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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

ETAPA FINAL: Uruguay - Argentina


No Pain No Gain! Deixei o Hotel Central de Tacuarembó (Uruguai) às 11h, na caça do posto de gasolina mais próximo da saída para Paysandú, cidade fronteira com a Argentina. No percurso avistei uma scooter Bajaj Classic, a indiana. Em outros momentos me disseram que no Uruguai há muitas delas circulando nas ruas, utilizadas como motos comuns por seus proprietários desprovidos do feitiço scooterístico. De fato! Até tentei puxar um assunto com o sujeito proprietário da peça, mas em vão. O sujeito, ogro estilo borracheiro, nem se manifestou. Me sentia na Índia. No posto completei o tanque até a última gota. Eu já carregava de reserva três litros da gasolina brasileira que havia comprado em Santana do Livramento, depois de ouvir opiniões adversas sobre a qualidade da gasolina uruguaia. Resolvi então completar mais dois potes vazios de óleo 2 Tempos, levando comigo então 7,5 litros no tanque, mais 4 litros de suporte. Fato é que a Ruta 26, a estrada que liga Tacuarembó à Paysandú, ela é praticamente deserta e pelo caminho não há postos de combustível. Houvera um dia, o que hoje está abandonado à beira do caminho.


Essa foi a saga mais tortuosa de toda a viagem. A Ruta 26 foi um atalho que peguei para evitar pagar os dólares do Buquebus, o barco de transporte entre países. Fora a segunda maior prova de fogo da viagem, depois do caso da Vespa quebrada em Fazenda Rio Grande (PR – Brasil). São 230 kms de solidão, de estrada pedra e terra seca, quase um quase Paris-Texas. O sol era de rachar o casco, e o chão, de rachar o coxim. Na média dos 70km/h para menos fui adentrando a rota. O bloqueador solar me salvou a pele. Ainda assim o meu braço revelava o torresmo que virei. Quando eu vestia a jaqueta vermelha me sentia um sonho de valsa: marrom por fora, branco pro dentro. De vez em quando passava por mim algum caminhão carregando madeira, ou algum carro utilitário levando pessoas na caçamba. A agricultura predominante era de cereais: trigo e também arroz, se é que estou mesmo certo. Em dado momento vi o gado magro pelo pasto seco. Lá pelo meio do caminho acontecia uma espécie de festival de montaria, com um show dos melhores cavalos da região. Em certa altura a pista estava sendo pavimentada, e era impagável a expressão dos trabalhadores ali me vendo passar naquela motoneta. Por duas vezes quase fui ao chão com os buracos e pedras no caminho. Em diversos trechos beirava os maquinários das pedreiras locais. Quando o meu marcador de combustível entrou no vermelho avistei uma placa anunciando um posto a 1000 metros. Um estabelecimento existia ali, mas as bombas não mais. Havia apenas uma loja de conveniências bem conservada. Determinado a chegar em Buenos Aires, não parei. Porém no quilômetro seguinte resolvi voltar para esfriar o motor na sombra e beber água. (Já fazia duas horas e meia que eu estava na rota, e ainda faltavam 110 kms a serem percorridos, algo em torno de duas horas ou mais.) Se algo acontecesse com o motor naquele trecho, empurrar minha Vespa ali seria a morte. Aliás, não me surpreenderia se encontrasse esqueletos humanos pelos cantos da pista. No céu já avistava os urubus rodeando a próxima vítima. Então parei e pedi informações a dois nativos que foram muito prestativos e me fizeram um mapa do restante da rota. 


Deitei por cinco minutos na sombra e tentei pela primeira vez acessar o GPS que o Rogê Senefonte me emprestara, mas ali não tive sucesso. Sem falar da trilha de formigas na qual sentei... Segui em frente no caminho pra Dakar...rs. Faltavam 85kms para a cidade de Paysandú quando meu tanque entrou na reserva. Segui nas últimas gotas até encontrar uma sombra para recarregar o combustível com o estoque que levava. Sob o forte sol do Saara, num recuo da pista preparei um funil e virei meu estoque tanque adentro: 4 litros. Foi o suficiente. E a saga se seguiu por mais uma eternidade, repetindo os mesmos causos que narrei aqui. A cerca de 10kms de Paysandú havia um posto de gasolina. Finalmente completei o tanque e segui adiante. As placas indicavam o caminho para a Ponte Internacional, e nem foi necessário entrar na cidade. Sob a bandeira do Uruguai e diante da ponte, troquei a permisso uruguaia pela argentina e acelerei. Perón, aqui vou eu!


ARGENTINA

Gloria! Os dois países são divididos pelas águas. Da ponde passei pelo Rio Uruguay e finalmente encontrei um posto YPF, aonde cambiei dinheiro e completei o tanque com uma das melhores gasolinas da América. Fiz um lanche ali enquanto assistia na TV a posse da presidenta re-eleita Cristina Kirchner. Segui então para a Ruta Panamericana, a grande reta que me levaria até Zarate, cidade da província de Buenos Aires. As províncias são regiões equivalentes aos Estados brasileiros. No caso dessa Ruta, a pista é excelente, espaçosa, e de tráfego seguro. O melhor asfalto de toda a expedição In Vespa Fidelis #1.



Durante esse percurso de 250 kms abasteci por três vezes para garantir o descanso do motorino. Sentia muito sono, e o cansaço me dopava, e nem o café muito ajudava. Pelos meus cálculos eu teria ainda mais 4 horas de estrada até a capital federal. Aonde parava as pessoas me chamavam de Che Guevara, comparando-me á sua biografia “Diários de Motocicleta”. Às margens da rodovia uma imensa vegetação beirava os pequenos afluentes de Entre Rios. Muitos pássaros cruzavam a pista, era bonito de ver. Alguns me acertaram seus tiros de boas-vindas. No pôr do sol das 20h adentrei a província de Buenos Aires. Uma cena inesquecível. 
A minha Vespa sorria pelo farol alto – o baixo havia queimado durante a tarde. Passei pelo começo da cidade de Zarate e à esquerda tomei a expressa Ramal Escobar, caminho para a avenida-chave da minha chegada: Los Cardales. Na região de Campana um sujeito me informou erradamente sobre como chegar na rota certa: a Accesso Oeste. Tomei ruas confusas e becos escuros. Vi muitos carros de época pelas ruas, a maioria detonados pelo tempo, mas andando. Passei uma hora rodando na cidade até me embrenhar numa periferia que muito me lembrava as quebradas de Osasco (SP). Num posto pedi informações a um sujeito extremamente parecido com o mafioso italiano Tony o Gordo, dos Simpsons. De fato era filho de imigrantes do sul da Itália. Ele me guiou até perto do bairro de Haedo. Dali foi fácil encontrar o Sitas Club, a Sociedad Italiana de Tiro al Blanco, o alojamento da RVA (Red de Vespistas Argentinos) para esse tão aguardado Dia Del Scooter Clasico. 

Marcio Fidelis e Jorge Pedroli
Finalmente, sob a imensa lua cheia eu entrava no clube. Estava sujo, cansado e atrasado para essa festa de gala. Era a festa de recepção do grande evento. Cumprimentei e fui bem recepcionado por alguns scooteristas, como o Rodrigo Onetto, que conhecia do Facebook. Também ao Joaquin da Fonseca, o grande pai, e Jorge Pedroli, um amigo dos melhores. Veio o Diego Perez, Manoel, alguns uruguaios e chilenos também. Me encaminharam ao salão. Ao entrar no glamoroso recinto fui aplaudido de pé por todos os scooteristas do evento. Tratavam-me com um herói. Todos sabiam o meu nome, e estavam preocupados e ansiosos com a minha chegada. Aí veio o Fabio Much, olha ele aí! Viera de avião na sexta-feira, na promessa de uma Vespa da RVA só para ele. Foi uma grande festa. Me chamaram ao microfone, falei. Me deram cerveja, bebi. Me deram carne, comi. Me deram uma senha para um sorteio de brindes, ganhei (uma camiseta oficial da Vespa). Conversei com metade do salão, havia umas 150 pessoas lá. Ali eu entendi que a Scooteria Paulista era grande fora dela!!! O Fabio Much, que havia chegado um dia antes, me reforçou essa impressão. Todos queriam comprar o patche da Scooteria, ter algo nosso.  Perguntaram-me dos nossos encontros, da Noite da Motoneta e do Raduno da Primavera. Fiquei feliz e embriagado entre eles. Finalmente, depois de seis dias e meio eu havia chegado. Sim, eu existo!

"Como aplaudió la gente cuando hicieste la entrada de Marcio en el salón principal de la RVA el sábado por la noche.. jeje.. se ves que sos una gran persona!" (Hector Osmir Gonzalez, Uruguai).

"Voce foi el heroe, asim foi recibido, respeto! Foi muy emotivo, eu llore juro! Se le recordara por siempre a voce" (Jorge Pedroli, Argentina).

"Todos estabamos muy emocionados por tu llegada ese dia. Sinceramente, vi algunos compañeros aplaudirte con lagrimas en su ojos. Fué emocionante tu llegada". (Diego Perez, Argentina).

10 comentários:

Anderson disse...

Grande Marcio. Parabens pela bravura,
Abraco
A.

Anônimo disse...

Que emoção!
Realmente, um presidente deve ser aplaudido de pé por todos, depois dessa grande conquista!
Márcio, grande satisfação poder ler esse seu relato da sua chegada são e salvo ao tão sonhado destino!
Espero que nos relate toda a trajetória de volta!
Um forte abraço cara e mais uma salva de palmas por essa barreira que vc quebrou para os Scooteristas aqui do Brasil!

Wolney K.

Anônimo disse...

Fidelis, que sucesso!!! Eu e o Koré estamos orgulhosos de ter um amigo como você.
O Koré pediu para te avisar que amanhã vamos depositar um valorzinho pra você no Santander, pra colaborar no retorno.
Faça boa viagem e fique em segurança.
Beijos e abraços, Cris e Koré

Emerson disse...

Parabéns, tama uma Quilmes por mim...

Rosemeri disse...

Parabéns,estamos muito felizes com a sua chegada ao destino são e salvo e maravilhada com suas histórias!
Abração,
Rose e Reginaldo.

D. disse...

Parabéns! Até chorei de emoção... vc merece, amore!

Luciano-(Purê) disse...

Parabens Fidelis..voce é o cara..esta sentindo o mesmo quando eu fui sozinho fazer o mesmo trageto!

Anônimo disse...

caro amigo Fidelis...voce provou a si mesmo e a todos,que mais do que vontade,e sim coragem e bravura tudo se conquista.fiquei emocionado com seu relato de chegada e todas honrarias a ti prestadas.Seria aqui incontaveis os parabens de todos que estao juntos com voce nesta viagem.Parabens a todos da scooteria paulista por ter um representante fiel e honrado como nosso amigo FIDELIS. um forte abraço do amigo LUTI

São Roque Vespa Clube disse...

Marcio,
O pessoal do são roque vespa clube está acompanhando e torcendo a cada novo dia de sua aventura !!

Avante "nova lenda" dos Scoterista

Abraço e bom regresso.

China
SRVC

a disse...

Caraca Márcio, até arrepia meu!!! Parabéns, é muito bom termos você representando os scooteristas Paulista. Aquele abraço irmão e até breve!!!! Estou aqui acompanhando e vibrando! Afonso