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sábado, 10 de dezembro de 2011

ETAPA 4: Brasil - Uruguay

Clandestino. Era cerca de 13h quando me despedi dos Herdeiros do Passado na BR 158. Sob aquele sol fritante dobrei o bulso na intenção de chegar em tempo em Rosário do Sul (RS), para fazer a minha Carta Verde, o seguro obrigatório para condutores entre os países do Mercosul. Dali em diante era incontável a quantidade de tamanduás e tatus atropelados no asfalto. Isso me intimidou bastante mais tarde quando anoiteceu, pois de dia não vi nenhum deles vivo... Em Rosário do Sul procurei pela seguradora local, que certamente faria essa tal da carta de cor. Porém o susto aí começava. Eles tinham de tudo o que era veículo cadastrado no sistema, mas a Vespa não, nem a Lambretta. Então não sabiam como agir, e nesse caso, recusaram o meu caso. Recusaram porém ajudaram. Antônio, o segurador, disse que em Uruguayana (RS) um amigo poderia assegurar a entrada da minha Vespa na Argentina, todavia isso deveria ficar para o dia seguinte, sábado, pois já era 16h da sexta-feira, e o percurso até lá é demorado. Falei da necessidade de estar até a noite o mais perto possível de Buenos Aires, e ele então me deu uma dica: "vá até Santana do Livramento porque lá eu sei que tem segurador trabalhando em qualquer horário". Dia e noite, noite e dia! Então dei mais alguns giros pela cidade afim de pensar. De súbito resolvi me informar com dois jovens rapazes na calçada sobre outros postos para retirada da carta verde. Um deles, muito atencioso, ligou para um amigo do Corpo de Bombeiros da cidade, que estava há dois quarteirões de nós e resolveu comparecer em pessoa. Todos sugeriram para eu descer pelo Uruguay, pois a polícia local é bem mais branda se comparada à da Argentina, cujas intenções veladas é procurar pêlo em ovo para angariar aquele dinheiro do turista. Eu que tinha incluído Uruguayana (RS) no desenho da rota de viagem nos cartões-postais da tour In Vespa Fidelis, deveria improvisar um atalho, e sem pensar muito, pois tic-tac o tempo vai passando e a gente aqui sentado no banquinho conversando.


Rodei então os 106 quilômetros restantes de Brasil e adentrei Santana do Livramento (RS) afim de conseguir o meu livramento. A minha meta era uma só: chegar o mais próximo possível de Buenos Aires. Pedi informações sobre a carta-verde para a Polícia Federal brasileira, e eles me indicaram um posto de gasolina à frente. Cheguei no posto e não existia mais a seguradora citada, mas me indicaram uma outra à frente. Mas o responsável por isso não estava lá. Fiquei um pouco preocupado pois a cada RPM eu chegava mais perto da divisa Brasil x Uruguai sem a tal da carta de cor. Então nesse trajeto, lendo placas e todo tipo de anúncio nas faxadas do comércio, eis que encontro uma revendedora de veículos com o anúncio no banner: "carta-verde". Entrei no estilo sede ao pote e o responsável pelos documento já havia ido embora. Ligaram, e ele voltou. Havia duas maneiras do trâmite ser realizado: pelo jeito brasileiro, e pelas vias legais. A primeira opção sairia pela metade do preço: 50 reais. Optei pelas vias legais! E dessa forma cheguei na divisa dos dois países com a minha Vespa regularizada para rodar no Mercosul. No Parque Internacional (BR-UR) troquei alguns reais em Pesos Uruguayos e Dólares. (Não encontrei ali o Peso Argentino). Do outro lado da rua começava a cidade de  Rivera, o lado uruguayo da praça. Saí de lá ansioso em prosseguir viagem, porém havia me esquecido de um "detalhe": a minha permisso. Andei três minutos de estrada e voltei para a Migración. Ali fiz a documentação de saída do Brasil e de entrada no Uruguay, e conversei com um funcionário uruguaio que pediu-me para procurar um comprador para a sua Lambretta LI 1965. Com os documentos finalmente acertados, segui viagem.



URUGUAI

Sentir os ventos do Uruguay depois de uma tarde tensa daquela não tem preço! Gritei: "Uruguaaaaai". Agradeci a Deus pela graça concedida nessa tortuosa e abençoada semana, e com o pôr do sol à minha frente, chorei. Aquele era o mesmo sol desenhado na bandeira do país. Um momento único: minha Vespa e eu no Uruguai, depois de quase 2000 kms de lutas e glórias. Na Duana pediram para eu parar, mas foram muito amistosos, tiraram fotos e me indicaram o caminho mais curto por terra até Buenos Aires. Uma imensa alegria invadiu meu peito, confesso que apesar da tensão vivida, me sentia confiante e algo dentro da minha mente me dizia desde a manhã do dia 4 de dezembro: "Vá em frente!" Dentro do país rodei até o momento por 130 kms. Na última hora do dia vi touros e cavalos pelos pampas, e notei também um imenso ferro-velho de carros antigos naquela Ruta 5. Passei pela polícia rodoviária, que fez sinal para eu prosseguir. Também prossegui livre pelo pedágio um pouco depois. A estrada estava quase que deserta. Vivi uma noite da qual jamais esquecerei. Minha Vespa e eu na Ruta 5, sob um céu estralado e limpo de lua cheia. Rodei por quase duas horas na pista, com uma parada para abastecimento. No posto me informaram que na cidade seguinte eu deveria estocar gasolina pois haveria 220 kms de estrada sem absolutamente nada pelo caminho. Me disseram também que essa Ruta 26 (que me levará à Argentina) é esburacada e durante a noite não havia movimento algum nela. Muito agradecido pela hospitalidade do povo uruguaio, segui em frente, respirando os novos ares do scooterismo rodoviário.


Cheguei em Tacuarembó por volta das 23h15 e resolvi dar uma volta na cidade. De imediato era notável o intenso tráfego de motocicletas populares utilizadas pela juventude local. A cidade possui 80 mil habitantes, e fiquei com a impressão de que cada habitante possui uma moto. E todos pilotam como loucos: empinam, aceleram até o limite, driblam-se entre si, e raro ali é ver algum deles de capacete. Perguntei para um morador local sobre as leis do capacete, e ele me disse que houvera uma lei dessa sim, mas não pegou ali. Eram tantas as motos populares nas ruas que para vocês terem uma idéia, eu peguei uma imensa fila de motos para abastecer. Passei vinte minutos naquele posto, e não gostei da gasolina pois senti minha motoneta engasgar por duas vezes depois. Parei numa das praças para fazer fotos e pedir informações de pousadas ou hotéis. Eu queria seguir viagem até Paysandú (UR), mas já era meia-noite e eu estava cansado. Um casal que namorava no banco da praça se dispôs a me ajudar, e me guiaram (de moto também...rs) até um o Hotel Central. Paguei ali 690 Pesos Uruguayos pela pernoite, o equivalente a 75 reais. E gostei! O hotel é antigo, fora construído nos anos 50 e a maioria dos móveis e objetos do local é preservado com carinho pela mesma família há décadas. Há ali diversos objetos dos anos 20 e 30: máquina de escrever, vitrola, porcelanas, aparelho de telefone, e acho que inclusive os cobertores...rs. Ali conheci o Miguel, neto do fundador do hotel, que disse ser membro do fã clube oficial do Raul Seixas. Ao ver a foto da Vespa na área de trabalho do meu notebook ficou mais simpático ainda à minha pessoa, e trouxe-me uma cerveza. De banho tomado e alma lavada, desci com meu notebook e passei o princípio da madrugada recaptulando esse que fora um dia de 48 horas. Com uma Pilsen uruguaia e um charuto brasileiro, sentei no banco da esquina da Gral. Flores, de onde escrevo essa coluna, ao lado do Julio, o funcionário mais antigo do hotel (30 anos de trabalho ali). Conversamos por quase duas horas, e de fato só paramos o papo porque já passava das 3h da manhã. Imaginei ali naquele saguão de hotel todos os scooteristas da SP reunidos, celebrando em peso a viagem de 2012. Preparem-se, o caminho está se abrindo.



IN VESPA FIDELIS
Percorridos até o momento: 2000 kms
Destino: Buenos Aires

11 comentários:

Scooteria Paulista disse...

Fotos de Marcio Fidelis

Rosemeri disse...

Marcio fico aqui radiante com cada história sua, e com vontade de está curtindo essa aventura ai com você, tenho certeza que não só eu como todos da SP.
É isso ai falta pouco, vai com Deus!!

Abraço,

Rose e Reginaldo
FREE WILLY

Pedro Castro disse...

Massa sua aventura , eu sou de Santa Maria rs , sou de um grupo de fuscas aqui da cidade e agora em Novembro estivemos ai no Uruguai em fray bemtos estaremos acompanhando sua jornada baita quebra costela Castro .

Anônimo disse...

Márcio, estou a seguir o teu diário de bordo com interesse aqui em Portugal, belo espírito!
Sei que não é fácil postar com tanto detalhe no blog à medida que a viagem se vai desenrolando, parabéns também por isso.

Vasco
http://www.respiroscooter.blogspot.com/

Anônimo disse...

fala ai fidelis grande aventureiro!!!!sorte meu brother esta chegando la!!!parabens fico feliz e torcemos por vc !!!abraços do amigo LUTI SJC

Anônimo disse...

kkkk o cobertor dos anos 20 foi cruel hein!
Á cada capitulo, essa viajem emociona mais e mais!

D. disse...

Que delicia de passagem! Fico feliz que tenha encontrado pessoas do bem, e se divertido no interior do Uruguai. Saudades. Todo sucesso e sorte para vc, homem de coragem!

André Luiz Hornhardt disse...

Força Fidelis, está quase chegando!

Anônimo disse...

Fala Fidelis... fico feliz em ler que tudo está bien.. Depois dessa, vc "carimba o passaporte" p/ atravessar a rota 40 argentina ou a 66 americana... Força...

Ronaldo Topete

Emerson disse...

Aonde você está? rsrsr estou ficando preocupado

Anônimo disse...

e ai fidelis vc sumiu cara,o que aconteceu?

guerreiro