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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Etapa 2: Fazenda Rio Grande (PR) - Lages (SC)

Keep on Running!! Por volta das 11h embiquei na BR 116 rumo ao sul. Daquele trecho até quase a metade de Santa Catarina a pista é estreita, de mão dupla e sem acostamento. E ali o tráfego de caminhões é intenso nos dois sentidos devido à imensa indústria regional da madeira. A cada 10 kms rodados eu era ultrapassado por uma carreta carregando troncos de árvores. Todavia apesar do grau de dificuldades, os motoristas, todos eles, foram de fato respeitosos. Talvez a experiência contasse o porque, visto que não é difícil de se encontrar ali na beira da pista, cruzes, flores e toda forma de homenagem fúnebre a alguém que morrera numa daquelas curvas. A BR pouco a pouco está sendo ampliada em diversos trechos. E será útil, pois se Deus quiser no ano que vem voltaremos em comboio, então é melhor abrir espaço...rs.


Pilotei ali na média dos 80 km/h pra menos, no receio de que o motor travasse ou alguma peça se soltasse como se soltou na segunda-feira a tarde. Abasteci em Quitandinha (PR), e não encontrei sinal de Wireless naquele posto, assim como em nenhum outro até a divisa. Era 13h quando entrei na cidade de Rio Negro (PR). Depois do almoço procurei uma lan house para atualizá-los do meu paradeiro. As pessoas olhavam admiradas para mim. É impossível não ser notado com uma Vespa. Tanto na cidade como na estrada a reação de quase todos é a mesma: um sorriso. Em todos os postos de gasolina que eu paro me perguntam basicamente duas coisas: "de que ano é essa moto?" e "essa moto tem marcha"? Nessa cidade fiz uma pausa de duas horas, visando esfriar o motor recém-fechado, almoçar, escrever a coluna anterior desse blog, e do site patrocinador Moto Esporte. Era cerca de 15h quando liguei minha Vespa. Em questão de 10 minutos já estávamos na fronteira entre o Paraná e Santa Catarina, ela e eu. 



Continuo impressionado com a paisagem sulista nativa: as diversas casas de madeira à beira-pista, feitas lá nas primeiras décadas do século passado, as plantações de hortaliças, os pinheiros etc... Na altura de Papanduva (PR) fiz mais uma parada para o resfriamento do motor. Pelo telefone público falei com minha namorada em São Paulo e com o sr. José Ferreira da Silva em Lages (SC), que me aguardava. Completei o tanque e segui viagem. Vinte quilômetros adiante entrei na garoa a 80km/h.. Ao passar por São Cristóvão do Sul algo me fez sentir muito bem. A cidadela parecia deserta, a população toda estava em suas casas e o único som que se ouvia era o do motor da minha Vespa, e o do vento. Às 19h o sol se apagava aos poucos como se estivesse sendo controlado por um dimmer. Ali na beira da Rodovia Régis Bittencourt avistei um supermercado de nome curioso: “Supermercado São Paulo Ltda, a casa do amigo trabalhador”. Depois de meia hora passei por Correia Pinto, a cidade é considerada a capital brasileira do papel. E a cada quilômetro a paisagem rodoviária ficava mais bonita. O asfalto nesse trecho é um tapete liso, e o movimento dos caminhões já havia caido em 70%. Cheguei em Lajes às 20h30, e no portal descobri que a cidade é a capital do turismo rural. Passei pelo portal e soltei um berro: “Laaaageeees”.

MEU ENCONTRO COM O AVENTUREIRO

Around The World!! Entrei na cidade sob as luzes de Natal. As pessoas apontavam para mim e diziam: “olha uma Lambretta!!” Talvez nunca tivessem visto uma circulando por aquelas ruas. E eu pensava: “vocês não sabem quem vive aqui entre vocês.” Com o endereço do Sr. José Ferreira anotado não foi difícil encontrar a sua residência. Então eis que finalmente conheci aquele que considero ser a maior autoridade da história do scooterismo brasileiro. Ele convidou-me para entrar e ao ver a minha Vespa nas luzes da sua garagem disse: “nossa, como é linda a sua Vespa”. E admirou-a por diversos ângulos. Que honra! (E divido essa honra com o China da Scooterboys). 

O Aventureiro no Peru (1969)
Sr. José apresentou-me a sua esposa Marli e me convidou para um banquete à mesa com leite, café, pães, bolo de banana, salame, queijos etc. Ele fez questão de que eu me alimentasse bem, e quem leu o seu livro, sabe o porque. Eu ainda nem tinha me sentado e já iniciamos ali uma deliciosa conversa sobre a sua aventura pelo mundo. O Sr. José Ferreira deu uma volta ao mundo de Lambretta LI em 1968/69, e décadas depois escreveu o livro O AVENTUREIRO (A VOLTA AO MUNDO DE LAMBRETA). Sim, Lambretta com um "T" apenas, como popularmente era descrita em sua época. Sentamos à mesa e o primeiro assunto foi nada mais nada menos do que a sua viagem pelo mundo na motoneta. Então ele pontuou: “naquele tempo existia mais cordialidade, não que hoje não tenha, mas na época era mais natural, hoje a cordialidade tem muito mais a influência da mídia”. Durante a noite ele me contou da sua profissão, das motivações que o levaram a enfrentar o mundo numa Innocenti, dos quatro anos de preparo que levou para realizar essa viagem, da decepção que teve com a Cia. Industrial Pasco, a fábrica da Lambretta (na Lapa, São Paulo), e também com a italiana em Lambrate. Em seu livro isso foi sintetizado. Durante o assunto todo comentei que a Lambretta havia falido em 1971. Ele não sabia disso, acreditava que até hoje ela existia. abriu um enorme sorriso e disse: "castigo, isso foi castigo"...rs. Contou-me de uma cirurgia delicadíssima que realizou recentemente devido a um tumor que evoluiu nesses anos todos de um tombo que levou em Marrocos durante a sua peregrinação. Falou dos motivos que fizeram retardar por décadas o lançamento do seu diário de bordo. E então tive a imensa honra de conhecer a sua sala, que apelidei de "Toca do Aventureiro". Ali estão diversos objetos preservados daquela viagem: roupas de viagem, toalhas, presentes, mapas, documentos, flâmulas, manuscritos etc. Porém a sua Lambretta LI não está com ele. Nos anos que anteciparam a sua viagem ele celou um contrato com o Museu Júlio de Castilhos (Porto Alegre), no qual o museu bancaria diversos cursos de línguas e auto-defesa, de nutrição etc, e em troca eles ficariam com a Lambretta para exposição permanente. O Sr. José até hoje se arrepende de ter assinado esse contrato pois sente muita saudade da sua scooter guerreira. E para se recordar da LI ele está montando essa réplica abaixo. 

Marcio Fidelis e José Ferreira, O Aventureiro.

A conversa foi sensacional. Esse foi um dos dias mais especiais para mim e para a SP. A Scooteria Paulista é agora a representante oficial do Sr. José Ferreira, e essa honra me foi autorizada por ele na noite de ontem. Caso queiram comprar o livro dele, contactá-lo para assuntos de mídia etc, fale conosco pelo scooteriapaulista@gmail.com. Posso lhes garantir que está para nascer um sujeito tão vivido numa Lambretta quanto ele, e de fato esse homem merece mais honrarias do que teve até o presente momento. No Brasil até agora o seu reconhecimento foi limitado à alguns jornais e canais de televisão locais. Lá fora ele entrou para o Guinness Book, um recorde nunca superado.

Dormi muito bem numa suite que ele e sua esposa prepararam para mim em sua casa. Hoje pela manhã conversamos bastante, sobretudo sobre a América. Nas suas viagens ele conheceu lugares e construções milenares, das civilizações Incas, Maias e Astecas, cheios de mistérios e segredos. Ele e sua Lambretta estiveram á beira da morte por diversas vezes. O sofrimento e a estafa sofrida nessa viagem é um notável em sua feição. Ao chegar no Brasil, no fim de um ano na estrada, ele enfrentou anos de depressão e dificuldades de sociabilização. Os reflexos mentais perduraram até recentemente, quando finalmente sentiu ter superado o drama que viveu durante a sua volta ao mundo. Psicólogos na ocasião diagnosticaram-no como o homem mais vivido do mundo, pois em um ano teria vivido a experiência e os platôs psíquicos de um senhor de 120 anos. O "Zé Ferreira", como é conhecido em Lages, me deu muitas dicas úteis para a estrada, e mais do que tudo, me deu a inspiração para seguir sempre em frente.


Desde 1969, quando retornou ao Brasil, o Zé Ferreira não subia numa motoneta, e não vestia a sua jaqueta da viagem batizada de Mensageiro da Amizade. Hoje de manhã ele prestou a maior honra que um scooterista poderia receber no Brasil: ele a vestiu. Ao amigo José Ferreira da Silva, todo o meu respeito e afeto.

Muito feliz e gratificado por tudo isso deixo a cidade de Lages (SC) rumo à Santa Maria (RS), aonde o grupo Herdeiros do Passado está me esperando para uma calorosa recepção à moda antiga.

4 comentários:

Scooteria Paulista disse...

Fotos de Marcio Fidelis e Kleyton Ferreira da Silva

Gustavo disse...

A cada capítulo dessa viagem eu fico mais feliz por ti, por você estar vivendo isso, e mais chateado por eu não poder te acompanhar nesse ano. Mas ainda vamos refazer esse e muitos outros caminhos. Siga em frente!!!

Anônimo disse...

Gostaria de um dia conversar com o Zé Ferreira sobre detalhes de sua viagem. Li o Livro dele e gostei. Realmente ele tem muito mais coisas para contar...
Abraço Zé, Abraço Fidelis.
Maurício

Anônimo disse...

Muito legal conhecer essa lenda da scooteria!
Todos os dias entro no blog para saber como anda o amigo Márcio!

Mestre, já conseguiu um novo celular?