sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

VII ENCONTRO NACIONAL DE LAMBRETTAS, VESPAS E MOTONETAS CLÁSSICAS - CURITIBA

Na próxima semana Curitiba será palco do movimento mais divertido do carnaval brasileiro. Trata-se da sétima edição do itinerante encontro nacional da categoria dois-tempista mais rodante do país, promovida agora pelo Vesparaná Club. Se informe abaixo do roteiro, dos telefones, da viagem, do comboio, das necessidades, e vamos com a gente porque dá tempo.


DA VIAGEM DE IDA:
A Scooteria Paulista e o Motonetas Clássicas Campinas puxaremos um grande comboio colaborativo aberto à toda a categoria, clubes e amigos. A grande concentração disso acontecerá na Praça Central do pequeno município de SÃO MIGUEL DO ARCANJO.

Como nós da SP chegaremos lá em São Miguel?

SEXTA-FEIRA
As 20h um pequeno comboio sairá de São Paulo para uma viagem noturna até a cidade. E lá se hospedará no hotel/pousada mais em conta e mais próximo do Centro.

SÁBADO
As 5h30 faremos uma concentração do Posto Shell ao lado do Carrefour da Ponte Júlio de Mesquita Neto, na Marginal Tietê (CLIQUE AQUI). Sairemos as 6h em ponto, então se você se atrasar vá direto para a Castelo Branco, envie uma mensagem para mim e acelere (Fidelis: 95497-8344). 

As 10h haverá uma grande concentração no centro de SÃO MIGUEL DO ARCANJO, de onde seguiremos em comboio aberto pelo Rastro da Serpente até Curitiba. 

(O comboio oficial da volta será na terça-feira as 7h também, pela Regis Bittencourt.)

*Levaremos peças de reposição e um carro rebocador para a viagem de ida. Ainda assim, faça uma revisão na sua motoneta, verifique as condições dos pneus, da elétrica, do motor, e os documentos. 
*Uma equipe de filmagem da Abacateiro Produções estará conosco captando imagens para um longa-metragem sobre a cena old scooter contemporânea, a ser lançado em 2018. Falaremos disso nos próximos dias.
*SOMENTE MOTONETAS CLÁSSICAS DE MOTOR 2T E CÂMBIO MANUAL. 

PROGRAMAÇÃO DO EVENTO EM CURITIBA

Sábado: Em 06/Fev/2016
• Recebimento dos viajantes à partir das 10:00hs
Chacará Sapolandia – Rua Desembargador Antonio de Paula, 3693, Bairro Xaxim.
• Cadastramento e inscrição dos participantes. 
(A taxa de incrição é de 5,00 reais / camping é 10,00 reais o dia (livrando a taxa de incrição).
(Kit opcional por 60,00 Reais, com camiseta, flâmula, mochilinha, cartaz, adesivo, chaveiro e certificado).
• Almoço no local.

Jantar de confraternização – com participação dos clubes, e reunião preparatória dos passeios.
Jantar na própria SAPOLÂNDIA, disponibilidade de lanches e porções.

Passeio Noturno : opcional ao centro histórico de Curitiba.
Domingo dia 7/Fev/2016 pela manhã:
• Saída da Chácara Sapolância (Boqueirão) / Hotel Express (Centro) às 9h30min
• Jardim Botânico – chegada às 10h30min, saída às 11h30min
• Chácara Sapolândia – chegada 12h30min

o Almoço de confraternização tradicional no local.

Domingo:
• Saída da Chácara Sapolância (Boqueirão) às 14h
• Museu Oscar Niemeyer – chegada 15h, saída 16h
• Ópera de Arame – chegada 16h30min, saída 17h
• Parque Tanguá – chegada 17h30min, saída 18h30min
• Universidade do Meio Ambiente – chegada 19h, saída 19h30min
• Chácara Sapolândia – chegada 20h30min
• Jantar a ser definido como opção na própria Sapolândia – Com costela fogo de chão a combinar com os participantes.

Segunda:
• Concentração na Sapolândia com destino à Motos Antigas
• Saída para Passeio á Serra Graciosa/Morretes via quatro Barras.
• Almoço em Morretes e retorno à Curitiba até Sapolânia;

Endereços :
Sapolândia : Rua Desembargador Antonio de Paula, 3693, Bairro Xaxim.
Hotel Estação Express : Rua João Negrão, 780. Fone 41 3021 8700
Hotel Villaggio : Rua Tibagi, 950. Fone 41 3074 9100
*Ao fazer a reserva nos hotéis sugeridos, diga que você está indo para o Encontro de Motonetas, e conseguirá um desconto.

Para dúvidas sobre as coisas de Curitiba ligue em um dos telefones que está no cartaz.
Para dúvidas sobre a viagem ligue para o Fidelis no 11 95497-8344 (Whatsapp).

Preparem-se para o encontro mais incrível do ano!!!!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

VIII SÃO ANIVESPAULO - PELOS 462 ANOS DA CIDADE

Na noite de domingo para segunda-feira São Paulo se surpreendeu com o enxame de motonetas clássicas tomando as ruas. Era o VIII São Anivespaulo, a homenagem da SP aos 462 anos da capital paulista. 75 motonetas de várias cidades estiveram presentes: São Paulo, ABC, Guarulhos, Taboão da Serra, Ferraz de Vasconcelos, Campinas, São José do Rio Preto, Córdoba (ARG). Pessoas das mais diferentes, das mais distintas motivações dois-tempistas, foram chegando, cada qual numa cor, num modelo, numa personalidade. Tentarei narrar aqui um pouco do que foi essa edição noturna, acrescendo fotos e outros relatos nessa mesma postagem durante essa semana. 


Relato 01: Fidelis.

Era 20h30 quando cheguei no Monumento aos Heróis de 32, vulgo Obelisco do Ibirapuera, acompanhado do Everton Mendes, Diego Pontes, Carlos Volpato e Daniel Turiani / Gisele numa inédita, estupenda, rara, incrível, indestrutível Zundapp Bella, uma robusta scooter alemã fabricada no final dos anos 50.
Já tinha por lá umas quarenta motonetas, e vários meliantes rodoviários. Logo Volpato tratou de conduzir o pessoal para abastecer. Aliás, esse foi "o São Anivespaulo da pane seca", voltaremos nesse assunto. E não parava de chegar gente. Flavio Gomes e Marília Aguena apresentavam ao vivo a concentração do encontro num aplicativo via Twitter. Julio, de São José do Rio Preto, já estava por lá, depois de uma incrível viagem solo de 450kms (e tinha a volta pra fazer). Tatu Albertini puxava mais uma do Motonetas Clássicas Campinas, com o Alessandro Poeta, o Leonardo Freitas e esposa, o Spina 01 com esposa. E veio o China - anivespaulista de carteirinha -com a Leika, cedendo a Vespa do finado Adriano Lemos para o argentino Nano Aliaga e Ana. Também o Gabriel Forte com a Carol, o Diogo Vinícius, Pastorelli, Paulo "De Vito", Beto, Paulo Corinthiano, Hugo Frasa, Haine, Rubens Peterlongo, Renato, Luis Lavos e Clausen, Ciro, Elvis, Hernan Rebalderia e namorada - eu ia falar uma coisa mas deixa quieto -, o Viola, o amigo do Viola, o Fernando Nunes, a Renata Leirner, Daniel Turiani gaúcho, Arnaldo Ouro, Paulo Nicacio, Nelo Davini, Animal Taylor - que arrancou o corrimão da garagem da prima para fazer passar a Vespa pra fora - e Larissa, Ivan Bornes e Lurdete - Viver é massa! - Daniel Orellana e namorada, seu primo, Dan, Kadu Toschi, Leonardo Castañeda, Elton Mapelli, Marcelo Druck e muitos, muitos outros que agora, de cor, não lembro dos nomes, e que vou editando aqui no post conforme lembranças - me escrevam, comentem, se manifestem, queremos seu nome na memória do evento, queremos que você conheça a nossa casa na Mooca. 


E da SP devo exaltar aqui os nomes dos membros resistentes e românticos, eis: Diego Pontes e Cintia, responsáveis pelo conceito "caminhos mal-assobrados" e pela discotecagem, Adriano Stofaletti e Débora, o irresponsável que deu a ideia do rolê noturno, puxando o comboio junto com o Vitor Hugo, quem se doou de coração pela produção desse encontro, Leo Russo, (desculpem os outros mas esse é) o melhor artista gráfico dois-tempista em atividade no mundo, o Everton Mendes, o DJ ABC Reggae Boy, o Mestrinelli, que abrilhantou o passeio com seu TukTuk, o Delacorte, que deu uma mãozinha/pezinho na pane seca do Júlio, o Gabriel Vesparock, que veio de Ferraz de Vasconcelos, o Caio Cesar, de Guarulhos, o Rodrigo Sonnesso e a Ju na PX do Vitor, o Koré, o Diogo Reis, o Reginaldo Silva e a Rose, o Afonso Antunes, a Vanessa Amado com o Nano, o Assef, o Volpato, o sr.Artur, o Turiani e a Gisele, e eu Marcio Fidelis, ou seja, metade do clube. 


MONUMENTO AOS HERÓIS DE 32
Dizem por aí que o tal do Obelisco do Ibirapuera é mal-assombrado pelos espíritos dos 700 soldados paulistas mortos durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Nele, funcionários até hoje dizem ouvir tiroteios e gritos. Por bem, nós não ouvimos nada, a não ser os tiros dos platinados das Lambras. Saímos as 21h25, depois de uma rápida e tímida apresentação do giro debaixo das luzes do obelisco, da lua cheia. Tomamos a subida pela Brigadeiro Luis Antônio, que anunciava que o giro seria mesmo repartido pelos semáforos e carros. Vitor e Stofaletti seguiam na ponta, ditando o ritmo do comboio. Enquanto isso o Corazzin e eu andávamos do meio para trás do comboio, certificando-nos de quem ninguém ficaria perdido ou quebrado no escuro. Lá em cima, dobramos duas ou três ruas e caímos na Paulista, a mais famosa das avenidas. 


PRÉDIO DA GAZETA
Dali em diante o São Anivespaulo era tão para nós quanto para os outros: nas calçadas o pessoal vibrava, nos bares, nos carros. Como é maravilhoso rodar na Avenida Paulista a noite!! Passamos pelo prédio da Fundação Casper Líbero, conhecido como Prédio da Gazeta, onde relatos dos antigos contam que espíritos apareciam na televisão ao lado do apresentador do tele-jornal, de algum ator, o que de fato, para o homem do seu tempo, que não sabia nada sobre televisores, e elas com suas tecnologias rústicas, o que se via era nada mais do que os chuviscos da própria transmissão ainda precária, por limitação do alcance do sinal ou interferências nas ondas. Talvez o mais palpável nessas lendas esteja no fato do prédio ter sido construído onde outrora funcionava um pelourinho. E voltando ao passeio, se você não foi, tinha que ter visto a cena das motonetas travando todo o quarteirão boêmio da Matias Aires. Dali tenho certeza de que sairão mais meia dúzia de vespistas para o futuro. Na subida dessa rua os semáforos e o trânsito fez o bloco se dividir.

CEMITÉRIO DA CONSOLAÇÃO
Cruzamos a Avenida e entramos na Angélica para acessarmos as costas do Cemitério da Consolação, local de deveras histórias fantasmagóricas, o primeiro cemitério público da cidade, e também o primeiro necrotério. Muitas personalidades da história de São Paulo foram enterrada lá, e por décadas assustam os coveiros e visitantes noturnos, como os irmãos do Castelinho da Rua Apa, o Monteiro Lobato, a Marquesa de Santos, Tarsila do Amaral, Dona Yayá, e as duas mulheres assassinadas e jogadas no poço da antiga casa onde hoje é o edifício Joelma. Tratamos de passar rapidamente pela rua escura e descer logo a Itambé. 


EDIFÍCIO ANDRAUS
Em vinte minutos chegávamos ao Edifício Andraus, lugar de uma grade tragédia televisionada em fevereiro de 1972, e que matou 16 pessoas, ferindo outras 300. Até hoje moradores e ocupantes contam que se ouve gritos desesperados das vítimas do incêndio, e casos de "poltergeist" onde portas e janelas abrem e fecham sem o menor contato humano ou corrente de ar. 

TEATRO MUNICIPAL
Da São Luis dobramos a biblioteca Mário de Andrade e contornamos o Teatro Municipal no melhor ritmo que um comboio independente e urbano poderia ser tocado. Nas calçadas crianças e adolescentes descalsos, a miséria e o esquecimento vergonhoso de uma cidade sem futuro. Guias e funcionários do Teatro há décadas contam que se vê espíritos trajados como no século XIX, tocando piano, encenando peças no palco, e andando nos camarins. (Imagino que o mais terrível está no que acontece do lado de fora).

VIADUTO DO CHÁ
Passamos pelo Viaduto do Chá, que configura na lista dos pontos mal-assombrados da cidade, onde os mais espiritualistas dizem reconhecer o espírito do mau que conduz as pessoas perturbadas ao suicídio ali desde a sua inauguração, em 1892. Há inclusive músicas sobre ela, uma delas é das minhas preferidas: "O Suicídio", do conjunto paulistano Os Seis, dos anos 60. Na nossa passagem pela ponte haviam uns punks na calçada brigando a bofetadas. Eles nem notaram o comboio, a maioria não reparou neles, estavam distraídos com alguma coisa.

FACULDADE DE DIREITO DA USP
Então passamos pela Faculdade de Direito, no Largo São Francisco. As histórias do local não são lá tão escabrosas. No subsolo do prédio estão enterradas dezenas de ossadas de antigos freis moradores do convento que outrora funcionou ali. Além disso, reza a lenda de que um professor chamado Julio Frank teria sido enterrado no pátio onde os alunos realizam saraus, e de vez em quanto essa turma aparece do além. Nesse momento havia um grande comboio agrupado, e outros dois blocos de comboios travados em semáforos. Não é nada fácil puxar Anivespaulos no centro velho.

CAPELA DOS AFLITOS
Passamos então pela Avenida Liberdade, onde está localizada a capela construída em homenagem à Nossa Senhora dos Aflitos. Naquele tempo a Praça da Liberdade era chamada de Largo dos Enforcados, pois era ali que os escravos desertores e civis desobedientes do governo eram enforcados, em praça pública, e enterrados no cemitério que ficava debaixo do asfalto - aliás, o primeiro cemitério da cidade. Conta-se que onde hoje são realizados cultos, outrora foi enterrado o soldado Chaguinha, e a mais emblemática das histórias se deu com ele. Durante o seu enforcamento, em algum momento do século XVIII, a corda se rompeu uma vez, e outra vez, e o povo assistindo, atribuiu isso a um milagre. Com isso, tentaram convencer os oficiais a concederem-no liberdade - vem daí o nome do bairro. Chaguinha, na terceira, morreu. Dizem que as ruas até hoje são assombrada a noite por espíritos dos séculos mais remotos. Passamos.

CASA DA DONA YAYA
O cheiro do comboio e o barulho dos motores distraiam bem a todos. As ruas não estavam lá muito agitadas, e com isso a gente parecia mais assustar os fantasmas do que eles a nós. Rapidamente passávamos por todos os pontos, sem parada. Como o objetivo maior é o passeio das motonetas pela cidade, não tínhamos tempo para palestrar a respeito, e portanto, não investimos no conteúdo disso, esperando que vocês chegassem a esse blog após o giro para entenderem o porquê desse rolê. Voltando aos caminhos, da Brigadeiro Luis Antônio tomamos a Major Diogo, uma rua estreita no miolo da Bela Vista, e que preserva diversas construções simples e centenárias, onde mora gente de vários cantos do Brasil. Nessa rua está localizada a Casa da Dona Yaya, um casarão cuja história de cobiça e loucura dada hora figurou nos anais macabros da cidade. O que passou foi que na primeira metade do século XX a própria, durante a adolescência, perdeu os pais e os irmãos, ficando sozinha, deprimida, e mais tarde, absolutamente louca. Anos depois, com o agravamento do quadro clínico, ela foi internada/presa na casa, e tudo foi configurado lá dentro de modo a que ela não se ferisse (banheiros sem registros, cama chumbada no chão, aposentos com muitas janelas para que pudesse ser observada etc). Acredita-se que ela foi presa assim por causa do dinheiro que havia herdado da família, escoado de maneira estranha e até hoje pouco sabida. Dá pra imaginar...

EDIFÍCIO JOELMA
Minutos depois cruzamos a Maria Paula e represamos todas as motonetas na porta do Edifício Joelma, para a rápida porém marcante travessia por dentro do seu estacionamento e acesso. Um terrível incêndio ocorrido em 1974 matou 189 pessoas e feriu outras 345. A fatalidade foi transmitida em rede nacional, pessoas pulavam das janelas, gritavam desesperadas enquanto o fogo as queimava, e o cheiro de carne humana em chamas tomava o entorno. Moradores e ocupantes contam que ainda se ouve gritos de socorro, e aparições. No passado, no lugar daquele prédio havia uma casa, e nela um caso clássico de assassinato chocou a pequena São Paulo, e foi batizado de "O Mistério do Poço". O que passou foi que um distinto professor de química assassinou sua mãe e sua irmã por motivos não sabidos, e desovou seus corpos no poço da casa. Dias depois, quando o crime foi descoberto, o professor se suicidou em tempo antes da prisão, e após a retirada dos corpos, o bombeiro que ajudou na remoção veio a falecer de maneira surreal em decorrência de uma infecção cadavérica, fato que naquele tempo era pouco conhecido na medicina de socorros. Ainda sobre o Joelma, reza um mistério mais simpático, chamado de "Caso das 13 Almas": as treze pessoas que morreram carbonizadas no elevador que travado não puderam ser identificadas, e foram enterradas juntas num cemitério da Z/L, e supostamente até hoje essas almas operam milagres aqueles que levam água aos seus túmulos. Por fim, após uma breve parada de um minuto na calçada do Joelma, cruzamos o prédio, por dentro dele, num ato que durou um minuto e alguma coisa, desembocado na Avenida 9 de Julho, revigorados pelo portal espiritual e simbólico que o prédio representa no imaginário paulistano. Assista aqui o vídeo dessa passagem: https://youtu.be/UROrI74Xn_s


SALA SÃO PAULO
Depois dali toda a elétrica da minha Vespa entrou em curto: apagava e acendia quando queria. Sei lá, que tenha parado por aqui. Pelo Viaduto Eusébio Stevaux víamos a sombria lua cheia por trás de uma nuvem. Céu nublado como manda o tema. Saíamos do Vale do Anhangabaú como que exorcizando as almas perdidas na história da cidade e do submundo espiritual. Vale do Anhangabaú, em Tupi-Guarani, significa "onde o mal-espírito bebe água", e de fato há bem mais lendas nesse sentido e registros de crimes insanos de tirar o sono para sempre. Aliás, estatisticamente, nenhum outro lugar do Brasil concentra tantas histórias macabras quanto o Vale, sem falar nas narrativas indígenas, que se amedrontavam com tanta má-sorte que vinha daquele lugar. Perto dali, vinte minutos em comboio, passávamos pela Sala São Paulo, ao lado da Estação da Luz. Dos sustos, o mais simpático deles: ali até hoje funcionários evitam algumas passagens durante a noite, e dizem ouvir o piano tocar, vozes de músicos ensaiando, espíritos de artistas nos camarins. Seria divertido se acontecesse com a gente ali na hora, mas naquela noite, nem mesmo o grande relógio do prédio estava ligado. Uma vergonha para mim ver o coração da minha cidade, todo esse patrimônio arquitetônico, desvalorizado e entregue como está. Gostaria de adotar um prédio e montar por lá um grande centro de preservação da memória oral da cidade. São Paulo não aprende, ninguém aqui aprende o que é cuidar de um lugar decentemente. É como se todos estivessem na cidade só de passagem, então não cuidam.


CASTELINHO DA RUA APA
E por fim o mais famoso dos casos de crime e assombração dessa cidade. Naquele lugar pitoresco que mais parece um castelinho medieval, três pessoas da família Reis foram encontradas mortas a tiros na década de 30. Mais tarde a perícia fechou o caso interpretando-o como uma briga de família com assassinato seguido de suicídio do irmão arrependido. Como não havia herdeiros diretos, o prédio passou para as mãos do governo federal, e depois para o INSS, que nunca se importou com sua preservação. Até houvera quem se aventurou a morar lá ilegalmente, mas no primeiro susto fugiu. Há sete décadas o prédio segue abandonado, já sem teto e partes da estrutura original, passando finalmente por um lento processo de restauração.

Dali tocamos direto para a Rua Barra Funda, onde aconteceria a festinha do São Anivespaulo, no Duesie Burguer Bar. Mas como eu disse, esse foi o São Anivespaulo da pane seca. Começou com o Mestrinelli parado na Avenida Brasil, seguiu-se com o desespero do Ciro e dois amigos para chegar até o posto na Brigadeiro, e depois com o Druck na reserva da reserva da reserva. Russo, depois de abastecer, a Rally200 não pegou mais. O Júlio Cesar viajou um dia todo sem problemas para ficar sem combustível no meio do Anivespaulo. E até o vacinado China ficou sem, precisando de uma mão/pé do Nano por quatro quarteirões. Muita gente relatou uma alta incomum do consumo de combustível da sua motoneta. Outros reclamaram de pequenos problemas elétricos. Eu mesmo passei por várias panes elétricas, sobretudo no Vale do Anhangabaú. Enfim, abstraímos e tocamos adiante. 

FESTA - DUESIE
Foram vinte minutos até estacionarmos todas as motonetas na rua e nas calçadas. Um carro qualquer nesse dia chegou bem cedo, ancorou na rua onde durante a tarde guardaríamos a vaga, e dali não saiu mais. Tudo bem, nos acomodamos como deu, distribuí os cartões portais do evento, fizemos fotos e vídeos, e abrimos as geladas. Parte da turma entrou pra festa, parte ficou no bar ao lado contemplando as motos já na missão de voltar pra casa cedo. Dava meia-noite.

A festa foi suave, tranquila, entre geladas e hamburgueres, entre conversas e músicas. Os DJ's Everton Mendes e Cintia "Sixtie" Mascari mandaram um longo duelo de tunes, entre roots jamaicanos, e diversas frentes dos anos 60. As 2h o Continental Combo subiu (desceu) ao palco, para uma session de 45 minutos de folk, psicodelia, e mil referências à vida urbana, à São Paulo: "precisa de São Paulo, você se consumiu, e a solidão vai te abraçar sob o vento frio". A casa é bem intimista, cabem por lá umas setenta pessoas, com banda e DJ's. Destaque para a cozinha com seus requisitados hambúrgueres, à decoração simples e direta de réplica de cartazes de shows de época, e fotos de artistas do velho rock'n'roll e da Soul Music. Lá fora, nos fundos, uma escada nos leva a um quintal suspenso de 2 x 2 metros com vista para os trilhos do trem, para os galpões das velhas indústrias, para a lua cheia. Brisa das boas! Ao final, já as 4 da manhã, brindamos a última rodada, ligamos nossas Vespas, já em meia-dúzia de amigos, e tocamos de volta pra casa.



AGRADECIMENTOS
Com muito orgulho e coração agradeço a todos os participantes dessa edição do São Anivespaulo, gente que não se incomoda com o cheiro que sai dos escapes, com a sinfonia dos motores, com as mil paradas em semáforos e cruzamentos, com a lentidão de um comboio enorme e independente, underground até. Agradeço e parabenizo os viajantes que tomaram a estrada para estar nessa celebração, com destaque para o Julio de São José do Rio Preto, e os rapazes de Campinas. Valeu total o apoio da Rádio 969, da Free Willy Moto Peças, e do Empório Motoneta na confecção dos cartões postais, e ao Leo Russo, pela arte incrível. Valeu ao Vitor Hugo, Corazzin, Stofaletti e toda a SP pelo planejamento e empenho. Muito obrigado ao Continental Combo, aos DJ's Cintia e Everton, e ao Duesie pela festa. Foi ótimo, lúdico, fora da curva, mais uma vez. Sei que ficaram diversos outros pontos históricos que caberiam ao tema, como o Edifício Martinelli - que visitamos no ano passado -, mas qualquer vinte minutos a mais de giro abateria os ânimos e entediaria o todos nós. É pra ser legal, divertido e leve, por isso foi mais ou menos assim. E para o ano que vem quem sabe o que faremos? Dêem seus palpites...


(Pergunta: por que o grande relógio da Sala São Paulo estava apagado nessa madrugada de aniversário da cidade? Há muito a se refletir, questionar, e reclamar... Quanta miséria, quantas coisas vazias por dentro, sujas por fora. Deixa pra lá. Parabéns SP462, e desculpe qualquer coisa).

Relato por Fidelis
Fotos por Marcelo Druck, Maurício Constantino, Vanessa Vanites, Leonardo Castañeda, Hugo Frasa, Leika e João Medeiros.

domingo, 17 de janeiro de 2016

DESCANSE EM PAZ TIÃO

LUTO - O velho TIÃO foi embora, o conhecido mecânico da Avenida Sapopemba, e leva para sempre cinco décadas de conhecimento em motonetas clássicas, e deixa para a categoria as lembranças dos nossos melhores dias. E parece que foi ontem aquela festa, o casamento do Oliver e Andrea e ele com a Brasília velha atrapalhando a saída da igreja, quando ele finalmente colou num rolê da Scooteria, quando ele fez nossos motores, quando cantávamos Tião e Sua Lambretta no Sprint, e quando nos fez rir. Descanse em paz grande Tião.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

VIII SÃO ANIVESPAULO

PELOS CAMINHOS MAL-ASSOMBRADOS DA CIDADE

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A primeira lua cheia do ano convida os fantasmas da fumaça, os espíritos zombe2Teiros, e as almas depenadas, para esse giro em memória às lendas urbanas do submundo espiritual. Prepare-se!!

Concentração: 24 de Janeiro as 20h30 no OBELISCO DO IBIRAPUERA
Festa na sequência, até as 2h30 da madrugada do dia 25, no DUESIE PUB.

Banda: CONTINENTAL COMBO
DJ's: Everton Mendes (rocksteady/early reggae) e Cintia Sixtie (Soul/Garage).
Cover artístico: 5 Reais.

ROTEIRO
20h30 - Obelisco do Ibirapuera
21h - subida da Brigadeiro Luis Antônio...

Prédio da Gazeta (Av.Paulista)
Cemitério da Consolação
Edifício Andraus (Av.São João)
Teatro Municipal / Viaduto do Chá / Largo São Francisco
Capela dos Enforcados (Av.Liberdade)
Casa da Dona Yaya (R.Major Diogo)
Edifício Joelma (Estação Júlio Prestes)
Sala São Paulo (Estação Luz)
Castelinho da Rua Apa (esquina av.São João)
FIM com festa no Duesie (Rua Barra Funda)

Arte por Leo Russo

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A BP DE SJC (1977)


Essa rara imagem das Xispas em São José dos Campos foi publicada pela Natalia Capello na página Resgatando S.José dos Campos, no Facebook. Foi em 1977, numa extinta oficina da cidade. Abaixo os comentários de quem passou por lá:

"Foi uma das mais antigas oficinas de lambretas, Vespas, mobiletes e motocicletas daquela nostálgica época. As duas letras B e P que aparecem no luminoso são as inicias da famosa fábrica de lambretas BRUMANA PUGLIESE. Ah, essa eu fui buscar no fundo do baú né? kkkkk" (Washington Mecânico).


"Eu me lembro bem desta loja e oficina, era perto da jiperama e do bar do Zé Guédes, mas tinha outra Motor King, do Grego, especialista em lambretas" (Edison Rodrigues).

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

RETROSPECTIVA 2015

2015, um ano muito louco! Anjos caíram, a terra tremeu, o mundo não foi mais o mesmo. Um ano turbulento, de eventos incríveis, acontecimentos inéditos, de relacionamentos em curto. Por mais um ciclo, eu, Fidelis, sigo na condução desse clube que muito me orgulha. Gostamos de rodar na contra-mão, fora da curva, com música alta e amigos sempre perto. Nem sempre tudo dá certo, e a gente não pára, não queremos parar. Experimentamos, tentamos daqui e dali, e força de vontade não nos falta. Portanto, se deu certo ou não, isso é outra história, e a história a que mais gostamos de viver (escrever) é a que vivemos como dá para viver. 2015 foi um belo ano!


O mês foi todo São Anivespaulo. A edição 07 contou com um inédito rolê a pé para o topo do Edifício Martinelli. O tema eleito eram os arranha-céus da cidade, e a sinfonia de 120 motonetas pelo Centro Velho e Centro Novo deixará marcas eternas de um evento perfeito. O giro foi encerradonuma bela festa no segundo andar de um prédio da década de 30, na Trackers, diante do Largo do Paysandú, com shows das bandas Marzela (ska) e Modulares (punk-mod), e discotecagem de Everton Mendes, Rubinho e Julião. 


Um mês de vários tentáculos, a começar pelo mais expressivo: a viagem da SP para o Encontro Nacional em Tapejara/RS, com Assef, Favero, Gabriel Vesparock, Delacorte e Karla, e Reginaldo e Rose, trazendo na bagagem e em Vespa os argentinos Nano Aliaga e Christian Orellano. Rolou também o lançamento do Almanaque Motorino #5 (capa azul - Bootboys), e uma edição do Desafio de Motonetas no Kartódromo de Paulínia. Vale lembrar a festinha em homenagem aos argentinos viajantes que fizemos em nossa casa.



Aconteceu a segunda edição do Acampamento de Verão, repetindo o prato do ano anterior, na mesma praia de São Sebastião. É um evento pequeno e intimista, que vale a aventura e o prazer de compartilhar um bom perrengue ao lado dos amigos dois-tempistas. Destaque para os rapazes de São José do Rio Preto, que viajaram tudo aquilo para estar conosco. Nas internas foi um mês de um estruturação inédita, da qual começava a funcionar a primeira Diretoria (de fato) do clube.


O mês abre com o lançamento do vídeo-clipe daquela que é considerada "banda da casa", o Marzela, com imagens compiladas do VII São Anivespaulo. Fizemos cinco anos de vida, o Oskarface tocou na nossa Sede, recebemos os amigos, homenagens, postagens e repliques nas redes sociais. O mês marcaria a oficialização do Estatuto da SP.
Abrimos a nova temporada das internas do clube com o batismo de três novos membros, e fechamos o mês com a passagem do alemão Anton, chegando fadigado de uma viagem de um ano de Tuk-Tuk pela América do Sul. Foram tempos difíceis, marcados por desentendimentos, revisões de ideais, reflexões e desapego, espírito que se prolongaria por alguns meses e nos ensinaria uma dura lição sobre o Tempo.




O mês abria com a volta do SP Scooterfest - edição #4, dessa vez na Fatiado Discos -, com discotecagem do Everton Mendes (Rocksteady) e do Rafael Piera (Oi!), e com a apresentação do nosso primeiro "uniforme" oficial (edição limitada), uma parceria com a Rudies Vestuário . Daniel Turiani e Gisele tiveram um encontro com o líder do tímido Vespa Club New York lá nos States. E o aguardado rolê caipira São Pedro Lambreteiro aconteceu em Campinas e região, promovido pelo Motonetas Clássicas Campinas, com nossa presença e apoio. Mas não foi lá um mês tão fácil assim: rolava uma mudança decisiva na Diretoria da SP, estabelecendo a partir de então um outro jeito de produzir. E no último dia do mês fechamos um quarto de hóspedes em nossa Sede, que vem funcionando também como almoxarifado, e trouxemos nova mobília, o que pra gente foi demais. Vale lembrar que lançamos aqui o Calendário da SP 2015, produzido pelo Sergio Andrade.



Abrimos o mês inaugurando um bar de cervejas artesanais nacionais e importadas em nossa casa, com geladeira apropriada, e o início de um novo clima na casa. Chegávamos na metade do ano, e a essa altura quatro velhos membros já haviam deixado o clube, por diferenças pessoais, ideológicas ou por não querer nada mesmo. (Paciência). Fechamos o mês com uma brilhante III Girata D'Inverno com quarenta e tantas motonetas num maravilhoso dia de sol rumo ao Riacho Grande (São Bernardo do Campo), finalizando com almoço no barco flutuante Netuno. Também enquadramos essa Girata na escala máxima, beirando a perfeição.


O mês do cachorro louco é aquele do tradicional Encontro de Lambrettas e Vespas de Jundiaí, e foi incrível, puxado de São Paulo pela Free Willy, o qual damos suporte sempre. Nesse meio tempo Diego e Cintia passaram bons dias na Argentina com os parceiros da RVA, dos Scooteristas Marginales e do Buenos Aires Scooter Crew. Um clima estranho pairava no ar, e se desdobraria no mês seguinte. Nesse mês gravamos em nossa Sede uma participação no programa Mobylas, da History Channel, com presença do Motonetas Clássicas Campinas, e dos protagonistas Tongnhas Moby Club.




Abríamos as atividades com o Desafio de Motonetas no Kartódromo de Limeira, ponteado pelo Motonetas Clássicas Campinas, com a segunda parte das filmagens do programa Mobylas, com churrasco e presença da SP em pista, sem falar na viagem/estrada, e no fim de semana com o MCC. E se arrastava o clima tenso que alguns velhos conhecidos faziam questão de perpetuar na cena. Aliado à uma manobra de rua descobrimos e desovamos do nosso clube um jovenzinho neo-nazista entustido. Em contrapartida o Sonnesso se despedia temporariamente de nós, levando para a Europa nosso espírito na bagagem, para três meses de breves encontros na Inglaterra e na Itália. Vale lembrar que reabrimos aqui a Sede para as reuniões semanais, hora aberta aos amigos em geral, hora fechada ao clube.


A produção caía, o clima não estava lá dos melhores, havia muito ciúmes de velhos amigos que decidiram se afastar, e isso só trouxe chateação. Todavia as reuniões semanais em nossa Sede ganhava forma, e passo a passo o olho no olho se estabelecia. Aqui se deu a segunda lição do ano, resposta da primeira sobre o Tempo.

Aqui se dividiu as águas. Foi para o ar o programa Mobylas, na History Channel. Nosso competidor Chico Oliveira partiu para Marrocos para sua segunda aventura no Vespa Raid Maroc (nesse ano rebatizado de Scooter Trophy). Pela segunda vez no ano abrimos a casa para dois novos batizados. Demos início às filmagens de um possível longa-metragem sobre a cena old scooter. E finalmente, descemos a Imigrantes novamente, para o VI Raduno da Primavera, sob forte chuva, em quase quarenta motonetas. 



O mês encerrava um dramático e gratificante 2015. Abrimos as atividades com a chegada do Sonnesso da temporada de três meses pela Europa, aproximando a SP de clubes ingleses e italianos. Tivemos mais um belo almoço de fim de ano da oficina Free Willy no Velhão, e uma participação simbólica na festa da Rádio Antena Zero, com o lançamento do atrasado Almanaque Motorino #6. E coroando o ano dois-tempista recebemos em nossa casa, e em Vespa, o casal paraguaio Monika Echeverria e Carlos (Vespa Club Paraguay), dando um certo trabalho pra gente e para o MCC, recompensado com tão boa companhia - e acabou com um rolê envolvendo simbolicamente a SP e o Motonetas Clássicas Campinas no Vale do Paraíba e Litoral Norte. E nas últimas do ano, o nosso Caio Cesar ainda achou um tempo para se encontrar com os Scooteristas Marginales em Buenos Aires.


2015 definitivamente foi um ano desafiador, marcado por movimentos estranhos de velhos amigos e conhecidos, que buscaram justificar seus limites culpando outros camaradas, o clube, o mundo. Mas devo dizer que, embora cansado e dividido com outro projeto pessoal, valeu a pena cada cabelo branco que agora reparo ter adubado nessa jaca. Aos amigos, membros, clubes parceiros, patrocinadores e voluntários, o nosso muito obrigado. Desejamos a você, leitor e scooterista clássico, um coroado 2016, com atitudes positivas e sinceridade para consigo mesmo. Vida longa dois-tempistas.