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sábado, 17 de dezembro de 2011

ETAPA 6: Da Argentina ao Uruguay

Nesse momento estou em Punta del Este (na costa uruguaia), é final de tarde e escrevo ligeiro para retomar logo a minha rota, pois vem mais chuva. Estou sem dinheiro, creio que tudo o que eu tenho são o equivalente a 30 reais. Hoje devo entrar no Brasil a noite, aí eu me viro. Aqui ainda não. Faltam 200 kms. Mas voltando ao diário de bordo, em Montevidéo foi assim.


ADIOS AMIGOS - Buenos Aires, quinta-feira, dia 15 de dezembro de 2011: não era um dia peronista. Minhas últimas horas em solo hermano foram mesmo tristes, fui feliz e estava sabendo. Representei, com a minha placa cinza, a nossa SP nesse grande encontro sul-americano. Havia conhecido muita gente legal, pessoas que eram perfis da internet, personagens do universo old scooter sul-americano, e os que fazem acontecer. Mas "o sonho acabou". Passei o fim de tarde encanado e sozinho. Não queria deixar a Argentina! Fiquei doze horas ali pelo Puerto Madero esperando o Buquebus, o barco de transporte. 
Nesse meio tempo visitei uma oficina de navios, a Casa Rosada, o prédio da Secretaria de Comunicaciones, e o trânsito da grande cidade. Há um lado esquecido dessa turismo todo. Ao leste do porto há um contraste no micro-espaço: nos antigos quarteirões espaçados, históricos, talvez tombados, dormiam os caminhoneiros dessa América do Sul. Atrás deles se escondia um legítimo bairro da Belle Epoqué portenha. 
E o sol se pôs. Aí lembrei das lâmpadas queimadas. Fiz o serviço e tomei o Buquebus para Colonia del Sacramento, uma encantadora cidade histórica uruguaia.

COLONIA DEL SACRAMENTO

O barco era maravilhoso, dividido em vários ambientes: um mini-navio. Havia um modesto luxo ali, e um glamour notável nas pessoas que andavam entre a sala de jogos e os caça-níqueis. E Notei que fui notado! Ali um grupo de motociclistas argentinos viera puxar um papo comigo. Legal. Aí bateu o sono, naquelas poltronas macias e cheirosas não tinha como, e olhando para o último fio da luz da lua no Rio de La Plata, dormi.

4h da manhã e eu pisava no Uruguay. Minha intenção era visitar o Osmir, vespista que conheci no evento, mas a cidade de Tarariras era muito fora de rota pra mim. (Fica para uma próxima). Abasteci, tomei um café expresso e segui ligeiro na Ruta 1, rodovia que me levaria direto para Montevidéu. Pista livre noite afora. Poucos carros e raros caminhões vi pelo caminho. Todavia chovia forte, e ventava demais. Nela mantive os 75km/h ou menos. Sentia o cheiro da água salgada escorrendo dentro da viseira do meu casco, como se a chuva fosse a ressaca das ondas que voavam por sobre a terra ao redor da estrada. (Eita!!). 
A tempestade não deixava o dia amanhecer. Alguma luz atrás das nuvens ameaçava dar bom dia. Que nada! Luz mesmo foi a Bajaj Classic que encontrei na estrada, vermelha, na garagem da Patrulla de Caminos (a polícia rodoviária). Mais tarde eu veria várias delas pela capital federal. Aliás, é impressionante a quantidade de Bajaj's e Vespas PX circulando no Uruguai. Há inclusive alguns postos de combustível que oferece, na bomba, a gasolina misturada com o óleo 2 Tempos. Definitivamente, um país scooterista!

MONTEVIDÉU

Foram 180 quilômetros até a capital. Cheguei as 8h da manhã. A cidade de Montevidéu é quase toda à moda antiga. Do porto até o centro é notável o senso de civismo e organização desse povo. Peguei ruas limpas e silenciosas, vi elegância nas pessoas, me senti meio na Europa, até porque Vespas e Bajaj's estavam pelas ruas. Sem falar nos carros clássicos: Ford Falcon, Renault 4, Fiat 600, Impala e mais um monte de relíquias rodando. O charme da cidade é preservado, o capitalismo não parece corroer a mente das pessoas tanto quanto no Brasil. Falo pelo consumismo, pela exposição comercial. A arquitetura clássica (ou neo-clássica) é predominante, junto a elementos da Arte Déco, ou Nouveau nos edifícios. As ruas são espaçadas e o motorista médio não tem pressa. A vida acontece, é uma música.

Pelo centro antigo entrei e saí de uma dúzia de hotéis até encontrar um em conta. Achei o Hotel Uruguay, com preço, wi-fi, estacionamento, café e história: o prédio tinha 120 anos. E junto aos fantasmas, meu quarto era o 13. Estendi as roupas molhadas da bagagem, tomei um banho e capotei. Acordei as 14h e sob o céu nublado sai à procura de um "prato feito". Comi bem! Aí estava andando pelas ruas com minha peita do Juventus, Doc no pé e o velho cap quando um jovem me abordou: "hey skinhead", disse. Seu nome era Pablo, era skinhead tradicional, scooterista clássico e cervejeiro dos bons. (Vale contar aos desinformados que um Skinhead Trad é anti-racismo e a-político, preservando o Espírito de 69, quando negros e brancos dançavam juntos o som do Rocksteady nos subúrbios londrinos). Quando Pablo viu minha Vespa ouvi de bate e pronto: "no creo, las colores de San Pablo". Depois dessa definitivamente eu estava em casa. Marcamos umas cervejas pra noite.

LOS AVISPETTAS SCOOTER CLUB

SCOOTER BOY SCOOTER GIRL - Cheguei 21h e ele me aguardava com sua esposa Marina, seu filho León, e o amigo Federico na estica inglesa: DM's., B.Shermann, Harrington, Levi's e cabeça brilhando na zero. Essas pessoas organizam atividades culturais na cidade e são os principais DJ's de ska e rocksteady music do país, e apresentam o seu acervo com a alcunha de Dinamita Soundsystem. Também confeccionam camisetas, stencils e bottons do estilo. E para não dizer que não falei das flores, ali estavam as máquinas do tempo: Federico com sua Vespa 150 (1962), Marina com sua Lambretta DL (De Luxe, 1969) e Pablo com uma Vespa Sprint (1975), além de uma raríssima Vespa 90 (1963) com motor travado no mezanino da sala.


Nessa noite falamos de música, futebol e old scooters, e tomamos um porre de Zillertal. Sabiam muito do rock paulista: Ira, Garotos Podres, Cólera, Olho Seco etc. Pablo me explicou que nada nesse nível existiu no Uruguay nos anos 80. Inacreditável foi quando ele sacou de uma de suas caixas de discos o clássico "Vivendo e Não Aprendendo", do Ira! Sabiam as letras, lamentavam o fim da banda. Além do Soundsystem aquela turma tinha uma banda de early reggae chamada Los Dinamos - tenho comigo algumas gravações, é só me pedirem. Já o scooter clube Los Avispettas seria mais uma coisa de amigos, até porque a maioria das motos estão quebradas. Não ligam para clubes maiores. Pablo os considera "elitistas". Marina e ele se conheceram no rolê roqueiro, ela era Anarco-Punk, ele um Skin Trad. Discutiam ideologias e não se bicavam, daí veio a paixão e também as motonetas. Marina me contou também que seu pai foi um dos fundadores do primeiro Vespa Club uruguaio, lá no final dos anos 50. O papo rendeu. Pela madrugada chegou mais dois amigos deles, tímidos ou contidos, porém não menos cervejeiros. Saí de lá era quase 3h da manhã, feliz por esse rico e inesperado encontro com pessoas que economizam apresentações.

4 comentários:

Scooteria Paulista disse...

Fotos de Marcio Fidelis.
Foto 6 de Los Avespinos.

Gustavo disse...

Ano que vem eu TENHO que dar esse giro!

D. disse...

Adoraria visitar o URU!!!! Boa viagem, sempre! Que seu retorno seja sempre seguro.

Anônimo disse...

Os amigos Scooteristas são sempre tão receptivos!
Acho que está no sangue!

Wolney K.