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sábado, 31 de dezembro de 2011

Retrospectiva 2011

Caros amigos, esse ano de 2011 foi próspero e marcante para a classe de modo geral. Organizamos eventos fora de série, e participamos de outros tantos, incluindo um encontro internacional. Destacamos então os nossos 'melhores momentos'...


VESPANDA. No dia 4 de Janeiro recebi em São José dos Campos o italiano milanês Ilário Lavarra, que cruzou toda a América, do Alasca à Patagônia, ida e volta em solo, sob a alcunha do projeto Vespanda. No mesmo dia encontrei o Danilo Lauxen, de Novo Hamburgo (RS), no meio do trajeto de uma aventura solo com sua Lambretta Li. Passamos os três uma tarde sem fronteiras no Vale do Paraíba.



CIRCUITO DAS MOTONETAS DE INTERLAGOS. No dia 16 de Janeiro a Free Willy Moto Peças e a Scooteria Paulista realizaram um inédito giro no Autódromo de Interlagos, o circuito oficial da Fórmula 1. Foi uma tarde de convivência e espera, assistindo às 500 Milhas de Motovelocidade até a tão sonhada volta no solo dos campeões da velocidade. Demos 4 voltas na pista. Inesquecível. Fizeram frente no evento os scooteristas das cidades de São Paulo, do ABC, de Taboão da Serra, Pedreira, Mogi das Cruzes e Jacareí.

Autódromo de Interlagos

SÃO ANIVESPAULO #3. Na terceira edição do aniversário da cidade de São Paulo, o homenageado da vez foi o futebol. Realizamos em 50 motonetas um giro de 70 kms entre os principais estádios da cidade: Pacaembu, Palestra Itália, Morumbi, Canindé, e finalizamos as 7 horas de encontro dentro do histórico Estádio da Javari (Juventus), da parceria entre a Scooteria Paulista e o Clube Atlético Juventus. Uma prova de fogo! Apesar do feriado acontecer somente na cidade de São Paulo, contamos nesse dia também com os amigos do ABC, de Cotia e Campinas.



VESPA 360 PROJECT. No dia 15 de abril recebemos no Estado de São Paulo o scooterista canadense Sean Jordan, que saíra da Sérvia com sua Vespa PX para dar uma volta de 360 graus em torno do planeta. Ele passou uma semana conosco, o tempo todo amparado pelos amigos da Scooteria das cidades de São Paulo e Santos. Sean partiu no dia 22, tendo brindado conosco o primeiro aniversário do nosso grupo.


SP EM 2T. No dia 5 de Junho realizamos a premiação deaniversário da Scooteria. As festividades que começaram no dia 21 de abril na Rua Augusta (com Sean e amigos), passaram por Monte Alegre do Sul, Jacareí e São José dos Campos, até que finalmente nos reunimos em peso na cidade de São Paulo para uma celebração à moda antiga. Naquele dia premiamos os destaques das categorias que consideramos imprescindíveis para o manutenção do scooterismo na SP: quilometragem, antiguidade em giro, veteranos em atividade e prestação voluntária de ajuda ao comboio. Presença de 40 motonetas das cidades de São Paulo, ABC, Taboão da Serra e Cotia.




BRASÃO. No final de Junho lançamos o novo brasão da Scooteria, criado por Marcio Fidelis, aonde está em destaque o preto, o branco e o vermelho da nossa bandeira das 13 listras.




NOITE DA MOTONETA. Na noite de terça-feira de 16 de Agosto realizamos, junto da promotora Autoshow Collection, um inédito encontro de motonetas no Sambódromo do Anhembi, local aonde também acontece a corrida da Fórmula Indy. O encontro foi seguido de um desfile com mais de 40 motonetas arrancando aplausos de duas mil pessoas, e roubando a cena da tradicional Noite Italiana do Anhembi. Presença maciça dos paulistanos, e dos amigos do ABC, Jacareí e Pedreira.



RED DE VESPISTAS ARGENTINOS. Na noite de 24 de Outubro recebemos na capital o visitante argentino Lucho Testa, diretor da RVA, trazendo para a SP alguns souvenires e o convite para participarmos do Dia Del Scooter Clásico, em dezembro. O breve contato que tivemos foi a semente de uma árvore que cresceria e traria seus primeiros frutos.






RADUNO DA PRIMAVERA #2. No dia 27 de Novembro nos reunimos em São Paulo e descemos em um grande comboio até a baixada santista, na segunda edição do encontro litorâneo da SP. O giro proporcionou experiências inesquecíveis de um movimento erguido na raça... Dessa vez contamos com a força dos representantes locais da Scooteria e a presença dos amigos de São Paulo, ABC, Taboão da Serra, Osasco, Americana, Campinas, Limeira, São Roque (SRVC) e claro, de Santos.


IN VESPA FIDELIS. No dia 4 de Dezembro, Marcio Fidelis partiu com sua Vespa Originale 150 rumo ao sul da sulamérica, com destino ao Dia Del Scooter Clásico, Buenos Aires (ARG). O In Vespa Fidelis foi amparado em espécie pelos amigos da SP e por diversos clubes e scooteristas por onde passou, e contou com o financiamento das marcas Free Willy Moto Pecas, RevistaMoto Esporte, Dare Lambrettas e M.Brasil. Foram 18 dias de viagem e superação em Vespa, acumulando o total de 5100 kms rodados entre três países: Brasil, Argentina e Uruguai.


DIA DEL SCOOTER CLÁSICO #3. No dia 11 de Dezembro aconteceu na capital da Argentina o maior encontro sul americano de scooters clássicas. Fabio Much e Marcio Fidelis estiveram lá representando a SP, e foram recebidos pelos hermanos com toda a hospitalidade possível. Much participou dos passeios com a Vespa Originale 150 do Joaquin da Fonseca, diretor da RVA. Fidelis trouxe para a SP o troféu Scooterista Más Lejano do DSC#3, entregue pela Red de Vespistas Argentinos aos destaques do evento.





VESPA CLUB TRIESTE (IT). No domingo de Natal recebemos na capital a visita do casal Maurizio e Roberta, vespistas integrantes do Vespa Club Trieste, do nordeste italiano. Vieram de avião, a passeio, e trouxeram alguns souvenires especialmente para a Scooteria. Noite com Fidelis, R.Assef, F.Much e Leo Russo. Pela madrugada Batman...




Citei acima as oficialidades que envolvem exclusivamente a Scooteria Paulista. Muitos outros clubes pelo Brasil continuam a milhão organizando seus giros locais, e certamente em 2012 nos encontraremos com eles. Dos encontros paulistas de 2011, destaco os que estivemos presentes, em algum grau, com algum comboio amigo, ou com o convite em mãos:

Estrada Parque Old Scooter (Itú, 20.Fevereiro)
Antigomobilismo e Similares de Monte Alegre do Sul (22.Abril)
VIII Encontro e Exposição de Motos Clássicas e Antigas de Poços de Caldas (MG, 11 e 12 de Junho)
XVI Encontro Paulista de Autos Antigos de Águas de Lindóia (26.Junho)
VIII Encontro Moto e Cia Classic (São Paulo, 3.Julho)
Festa de Aniversário do Mecânico Tião (São Paulo, 10.Julho)
VII Encontro dos Amigos do Carro Antigo de Jaguariúna (17.Julho)
IV ABC Expocar (30 e 31.Julho)
IV Poços de Caldas Car (06 e 07 Agosto)
VIII Encontro de Lambrettas, Vespas e Motos Antigas de Jundiaí (28.Agosto)
Show do Oskarface em São Miguel Paulista (23.Outubro)
Feira de Discos na Vila Madalena (30.Outubro)
Passeio de Lambrettas, Vespas e Motos Antigas em Campinas (11.Dezembro)
Despedida Free Willy 2011 (18.Dezembro)
Garajão do Julião / Recepção In Vespa Fidelis (21.Dezembro)

Além desses giros, realizamos outros tantos informais em quantidade e entre amigos pela cidade de São Paulo, Santos, Jacareí e São José dos Campos. E vale dizer que a maioria dos integrantes da rede Scooteria são pilotos de fato, e com frequência estão nas pistas, sozinhos ou acompanhados. Dia e noite, noite e dia!

Em 2011 o motor esquentou como nunca. As Vespas e as Lambrettas invadiram ruas, estradas, eventos, bares, lanchonetes, garagens, festas, e toda a sorte (ou a má-sorte) de lugares possíveis. Isso exclusivamente por um motivo: pilotar. E pilotando por aí, notamos que fomos notados. No decorrer do ano tivemos destaque na mídia nacional, e vale a pena recaptular atraves dos links:

JORNAL DA GAZETA (TV Gazeta)

Revista ÉPOCA (SÃO PAULO)

Flavio Gomes (ESPN Brasil / Rádio Bandeirantes etc)

MAIS VOCÊ (Rede Globo)

Comercial da VIVO (Especial Dia dos Namorados)

Calendário PORTAL MAXICAR (Rio de Janeiro)

PROGRAMA ACELERA MOTOR (Sobre a Noite da Motoneta)

REVISTA MOTO ESPORTE (Coluna de Marcio Fidelis)

FOLHA VP (Jornal da Vila Prudente)

A TRIBUNA (Jornal impresso de Santos e região)

DIÁRIO DE SANTA MARIA (Jornal impresso no Rio Grande do Sul)

REVISTA DA MOOCA (Revista impressa do bairro da Mooca e região)





GRATIDÕES À TODOS OS SCOOTERISTAS QUE FAZEM AS RUAS MAIS BELAS
DESEJAMOS A VOCÊ UMA DIVERTIDA FESTANÇA DE REVEILLON, E UM PRÓSPERO 2012

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

ROSA FREITAG no MAIS VOCÊ (Globo)


Nossa amiga Rosa Freitag e sua Vespa PX participaram de uma matéria sobre o mercado feminino das scooters, realizada pelo Mais Você, programa da Rede Globo apresentado pela Ana Maria Braga. E de lambuja o Mario também faz uma ponta, com sua Piaggio Beverly. A matéria foi ao ar no dia 9 de dezembro.

Assista no link: MAIS VOCÊ

IN VESPA FIDELIS na REVISTA DA MOOCA


Cheguei de viagem e... Saiu na Revista da Mooca (No.2 / Dezembro 2011) uma matéria sobre a Scooteria Paulista e a viagem "In Vespa Fidelis" rumo à Argentina/Uruguay/sul do Brasil. Se alguém quiser um exemplar escreva para o nosso e-mail que conseguiremos mais cópias: scooteriapaulista@gmail.com

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

IN VESPA FIDELIS no DIÁRIO DE SANTA MARIA (RS)


Saiu uma nota sobre a viagem "In Vespa Fidelis" rumo à Argentina no jornal Diário de Santa Maria, do Rio Grande do Sul. O jornal foi às bancas no dia 10 de dezembro, quando eu já chegava em Buenos Aires, e dias depois o estimado casal Stello/Cris, fundadores do grupo Herdeiros do Passado, enviou-nos um exemplar para  o memorial da SP.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

T5: O Troféu de Ayrton Senna


Happy New Year!! Bem amigos da Rede... O ano chega ao fim, e parece que nesse, em especial, bateu uma saudade geral do nosso herói. Essa foto é uma indicação do vespista Gustavo Delacorte, de quando o paulistano Ayrton Senna, com o lendário Lotus John Player Special, conquistou a Pole Position do Grande Prêmio da Itália de Fórmula 1, no Circuito de Monza. Pelo feito, ele foi premiado com uma Vespa T5, o mais novo lançamento da Piaggio naquele ano de 1985... Ela conquistaria o mundo, assim como o garoto em cima dela. Senna teve uma estreita relação com a Piaggio. O ex-gerente de um restaurante de Campinas (SP) escrevera  no site da Globo EPTV sobre a essa proximidade, e a frase que ouviu do próprio Ayrton Senna da Silva: "Pois devia comprar uma Vespa, Você vai adorar dirigir uma, tenho certeza". 

À todos(as) os(as) scooteristas, entusiastas e leitores desse blog, uma boa festança e um feliz ano novo!!  Prosperidade, saúde e paz, que o resto, esfumaçando a gente corre atrás!!

...”É um destino cruel para aqueles que têm uma alma obediente e um coração fora-da-lei”
(Giorgio Betinelli).

sábado, 24 de dezembro de 2011

Manifesto do DIA DEL SCOOTER CLÁSICO



Los bichos en la notche tienen mejor sabor. 
Hogar es el sitio donde tu motoneta está el tiempo suficiente como para dejar algunas gotas de aceite en el suelo. Las motonetas no pierden aceite, marcan su territorio.
La mejor forma de ver una tormenta es através de tu espejo retrovisor.
Si tú no manejas en la lluvia, entonces no manejas.
Una motoneta en el camino, es mejor que dos en el garaje.
Los scooteristas jóvenes eligen un destino y parten, los scooteristas antiguos eligen una dirección y parten.
Un buen mecánico te dejará mirar sin cobrarte por ello. 
A veces, la forma más rápida de llegar es parando de noche. 
El invierno es la forma que tiene la naturaleza para recordarnos acondicionar y limpiar nuestra motoneta.
Los reflejos bien entrenados son más rápidos que la suerte.
El mejor reloj despertador es el reflejo del sol sobre los cromados.
Un amigo es alguien que se levanta a las 2h a.m. para ir en su camioneta a buscarte al fin del mundo.
30 autos juntos son un embotellamiento, 300 motonetas juntas son una reunion de amigos!!!

(do Troféu DSC#3 ao Scooterista Más Lejano)


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

ETAPA FINAL: Joinville (SC) a São Paulo

Dia e Noite, Noite e Dia. Saí de Florianópolis as 18h e segui direto para Joinville, ao encontro com meu primo e amigo Cristino. Do caminho falei com o Adriano Elcana, de Blumenau, que se preparava para uma viagem ao litoral. Apreciaria um café com o cara mas não havia mais tempo. Liguei para o Jack e para o Ito, ambos de Curitiba, para posicioná-los do meu itinerário. Gostaria de encontrá-los no dia seguinte.

Na minha última noite de viagem já não encontrava novidades. Com o céu estrelado de final de primavera rodei os 180 kms até a encantadora Joinville, e sob as luzes de Natal do Terminal Central reencontrei "o tio da fenemê", meu amigo de longa data, Cristino Pereira. Tomamos uma cerveja com fritas e assuntamos sobre viagens e acontecimentos. Naquela noite fazia um baita calor, contrastando com o aspecto das últimas semanas de chuvas na cidade. Dormi muito bem e acordei às 8h com uma cuia de Tereré gelada em mãos, nosso velho hábito dos tempos de oeste paulista e norte paranaense. Antes de partir Cristino fez questão de que eu comesse ao menos um croissant com suco, topei. Mal sabia eu que seria essa a minha única refeição do dia. Valeu Cristin! Ao checar no banco descobri que meu último dinheiro havia sido debitado pela conta do telefone da SP (011 3297-8733). E tudo o que me restava eram duas notas de 50 Reais e a fé. Nos despedimos no portal de Joinville e sob um intenso sol das 10h voltei para a BR 101.

Estava determinado à passar em Fazenda Rio Grande (PR) para dar um abraço de agradecimento no Felipe/Fernando da Naza Moto Peças, e na volta tomar um café expresso com os amigos curitibanos. Jack estava de prontidão no celular. Então enrolei o cabo no vácuo de um caminhão-cegonha por 20 kms na média dos 90km/h, até que, num piscar de olhos o meu motor lançou aquele barulho fatal de pistão! Há muito tempo tenho o hábito de manter a mão esquerda no manete, com dois dedos sobre o manicoto da embreagem. Creio que ali não dei tempo para o pistão travar de fato, ao ouvir o barulho, puxei a embreagem e parei no mato. Esperei por dez minutos, joguei 200 ml de óleo no tanque liguei a moto novamente. Dali em diante o desempenho dela havia despecando dos 90km/h para os 55km/h. Apreensivo e confuso prossegui viagem pelo acostamento, arrependido por ter exigido mais do que a Vespa poderia suportar naquele fim de jornada. Rodei 20 kms lentos até encontrar algum estabelecimento pela rota. Mas não havia. Aquele é um trecho de Mata Atlântica preservada, e só o que encontrei no caminho foi uma bela queda d'água à beira-pista. Parei a moto, tirei a bota e entrei embaixo d'água. Recomeçava dali uma nova situação vivida em Vespa.



PARANÁ

God Bless the Child. De cabeça fria e motor quente saquei o giclê e a vela pra fora. Ambos estavam em condições normais. Esperei por 40 minutos na sombra e então reuni a bagagem e liguei a Vespa. No primeiro quilômetro rodado o desempenho alterava sutilmente subindo dos 55km/h para os amarrados 65km/h. Meu tempo se encurtava, e ali compreendi que não poderia mais visitar ninguém. Precisava estar em São Paulo no fim da tarde para a festa de recepção preparada pelos amigos. A Vespa não conseguia manter uma regularidade, hora caía de ritmo, hora subia, e com aquele calor de 38 graus (medidos no termômetro de um caminhoneiro que conheci no posto adiante), o pistão dilatado já comunicava sua fadiga. Sentia o vapor dentro do capacete, o vento quente à minha direita, o sol assando os meus braços e o cansaço de uma viagem preparada às pressas. Confuso e inseguro, orei! Li na placa: "São Paulo - 432 kms". Fazer o que? Tirei as botas e entrei na queda d'água. O impressionante foi que aquela água santa parecia ter refrescado mais o motor do que a mim. Na estrada ele atingiu de novo os 90km/h. Um sentimento de nobreza tomou meu coração, e enchi a viseira de lágrimas. E comovido - sei lá, estressado também - entrei no Estado do Paraná, com a certeza de que eu chegaria em São Paulo até a noite.

SÃO PAULO

Back In Your Arms. A viagem prosseguia tranquila apesar do sol fervendo. Entrei no Estado de São Paulo por volta das 15h sob um calor de 38 graus. Ficava apreensivo com meus pneus na alta temperatura do asfalto. Nas duas vezes que explodira minha câmera de ar - a caminho do CWB em Vespa 2010, e nesse ano na 23 de Maio, na capital - fazia um calor semelhante. Porém preciso destacar que os pneus resistiram intocáveis por toda a viagem. Os buracos na BR116 me enchiam de ódio do Estado. Essa é uma das principais ligações entre o sul brasileiro e o restante do país, e em alguns trechos o descuido com o asfalto certamente já provocara acidentes irreparáveis. O "detalhe" disso é que há quatro ou cinco pedágios entre Curitiba e São Paulo.


Parei por diversas vezes para esfriar o motorino. Meu dinheiro chegava nas últimas e torcia para que tudo desse certo nesse último pedaço de trip. Fiz uma longa pausa em Cajati, aonde conversei com uma turminha de pré-adolescentes no posto. A molecada admirava a Vespa, e queria saber tudo sobre como andar em uma: "aonde fica a marcha? E o freio? Corre quanto? A roda é pequena, já caiu dentro de algum buraco?". 

Então prossegui no ritmo dos 80km/h. Passei por Registro e abasteci em Juquiá. Me restava 45 reais e 170 kms finais. Parei em Santa Rita do Ribeira, numa fonte de água da nascente, e logo adiante, numa barraca de água de côco, a melhor bebida do mundo depois da cerveja. Na região de São Lourenço adentrei um engarrafamento de 15 kms. Era a Serra. Um caminhão havia capotado na beira da pista e uma grande equipe de paramédicos, guinchos, bombeiros e policiais trabalhavam para retirar o motorista das ferragens. Cena apavorante. Às 18h eu passava por Embu das Artes. Dali em diante me reencontrava com o velho cenário da grande São Paulo. Cortei Taboão da Serra por dentro e às 19h15, em meio ao ritmo frenético da metrópole avistava o centro de São Paulo. Quantas saudades eu senti! 
O pôr-do-sol amanteigado destacava de longe as curvas do Edifício Copam. Antes de chegar à festa parei na Padaria do Estadão e pedi um prato feito com batata e calabreza, praticamente a minha primeira refeição do dia. Às 20h cheguei na porta da Trackers. Num pulo só vieram o Reginaldo e a Rose com abraço do tamanho da cidade. Grandes amigos, daqueles que não se mede palavras. O Haine viera de Taboão, e o Flavio de Campinas, trazendo na face toda a expressão de respeito e afeto. O Rubinho, cicerone, já estava lá com tudo em cima. Chegava na sequência o Sergio Andrade, o China, a Vanessa com o Alessandro, o Fabio Much, o Koré e a Cris. Então o Leo Russo e a Claudia, o Afonso, o Rafa Assef, a Luciana, a Carol, o Corazzin, a estreante Anne Dolçan (seja bem-vinda à classe). A maioria viera direto do trabalho para a festa. Os veteranos Alfredo e Paolo Vanucci trazendo um generoso gesto de respeito à minha aventura. Estacionamos as nossas motonetas na Avenida São João e brindamos com os olhos sobre elas, ao som da música de rua, do segundo andar da Trackers Tower. E esse foi o último capítulo da viagem, a chegada, junto dos meus amigos, scooteristas ou não, com vinte reais no bolso e a glória de uma longa história escrita com óleo 2 Tempos, minha Vespa e eu, brindando à vida, como ela não é precisa.


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Etapa 9: Porto Alegre (RS) - Florianópolis (SC)

Rockaway Beach. Saí as 15h30 de Porto Alegre, e conforme as indicações do Vesbretta tomei o caminho de Osório (RS) pela rota Free Way, a 290. No princípio da estrada minha Vespa apresentou uma considerável queda de rendimento. Não passava dos 60 km/h. Parei, olhei. Algo estava fora da ordem. Logo que cheguei num posto liguei para o Reginaldo na Free Willy, em São Paulo, afim de pegar um diagnóstico do patrocinador: "Tem compressão"? Tem; "algum barulho diferente?" Não! Conselho da casa: "Saca pra fora os giclês, limpa eles, troca a vela, e se prosseguir sem rendimento prossiga a viagem sem o filtro do carburador". Obedeci a todas as instruções. E sem testar o rendimento, fechei o carburador sem o filtro e sai em disparada. Pernas, para que te quero?  Passava das 17h e eu ainda estava em Porto Alegre, precisava apertar o passo pois teria 450 kms de pista até a próxima etapa: Florianópolis. De fato voltei aos 90km/h de outrora, disputando terreno com qualquer CG. Passei por Alvorada e na altura de Gravataí fiz uma parada para descansar o motorino. Tentei acessar a internet, mas fiquei no quase. Completei o tanque e enrolei o cabo até a cidade de Osório, por onde conheci a Laguna dos Barros e pude contemplar de longe os cataventos do Parque Eólico. Fiz nova parada em Três Cachoeiras (RS) à beira da BR 101 e finalmente cruzei a divisa RS x SC, sob o pôr-do-sol e uma agradável brisa das prévias do verão.



O motor mantinha um excelente desempenho, sobretudo quando escureceu e a temperatuda baixou. Com o restante da luz do sol e a 90km/h pude ainda contemplar a vista da Lagoa do Sombrio, e dali em diante tomei na escuridão um trecho bastante esburacado da pista. Os caminhoneiros que pegavam essa rota devia conhecê-la muito bem pois mesmo nos trechos mais estreitos e esburacados, eles passavam no grau feito rolo compressor. Eu temia não ser notado por eles na estrada, então pilotava com um olho do peixe e outro no gato, usando os piscas da Vespa para alertá-los das minhas manobras. Em Araranguá (SC) fiz uma parada mais longa. Funcionários e clientes de um posto de combustível rodearam a Internazionale (minha Vespa), animados com a peça e com o feito. Curioso é que todo mundo tem um parente que foi 'lambreteiro' e 'louco' ao mesmo tempo. Depois que o motor esfriou por completo segui na mesma tocada, carregando na mente toda a natureza de pensamentos sobre o ser humano, e no peito uma determinação sem igual. Minha viseira já estava completamente suja com tantos insetos atropelados pelo caminho. Em partes eu me guiava pelas lanternas dos caminhões e carros, prevendo a distância e o grau das próximas curvas. Depois de Capivari de Baixo, atravessei a Lagoa de Santo Antônio por uma extensa ponte, e tentava, de cima dela, captar qualquer imagem possível da paisagem. 

As luzes amarelas do poste sobre a ponte também proporcionavam uma sensação bastante rica do percurso, e somado ao cheiro acentuado do mar, uma nova carga de energia não me deixava parar. Sempre em frente! Na região de Imbituba completei o tanque e fiz outra longa pausa. Já era 23h, e o ritmo manso da estrada me animava a calma. Na cidade encontrei uma Lan House aberta, e foi de lá que atualizei o último post desse blog. Ao contrário do conselho das bondosas pessoas daquele lugar, decidi seguir adiante e completar a etapa dessa viagem até a capital catarinense. Enrolei o cabo na escuridão e quadrupliquei a atenção à frente, uma vez que não precisava mais me preocupar com o tráfego atrás. Pela madrugada (Batman) passei por Paulo Lopes e finalmente eu via o mar catarinense sob as luzes do começo de Palhoça. Paguei o pedágio e segui na febre, passando direto por São José, região metropolitana da capital, e de onde já se sentia o clima praiano. Finalmente, um pouco antes da entrada da ilha de Florianópolis encontrei um hotel barato e ali fiquei. Era 2 da manhã. Um sujeito no Hotel Cruzeiro me atendeu com toda a insatisfação do mundo, como se eu estivesse estorvando o seu sono em hora imprópria. A placa do hotel dizia em vermelho batom: Aberto 24 horas. Em vista de todas as condições que eu me encontrava, aquele sapo eu engoli. Paguei, subi as minhas coisas pro quarto 101, e desci para procurar algo para comer - conforme eu havia dito ao sujeito -  pois não me alimentava desde às 13h. Para meu desafeto o homem-sapo tinha ido dormir na beira do rio e me deixara trancado no hotel. Bebi muita água para enganar o estômago e fui pra cama com um sentimento de fúria no peito e na mente. Fúria porque é o dinheiro que manda nessas pessoas, e é somente por ele que elas correm, pulam e quacham.

UMA TARDE NA OFICINA MODERNISTA

No dia seguinte devorei o desjejum e passei a manhã atualizando os assuntos da viagem. Falei por email com o Marco Zonta, um vêneto da Itália, membro do Vespa Club Montegrappa, que desde 2004 vive em Florianópolis. Faz um ano que trocamos correspondências, e da última vez que fora para a Itália ele lembrou de mim e me trouxe alguns souvenires originais do Vespa Club Itália. Aqui em Florianópolis Marco vem montando com muito zelo a Oficina Modernista, um espaço scooterista à beira da Lagoa da Conceição. Um lugar fantástico que o faz lembrar da terra natal, porém com uma pulsante cultura Mod distribuída pela casa toda. Fui ao seu encontro retribuir a atenção que tivera comigo e com a Scooteria nos últimos meses. Marco procura uma Vespa para comprar e amigos do mesmo gosto para compartilhar. Avisei-lhe do Santa Catarina em Vespa e Lambretta, evento próximo, que lá encontrará seus vizinhos da classe.


Marco vem escrevendo um grande livro em que narra diversas aventuras que vivera nos últimos encontros europeus, e giros solitários em Vespa. Uma literatura fantástica no qual ele classifica diversos tipos scooteristas de lá. Classificou-me então como um Vespista Explorer. É isso aí! Conversamos sobre clubes, Vespas x Lambrettas, a moda em voga, paixão pelo estilo de vida errante, acessórios, imigração italiana etc. Desfrutei da Lagoa Conceição e da bela vista panorâmica da praia local, além da sua entusiasmada companhia. Para chegar na Oficina Modernista é preciso cruzar a lagoa num bote, ou a nado. Devo-lhe dizer que seria fantástico uma visita da classe à esse lugar. Só vendo para entender! Queria ter passado mais tempo aqui também, de onde escrevo, mas preciso concluir os 800kms restantes até São Paulo. Amanhã dia 21 de dezembro os amigos da SP e a Trackers farão uma festança de recepção, das 18h às 23h na Trackers Tower, um edifício antigo outrora desativado. 

Detalhe: scooterista e garupa é VIP, basta apresentar o documento da motoneta na porta. Rua Dom José de Barros, esquina com a Avenida São João, no Centro antigo, no Largo do Paysandú. O show fica por conta do Oskarface e do Beber's Operário. Portanto, lá estarei em ponto!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

ETAPA 8: Santa Vitória do Palmar - Porto Alegre (RS)

I'M GOING HOME. Acordei as 9h e abri a janela para ver o dia. Chovia fino e fazia frio. Estamos no sul do Rio Grande do Sul: minha inseparável Vespa e eu. Enquanto organizava os textos no meu computador, descansava as costas nos travesseiros. E vão me perguntar lá em São Paulo: "e como ficou suas costas nessa viagem"? Acho que vou responder: "quando eu pilotava, colocava ela na mochila". Há um fundo de verdade nisso. Nessa manhã assisti ao meu time, o Santos, tomar uma goleada do Barcelona na final do Mundial de Clubes. Infelizmente terei de esperar mais um ano, ou uns. Chovia, e eu tremia só de ver a água no vidro da janela. Lá pelas 11h30 saí para sacar dinheiro e almoçar. Precisava de um bom prato, e nada como estar no Rio Grande do Sul para isso. Comi muito bem, sobretudo as carnes. Quando voltei, tomei um banho e então passei duas horas a mais naquele hotel, o Hotel Turismo, aproveitando o tempo para atualizar notícias minhas na internet particular de um cordial atendente que me emprestou seu 3G (Pen Drive). Conferi os recados dos amigos e atualizei o Blog da Scooteria (este). Acho que passava das 13h30 quando ajeitei minhas coisas na Vespa, vesti a capa de chuva e parti. Ficou para trás aquele simplório pedaço de Brasil.


A cada posto eu me informava sobre a distância até o seguinte. As pessoas me alertavam: "gasolina não vai ser o seu problema, o problema são os bichos pela estrada". Fato! Na noite anterior por pouco não atropelei um gambá na pista. O aviso dos frentistas nesse momento me serviu de alerta. Dobrei a atenção no asfalto e no mato a beira dele. É preciso dizer também que essa é a BR471, e ela atravessava um campado todo verde, um ecossistema único. Há muita vida ali! Aquilo era o meu vislumbre, e a minha preocupação. Um olho na pista e outro no mato. Pelas nuvens grossas eu sabia que tomaria mais chuva. As 15h30 passei por uma ligeira nuvem garoante, suave. Ao longe avistava o azul do fundo do céu. Fazia uma hora e meia que estava na estrada, a BR471, então adentrava o início da zona de perigo e encantamento: a Estação Ecológica Taim. De imediato avistei dois enormes cães de guarda à beira da pista, em frente a uma casa sem portão. Deviam proteger a propriedade dos outros animais. Os cães se levantaram olhando firmemente para mim, e isso não me cheirava bem. Acho que o barulho de um motor 2 Tempos incomoda ou agride os ouvidos dos cães, porque me passou um filme na cabeça de quantos cachorros já correram atrás de mim na rua. Só que ali meu coração saía pela boca! Conforme ia me aproximando eles se mexiam, até que um deles parou no meio da estrada. Acelerei no meu limite, os parcos 90km/h que me restavam, e tomei a contra-mão, pois a minha pista já estava "bloqueada". Esses dois eram quietos, não latiam, eram inteligentes, e pareciam trabalhar em dupla. E estavam ali para protegerem a casa grande de toda espécie de animal silvestre. Então um deles veio, como um enorme Puma na hora da janta. Vi os dentes daquele cão brilhar embaixo de mim. Dentes bem melhores do que os meus. Por pouco não tomei uma mordida na bota.


Passado o susto, veio a fauna toda: capivaras, cobras, aves, guaxinins, 'sohos', cisnes (?), gambás, tatus, jacarés (do papo amarelo) e um felino em extinção que não sei o nome mas gostaria de saber. Pelos pampas via cavalos e bois bem tratados. Também o arrozal tomando todo o banhado. Bem que o Joaquin da Fonseca (RVA) escrevera: “você está na região do arroz”. Lá pela metade do caminho avistei uma ninhada correndo pelo asfalto, do que parecia ser filhotes de capivara, mas que mais tarde descobri se tratar de um bicho nativo apelidado de Ratão do Banhado. Eram muitos, uns 15 ou mais. Baixei as marchas e toquei a bozina para dispersá-los. Sempre em frente! Olhos vidrados no asfalto e na vegetação na beira-pista. A qualquer momento poderia ser surpreendido por algum bicho distraído ou apressado. Ou até mesmo por algum que me elegesse o prato do dia: carne scooterista. Ok, não era pra tanto, mas devo dizer que apesar da cautela indispensável naquele trecho, a cena nativa é fantástica, e quase toda a extensão da pista é margeada por belos corixos azuis, levando água e vida por quilômetros a fio.

Rodei 180 kms naquela tarde. Era quase 18h quando cheguei no município de Rio Grande. Os casebres de madeira e muro baixo me encantavam. Completei o tanque e liguei para o Sérgio, scooterista e restaurador de Porto Alegre, aonde me aguardava. Disse-lhe que estava atrasado e que não se preocupasse comigo, pois não queria confundir os seus horários rotineiros. Sergio fora bastante solícito, e se dispôs a me ajudar a qualquer hora. Marcamos para o dia seguinte (segunda-feira) um café ou almoço, e assim prossegui viagem.

Enrolei o cabo e disputando espaço entre caminhões e ônibus de turismo fui avançando sob o pôr-do-sol. Por diversas vezes fiquei prensado entre eles naquela estreita pista dupla. Uma dica? Não façam o que digo, muito menos o que faço. Em meia hora eu já estava em Pelotas. Adiante, no município de Turuçu completei novamente o tanque. E entrava na BR 116, uma rodovia sem fim... As mariposas, e todo o tipo de inseto voador saía pra jantar, dominando a estrada, mutos deles estourando na viseira do meu capacete, no escudo da Vespa e no meu peito. Alguns eram tão grandes quanto uma bola de gude.

Segui cortando São Lourenço do Sul aos 85km/h. Abasteci em  Camaquã pela última vez e tomei informações sobre Porto Alegre com um senhor bastante gentil que me explicaria tudo sobre o lado noturno da rodovia. Com atenção redobrada no breu da BR-116 completei meus últimos 80 kms de viagem até as luzes Guaíba numa pista de mão dupla com movimento bem mais intenso agora que chegava na capital gaúcha. A vegetação invadia o acostamento da pista e as árvores formavam túneis pelo caminho.

Depois das pontes da Baía de Guaíba finalmente, à meia-noite, eu chegava na iluminada e urgente capital gaúcha. Parei em dois hotéis nas proximidades da rodoviária e fui mal-atendido em ambos: aquele momento em que você tem a certeza que está incomodando o atendente só pelo fato de pisar ali. Continuei na busca por um leito qualquer ali no miolo do cotidiano obscuro da madrugada. Rodei por 15 minutos pelo centrão. Na Avenida Farroupilha encontrei um lugar bastante simpático: Hotel Caju. A atendente era gentil e espirituosa e me escolheu um quarto bastante simples e silencioso. O hotel parecia vazio, ou as pessoas deviam estar todas dormindo. A internet não funcionou naquela noite, depois descobri que só acessava do refeitório. Dormi as 2h30.


MEU ENCONTRO COM O VESBRETTA

Na segunda pela manhã a atendente veio me dizer que o Sergio havia me ligado na recepção. Retornei a ligação e sua filha me passara os telefones do Carlão e do Felipe. O Carlão estava na estrada, vindo de Santa Maria de carro ao meu encontro. Estava a 300 kms de Porto Alegre mas já anunciando um churrasco daqueles. Disse-lhe então que infelizmente eu teria que seguir viagem nas horas seguintes e não poderia esperá-lo, pois necessitava cumprir meu prazo de chegada em São Paulo: quarta-feira dia 21 de dezembro. Falei com o TK Felipe, que estava com o Sergio no carro. Ambos estavam na labuta do começo da semana mas vieram ao meu encontro na Avenida Farroupilha. Passamos quase duas horas por lá. Conversamos sobre o saudoso Curitiba em Vespa, sobre as interpretações do meu diário de bordo, e sobre postura.



Esses caras todos são membros do Motoneta Amigos Vesbretta, uma turma que, desde 2007, coleciona histórias das rodovias do sul. São uma dúzia de amigos, livres, e que se entendem e decidem os passos conforme a ciência de cada um sobre o assunto. Felipe conhece bem as estradas do sul, e me deixou a par da rota que logo mais eu tomaria rumo à Florianópolis. O Sérgio, sujeito quilometrado, desde que começou a ter problemas com sua Vespa, aprendeu a fuçar no motor, e com o passar dos anos a curiosidade virou profissão. Hoje ele tem uma oficina em sua casa, que leva o nome de Ophicina das Clássicas. O Carlão pelo fone me avisou: “Fidelis, eles vão te dar um tanque de combustível e um pote de óleo”. De fato antes de partir eles me deram o suficiente pra gasolina, óleo e também para o pedágio até o fim do Estado. A frase do dia: “esse dinheiro é pra você, a gente quer ter certeza de que você vai consegui sair do Rio Grande”. Devo-lhes dizer que o grupo Vesbretta foi bastante solícito comigo desde que souberam da minha viagem. Que não me interpretem mal, mas infelizmente minha conversa com eles foi bastante curta, porém suficiente para depositar-lhes minha estima. Até hoje não fazem questão alguma de destacarem um presidente para o grupo; e adaptando a máxima do TK: “Quem é rei se faz majestade”.

domingo, 18 de dezembro de 2011

ETAPA 7: Montevidéu (UR) - Santa Vitória do Palmar (BR)

Bringing It All Back Home. Saí de Montevidéu as 15h, depois do almoço oferecido pelo casal Dinamita em sua casa-pub. Com o mar na minha direita trazendo o vento do Atlântico, rumei para o norte debaixo de chuva, o que foi uma grande lástima, pois queria desfrutar das praias. Para meu deleite, eu contava várias Bajaj's e Vespas PX200 pelo caminho. O impressionante é que os proprietários não expressavam nenhuma admiração ao ver outra scooter clássica. Era muito comum encontrá-las por lá. Como dizemos no Brasil, era "carne de vaca".

Meu dinheiro chegava ao fim. Eu tinha 600 Pesos Uruguayos (o equivalente a 50 Reais talvez). O lado bom é que no Uruguai moto não paga pedágio. Hora despencava as águas do céu, hora batia o vendaval do mar. Firme como um touro a minha Vespa assentou o Rinaldi no chão e foi em frente. Na cidade de Atlântida completei o tanque, e foi-se ali 200 Pesos cravados. A estrada era boa: pista dupla e de movimento baixo. Foram 150 kms até chegar em Punta Del Este, e pra ser sincero não me lembro de caminhões pelo caminho. A cidade é um projeto turístico moderno preparado para receber pessoas do mundo todo. Enquanto eu procurava uma cafeteria ou um bar com Wi-fi notei que alguns uruguaios ali falavam o português e o inglês. Por 60 Pesos pude tomar um café pequeno e acessar a rede local (com vista para os iates e barcos na orla). Passado uma hora dei a partida e segui pela estreita Ruta 39, a Interbalneárea, até entrar na Ruta 9. Era quase 19h e o sol não havia dado as caras mesmo. Passei pela cidadela de San Carlos, aonde abasteci (200 Pesos) e confirmei informações sobre a rota. O vento nesse momento batia por todos os lados, a sensação era de naufrágio iminente.


A última parada para gasolina foi na cidade de Rocha. Pouco me restava dali pra frente, eu tinha cinco litros no tanque e 70 Pesos no bolso, o equivalente a 5 Reais. Restavam 140 kms até o Chuí. Então baixei o ritmo para 75km/h e no breu da noite a beleza dos caminhos ficou por conta dos vagalumes. Na escuridão fiz uma parada para ouvir o mar ao longe e esfriar o motor. Foi meio hippie isso. As placas anunciavam o Brasil cada vez mais perto, e foi aí que a Vespa entrou na reserva. Apreensivo, baixei o ritmo para os 60km/h, afim de economizar os últimos 2 litros. Fui informado que havia um posto no caminho, mas já passava das 23h e nada garantia que estaria aberto. E finalmente, depois de mais um dia de solidão e alto giro eu chegava na fronteira. Parei minha Vespa e atravessei a pista com os documentos em mãos. Adeus Uruguai, até o ano que vem! Adiante, na fronteira saquei uma foto que naquele momento me divertia: minha Vespa pisando em dois países ao mesmo tempo.


BRASIL

E finalmente eu estava no Brasil, com o tanque e o estômago na reserva. No pequenino município brasileiro encontrei um posto aberto. Queimei ali meus últimos Pesos Uruguayos e assim a Vespa saiu da seca. Primeiro ela, depois eu. Procurei por um Caixa Eletrônico e um hotel que aceitasse o pagamento em cartão de débito. Ambos aceitavam, porém com cartão uruguaio ou internacional. Chuí, apesar de ser um município brasileiro, a economia da cidade gira mesmo em torno dos dólares e Pesos Uruguaios. A recomendação então foi seguir 25kms adiante, para a pequena cidade de Santa Vitória do Palmar. No caminho tomei um susto de gelar a espinha. Um gambá cruzou a pista na minha frente, e era dos grandes. Num golpe de reflexo acelerei e inclinei minha Vespa em direção ao acostamento, e por muito pouco escapei do golpe. Certamente iria ao chão. Era um sinal: fosse o que fosse eu deveria parar. Em Santa Vitória do Palmar encostei no Hotel Turismo e a atendente me deixou à par de tudo: “será difícil encontrar nessa cidade um estabelecimento que aceite o pagamento em cartão, ainda mais nesse horário”, disse. Mas me indicou um Caixa Eletrônico que deveria estar aberto. Saí em disparada e ao chegar vi as luzes semi-acesas. Ali na rua escura desliguei o motor e entrei. Para o meu desespero os caixas estavam desligados, e o alarme do banco disparou. E agora? Tentei sair, mas a porta havia sido travada comigo dentro. Só me faltava essa, chegar ao Brasil e ser suspeito de uma tentativa de roubo à banco... kkkkk. Insisti apertando simultaneamente o botão da porta, foi um minuto de aflição até que ela destravou. Saí de lá atordoado. Should I Stay or Should I GoLiguei a Vespa e voltei pro Hotel, aonde contei do acontecido e combinei que pagaria a pernoite na manhã seguinte. Subi as bagagens e com muita fome segui à procura de qualquer bar, padaria ou bodega que aceitasse pagamento em cartão. Depois de entrar e sair de uma dúzia de estabelecimentos uma moça me indicou uma vendinha 24 horas que aceitava o meu cartão de débito. A fome era de matar e aquela seria a minha última chance de comer alguma coisa paga com o meu dinheiro. A vendinha ficava numa rua barrenta, no fim do perímetro urbano, próximo dos estábulos, e atendia com portas fechadas. Mas atendia de madrugada. Comprei o que encontrei de mais nutritivo: Iogurte e biscoitos. Voltei ao hotel, pendurei as roupas úmidas, comi e dormi muito bem. Me acalmava esse ar brasileiro.

sábado, 17 de dezembro de 2011

ETAPA 6: Da Argentina ao Uruguay

Nesse momento estou em Punta del Este (na costa uruguaia), é final de tarde e escrevo ligeiro para retomar logo a minha rota, pois vem mais chuva. Estou sem dinheiro, creio que tudo o que eu tenho são o equivalente a 30 reais. Hoje devo entrar no Brasil a noite, aí eu me viro. Aqui ainda não. Faltam 200 kms. Mas voltando ao diário de bordo, em Montevidéo foi assim.


ADIOS AMIGOS - Buenos Aires, quinta-feira, dia 15 de dezembro de 2011: não era um dia peronista. Minhas últimas horas em solo hermano foram mesmo tristes, fui feliz e estava sabendo. Representei, com a minha placa cinza, a nossa SP nesse grande encontro sul-americano. Havia conhecido muita gente legal, pessoas que eram perfis da internet, personagens do universo old scooter sul-americano, e os que fazem acontecer. Mas "o sonho acabou". Passei o fim de tarde encanado e sozinho. Não queria deixar a Argentina! Fiquei doze horas ali pelo Puerto Madero esperando o Buquebus, o barco de transporte. 
Nesse meio tempo visitei uma oficina de navios, a Casa Rosada, o prédio da Secretaria de Comunicaciones, e o trânsito da grande cidade. Há um lado esquecido dessa turismo todo. Ao leste do porto há um contraste no micro-espaço: nos antigos quarteirões espaçados, históricos, talvez tombados, dormiam os caminhoneiros dessa América do Sul. Atrás deles se escondia um legítimo bairro da Belle Epoqué portenha. 
E o sol se pôs. Aí lembrei das lâmpadas queimadas. Fiz o serviço e tomei o Buquebus para Colonia del Sacramento, uma encantadora cidade histórica uruguaia.

COLONIA DEL SACRAMENTO

O barco era maravilhoso, dividido em vários ambientes: um mini-navio. Havia um modesto luxo ali, e um glamour notável nas pessoas que andavam entre a sala de jogos e os caça-níqueis. E Notei que fui notado! Ali um grupo de motociclistas argentinos viera puxar um papo comigo. Legal. Aí bateu o sono, naquelas poltronas macias e cheirosas não tinha como, e olhando para o último fio da luz da lua no Rio de La Plata, dormi.

4h da manhã e eu pisava no Uruguay. Minha intenção era visitar o Osmir, vespista que conheci no evento, mas a cidade de Tarariras era muito fora de rota pra mim. (Fica para uma próxima). Abasteci, tomei um café expresso e segui ligeiro na Ruta 1, rodovia que me levaria direto para Montevidéu. Pista livre noite afora. Poucos carros e raros caminhões vi pelo caminho. Todavia chovia forte, e ventava demais. Nela mantive os 75km/h ou menos. Sentia o cheiro da água salgada escorrendo dentro da viseira do meu casco, como se a chuva fosse a ressaca das ondas que voavam por sobre a terra ao redor da estrada. (Eita!!). 
A tempestade não deixava o dia amanhecer. Alguma luz atrás das nuvens ameaçava dar bom dia. Que nada! Luz mesmo foi a Bajaj Classic que encontrei na estrada, vermelha, na garagem da Patrulla de Caminos (a polícia rodoviária). Mais tarde eu veria várias delas pela capital federal. Aliás, é impressionante a quantidade de Bajaj's e Vespas PX circulando no Uruguai. Há inclusive alguns postos de combustível que oferece, na bomba, a gasolina misturada com o óleo 2 Tempos. Definitivamente, um país scooterista!

MONTEVIDÉU

Foram 180 quilômetros até a capital. Cheguei as 8h da manhã. A cidade de Montevidéu é quase toda à moda antiga. Do porto até o centro é notável o senso de civismo e organização desse povo. Peguei ruas limpas e silenciosas, vi elegância nas pessoas, me senti meio na Europa, até porque Vespas e Bajaj's estavam pelas ruas. Sem falar nos carros clássicos: Ford Falcon, Renault 4, Fiat 600, Impala e mais um monte de relíquias rodando. O charme da cidade é preservado, o capitalismo não parece corroer a mente das pessoas tanto quanto no Brasil. Falo pelo consumismo, pela exposição comercial. A arquitetura clássica (ou neo-clássica) é predominante, junto a elementos da Arte Déco, ou Nouveau nos edifícios. As ruas são espaçadas e o motorista médio não tem pressa. A vida acontece, é uma música.

Pelo centro antigo entrei e saí de uma dúzia de hotéis até encontrar um em conta. Achei o Hotel Uruguay, com preço, wi-fi, estacionamento, café e história: o prédio tinha 120 anos. E junto aos fantasmas, meu quarto era o 13. Estendi as roupas molhadas da bagagem, tomei um banho e capotei. Acordei as 14h e sob o céu nublado sai à procura de um "prato feito". Comi bem! Aí estava andando pelas ruas com minha peita do Juventus, Doc no pé e o velho cap quando um jovem me abordou: "hey skinhead", disse. Seu nome era Pablo, era skinhead tradicional, scooterista clássico e cervejeiro dos bons. (Vale contar aos desinformados que um Skinhead Trad é anti-racismo e a-político, preservando o Espírito de 69, quando negros e brancos dançavam juntos o som do Rocksteady nos subúrbios londrinos). Quando Pablo viu minha Vespa ouvi de bate e pronto: "no creo, las colores de San Pablo". Depois dessa definitivamente eu estava em casa. Marcamos umas cervejas pra noite.

LOS AVISPETTAS SCOOTER CLUB

SCOOTER BOY SCOOTER GIRL - Cheguei 21h e ele me aguardava com sua esposa Marina, seu filho León, e o amigo Federico na estica inglesa: DM's., B.Shermann, Harrington, Levi's e cabeça brilhando na zero. Essas pessoas organizam atividades culturais na cidade e são os principais DJ's de ska e rocksteady music do país, e apresentam o seu acervo com a alcunha de Dinamita Soundsystem. Também confeccionam camisetas, stencils e bottons do estilo. E para não dizer que não falei das flores, ali estavam as máquinas do tempo: Federico com sua Vespa 150 (1962), Marina com sua Lambretta DL (De Luxe, 1969) e Pablo com uma Vespa Sprint (1975), além de uma raríssima Vespa 90 (1963) com motor travado no mezanino da sala.


Nessa noite falamos de música, futebol e old scooters, e tomamos um porre de Zillertal. Sabiam muito do rock paulista: Ira, Garotos Podres, Cólera, Olho Seco etc. Pablo me explicou que nada nesse nível existiu no Uruguay nos anos 80. Inacreditável foi quando ele sacou de uma de suas caixas de discos o clássico "Vivendo e Não Aprendendo", do Ira! Sabiam as letras, lamentavam o fim da banda. Além do Soundsystem aquela turma tinha uma banda de early reggae chamada Los Dinamos - tenho comigo algumas gravações, é só me pedirem. Já o scooter clube Los Avispettas seria mais uma coisa de amigos, até porque a maioria das motos estão quebradas. Não ligam para clubes maiores. Pablo os considera "elitistas". Marina e ele se conheceram no rolê roqueiro, ela era Anarco-Punk, ele um Skin Trad. Discutiam ideologias e não se bicavam, daí veio a paixão e também as motonetas. Marina me contou também que seu pai foi um dos fundadores do primeiro Vespa Club uruguaio, lá no final dos anos 50. O papo rendeu. Pela madrugada chegou mais dois amigos deles, tímidos ou contidos, porém não menos cervejeiros. Saí de lá era quase 3h da manhã, feliz por esse rico e inesperado encontro com pessoas que economizam apresentações.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Meus Dias Peronistas

Adios Amigos. Venho à essa para dizer-lhes que o Dia Del Scooter Clasico foi para mim, para o Fabio Much, o maior encontro de nossas vidas. Desde que o Fabio Much chegou, até a sua partida, o grupo ofereceu um suporte sem igual ao nosso representante paulista. Sem mesmo arranhar um portunhol ele se sentia em casa. O mesmo se passou comigo.


Para chegar até aqui vivi seis dias e meio de alto giro e superação em Vespa. Foram 2700 kms rodados, e que valeram cada litro de nafta queimado. Na primeira etapa da viagem meu aparelho celular quebrou, e como um centauro solitário eu começaria a saga "In Vespa Fidelis". No segundo dia tudo parecia perdido: minha Vespa estava quebrada à beira do caminho no Paraná. Foram 48 horas de preocupação e insegurança. Devo muito ao empenho da Naza Moto Peças (PR), com o suporte à distância da Free Willy Moto Peças (SP). (Imagine um mecânico que nunca viu uma Vespa na sua frente e que por compaixão tentaria abrir e fechar um motor de 150cc para uma viagem internacional). E assim foi! Ela voltou à vida: a minha outra metade Vespa. Com dois dias de atraso saí em disparada rumo ao sul brasileiro, deitando o cabelo a cada curva, impondo o meu espaço na pista sobre os caminhões e carros que antes haviam passado por mim. Conheci pelo caminho o homem que muito inspirou essa viagem: José Ferreira da Silva, o gaúcho que dera a volta ao mundo de Lambretta em 1968/69, e que agora vive em Lages (SC). Foi um encontro de emocionar! Uma grande pessoa chê! Em ritmo de aventura cheguei às 23h30 de quinta-feira na cidade de Santa Maria (RS), depois de percorrer 700 kms. Ali me encontrei com os Herdeiros do Passado, gente humilde e muito afetuosa, e que me recebera com a gangue em peso: scooteristas, familiares, bichos e motonetas. Uma querida família que vive em 2 Tempos! No dia seguinte finalmente eu sairia do Brasil, pelo Uruguai, depois de conseguir uma carta-verde (um seguro para trânsito de veículos no mercosul) aos 45 minutos do segundo tempo. No norte do Uruguai enfrentei o chão mais  tortuoso da minha vida: a Ruta 26. Com gasolina estocada cruzei os 230 kms da Route 66 sob um intenso sol e sobre as pedras do caminho que me levaria até a fronteira da Argentina. Na reta Panamericana deitei o cabelo e fui, e embaixo da lua mais cheia que já vi brilhar no céu eu entrava em Buenos Aires, dali direto para o salão de festas da RVA.


Ao pisar no salão, com a bagagem toda nos braços fui aplaudido de pé por 150 scooteristas sul-americanos. Muitos foram às lágrimas ao me ver. Don't cry for me Argentina. Jamais me esquecerei dessas pessoas. Finalmente eu chegava para o Dia Del Scooter Clasico, a maior celebração do scooterista popular. Trazia comigo a alma de toda a Scooteria Paulista com outras dezenas de scooteristas brasileiros, amigos patrícios que apoiaram e confiaram nesse projeto desbravador, projeto esse que abriu a mata virgem para o futuro da classe. Durante o DSC#3 tive o prazer de conhecer vários membros de clubes guerreiros de cinco países (Argentina, Chile, Uruguai, Brasil e Paraguai), e cito-os conforme a lembrança: Vespa Club Córdoba, Mar Del Plata Family, La Brigada Scooter Gang, Vespa Club Chile, Las Vesponas, Vespa Club Goya, Los Antiguos Vespa Club Uruguay, Confraria Vespa Motor Club, Vespa Club Argentina, Vespa Club Paraguay, e a irmã ideógica Red de Vespistas Argentinos.



Depois do Dia Del Scooter Clásico tirei três dias de folga no Club Sitas, e entre as caminhadas e escritos conheci melhor as atividades dos amigos da RVA. Na segunda-feira tirei a tarde para finalmente lavar minha motoneta. A noite gravamos a segunda edição do programa experimental da Rádio RVA: Fernando Dias, Pascual e eu de convidado. Na sequência Pascual me levou à sua casa, aonde comi uma bela pizza na companhia de sua família e suas motonetas. Na terça-feira passamos uma tarde de turistas, Pascual, Diego Perez e eu. Almoçamos em San Telmo, caminhamos pela Boca e pelo centro da cidade. Na quarta-feira a noite Joaquin da Fonseca me levou à casa do scooterista Mauro, aonde aconteceu uma confraternização com diversos membros da RVA, incluindo o Roy/Melina, Pascual, Daniela etc...

O Diego Perez (RVA) me explicou que toda vez que Perón firmava um ato político na Argentina fazia sol. Daí vem a expressão popular: "hoje é um dia peronista". Vivi portanto quatro dias peronistas. Ironia do destino, na quinta-feira da minha partida, choveu. Nesse momento vejo as luzes da Argentina sumirem na janela do Buquebus. À minha frente está o Uruguai, e o começo de outra saga: a volta para casa. Que Deus me acompanhe enquanto guarda os nossos hermanos. Aqui fiz amigos tão verdadeiros e entusiasmados quanto somos na nossa terra, e por isso agora, sobre o Rio Uruguai, sou eu quem choro.



Marcio Fidelis
scooteriapaulista@gmail.com

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

DIA DEL SCOOTER CLASICO #3 (Buenos Aires)

Sunday Morning. O maior encontro de scooters clássicas da América do Sul reuniu no domingo de 11 de Dezembro cerca de 200 motonetas em seu total. A Scooteria Paulista - representada por Fabio Much e Marcio Fidelis - foi recebida com muita cordialidade pelos grupos sul-americanos, sobretudo pelos organizadores, a RVA (Red de Vespistas Argentinos).





A maioria dos scooteristas de outras cidades e países ficaram, ficamos, hospedados no alojamento da Gendarmeria (a unidade do exército local) do pequeno município de Morón - região metropolitana de Buenos Aires. O local é um dos serviços/atividades que fazem parte do grande Clube Sitas, a Sociedad Italiana de Tiro a Blanco (Tiro ao Alvo). Isso até que proporcionou um caráter militar ao evento. Scooterismo como guerrilha?! Só os fortes sobrevivem... o que dirá os nossos veteranos...rs. Quartos com bicamas emparelhadas, banheiro coletivo, banho coletivo, refeições em espaços públicos, horários da RVA obedecidos com precisão etc. Aos poucos todos acordavam e corriam para garantir a sua privada. Era 9h e ao atravessar o campado com o Fabio Much à caminho dos chuveiros encontramos uma turma bebendo um mate quente e proseando. Hábitos de um povo fraterno. Também conheci outro brasileiro, o gremista Renato, e a sua esposa, que vieram de Porto Alegre (RS) numa PX200 para um encontro em Quilmes (ARG) e aproveitaram a data para prestigiarem esse evento na capital. Nada como ver a bandeira do Brasil por aqui. O nosso amigo Fabio Much pilotava uma Originale 150 emprestada pelo amigo português Joaquin da Fonseca - diretor da RVA e um dos pontas de lança do evento. Fabio chegara na sexta a noite, e aproveitara todos os atos de aquecimento do evento. Foi muito bem acolhido e até hoje, quarta-feira, ainda falam muito dele por aqui. Que possamos um dia retribuir à altura todo esse carinho dispensado por essa grande família scooterista sul-americana. Família que agora é nossa também. Quatro países numa praça. Uma festa popular criada na Argentina e que se chama Dia Del Scooter Clasico.



San Corradino
Reuniram-se no Parque Irigoyen (bairro de San Martin, Buenos Aires) cerca de 150 motonetas ou mais. Outras se agregariam ao grande grupo durante o passeio. Somavam-se argentinos, uruguaios, chilenos, brasileiros e paraguaios. A maioria saíra de casa pilotando até o encontro. Uma parte trouxeram-nas rebocadas e colocaram-nas para rodar na bela capital federal. Alguns emprestaram de amigos, e houve os que tomaram um avião/ônibus e pularam em alguma garupa para não perderem a boquinha. Conversei com muitos entusiastas da classe. Trocamos souvenires e vendi uma quantidade considerável de cartões-postais da viagem "In Vespa Fidelis". Me tocou o coração quando um scooterista pediu-me para tirar uma foto com seu filho. O mesmo ocorreu com os marmanjos e garotas. Scooteristas bem-resolvidos que faziam questão de demonstrar o afeto e o valor que a minha aventura proporcionara para a imaginação deles.


Parque Irigoyen (Buenos Aires)

Rumi Formichino 125 (1959)
Motonetas de diversos modelos faziam frente ali. Em meio à correria toda pude notar os seguintes modelos presentes: Lambrettas Standard D, Siambrettas LD, Siambretta AV 175, Lambrettas LI, Lambrettas GP, Siambrettas TV (Série 2), Vespas GS 150, Vespas VB1, Vespas PX150, Vespas Super 150, Vespa Excel 150, Vespas Super Sprint, Vespas PX 150, Vespas PX 200, Vespas Primavera 150, Vespas GTS 250, Vespas T5 150, Vespas Originale 150, Vespas P200E, scooter Bajaj Classic 150, a nova Star 4 da LML e a encantadora relíquia Rumi Formichino, uma "pintura de Salvador Dali". Cenas de tirar o casco. Cada motoneta mais bela e expressiva do que a outra. Clássicos para todos os gostos: original, recortada, adesivada, hot rod, rat rod, inglesa, suja, polida, acidentada, recriada etc... Destaque também para o pequeno comércio temático. Pessoas que trouxeram livros, camisetas, souvenires e utilidades das marcas Vespa e Lambretta. A loja virtual Vespa Bags também estava lá, com mochilas, bolsas e objetos decorativos da marca, além de outros souvenires.

TROFÉU DSC #3

A exposição das scooters na praça chegaria ao seu apogeu ao meio-dia com a entrega dos troféus aos destaques das categorias mais expressivas para a RVA. E os premiados desse ano foram (com informações que tenho em mãos até o momento):

Fidelis (SP): "Scooterista Más Lejano"
SCOOTER DE OTRA MARCA <--
Rumi Formichino 125 ano 1959

SCOOTER DEL DSC#3 <--
Diego Gomez, Siambretta AV175

GRUPO MÁS NUMEROSO <--
Los Antiguos Vespa Club Uruguay (com 21 membros)

MEJOR LAMBRETTA CLASICA <--
Lambretta 150 ano 1967

MEJOS VESPA CLASICA <--
Vespa GS 150 ano 1961

SCOOTER MAS DETERIORADO <--
Siambretta AV 175, do Sum


SCOOTERISTA MÁS LEJANO <--
Marcio Fidelis, da Scooteria Paulista, São Paulo, Brasil - Vespa Originale 150, 2700kms SP-BA)


MEJOR LAMBRETTA/SIAMBRETTA CUSTOM: <--
Eduardo, de Caseros, Argentina (com o seu Triciclo Siambretta 125 ano 1962)



MEJOR VESPA CUSTOM <--
Cristian Fiorentino, de Quilmes (com Vespa Originale 150)


Os premiados do DSC#3

O PASSEIO DSC #3

Fabio Much no DSC#3
Por volta das 13h todos ligamos os motorinos, e num gigantesco comboio tomamos de assalto as avenidas de Buenos Aires. Uma imensa alegria, uma procissão religiosa, uma revolução sindical. Eventos dessa natureza faz cair por terra as velhas relações de poder e competição na classe. Era hora! Passamos por monumentos históricos da cidade. Exímios pilotos que durante esse trajeto de 15 kms demonstraram segurança e intimidade com a sua máquina: sem incidentes, e sem baixas. Todos os motores funcionaram do começo ao fim. Alguns se perderam do comboio - eu fui um deles -, mas com um pouco de senso de direção não foi difícil encontrar o ponto por onde passariam. A equipe RVA se dividia pelas ruas, bloqueando esquinas e abrindo faróis fechados para que o comboio evitasse paradas e dispersões. São 9 anos de idade, paixão e união por uma causa nobre.







Todos saíram, todos chegaram! Os garupas se contorciam para conseguir a melhor foto. Os pilotos se dividiam entre olhar para a pista e para as motos. Os motoristas que passavam por pouco não batiam. Os pedestres se desesperavam. Crianças se perdiam dos seus pais em meio ao caos. Homens de negócio se jogavam das sacadas dos edifícios de luxo, arrependidos por terem um dia vendido a sua motoneta. Uma nuvem de fumaça na terra se instalou, e o cheiro de 2T parecia anunciar o fim do mundo. O Obelisco de Buenos Aires foi ao chão, a Casa Rosada ficou preta, atrás de nós uma fenda no chão se abria, e os barcos fugiram às pressas quando chegamos no porto. Finalmente, quando desligamos os motores, o mundo ainda estava lá, e os anjos que voavam na fumaça anunciariam os próximos mil anos de reinado da Piaggio sobre a Terra. 


Marcio Fidelis,
de Buenos Aires, Argentina, em 15 de dezembro de 2011.
Fotos: Melina Petta, Jorge Pedroli, Rodrigo Reyes, Marcio Fidelis e Solle Rodriguez.