para nunca mais voltar ao plano da razão ou do senso-comum. Eu confesso que quando cheguei da trip senti um vazio existencial sem fundo, uma escuridão dentro do peito. Anunciei na internet: "Fidelis vende tudo". Saí de órbita, talvez foram meus amigos que me seguraram um pouco mais aqui em São Paulo. Esse é o tipo de turnê que se der certo, a amizade se eleva ao nível da cumplicidade no crime; mas se der errado, tudo vai pro saco, inclusive o seu clube. Prezamos pela segurança total, e pra começar considerei um critério como ponto de partida dessa II Expedição: o comboio só seria formado por membros da Scooteria Paulista. Todos concordaram, e não havia nisso um pingo de diferença com os colegas e amigos de outros clubes e afins. Foi uma conduta conversada. Tratava-se de um projeto sério, que envolvia uma grana e muitas marcas, com contrato assinado e reconhecido em cartório via JWT. (Vai sair um "vídeo show" disso, e talvez até mesmo o Assef não apareça nele por ter decidido de última hora alcançar-nos no caminho). Fato é que não fosse isso, teríamos realizado a viagem do mesmo jeito, mas com a grana da janta, trocando cartões postais por gasolina, e pedindo uma ajuda para o povo brasileiro. Estamos felizes pelo que vivemos, e da maneira como foi, e não vemos a hora de partir voltar pra estrada novamente. A gente sabe dos nossos limites e de todo o azar do amadorismo, mas o encanto está na máxima: "ser ou não ser". Do pó viemos, ao pó voltaremos, e não, não temos medo, porque quem somos sabemos. glu glu yeyé!

Relato por Marcio Fidelis
Fotos: João Unzer

sábado, 30 de novembro de 2013

II Expedição Tropeira Brasil Paraguay (Parte 04 de 05)

Depois de sete dias longe de casa, de quase quatro dias de Paraguay, chegou a hora da volta, correria que narraremos em duas etapas finais em nosso registro virtual. Pois bem, Rafael Assef havia chegado no sábado, a tempo de curtir a reta final do evento, ao lado do Vespaparazzi, Hernán Rebalderia, Fabio Much e eu, Marcio Fidelis. Da equipe patrocinadora - JWT -, havia um carro de apoio, com Diego Koba e João Unzer. E foi assim...



Segunda-feira, 04 de Novembro - Encarnación (PAR) - El Dorado (ARG)
OS PISTOLEIROS DA FRONTEIRA

A turma acordou no pique, já com as motonetas lavadas, menos eu. Vespaparazzi havia trocado o óleo de câmbio de todas elas, prevenções de um rodoviário ativo. Diego Lopes, sim o paraguaio, mais dois de seus amigos estavam conosco até os últimos momentos, e acamparam no Parque Quiteria também. Nano Aliaga, sim, o nosso amigo argentino, idem. Sua Vespa estava num reboque, que seguiria para não sei aonde, e por isso ele rodaria por umas horas com uma LML de motor clássico. Por precaução decidi abandonar o pneu usado que havia ganho do Jorge Colman em Ciudad del Este, pois detectei nele umas rachaduras cabulosas. Vespaparazzi me emprestou o step e segui assim, sem mesmo trocar o aro. Aconteceu então que na saída ouvimos um barulho diferente na mesma roda. Era o bico da câmera que tocava no garfo a cada volta. Encostamos num posto de combustível então para um reforçado café da manhã e reparos dos pneumáticos. Durante o ajuste duas câmeras de ar furaram. Não tínhamos mais reservas, eram elas. Nano me emprestou a LML e saí a procura de um borracheiro rodando naquela dois-tempista novidade do passado indiano. Paguei ao borracheiro 15 mil guaranis para que consertasse as duas câmeras. Nas volta flagrei o Vespão fazendo umas fotos com uma escopeta de verdade na mão, a do segurança do posto. Como é que alguém convence um guarda a emprestar a sua arma assim? "Já já te devolvo" (??) kkkkkkkk. Tudo certo com os pneus e com o desjejum dos mamíferos, então "simbora"!!


Era quase 11h quando chegamos na fronteira do Paraguay com a Argentina. Cruzamos a Ponte Internacional e paramos em frente à bandeira da Argentina para fazer uma foto. Um fardado do exército nos negou permissão. (Dizem que é por uma questão de segurança pois a base do exército fica atrás do mastro). Hernán, o nosso argentino, ficou bravo no ato e impulsivamente deixou escapulir a frase "argentinos chatos de mierda". Aí apareceu um militar nas costas dele e perguntou algo como "que dijiste? Ojo"! Hernán teve que se explicar, e fez bem, e "hablando" a mesma língua disse: "yo soy argentino, puedo decir lo que quiera de mi pais". Ah se fosse eu, estaria por lá até hoje kkkk. Na Duana queimamos quase uma hora, entre filas, documentos e câmbio da moeda, até que entramos em Possadas. Pra mim estar lá tinha um ar nostálgico, pois tinha conhecido a cidade em 2003 numa viagem beatnik mucho loca - (mochileira/cultural) de carona em carona entre Londrina e Buenos Aires. 


Hernán foi pra ponta, orgulhosamente conduzindo sua PX200 brasileira no seu hermoso país natal. De cara tomou o caminho errado: ao invés de nos tirar de Possadas ele nos levava mais para dentro ao não entender a lógica de uma rotatória imaginária em construção. A poeira se erguia e a gente driblava tanto os carros como as pedras das obras. Depois de um tempo a gente percebeu o erro e retornamos pela mesma rota, era a Av. Brigadero Rosas, o início da Ruta 12, o início da viagem de fato. O sol das 12h30 começava a cozinhar nossos cascos. Mas não passaria muito disso. A primavera na província de Missiones era das mais generosas de toda a viagem. Na média dos 80km/h seguíamos com a doce sensação de cruzar um novo país, conhecendo em Vespas uma outra cultura e geografia. Depois de uma hora e meia paramos num posto de combustível a beira do município Jardín América, e por ali Hernán se mostrava bastante desapontado com o tratamento que recebíamos pelo caminho. Fato é que tínhamos feito o câmbio de poucos Pesos, contando que a Argentina seria uma rota de passagem, e além disso o Hernán levava seus cartões de crédito e débito. Só que os mesmos não eram aceitos naquele pedaço. Ele tentou um caixa eletrônico, mas não conseguia sacar. Preciso dizer que havia uma família indígena vendendo artesanatos com suas crianças pedindo dinheiro aos passantes, e um velho hippie numa bicicleta sem freios dando voltas e mais voltas pelo pátio do posto, e eu sei que era hippie pela estampa da camiseta e da mini-bolsa de tricô que levava pendurada. Devia ter ali uma poção ou elixir dos tempos do finado Albert Hofmann. Fui me certificar!! Não, não fui. No retorno pra Ruta 12 os parceiros do carro sumiram lá atrás, e começava a nos preocupar. Naquele momento era eu que esbravejaria calado. Hernán se ligou e alertou os caras para que não tirassem o olho da gente. Assef era o quarto elemento da viagem e dizia "calma", e naquele momento espontaneamente fomos encontramos uma nova dinâmica. Assef tomou pra si a câmera Go-Pro e amarrou no peito. Havia ainda uma situação desconfortável, que era o fato do novo elemento não estar nos planos da patrocinadora, e tão logo, fora das filmagens. Eu insisti para o "foda-se, ele é dos nossos, deve rodar ao nosso lado e estar nos vídeos pois se isso o que está acontecendo é a mágica imprevisível da Scooteria Paulista". E naturalmente as coisas foram acontecendo nesse sentido, e novamente o inconsciente daquela meia-dúzia trabalhava concentrado em prol da II Expedição Tropeira Brasil-Paraguay. Voltando, então o Assef tomaria a câmera e fazia takes dinâmicos de pé no assoalho da Vespa a 80km/h com o corpo e as mãos apoiados no guidão. Hora avançava, hora recuava. Vespaparazzi revezava posições, e nas subidas tomava sempre a direita pois fatalmente ficaria por último pois perdia potência. Hernán seguiu na ponta durante a maior parte do caminho. E devo confessar que raras voltas são tão excitantes quanto idas. Geralmente a viagem de casa ao destino é o que nos faz gastar neurônios, é quando funciona o super-foco. A volta é aquela pesarosa tarefa de levar as crianças pra casa, e muitas vezes é feita com mais pressa e menos deslumbre. Seria isso, se não fosse  tão fantástica a rota, se não houvesse tanta beleza naqueles lagos e riachos, ou se não fosse a inspiração do verde imponente da primavera misionera sob o azul celeste ao tom da bandeira. Era uma estrada de mão dupla - uma ia e outra voltava - e de pouco tráfego. Pista livre!!


Hernán sobretudo estava bastante apreensivo com a falta do vil metal, a escassez do Peso pesava na sua consciência. Por isso resolveu parar na primeira cidadela a frente, em Capioví. O "vilarejo" me lembrou aqueles que muito frequentei no oeste paulista, como Cândido Mota, por exemplo. Uma família nos guiou até o banco na praça central, e lá finalmente o hermano pôde sacar 1000 pesos - o limite diário. Não era muita coisa não, mas sanaria nossas preocupações. Dava 15h e a fome apertava. Meu mau humor era notável e não conseguia disfarçar. Era uma irritação qualquer, mais provocadoa pela fome do que pelas idéias. Os restaurantes da cidade estavam fechados. Prezávamos por um prato local, mas ali não degustaríamos muito da gastronomia típica. Com o estômago nas costas puxei os amigos pela contra-mão até uma marginal rodoviária que havia e paramos numa lanchonete bastante simplória. Como não estava servindo refeições naquele momento - a não ser meia dúzia de empanadas -, o proprietário deixou-nos utilizar as mesas enquanto nos alimentávamos com os lanches da "rotiseria" do mercado ao lado. Ali foi um embaço dos grandes. Primeiro porque a cozinheira ainda não tinha chegado, depois porque o padeiro estava atrasado. Resumindo, perdemos uma hora e mais um pouco naquele lugar. Mas nos alimentamos. Os lanches eram grandes, e bons também. Vespaparazzi fez um amigo boêmio por lá, e nesse meio tempo já tinha caído a ficha de que os nossos planos de entrar no Brasil até o fim de tarde era uma doce ilusão, e insistir nisso tornaria as coisas um amargo delírio. Conversamos sobre as possibilidades, e elas eram: (1) acampar no quintal de alguma casa de família, (2) acampar aonde der, (3) tentar uma pousada baratíssima, (4) avançar no escuro. Deixamos no ar a meta de chegarmos pelo menos na cidade de Eldorado. E assim prosseguimos, com tanques e buchos cheios. A viagem era maravilhosa, e o clima já era outro, sem pressa, num ritmo de entrega às paisagens do caminho. Passamos por gigantescos Pinhais e imensas plantações de mate. E mantínhamos a boa comunicação com os veículos durante as ultrapassagens, enquanto Assef dividia a câmera com o Vespão e com o Hernán. João se descabelava com as imagens do quarteto em pista. Eu ficava atento às possibilidades de registrar da maneira mais fiel o espírito do momento. Meus registros todos eram feitos pela câmera do meu celular, como essa abaixo na ponte sobre o Rio Paranay, postada no Instagram In_Vespa_Fidelis durante a Expedição.


Então finalmente, depois de parcos 300 kms rodados, as 19h invadimos a elegante cidade de El Dorado. Já na primeira avenida, a Ruta 17, paramos em praticamente todos os (dez) semáforos até que Hernán viu o cartel do A.C.A., o Automóbil Club Argentino. Seu pai é sócio dessa grande entidade nacional, e a sua influência seria decisiva nessa noite. Acostumados com os acampamentos e hotéis extremamente baratos, nos surpreendemos com a imponência do A.C.A.: belas paisagens, escadaria, recepção, cervejaria, cardápio rebuscado e pessoas de muita elegância falando baixo somente o necessário. Por algum motivo um amigo do pai do Hernán falou com o gerente do hotel pelo telefone, e o mesmo se dispôs de fato a colaborar conosco, compreendendo a nossa necessidade. Queríamos um quarto para seis. Primeiro ele nos ofereceu um pelo mesmo preço cobrado dos sócios do clube. Apesar de justo, corríamos o risco de precisar dessa grana no dia seguinte. Então nos deu a opção de acamparmos no gramado dos fundos. Até que então, num momento de graça ele nos ofertou o valor exclusivo cedido às agências de turismo. Foi muita gentileza, não podíamos recusar. Nos apertamos no quartinho entre as camas e colchões infláveis, e depois do banho jantamos como príncipes, compartilhando algumas cervejas de litro. Diego se mostrava bastante cansado e  irritado com o fardo da responsabilidade de produtor. Dirigir o carro por um dia todo era o mais simples. Sua função como produtor, via JWT, era auxiliar em tudo o que fosse preciso, tudo! E sobretudo, cuidar da contabilidade da viagem, das notas fiscais e anotações, e era aí que sua cabeça fritava, na conversão das três moedas: Real, Guarani e Peso Argentino. João nos mostrava os takes que o Assef tinha feito de pé na Vespa. Talvez tenha sido esse o uso mais perfeito da Go-Pro durante toda a Expedição. Vespaparazzi já morria de saudades da esposa e não escondia. Imagine você deixando a sua mulher em casa para viajar por dias e dias com cinco machos a sua volta... kkkkkk.
Hernán estava especialmente mais contente naqueles momentos de Argentina, talvez também porque sabia se comunicar muito bem com os seus, fazendo-se compreender, e tanto fez que estávamos lá naquele "palácio" sendo tratados da mesma forma como os empresários das mesas a nossa volta. A meia-noite todos foram dormir. Eu pedi a saideira e passei mais um bom tempo tomando um vento com breja enquanto refletia apaixonadamente sobre as experiências da viagem. Durante a noite conheci o Luis, um jovem funcionário do hotel, um sujeito muito atencioso e divertido. Dentre tantas coisas ele me dizia que em El Dorado havia muito mais mulheres do que homens, muito mais, e que qualquer pessoa de onde viesse seria capaz de conseguir emprego nas indústrias locais. Parece convidativo pra você rapaz? Aos risos Luis me contava histórias pitorescas dos últimos anos da cidade. Não fosse o cansaço eu passaria a noite ouvindo e fazendo perguntas. Mas caí no sono. Boa noite gente!

Terça-feira, 05 de Novembro - El Dorado (ARG) - Laranjeiras do Sul (BRA)
A ÚLTIMA FRONTEIRA

Depois de um generoso café-da-manhã no Automóbil Club Argentino, partimos pra Ruta 12. Não sem antes completarmos os tanques (num Shell local). Era quase 10h. Aliás, bem ali um jovem veio contar pra gente que tinha uma Siambretta Standard em casa e que não sabia aonde encontrar peças. Passamos nossos contatos pra ele, pois temos nossos amigos da classe lá do meio do país pra baixo. A Ruta 12 ficava, a cada quilômetro, mais bonita. Fazia sol e um calor tão intenso quanto o da manhã anterior. Depois de Puerto Esperanza e Wanda paramos para abastecer em Puerto Libertad. Compramos um monte de pães de queijo argentino, um lance diferente mas muito bom, temperado com erva doce. Concluímos ali que de fato o tratamento que tivemos na maioria dos lugares da Província de Misiones era naturalmente frio. A bola da vez eram os frentistas malas. Não é nada pessoal, cabrón!! Talvez a região, por ser exposta a duas grandes fronteiras, fazia do nativo um tipo pouco convidativo. Também era notável o senso de limpeza e organização de tudo, e aquele zelo só pode ser mantido por pessoas de um apaixonado espírito de amor à própria terra.


Quilômetros adiante paramos sobre a ponte da Represa Urugua-í "Norberto Velozo", a hidrelétrica que abastece toda a província. Foram 20 minutos de fotos e vídeos. Dali esticamos numa tocada mais agressiva, tínhamos mais 100 kms de viagem pela frente até a fronteira. Uma das cenas mais lúdicas dessa estrada foi um trecho de dez ou vinte quilômetros abonados de borboletas amarelas voando pela pista. Elas dançavam no ar em bando, contrastando com os cinquenta tons de verde da vegetação. Em mais uma hora de viagem chegávamos então em Puerto Iguazú, a pequenina cidade que margeava o Brasil. Era meio-dia de sol. Hernán sugeriu queimarmos nossos últimos Pesos ali mesmo, em combustível e alimento, para não perdermos tempo ou juros com o câmbio monetário. Num primeiro YPF havia uma imensa fila para combustível, o que nos levou a tentar ganhar tempo em outro. Só que nesse outro não tinha gasolina. Então tomamos um café rápido e partimos para a fronteira. Passamos rapidamente para o lado brasileiro. Voltavam as preocupações do Hernán com seus documentos de condutor quase regulares, ou "quase quase isso". Bom Argentina, ficamos por aqui, muchas gracias hermosa. Hasta la vista.


BRA$IL
Às 13h30 estávamos em Foz do Iguaçú abastecendo com o sorriso na orelha e uma pontinha de saudades dos países que deixamos. Vespaparazzi saiu para fazer uma comprinha, e vinte minutos depois voltou dizendo que vira três vespistas seguindo na direção oposta a que viemos. No mesmo instante liguei minha Vespa e saí em disparada a procura desse "mistery trio". Driblando retrovisores e furando semáforos encontrei-os em poucos minutos. Eram os Charlie Satans Scooter Club, que depois do Encuentro Internacional en Paraguay resolveram dar uma esticada até as Cataratas do Iguaçú e naquele dia tomariam o rumo pra casa, para Mar del Plata. Trocamos algumas palavras em movimento, e na despedida ouvi essa frase do Cristian em alto e bom tom: "Marcio, hasta Sao Paulo, a la Copa del Mundo". Excelente!! Até lá camaradas!! No posto nos alimentamos rapidamente e seguimos para a BR277. Foram 150 kms nela, a mesma que passamos na ida, dias atrás. Resumindo: de uma viagem de 3500 kms, repetimos o prato por 150 deles apenas, com três diferenças em termos de novidades: a primeira foi que passamos por uma intensa blitz do Exército Brasileiro, o que quase nos segurou por muito tempo pois estávamos com o carro carregado (de equipamentos de áudio e produtos da JWT, claro!); e a segunda porque o Vespaparazzi fez todos se arquearem de rir com as garotas de um posto de combustível de Céu Azul, e a terceira era que estávamos os quatro juntos. Ah, durante a rota tentei parar o comboio para fazer uma foto no km 666, mas o Assef estava muito à frente e não ouvira meu buzinaço.


Passamos em Cascavel por volta das 15h30. Eu sentia muito sono, e começava a sonhar acordado. Contei pro Vespão mas disse também que não queria diminuir o ritmo da viagem. Avançar e recobrar o tempo perdido era uma necessidade. Mas era preciso parear as urgências. Visto isso, Vespão puxou a tropa pro acostamento ao pé de uma sombra, e ali tiramos meia hora de descanso, e entre umas bolachas com atum (Gomes da Costa) e cigarros, tirei um cochilo de cinco minutos. Foi pouco mas suficiente para reiniciar o computador cerebral. Dali em diante sentíamos a necessidade de proteger o grupo como um todo. Carro e motonetas fecharam um bloco só, impenetrável e imponente na rodovia. Era uma pista simples e estreita mas de intenso tráfego de carros e principalmente de caminhões cargueiros, muitos deles levando madeira e espalhando suas fuligens pelo ar. Coordenamos a viagem como maestros. É preciso ter força na comunicação com os motoristas. É preciso convencê-los de que você está tão certo quanto um policial naquela hora. Alguns, apressados e abusados, realizavam manobras arriscadas pela contra-mão pois não se submetiam à velocidade dos 80km/h até a próxima duplicação da pista. (E haviam muitos trechos duplicados, assim como o acostamento, que frequentemente servia de escape). E foram 140 kms dentro do tom, regendo a orquestra com precisão e pulso. Fora isso, contemplávamos boquiabertos a natureza do caminho. Vespão já tinha nos avisado disso. Ganhávamos um fôlego sobrenatural a cada descida. Aliás, vale dizer que a formação de comboio nesse trajeto se deu nessa ordem: Vespão, Hernán, Assef e Fidelis - e atrás o carro de apoio fechando a pista e trabalhando com as setas. Em Guaraniaçu abastecemos pela última vez e refinamos a estratégia de rodovia pois o sol partia dessa pra melhor. Por isso eu fui pra frente, a minha Vespa tinha o farol mais forte das quatro. Então os últimos 75 kms de viagem foi um tenso percurso feito no breu. Mais tenso ainda foi quando quase atropelamos um filhote de cachorro no meio do asfalto. Ao avistar o vulto do animal ao longe mostrei para o Assef, que seguia do meu lado. Apesar do buzinaço o cachorro titubeou e não saiu do lugar. A freada geral por pouco não provocou um strike em 2 Tempos. Mas não passou de um susto, e tirando isso nada mais fugiu da regra. Aliás, foi o desenho do comboio que nos favoreceu nesse incidente, porque quando cada um sabe da sua posição e do lugar do parceiro, logicamente na hora do improviso se sabe no mínimo para aonde não se deve ir. Passamos na sequência por uma reserva indígena mas não pudemos ver nada além de alguns nativos andando no acostamento. Depois de Nova Laranjeiras a ansiedade e o cansaço se confundiam na mente. Era noite, e a missão estaria cumprida em questão de minutos. Ao entrarmos em Laranjeiras do Sul uma viatura da Polícia Militar nos acompanhou até um hotel sugerido por um morador local. Nos divertíamos com o fato. Enfim tiramos nossas botas e jogamos nossos pés para o alto num quarto espaçoso e suficiente. Depois dos banhos saímos a pé para lanchar num trailler na praça central, seguido de um rolê para o cigarrinho santo. Boa noite amiguinhos. Cansei até de escrever kkkkk. Fica a dica da Argentina pra vocês: De Nuevo en el Camino - Los Gatos.

Relato por Marcio Fidelis
Fotos por Fidelis e João Unzer

domingo, 24 de novembro de 2013

II Expedição Tropeira Brasil Paraguay (Parte 03 de 05)

I ENCUENTRO DE VESPAS EN PARAGUAY

Encarnación, sexta-feira 20h. Huracan Ramirez, Psicoprata, Caveira A Lenda do Trevo e o Esqueleto Brasileiro chegavam (chegávamos) de São Paulo (e Jacareí) para o I Encuentro Internacional de Vespas Paraguay, guiados pelo Pistoleiro Paraguayo à moda galopeira.


01 de Novembro - Encarnación
NIGHT PASSAGE


Num certo hotel tinha umas vinte e poucas Vespas estacionadas e três carros com reboques. Muitos argentinos e Uruguaios pelos quartos. Pouco a pouco conhecemos os primeiros: Juan, Luis, o pessoal de Córdoba, de Rosário e do Uruguay. Encontramos os amigos Diego Lopes (presidente do Vespa Club Paraguay, organizadores do evento), e Pedro Colotuzzo, o veterano mais rodoviário que já se viu - membro do Los Antiguos Vespa Club Uruguay. De repente desceu o pessoal de Vespa Club Rosário e do Charlie Satans Scooter Club, junto a outros afortunados, e com eles seguimos para a Costanera, aonde se daria o início das atividades oficiais. Ao chegarmos, de cara avistei os curitibanos Coca, depois o Farid, na peita do Vesparaná Club. Então a colombiana viajante Elizabeth Benitez na sua Star4 da LML, uma guerreira a dar exemplo pra muito machinho por essas tribos. Por lá uma das grandes satisfações da gente era rever o amigo paraguaio Gustavo Mendieta, ele que estivera em São Paulo - com Diego e Colman - no IV Encontro Nacional. Depois o gaúcho Fernandinho e esposa, com sua PX da Confraria VMC. Aí quem? Quem mesmo? Nano Aliaga - aquele argentino que esteve conosco em São Paulo com sua Originale 150. Inacreditável, pois nosso amigo não tinha confirmado presença até então. Revimos o Jose Rotela (aquele que encontramos na Ruta 6), agora já acelerando sua Sprint Veloce. E de Sprint Veloce o evento estava rico. Conheci ali o Juan Samudio na sua farda do clube nacional debaixo do colete sinalizador, compenetrado na organização do comboio em sua Vespa GT 1962 bicolor. Monica Echeverria reconheci das fotos de street punk pela internet, e ela estava lá, com o Carlos na estica beat em cima do solado grosso. O pessoal se conhecia, se cumprimentava, tomava um trago e festejava sem cerimônias. Fazia calor, a noite estava agradável como tão poucas vezes pudera ter sido para a maior parte daquela gente. Eram 90 pessoas, fácil, em 70 motonetas, fácil. Já tínhamos os cinco países reunidos em algumas frotas, e no dia seguinte, mais scooteristas chegariam. Demos um giro pela Costaneira, a orla da praia artificial de Encarnación. Muchiba na minha garupa segurava o banner da Scooteria Paulista - feito pelo Vespaparazzi especialmente para o evento. Foi nessas que o Canal 9 filmou a gente com alguma insistência. No meio do buzinaço achei o Hernán procurando o Vespão. Ficamos juntos, como viemos. Em meio à esfumaçante celebração Farid passava sem capacete gritando "brachooolaaaa". Colotuzzo abria seu enorme sorriso a cada acelerada. Resolvi tirar o casco e tomar um vento na cuca também. A polícia era amiga, havia um combinado em prol do evento. Pista livre!!




Da Costanera seguimos em comboio rumo ao Parque Quiteria. Felipe Aquino guiou os perdidos, e Hernan, Vespão e eu estávamos nele, com Elizabeth e alguém mais. Rapidamente o agrupamento se reuniu em auto-pista. No caminho um acidente se deu, envolvendo duas personalidades caras na cena sul-americana: Paola Diaz e Pedro Colotuzzo. A argentina seguia pela Marginal Sur quando o pneu traseiro estourou. O uruguaio, que vinha atrás, deu em cheio, levando ambos ao chão. Ela sofreu algumas escoriações entre a perna e o pé, e Pedro teve o paralamas amassado e parte do parabrisas quebrado. O pessoal se mobilizou ali mesmo em ajudá-los, e em ligeiros minutos trocaram o pneu da Caderona. Enquanto isso Colman me cedia o sinal do celular para que eu procurasse informações sobre o Assef na internet. Diego e João (JWT) procuravam pela gente no comboio. Nisso estourou o cabo de embreagem da PX do Coca. Desci da Vespa e empurrei-o para que tentasse levá-la no braço até a parada definitiva. Quase chegando no Parque Quiteria noto, sem capacete, numa Vespa PX, a colombiana Maryzabel Cárdenas, uma das principais ativistas do movimento Dois Tempista em Bogotá (COL). Nos cumprimentamos em giro, e levamos uma idéia até chegarmos no Parque. E por lá era tudo buena onda: vespistas se conheciam ou se reencontravam. Em algum momento conversei com Alejandro Morel, que levava a sua Super Sprint sob a bandeira paraguaia. E por aí adiante. Alguns seguiram pro banho. O banheiro ficava a 300 metros do salão do acampamento. Tinha gente que ia de Vespa. Esqueci de alguns detalhes, mas me lembro que uma turma chegou com cerveja enquanto a outra convocava a geral para o jantar. Ainda me demorei naquelas muitas prosas com os locais, em algumas frustradas tentativas de aprender Guarani - língua oficial no Paraguay. Uma grande mesa foi armada enquanto a churrascada descia da casa ao lado. Conversei ali com Alejandro Balsamo (Vespa Club Argentina), um senhor calmo e bastante atencioso com os acontecimentos. Sua Vespa é uma das novas. Nessa ocasião também tive a feliz oportunidade de conhecer, através do Colotuzzo, seus companheiros de viagem, os membros do Vespa Club Salto: Ever (Forever) e Nelson Irace. Dois sujeitos muito simpáticos e bem dispostos a queimar os pneumáticos. Fiquei desiludido em saber tardiamente que havia um clube de motonetas muito próximo a Taquarembó (URU), por onde passei quando fui sozinho pro Argentina (no DSC#3, em dezembro de 2011). Ok, agora eu sei! Agora sabemos! Passado o jantar - a paella estava deliciosa - uma turma voltou para o acampamento, enquanto a outra se distribuiu pelos dois hotéis. Comprei umas cervejas e me sentei por ali no chão na companhia de Marizabel, Elizabeth e Fabio Much. Proseamos até umas horas, e eu queria saber exatamente por que os colombianos são tão loucos, cheios de vigor de sair para o mundo. O assunto foi longe, até Much pegar no sono ali mesmo e mijar no meio da roda ainda sonâmbulo (gente, o que foi aquilo? rsrsrs). Depois da chuva ainda levei um lero com a moçada e fui dormir. Vespão, Hernán, Diego e João tinham arrumado tudo. Nossas barracas estavam armadas num dos boxes do camping (coberto): Vespão, eu e Much numa, Hernán em outra, João e Diego em outra. Ao lado a Elizabeth na dela, Nano na sua, e Paola na sua também. Era o nosso quarteirão!!

02 de Novembro - Encarnación-Trinidad
JESUIT JOE

O passeio programado para a manhã miou. Chovia, e o céu da cor de chumbo não animava os visitantes. Hernán preparava o café com produtos do patrocinador JWT, enquanto que João checava os registros audio-visuais feitos no dia anterior. Uma das coisas mais improváveis de se acontecer num grande encontro é o dia amanhecer com chuva. Mas nesse aconteceu! A turma se preparava mas o céu não abria. Nos reunimos, pouco a pouco, na área de convivência coberta do Parque. Ali vendi alguns Almanaques Motorino e distribuí adesivos. Elizabeth fazia um dinheiro para a sua viagem vendendo souvenires. A turma chegava aos poucos, lembro do Cristian Ariel, Martin, Agustín, Ini, Pato, David, Federico, Daniel e companhia. Eles traziam um repertório de hinos e cantorias. Pareciam um bando de hooligans na porta de um estádio de futebol. Buena gente!! Conheci nesse dia o Cae, parte da equipe do evento, junto do Arsenio, Gaston Cardoso, Jorge Dancuart, Oscar Alberto.
Também com a turma estava o Diosnel Marin, que me fez questão de apresentar a sua belíssima Vespa 1955, a do guidão pelado. Impecável, funcionava, a relíquia do evento. Vespaparazzi fazia diversas fotos e Hernán estava deveras contente em reencontrar o conterrâneo Nano Aliaga, quem conheceu em São Paulo, no ano passado. Em meio às fotos e prosas lá estava o Oscar Argüello, membro do clube nacional e mecânico da cidade de San Lorenzo. Assef já tinha entrado no Paraguay e seguia sem mais notícias. Mendieta acendia a churrasqueira e dominaria a brasa até a metade da tarde. Sim, como a chuva não dava tréguas, o passeio matinal estava cancelado. Alguém teve a idéia de fazer fotos das placas emparelhadas, e Colotuzzo gritou "Fideeeelis". E na ordem se deu a foto das visitas: Elizabeth, eu, Diego, Ini e Colotuzzo. Representando assim a Colômbia, o Brasil, o Paraguay, a Argentina e o Uruguay. Como disse Pedro: "Cinco paises representados en matriculas, tripulación y común voluntad integradora!!"



Degustei com a turma de Assunção uma bebida diferente: vinho com Fanta e gelo, acho que era isso. De bicada em bicada fui me contentando junto das Brahmas. Diego reuniu a moçada e confirmou que o passeio da tarde aconteceria às 15h30, com chuva ou sem. Essa já tinha dado uma trégua a um tempo, mas precisamente no horário da saída, ela voltava. Dentro das roupas apropriadas a turma foi saindo assim mesmo, em blocos. Vespaparazzi decidiu ficar. Fabio Much pegou uma Vespa emprestada, a Sprint Veloce do Walter Fabian (vespista da cidade) e seguiu conosco. Hernan idem. Nosso carro com João e Diego seguia na rabeta. Achamos uma turma um pouco a frente e seguimos junto. Firmava-se uma leve garoa. Depois de 3 kms rodados notei lá atrás um pequeno comboio perdido. Senti que era preciso dar uma mão na organização e assim decidi represar num posto de combustível os que estavam conosco enquanto eu saía à caça dos perdidos pela cidade. (Nessa hora lembrei da boa vontade do Ito 8). Encontrei a turma de Córdoba e os guiei até o posto. Depois de alguns minutos encontrei outra turma na Colectora Sur e os trouxe. Paola arrastava a perna dolorida do tombo da noite anterior, e estava decidida a prosseguir na garupa. "Todos ok? Então vamos!!" Só que na hora da partida Hernán reclamou que sua Vespa não ligava. Nessa hora bateu o espírito "Reginaldo". Saquei a vela fora e identifiquei falta de faísca. Pane elétrica! Puxei a capa que protege os conectores do CDI e "tcham tcham tcham tchaaaam": havia uma poça d'água ali. Aí foi só bater um ar, reconectar e funcionar. Foi nesse momento que conheci o Michel Mendoza e sua PX. Ele tinha um sotaque híbrido, e ao perguntar foi que ele me contou que vivera por algum tempo no Rio de Janeiro, e que ainda tem parentes por lá. Então partimos pela Marginal Sur, até a divisa com Trinindad, aonde encontramos um pessoal parado no acostamento. Foram cinco minutos por ali, aonde alguns abasteceram, aguardando outros, até que fomos guiados (por não lembro quem) à grande atração do evento: as ruínas jesuíticas de Trinidad. Um lugar fantástico, preservado com carinho pelo povo sulista, e carregado de histórias e lendas. Um instrutor respondia com atenção a todas as perguntas sobre o passado local. Havia cinco ou seis construções arruinadas, sendo a primeira delas datada de 1706. As Vespas ficaram do lado de fora. E foi na grande capela que fizemos a foto oficial do evento, reunindo quase todos os participantes. Conheci aí a Andréa, repetindo o ligüajar do Muhiba: "é nóis", "vem comigo". Também o vespista Demian, que tinha a fama de esquecer insistentemente o nome das pessoas, então "é nóis". Lá estava Dieter e sua T5 bicolor. Enfim... Eram 19h30 quando chegou o Vespaparazzi, do nada, na hora do show de luzes nas ruínas. Um lance totalmente lúdico, um espetáculo new-wave-gregoriano, algo fantástico!!


A volta foi tensa. Além da garoa e da escuridão, o comboio estava disperso. Não tínhamos certeza sobre quem seguir. Em dado momento vi uma Vespa Rally 200 encostando. Uma ruiva reclamava com o piloto, o Denis, ou David, ou sei lá o nome do pobre rapaz. Ela pediu-me que a levasse, subiu sem capacete em minha garupa e então ele foi atrás acelerando desconcertado. Fiquei apreensivo pois podia ser a namorada ou paquera do rapaz, e aí um simples favor poderia custar caro. Mas não, ela se divertia mesmo era pulando de garupa em garupa, e nessas tinha chegado a minha vez. O cara da Rally passou duas ou três vezes por mim tentando provocar um racha ou qualquer coisa, mas sem sucesso. Minutos depois tive que dar um basta nas brincadeiras do xovem gagoto, primeiro quando ele parou bem no meio da estrada, e depois porque queria levar o comboio para uma parada cervejeira num posto de combustível. Então procurei puxar o comboio até o Parque Quiteria, porque lembrava do caminho, e principalmente porque havia uma programação no evento, com um jantar nos esperando, junto a um monte de gente que foi embora antes ou que nem tinha saído das redondezas. Aí aconteceu com a gente também (viu Ito)!! A 100 metros do Parque Quiteria, confuso quanto ao portal correto do evento entrei no parque errado. Much, que vinha logo atrás, se confundiu também, e ao frear no pé, a Vespa derrapou pros dois lados e o jogou ao chão. Paramos por ali, mas em 10 segundos ele já estava de pé dando a partida no motorino, dizendo "ai ai aaaai" em grunidos reprimidos "aaaaaai". O prejú na lata ficou pequeno, e Walter não se importou, dizia que poderia resolver facilmente ali na sua cidade mesmo. Já no Parque, eis que encontramos por lá o Rafa Assef recém-chegado. O amigo tinha tomado a rota errada e rodado por mais de 500 kms dentro do Paraguay. Agora sim o time da Expedição estava formado por cinco autênticos membros da casa. Outra turma da pesada que chegara naquele fim de tarde eram os gaúchos dos Herdeiros do Passado e os do Vale dos Sinos Scooter Club. Com grande prazer revia o Danilo Lauxen, Kiko e Vania, Jacque, Paulo, Stello e Cris, Cleberto e cia ilimitada. Eles tiveram diversos imprevistos durante a viagem, atrasando a chegada em praticamente um dia. Teriam poucas horas para desfrutar do evento e da companhia dos camaradas dois tempistas.


Depois do banho pouco a pouco a turma se reuniu no refeitório. Depois do jantar Diego Lopes abriu o plenário. Representantes de diversos clubes tomaram a palavra. Pedro Colotuzzo emocionou a todos com uma homenagem ao finado Mário de Las Heras. Sim, o presidente do Vespa Club havia cometido suicídio a dias atrás. Pessoa boa, quieta, focada, que eu conheci pessoalmente no DSC3 de Buenos Aires. Foi chocante saber ali de tamanha tragédia. Voltei pensando muito nisso. David Casero virou o mestre de cerimônias da noite, enquanto Cristian anunciava "tiempoooo". Fui chamado ao discurso, e falei por um bom "tiempoooo", valorizando os viajantes, a equipe colombiana de resistência dois tempista, o projeto Vesparolliando el Sur de Elizabeth Benitez e anunciando, finalmente, para a América do Sul, o MUNDIAL DE MOTONETAS BRASIL 2014 (evento que organizaremos em São Paulo durante a COPA DO MUNDO). Durante os sorteios Hernán foi contemplado com uma camiseta do sponsor Klein Soldaduras. Vespaparazzi fazia uma série de fotos. E Assef cuidava da banca dos Motorino's. Depois da gastronomia toda a gente foi com parte da turma para uma festa numa casa noturna, mas voltamos cedo pois o cansaço era grande e a festa parecia miada. Passei a madrugada com parte da turma de Córdoba, de Assunção e de La Plata, e amanheci com eles. Não conseguia me embriagar apesar da insistência. Era mágico tudo aquilo, aquele encontro, essas tantas pessoas que citei aqui, e outras dezenas que não pude conhecer em tempo ou que não me recordo agora. E simplesmente acabou!! O I Encuentro Internacional de Vespa Paraguay oficialmente chegava ao fim.




03 de Novembro - Encarnación
ADIOS AMIGO

Difícil dizer em que momento começou o dia 3. Mal dormimos. Assef por exemplo pegou um colchão inflável furado e acabou dormindo no chão gelado. Durante a noite o João, Diego e Hernán passaram medicamentos curativos no pé da Paola enquanto ela dormia. E de manhã já estávamos em meio à moçada novamente. Uns iam e outros voltavam do banheiro. A turma carregava os reboques e a gente dava uma mãozinha. Vespão fazia as fotos da turma que partiria de volta pra Asunción. Hernán fazia o café para todos, literalmente, a conta-gotas os copos se enxiam. João me cedia o sinal e Diego tirava o dia para lavar o carro, assim como os outros faziam também com suas Vespas. Uma hora depois descemos pro refeitório e tivemos uma conversa longa e produtiva com o Christian, Victor e Esteban, do VC Córdoba. Nano, também da mesma cidade, levava muito a sério o assunto também. E o assunto era sobre a formação de clubes nacionais na América do Sul. Falamos de gente, de intenções opostas, do que era necessidade e do que era fetiche, e da real dimensão prática de se Viver em Vespa. Ao final de tudo, Christian tirou sua camiseta polo oficial do clube e me deu. Foi uma das atitudes mais sinceras que já presenciei nesse nosso universo 2 tempista. E mesmo tendo esse breve contato com os cordobenses, vê-los partindo nos deixava saudades ali mesmo. E ficamos nós, somente: a Scooteria e o Nano, que já é da casa. Tiramos a tarde pro lazer, e seguimos lá pra Costanera, curtir um sol na areia com mate quente e amigos: Vespaparazzi, Hernán Rebalderia, Rafa Assef, Nano Aliaga, João Unzer, Diego Koba e eu Fidelis. (No caminho encontramos alguns argentinos voltando). Horas se seguiram por lá, ainda vislumbrados com os encantos e com os costumes paraguaios. Quando o sol baixava seguimos pro Parque Quiteria, aonde passamos a noite com alguns dos organizadores do evento, podres de cansaço. Praticamente não haviam dormido. Então capotaram por 12 horas direto. A gente pediu uma pizza, nos alimentamos e dormimos, pesadamente, depois de uma boa conversa com Dieguito Lopes e Nano.


Tentei aqui fazer um relato pessoal sobre o evento, destacando fatos que vi e que senti. Certamente esqueci de coisas e de pessoas, então durante a semana, conforme vocês me lembrarem e me corrigirem, vou retocando o artigo aqui. Parabenizamos ao Vespa Club Paraguay pelo primeiro encontro internacional de vespistas. Apesar da chuva e contra-tempos comuns à toda espécie de grande evento, vocês conseguiram tirar de si o melhor, e proporcionarem aos visitantes o prazer de conviver e de viver em Vespa. Pra gente que tem na Vespa (e na Lambretta ou na Bajaj) muito do nosso sangue e suor diário, a dimensão das nossas idéias podem ser diferentes do geral. Então as coisas podem brilhar ou ofuscar numa outra intensidade por dentro das lentes. Não é bom ou ruim, nem melhor ou pior. É viver o dia-a-dia. E falo porque aqui pra gente, vocês fizeram a história pulsar, a amizade firmar chão, e o mundo virtual e o que ele esconde, voltar para o plano da realidade e sob a luz do sol. Parabéns!! Três bravos para o Vespa Club Paraguay. Fica o tema: Adios Morena - Quemil Yambay y Los Alfonsinos.

Relato por Marcio Fidelis
Fotos por Fidelis, Vespaparazzi e Demian Florentin