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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

ETAPA 8: Santa Vitória do Palmar - Porto Alegre (RS)

I'M GOING HOME. Acordei as 9h e abri a janela para ver o dia. Chovia fino e fazia frio. Estamos no sul do Rio Grande do Sul: minha inseparável Vespa e eu. Enquanto organizava os textos no meu computador, descansava as costas nos travesseiros. E vão me perguntar lá em São Paulo: "e como ficou suas costas nessa viagem"? Acho que vou responder: "quando eu pilotava, colocava ela na mochila". Há um fundo de verdade nisso. Nessa manhã assisti ao meu time, o Santos, tomar uma goleada do Barcelona na final do Mundial de Clubes. Infelizmente terei de esperar mais um ano, ou uns. Chovia, e eu tremia só de ver a água no vidro da janela. Lá pelas 11h30 saí para sacar dinheiro e almoçar. Precisava de um bom prato, e nada como estar no Rio Grande do Sul para isso. Comi muito bem, sobretudo as carnes. Quando voltei, tomei um banho e então passei duas horas a mais naquele hotel, o Hotel Turismo, aproveitando o tempo para atualizar notícias minhas na internet particular de um cordial atendente que me emprestou seu 3G (Pen Drive). Conferi os recados dos amigos e atualizei o Blog da Scooteria (este). Acho que passava das 13h30 quando ajeitei minhas coisas na Vespa, vesti a capa de chuva e parti. Ficou para trás aquele simplório pedaço de Brasil.


A cada posto eu me informava sobre a distância até o seguinte. As pessoas me alertavam: "gasolina não vai ser o seu problema, o problema são os bichos pela estrada". Fato! Na noite anterior por pouco não atropelei um gambá na pista. O aviso dos frentistas nesse momento me serviu de alerta. Dobrei a atenção no asfalto e no mato a beira dele. É preciso dizer também que essa é a BR471, e ela atravessava um campado todo verde, um ecossistema único. Há muita vida ali! Aquilo era o meu vislumbre, e a minha preocupação. Um olho na pista e outro no mato. Pelas nuvens grossas eu sabia que tomaria mais chuva. As 15h30 passei por uma ligeira nuvem garoante, suave. Ao longe avistava o azul do fundo do céu. Fazia uma hora e meia que estava na estrada, a BR471, então adentrava o início da zona de perigo e encantamento: a Estação Ecológica Taim. De imediato avistei dois enormes cães de guarda à beira da pista, em frente a uma casa sem portão. Deviam proteger a propriedade dos outros animais. Os cães se levantaram olhando firmemente para mim, e isso não me cheirava bem. Acho que o barulho de um motor 2 Tempos incomoda ou agride os ouvidos dos cães, porque me passou um filme na cabeça de quantos cachorros já correram atrás de mim na rua. Só que ali meu coração saía pela boca! Conforme ia me aproximando eles se mexiam, até que um deles parou no meio da estrada. Acelerei no meu limite, os parcos 90km/h que me restavam, e tomei a contra-mão, pois a minha pista já estava "bloqueada". Esses dois eram quietos, não latiam, eram inteligentes, e pareciam trabalhar em dupla. E estavam ali para protegerem a casa grande de toda espécie de animal silvestre. Então um deles veio, como um enorme Puma na hora da janta. Vi os dentes daquele cão brilhar embaixo de mim. Dentes bem melhores do que os meus. Por pouco não tomei uma mordida na bota.


Passado o susto, veio a fauna toda: capivaras, cobras, aves, guaxinins, 'sohos', cisnes (?), gambás, tatus, jacarés (do papo amarelo) e um felino em extinção que não sei o nome mas gostaria de saber. Pelos pampas via cavalos e bois bem tratados. Também o arrozal tomando todo o banhado. Bem que o Joaquin da Fonseca (RVA) escrevera: “você está na região do arroz”. Lá pela metade do caminho avistei uma ninhada correndo pelo asfalto, do que parecia ser filhotes de capivara, mas que mais tarde descobri se tratar de um bicho nativo apelidado de Ratão do Banhado. Eram muitos, uns 15 ou mais. Baixei as marchas e toquei a bozina para dispersá-los. Sempre em frente! Olhos vidrados no asfalto e na vegetação na beira-pista. A qualquer momento poderia ser surpreendido por algum bicho distraído ou apressado. Ou até mesmo por algum que me elegesse o prato do dia: carne scooterista. Ok, não era pra tanto, mas devo dizer que apesar da cautela indispensável naquele trecho, a cena nativa é fantástica, e quase toda a extensão da pista é margeada por belos corixos azuis, levando água e vida por quilômetros a fio.

Rodei 180 kms naquela tarde. Era quase 18h quando cheguei no município de Rio Grande. Os casebres de madeira e muro baixo me encantavam. Completei o tanque e liguei para o Sérgio, scooterista e restaurador de Porto Alegre, aonde me aguardava. Disse-lhe que estava atrasado e que não se preocupasse comigo, pois não queria confundir os seus horários rotineiros. Sergio fora bastante solícito, e se dispôs a me ajudar a qualquer hora. Marcamos para o dia seguinte (segunda-feira) um café ou almoço, e assim prossegui viagem.

Enrolei o cabo e disputando espaço entre caminhões e ônibus de turismo fui avançando sob o pôr-do-sol. Por diversas vezes fiquei prensado entre eles naquela estreita pista dupla. Uma dica? Não façam o que digo, muito menos o que faço. Em meia hora eu já estava em Pelotas. Adiante, no município de Turuçu completei novamente o tanque. E entrava na BR 116, uma rodovia sem fim... As mariposas, e todo o tipo de inseto voador saía pra jantar, dominando a estrada, mutos deles estourando na viseira do meu capacete, no escudo da Vespa e no meu peito. Alguns eram tão grandes quanto uma bola de gude.

Segui cortando São Lourenço do Sul aos 85km/h. Abasteci em  Camaquã pela última vez e tomei informações sobre Porto Alegre com um senhor bastante gentil que me explicaria tudo sobre o lado noturno da rodovia. Com atenção redobrada no breu da BR-116 completei meus últimos 80 kms de viagem até as luzes Guaíba numa pista de mão dupla com movimento bem mais intenso agora que chegava na capital gaúcha. A vegetação invadia o acostamento da pista e as árvores formavam túneis pelo caminho.

Depois das pontes da Baía de Guaíba finalmente, à meia-noite, eu chegava na iluminada e urgente capital gaúcha. Parei em dois hotéis nas proximidades da rodoviária e fui mal-atendido em ambos: aquele momento em que você tem a certeza que está incomodando o atendente só pelo fato de pisar ali. Continuei na busca por um leito qualquer ali no miolo do cotidiano obscuro da madrugada. Rodei por 15 minutos pelo centrão. Na Avenida Farroupilha encontrei um lugar bastante simpático: Hotel Caju. A atendente era gentil e espirituosa e me escolheu um quarto bastante simples e silencioso. O hotel parecia vazio, ou as pessoas deviam estar todas dormindo. A internet não funcionou naquela noite, depois descobri que só acessava do refeitório. Dormi as 2h30.


MEU ENCONTRO COM O VESBRETTA

Na segunda pela manhã a atendente veio me dizer que o Sergio havia me ligado na recepção. Retornei a ligação e sua filha me passara os telefones do Carlão e do Felipe. O Carlão estava na estrada, vindo de Santa Maria de carro ao meu encontro. Estava a 300 kms de Porto Alegre mas já anunciando um churrasco daqueles. Disse-lhe então que infelizmente eu teria que seguir viagem nas horas seguintes e não poderia esperá-lo, pois necessitava cumprir meu prazo de chegada em São Paulo: quarta-feira dia 21 de dezembro. Falei com o TK Felipe, que estava com o Sergio no carro. Ambos estavam na labuta do começo da semana mas vieram ao meu encontro na Avenida Farroupilha. Passamos quase duas horas por lá. Conversamos sobre o saudoso Curitiba em Vespa, sobre as interpretações do meu diário de bordo, e sobre postura.



Esses caras todos são membros do Motoneta Amigos Vesbretta, uma turma que, desde 2007, coleciona histórias das rodovias do sul. São uma dúzia de amigos, livres, e que se entendem e decidem os passos conforme a ciência de cada um sobre o assunto. Felipe conhece bem as estradas do sul, e me deixou a par da rota que logo mais eu tomaria rumo à Florianópolis. O Sérgio, sujeito quilometrado, desde que começou a ter problemas com sua Vespa, aprendeu a fuçar no motor, e com o passar dos anos a curiosidade virou profissão. Hoje ele tem uma oficina em sua casa, que leva o nome de Ophicina das Clássicas. O Carlão pelo fone me avisou: “Fidelis, eles vão te dar um tanque de combustível e um pote de óleo”. De fato antes de partir eles me deram o suficiente pra gasolina, óleo e também para o pedágio até o fim do Estado. A frase do dia: “esse dinheiro é pra você, a gente quer ter certeza de que você vai consegui sair do Rio Grande”. Devo-lhes dizer que o grupo Vesbretta foi bastante solícito comigo desde que souberam da minha viagem. Que não me interpretem mal, mas infelizmente minha conversa com eles foi bastante curta, porém suficiente para depositar-lhes minha estima. Até hoje não fazem questão alguma de destacarem um presidente para o grupo; e adaptando a máxima do TK: “Quem é rei se faz majestade”.

2 comentários:

Scooteria Paulista disse...

Fotos 1 2 e 3 do Marcio Fidelis
Foto 4 do cara que não saiu na foto...

Anônimo disse...

Grrrrrrande Fidel, pela ordi irmão. vai com deus vai na paz que agora se tá em casa

billy