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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

ETAPA FINAL: Joinville (SC) a São Paulo

Dia e Noite, Noite e Dia. Saí de Florianópolis as 18h e segui direto para Joinville, ao encontro com meu primo e amigo Cristino. Do caminho falei com o Adriano Elcana, de Blumenau, que se preparava para uma viagem ao litoral. Apreciaria um café com o cara mas não havia mais tempo. Liguei para o Jack e para o Ito, ambos de Curitiba, para posicioná-los do meu itinerário. Gostaria de encontrá-los no dia seguinte.

Na minha última noite de viagem já não encontrava novidades. Com o céu estrelado de final de primavera rodei os 180 kms até a encantadora Joinville, e sob as luzes de Natal do Terminal Central reencontrei "o tio da fenemê", meu amigo de longa data, Cristino Pereira. Tomamos uma cerveja com fritas e assuntamos sobre viagens e acontecimentos. Naquela noite fazia um baita calor, contrastando com o aspecto das últimas semanas de chuvas na cidade. Dormi muito bem e acordei às 8h com uma cuia de Tereré gelada em mãos, nosso velho hábito dos tempos de oeste paulista e norte paranaense. Antes de partir Cristino fez questão de que eu comesse ao menos um croissant com suco, topei. Mal sabia eu que seria essa a minha única refeição do dia. Valeu Cristin! Ao checar no banco descobri que meu último dinheiro havia sido debitado pela conta do telefone da SP (011 3297-8733). E tudo o que me restava eram duas notas de 50 Reais e a fé. Nos despedimos no portal de Joinville e sob um intenso sol das 10h voltei para a BR 101.

Estava determinado à passar em Fazenda Rio Grande (PR) para dar um abraço de agradecimento no Felipe/Fernando da Naza Moto Peças, e na volta tomar um café expresso com os amigos curitibanos. Jack estava de prontidão no celular. Então enrolei o cabo no vácuo de um caminhão-cegonha por 20 kms na média dos 90km/h, até que, num piscar de olhos o meu motor lançou aquele barulho fatal de pistão! Há muito tempo tenho o hábito de manter a mão esquerda no manete, com dois dedos sobre o manicoto da embreagem. Creio que ali não dei tempo para o pistão travar de fato, ao ouvir o barulho, puxei a embreagem e parei no mato. Esperei por dez minutos, joguei 200 ml de óleo no tanque liguei a moto novamente. Dali em diante o desempenho dela havia despecando dos 90km/h para os 55km/h. Apreensivo e confuso prossegui viagem pelo acostamento, arrependido por ter exigido mais do que a Vespa poderia suportar naquele fim de jornada. Rodei 20 kms lentos até encontrar algum estabelecimento pela rota. Mas não havia. Aquele é um trecho de Mata Atlântica preservada, e só o que encontrei no caminho foi uma bela queda d'água à beira-pista. Parei a moto, tirei a bota e entrei embaixo d'água. Recomeçava dali uma nova situação vivida em Vespa.



PARANÁ

God Bless the Child. De cabeça fria e motor quente saquei o giclê e a vela pra fora. Ambos estavam em condições normais. Esperei por 40 minutos na sombra e então reuni a bagagem e liguei a Vespa. No primeiro quilômetro rodado o desempenho alterava sutilmente subindo dos 55km/h para os amarrados 65km/h. Meu tempo se encurtava, e ali compreendi que não poderia mais visitar ninguém. Precisava estar em São Paulo no fim da tarde para a festa de recepção preparada pelos amigos. A Vespa não conseguia manter uma regularidade, hora caía de ritmo, hora subia, e com aquele calor de 38 graus (medidos no termômetro de um caminhoneiro que conheci no posto adiante), o pistão dilatado já comunicava sua fadiga. Sentia o vapor dentro do capacete, o vento quente à minha direita, o sol assando os meus braços e o cansaço de uma viagem preparada às pressas. Confuso e inseguro, orei! Li na placa: "São Paulo - 432 kms". Fazer o que? Tirei as botas e entrei na queda d'água. O impressionante foi que aquela água santa parecia ter refrescado mais o motor do que a mim. Na estrada ele atingiu de novo os 90km/h. Um sentimento de nobreza tomou meu coração, e enchi a viseira de lágrimas. E comovido - sei lá, estressado também - entrei no Estado do Paraná, com a certeza de que eu chegaria em São Paulo até a noite.

SÃO PAULO

Back In Your Arms. A viagem prosseguia tranquila apesar do sol fervendo. Entrei no Estado de São Paulo por volta das 15h sob um calor de 38 graus. Ficava apreensivo com meus pneus na alta temperatura do asfalto. Nas duas vezes que explodira minha câmera de ar - a caminho do CWB em Vespa 2010, e nesse ano na 23 de Maio, na capital - fazia um calor semelhante. Porém preciso destacar que os pneus resistiram intocáveis por toda a viagem. Os buracos na BR116 me enchiam de ódio do Estado. Essa é uma das principais ligações entre o sul brasileiro e o restante do país, e em alguns trechos o descuido com o asfalto certamente já provocara acidentes irreparáveis. O "detalhe" disso é que há quatro ou cinco pedágios entre Curitiba e São Paulo.


Parei por diversas vezes para esfriar o motorino. Meu dinheiro chegava nas últimas e torcia para que tudo desse certo nesse último pedaço de trip. Fiz uma longa pausa em Cajati, aonde conversei com uma turminha de pré-adolescentes no posto. A molecada admirava a Vespa, e queria saber tudo sobre como andar em uma: "aonde fica a marcha? E o freio? Corre quanto? A roda é pequena, já caiu dentro de algum buraco?". 

Então prossegui no ritmo dos 80km/h. Passei por Registro e abasteci em Juquiá. Me restava 45 reais e 170 kms finais. Parei em Santa Rita do Ribeira, numa fonte de água da nascente, e logo adiante, numa barraca de água de côco, a melhor bebida do mundo depois da cerveja. Na região de São Lourenço adentrei um engarrafamento de 15 kms. Era a Serra. Um caminhão havia capotado na beira da pista e uma grande equipe de paramédicos, guinchos, bombeiros e policiais trabalhavam para retirar o motorista das ferragens. Cena apavorante. Às 18h eu passava por Embu das Artes. Dali em diante me reencontrava com o velho cenário da grande São Paulo. Cortei Taboão da Serra por dentro e às 19h15, em meio ao ritmo frenético da metrópole avistava o centro de São Paulo. Quantas saudades eu senti! 
O pôr-do-sol amanteigado destacava de longe as curvas do Edifício Copam. Antes de chegar à festa parei na Padaria do Estadão e pedi um prato feito com batata e calabreza, praticamente a minha primeira refeição do dia. Às 20h cheguei na porta da Trackers. Num pulo só vieram o Reginaldo e a Rose com abraço do tamanho da cidade. Grandes amigos, daqueles que não se mede palavras. O Haine viera de Taboão, e o Flavio de Campinas, trazendo na face toda a expressão de respeito e afeto. O Rubinho, cicerone, já estava lá com tudo em cima. Chegava na sequência o Sergio Andrade, o China, a Vanessa com o Alessandro, o Fabio Much, o Koré e a Cris. Então o Leo Russo e a Claudia, o Afonso, o Rafa Assef, a Luciana, a Carol, o Corazzin, a estreante Anne Dolçan (seja bem-vinda à classe). A maioria viera direto do trabalho para a festa. Os veteranos Alfredo e Paolo Vanucci trazendo um generoso gesto de respeito à minha aventura. Estacionamos as nossas motonetas na Avenida São João e brindamos com os olhos sobre elas, ao som da música de rua, do segundo andar da Trackers Tower. E esse foi o último capítulo da viagem, a chegada, junto dos meus amigos, scooteristas ou não, com vinte reais no bolso e a glória de uma longa história escrita com óleo 2 Tempos, minha Vespa e eu, brindando à vida, como ela não é precisa.


10 comentários:

Scooteria Paulista disse...

Fotos de Marcio Fidelis
Foto 11 do Sena

Elcana Adriano - Blumenau - SC disse...

Grande Fidélis, parabens meu amigo!!! a Vc e sua Vespa, agora pede pro Reginaldo dar aquela Geral no Motorino, para descerem pro SC em Vespa e Lambretta. Contamos com VC6

São Roque Vespa Clube disse...

Fidélis

Nós do São Roque Vespa Clube (SRVC ) estamos muito contente e impressionado com sua viagem.
Parabens pela garra e pela conquista, pois seu feito não é para qualquer um.

Grande Abraço
China

Anônimo disse...

Do começo ao fim fácil não seria, mas você demonstrou que é um vencedor e tem as costas quentes.

PJ (Lammy)

Anônimo disse...

Muito bem Fidélis, nos aqui nos acostumamos a abrir o blog a toda hora em busca de notícias e história que quando demoravam , ficávamos preocupados, ótimo.
Feliz Natal com muita fumaça ( 2T).
Maurício

Anônimo disse...

valeu fidelis,grande viagem! é isso que nos incentiva a continuar com os nossos giros,tenha um feliz natal! e estamos no aguardo para o nosso giro vespal pelo vale.

abços,guerreiro

Anônimo disse...

lendo o último capitulo desta saga , no qual tbm fomos coadjuvantes pois como tu mesmo descreveu " foi recebido ao som de Roberto Carlos , lambrettas , vespas , parte do grupo e os bichos" tudo como uma grande familia deixando saudades e com a certeza que voltaremos a nos reencontrar novamente para aquele legítimo churrasco Gaúcho .DESEJAMOS UM FELIZ NATAL A TI E TODOS DA SCOTERIA PAULISTA !!!!!! De: Stello e Cris Brasil

Anônimo disse...

Quanta corajem e determinação!
Durante todos esses dias, chegar em casa e abrir o blog eram sagrados!
Acompanhei toda a viajem e sempre torcendo para que tudo ocorresse bem.
Finalmente, temos nosso campeão Paulista!

Forte abraço Márcio e espero que possamos nos conhecer em breve!
Wolney K.

Anônimo disse...

Escuderia Paulista detona muito, passo um mes sem vizitar o blog e quando entro voces ja foram pra argentina e voltaram . parabens lambreteiros

Sidney Mafra

Vespa Clube do Estoril disse...

Marcio e toda a Scooteria, muitos parabéns em nome do Vespa Clube do Estoril (Portugal). Fazemos votos para um 2012 cheio de curvas e punho enrolado!