segunda-feira, 20 de outubro de 2014

V RADUNO DA PRIMAVERA - 15 E 16 DE NOVEMBRO


A Scooteria Paulista convida:

V RADUNO DA PRIMAVERA

DIAS 15 E 16 DE NOVEMBRO

PROGRAMAÇÃO PREVISTA:

SÁBADO (15/11) 

Concentração - 9h30 - Posto do Frango Assado (KM 3 Rod. dos Imigrantes)
Almoço - 13h30 em Santos
Giro pela cidade - 15h30
Pocket Show "Jenny Woo" (Canadá) - 19h

DOMINGO (16/11)

Concentração - 10h - Santos Hostel
Travessia da balsa Santos-Guarujá - 11h
Almoço - 12h - Praia do Tombo/Guarujá
15h30 volta para casa

Opção de hospedagem:

SANTOS HOSTEL

Quarto misto - R$ 36,00
Quarto feminino/masculino - R$ 40,00

PARA FAZER A RESERVA: 

Entrar em contato através do e-mail contato@santoshostel.com.br. telefone (13) 2202-4566 ou pelo Facebook: https://www.facebook.com/santos.hostel

É necessário efetuar o depósito de metade do valor da diária escolhida para que a reserva seja confirmada. O hostel fornece roupa de cama. Toalhas, alugam por R$ 4,00. 

Arte por Leonardo Russo

domingo, 19 de outubro de 2014

CHÁCARA DAS CARPAS


Luiz Piscioneri Netto na sua Lambretta LD no início dos anos 60.
Parece que a foto foi no tradicional restaurante Chácara das Carpas, em Jundiaí.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

DESAFIO DE MOTONETAS - ARARAQUARA

*Relato por Gustavo Delacorte

O post é atrasado, mas não poderíamos deixar passar em branco aqui no blog a última edição do Desafio de Motonetas, que aconteceu no Kartódromo Adalberto Cattani, em Araraquara, no dia 21 de setembro. No dia anterior, houveram treinos, mas não pode participar.


Como já é tradicional, amigos de várias cidades estavam presentes, tanto para participar quanto para prestigiar. No dia da corrida, cheguei a tempo de pegar os primeiros treinos livres. A pista ainda estava molhada da chuva que caiu algumas horas antes, mas a vontade de acelerar e testar a adaptação na frente da nossa corredeira era maior que o medo, então procurei não deixar de aproveitar, mas com cautela.

Ainda assim, não pude evitar de escorregar em uma curva e ir ao chão. Felizmente, o tombo foi leve e voltei aos boxes para verificar se havia acontecido algo com a vespa.

Na tomada de tempo, a pista estava mais seca e logo fui acelerar. Procurei aproveitar ao máximo para tentar pegar as manhas da pista e não ficar tão longe do pelotão dos mais rápidos: Murari com sua super lambretta preparada, Privato com sua vespa turbinada, Serginho com sua PX quase original e sua pilotagem de maestro e Edu com sua Malossi invocada.


A cada volta tentava abusar um pouco mais, mas como a pilotagem estava bem diferente, devido a distância entre-eixo ter ficado mais curta, acabei não conseguindo nos treinos me adaptar como queria para poder acelerar ainda mais. Um novo tombo, agora no segundo treino, era o aviso de que não seria naquela etapa que eu me acostumaria com o novo jeito da "criança".

Na classificação para a corrida, acabei fazendo o quarto melhor tempo. Certamente seria o quinto se a lambretta do Murari não tivesse aberto o bico no treino anterior. Com isso, o terreno ficou livre para o Privato ficar com a pole, e com folga dos demais. Logo em seguida, Serginho, Edu. Através de mim vinham Texugo, Gilmar Seguro, Edivan Ribeiro, Leonardo Freitas e o Tatu.


Na largada fui muito mal, vacilei, fui ultrapassado pelo Texugo e já ia sendo ultrapassado por Gilmar na primeira curva, mas emparelhei e recuperei o embalo. No fim da reta oposta consegui ultrapassar o Texugo e me preparei para ir a caça do Serginho e do Edu.

A cada volta percebi que conseguia tirar um pouco da distância e projetei que talvez nas últimas voltas brigaria com os dois, mas logo na terceira volta dei bobeira no "S", depois da primeira curva, comi grama e passei por um enorme buraco (!) escondido atrás da zebra. Determinado a acelerar, acabei não levantando a bunda do banco e, com a pancada da roda traseira no buraco, levei um coice da vespa bem no cóccix (aquele osso da bunda que dói pra cacete quando levamos um tombo). Vale ressaltar que, depois da corrida, o Boca (responsável pela pista), prontamente informou que providenciou o reparo necessário no local do ocorrido.

A dor foi tanta que a visão ficou turva por alguns segundos e cheguei a pensar em parar, mas como havia viajado muitas horas para estar ali fiquei na pista. Devido ao desconforto, não dava mais pra acelerar nas curvas, então passei a administrar minha posição em relação ao Gilmar Seguro, que vinha se aproximando a cada volta. A minha sorte é que a corrida já estava acabando, então consegui manter o ritmo e terminei a corrida na mesma posição que larguei, no quarto lugar. Privato ficou em primeiro, disparado, seguido por Serginho, Edu, eu, Edivan Ribeiro, Texugo, Murari (que correu com a vespa do Tatu), Gilmar Seguro e Tatu.

A próxima edição do Desafio de Motonetas acontece no dia 20 de outubro, em Barra Bonita (SP). A corrida estará na programação do evento "Corrida Pé na Tábua", que envolve diversos veículos antigos e nessa edição especial terá somente motos, vide cartaz abaixo.


sábado, 11 de outubro de 2014

BOGOTÁ SCOOTERFEST 2014 (VÍDEO)


Esse foi o Bogotá Scooterfest 2014, um evento diferente no qual grandes clubes se uniram para um despedida de peso para euzinho, Marcio Fidelis: Mi Corazón Late en 2T, Vespa Club Bogotá, Mottoretos Bogotá D.C., Moonstomp Riders, Vespañée Club, Vespa Club Medellin e SCOOTERIA PAULISTA. Ano que vem tem mais!?!?!?!? Obrigado Alejandro Galeano pelo vídeo fantástico.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

LOCÔMBIA: DUAS SEMANAS DE COLÔMBIA (Parte 03 de 03)

Foram 14 dias entre Bogotá, Medellín, El Carmen de Viboral, Bello, Rionegro e outros povoados. 1200 kms rodados com La Pelada, a Vespa PX150 cedida por uma das pessoas mais ativas e contagiantes da cena old scooter da América do Sul: Maryzabel Cárdenas (Vespa Club Bogotá / Mi Corazón Late en 2T). Contei de Bogotá, contei do departamento de Antioquia. Agora, encerrando o assunto, volto pra capital, quando assino contrato com a seleção dois-tempista da Colômbia.


Domingo, 14 de Setembro. Acordamos as 5h, Juan Montoya e eu, na Cabañas Hotel, uma pousada na mata que circunda o vilarejo de Rio Claro, pertencente ao município de San Luis, Departamento de Antioquia. Sem delongas ligamos as Vespas e partimos; teríamos 320 kms pela frente ainda, sete horas. Seguimos concentrados apesar do sono. Não sei se acontece com todos, mas comigo é chapante, eu sonho acordado, interajo na vida real ouvindo vozes das últimas pessoas que estiveram comigo, dos meus pais, e dos caras do meu clube por exemplo. (É muito louco isso). Em meia hora passávamos pela Hacienda Nápoles, e na sequência pelo largo Rio Magdalena. Valia uma foto, mas com sono e sem tempo, nem cogitamos parar. Cortamos Palonegro e saímos na encruzilhada de acesso à Ruta 45. O povo acordava cedo e abria as janelas. Em Antioquia há muita vida, água, vento, bichos, verde, gente. 

Já na região de La Dorada, no Departamento de Caldas, paramos para um café a beira-pista. Por todo lado se ouvia os caminhões, um motor ligando, algum passando, porta batendo, fotos numa parede. Caminhoneiro acorda com o galo em qualquer lugar, e trabalha de domingo em qualquer país. Foram três rodadas de café com o pão de ontem. Ali rolou uma coisa chata. Ao contrário de tudo o que vivi e descrevi, naquele café me "passaram o chapéu". Por toda a viagem eu confundia a nota de 2.000 Pesos com a de 20.000. Para mim eram parecidas. Ao pagar a conta me pareceu que a atendente do caixa estava sendo censurada pela que me atendeu por me cobrar o triplo. Era como que 3,50. Paguei, peguei o troco, e saímos. Só quando paramos para abastecer, nas redondezas de Honda, que me dei conta do prejuízo. Enganado, eu havia pago com a nota maior, e ela me devolveria o troco errado, se fazendo de desentendida para um desenganado. Ingenuidade a minha. Com a grana que tínhamos não chegaríamos. Recorremos aos cartões-postais. Fomos implacáveis, Juan sabia como abordar as pessoas. Eu aprendia e dava o meu tom. Uma coisa é certa, e isso é sério: é mais fácil vender postais de uma aventura vespista num posto de combustível para estranhos do que num encontro de Vespas. É claro que a situação muda, num encontro você não aborda as pessoas da mesma forma, você joga um pano no chão ou abre uma mesa e espera que elas valorizem aquilo que você fez e para onde você foi. Chegamos à essa conclusão ali no posto, em vinte minutos estávamos com os tanques cheios, 14 litros para duas. O litro vale como que 2.20 Reais. Que viagem! Rolava uma dinâmica. A noite no hotel Juan me perguntava se eu preferia puxar o ritmo ou ser o ferrolho nas viagens. Eu me adapto, não me importo. A ida foi como "12 Horas de Resistência", com direito a acidente na prova. Já a volta estava divertida, tinha um quê de dever cumprido, de soldados voltando pra casa. Ainda assim haviam cachorros, no acostamento, no mato. Juan se mijava de rir, depois daquele primeiro, todos os cachorro pareciam ter combinado de saírem junto para a estrada. A ironia da espécie na "Ruta de los Perros".

Fidelis, Montoya, Cristian e Karolina

Essa última, a Ruta 50 foi a mais desafiante das quatro que percorremos. Engolindo fumaça e ultrapassando caminhões no aperto, é onde os fracos não têm vez. Falei da pista estreita, do meio-acostamento, dos vai-e-vem de motoristas alucinados. Falei dos cachorros, dos buracos, e do meu motor travando (e ele ameaçaria mais um pouco na volta). Surpresa de verdade, e para a noooooossa alegria, aconteceria ali naquela pista, ali no asfalto. Creio que foi na região de Guaduas, ou talvez em La Vega. Na mão contrária passava um casal numa Vespa nova de cor marrom metalizado, era uma Primavera 150. Depois de alguns segundos me caiu a ficha, olhei pra trás e eram eles: Cristian Ocampo e Karolina Quintero. Foi uma festa incrível, e encontrá-los na estrada, ao acaso, tornava essa viagem completa. Como já escrevi aqui, dcumplicidade com que a vida me conectava às certas coisas que beiram o absurdo do improviso, nunca uma viagem é só uma viagem. Eles voltavam de Bogotá para Manizales com a mais nova aquisição da Karol (pegou zero). Era um dia completamente especial para todos nós. Ela é super entusiasmada, sorri, faz festa, dá abraço, demonstra. Cristian é calmo, observador e com ganas de produzir. Que combinação essa a dos dois!?!?!?! Eles são de Manizales, que fica no departamento de Caldas, a 310 kms da capital, cidade em que nasceu e viveu o aventureiro John Silva - hoje no Equador - e que sediou Encuentro Nacional de 2013 pelas mãos do grupo Motonetas Manizales. O casal comprou Motorinos, postais do Montoya, e trocamos regalos. Foi fantástico encontrá-los, fazíamos planos mas não deu certo, e quando não combinamos, acertamos. Nos despedimos debaixo daquele sol pesado e tocamos por mais duas horas no meio dos caminhões, cortando a ventania. Resumindo, chegamos em casa quase as 14h. E inacreditavelmente tudo funcionava.

Mayra Garcia
La Candelária













Foi tempo para um banho e qualquer coisa goela adentro. Da Calle 63 tocamos para a Carrera 13, aonde começava, as 15h, o BOGOTÁ SCOOTERFEST 2014. A equipe dos clubes havia preparado tudo: cartazes, stickers, decoração, stands, pick-ups, brindes, subido motonetas pelas escadas, divulgado o evento em corrente, marcado presença em peso. (Eles tinham parte com o Rei Midas, já falei quase isso). Mais de 50 motonetas passariam pela festa, a maioria associados ou envolvidos com o Vespa Club Bogotá, Moonstomp Riders, MottoretosVespañeee ClubMi Corazón Late en 2T, Vespa Club Medellin, e a SCOOTERIA PAULISTA . Ali se concentrava muita energia, e pessoas com capacidades que talvez até desconheçam.

Moonstomp Riders
Plaza Chorro Quevedo

Segunda-feira, 15 de Setembro. Pulei cedo e Bogotá trabalhava. Carros, ambulâncias e motocicletas se acotovelando, camelôs e transeuntes se atropelando, táxis parando por toda a parte, fumaça. E o Monserrate bem alto para a cidade toda admirar. Os ares eram de despedida. As 13h30 desci a pé ao apartamento de Laura Pérez, aonde Leonardo Castañeda me esperava para tatuar um desenho de sua autoria: um vespista colombiano ao estilo old school. Um presente e tanto, para a vida. Leonardo tem uma Vespa 150 Super na estica inglesa, tem 22 anos, é tatuador profissional a dois, e membro do Moonstomp Riders. Recentemente pegou o primeiro lugar numa das categorias da Primera convención Expo Tattoo Internacional de San Cristobal, Venezuela. A noite Mayra e eu saímos para um giro pelo centro histórico, com parada na Bogotá Beer Company e um giro noturno pelas ruas desertas da Candelária. Havia ali um pedaço do bairro vigiado pelo exército, preservando a história daquelas fachadas e monumentos de séculos. Foi uma noite divertida. Mayra é reservada, vespista do dia-a-dia, cheia de impulso para o mundo, de uma boa prosa, uma pessoa a se confiar. Essa foi a minha última visita ao centrinho. Dormia com tais lembranças, dos tantos amigos que estiveram comigo por lá, da grande invasão do Bogotá Scooterfest na Chorro Quevedo, do ska que quase virou confusão, da boemia, dos artigos, cafés, das motonetas.

Mottoretos Bogotá D.C.
Terça-feira, 16 de Setembro. Maryzabel havia marcado um giro para a minha despedida. Antes dele, as 17h fui com Mayra conhecer a Universidad Nacional de Colômbia, no bairro Nicolás de Federman. Um grande centro científico público, com muito verde e estudantes politizados. Pelas paredes as marcas de revoltas e lutas ideológicas fazendo referência às FARC, ao Sionismo, ao Comunismo, à Che. Mayra contava do seu pai e da vida acadêmica, também das vezes que a tensão se instalou naquele lugar quando a polícia fazia a varredura. Estudantes desapareciam. Detalhe: a Colômbia nunca teve uma ditadura reconhecida. E foi lá em Bogotá que pela primeira vez senti saudades do meu tempo de estudante, e pensar que chegaria o dia em que eu diria "no meu tempo".

E passamos mais uma noite nas alturas de Bogotá, dessa vez no Mirador de la Calera: Mayra, Mary, Montoya, Carlótica, Daniel, Jhon, Andy, Laura, Camilo, Hernan, Tavo, Juan, Daniel, Oscar, Andres, Steven, Bovver, Carol, eu. Que vista. Era para coroar a viagem, pois faltava-me conhecer esse lado. Da lanchonete a gente via as motonetas na luz do poste, e a cidade lá embaixo, diante dos meus olhos molhados. As dedicatórias, os presentes, as ruas, os amigos, as motonetas e seus 150cc inquietos, a centro da cidade, Antioquia, os clubes e giros, La Pelada. Cada disso me marcava para a vida. Como se eu já fizesse parte daquilo tudo, preferia não me despedir demais. Descemos na base da diversão, do jeito que o Animal Taylor gosta de fazer em rodovias litorâneas...

Andy, Daniel, Mary, Andres, Hernan, Juan, Tavo, Camilo, Juan, Alape,Mayra, Yo
A meia-noite Montoya e eu deixamos as Vespas na garagem e subimos naquele bar rockeiro da Plaza Lourdes. Chapamos um pouco, e pude ter com ele a conversa que queríamos. Durante a viagem sentia Juan apreensivo com os mil atrasos do projeto Asfalto rumo ao México. Queria ir, não tinha grana. Conversamos disso, eu me colocava na situação dele a toda hora Talvez no bar ele tenha deixado um fardo moral que carregava a um tempo. Juan precisa escrever um livro, e nós podemos ajudá-lo, simples assim. Sua viagem pela América do Sul além de motivadora para quem o conheceu, foi contemplada com acontecimentos incríveis e hoje é contada com a habilidade de um geminiano paisa. Sua Vespa por exemplo, no fim da viagem, chegou em Bogotá transportada por um avião de pescados. Já ele, num outro com mais 80 soldados. Mas só ele consegue contar com vida, ele viveu.

Quarta-feira, 17 de Setembro. E o fim chegaria, e de ressaca, claro. No começo da tarde saí com Mayra para um giro e almoço na La Macarena; paramos num restaurante todo lúdico, como que feito para crianças, havia mais de dois mil brinquedos antigos decorando o espaço, e esse simpático cantinho do bairro se chama La Juguetería. Os garçons se vestiam como figurantes de programa infantil, tinha brinquedos dos anos 40 aos 80, norte-americanos, mexicanos, soviéticos e regionais. Recomendável em todos os aspectos. Comi um churrasco típico com batata assada, e claro, aquela arepa. A gente gostava de conversar, ela é racional e eu um irracional. Nossas vidas eram assunto. Depois passamos na casa de Camilo Bermùdez para levar-lhe os materiais culturais do Brasil e trocar umas ideias. Camilo é caprichoso e suas motonetas funcionam e são para estradas; ele é restaurador, revendedor de vestuário ingleses e acessórios italianos (pela Vespaccessorios Bogotá), além de baterista da banda de street-punk-oi Urban Noise. Ele me presentou com algumas polos da Fred Perry e Ben Shermann, favoritas do meu pequeno guarda-roupas. Que chevere!!


Camilo Bermùdez
Leonardo Castañeda














As 17h Maryzabel e Juan Montoya passaram no apartamento para me conduzirem até o Aerouperto Eldorado. Em três Vespas tocamos pelo trânsito sem fim nem trégua. Mary pilota muito, tem braço, e levou os 81 quilos de Brasil na garupa com facilidade. Difícil despedida, ligeira e sem muito drama pra não parecer eterna. Essas três pessoas foram decisivas para toda essa viagem. Montoya por nossa amizade, viagens, ideias, um cara que eu tenho como irmão de óleo. Assim como a Maryzabel, por reconhecer nela o espírito agregador e apaixonado nas questões (vejam bem) dois-tempistas latino-americanas. E a Mayra, a garota que me deu aquele empurrão para estar lá - isso é muito sagitariano: "vamos? você precisa conhecer lá". Enquanto tomava minhas últimas Pokers no aeroporto compreendia que alguma coisa tinha feito todo o sentido do mundo nessa viagem. Hoje eu sei que ela me tornou um cara melhor, de alguma maneira que vou entender quando acabar esses relatos. As coisas deram certo, tudo se conectou, vivi muito bem, estive com os melhores, deixei alguma mensagem subliminar, e ficamos nisso. E nessas de viver em 2 Tempos pra cá e pra lá, conhecer aqueles que vão ser seus melhores amigos ou não, pode estar aí o grande barato da Vespa para mim. Elevado ao universo, se hoje eu comparasse o perfil da Scooteria Paulista com a cena dois-tempista de algum país da América Latina, eu poderia passar horas tentando te explicar porque hoje somos os mais colombianos dos clubes. Fabio Much talvez diria o mesmo, ele que esteve na Argentina por duas vezes, no Paraguay e agora na Colômbia.

Bem, amiguinhos, essa foi mais uma empreitada minha e do meu irmão de óleo Fabio Much, grande parceiro de clube, de breja, de ruas e viagens. Foi um prazer compartilhar com o leitor um pouco dessas experiências, e sentir o feedback desses relatos pelas redes sociais. Parte da minha parte na viagem foi custeada pelo próprio Almanaque Motorino #4. E pelo apoio, confiança e bom-gosto eu agradeço a essas marcas que anunciaram nessa edição de capa branca, tornando-se parte dessa história narrada aqui: Free Willy Moto Peças (São Paulo), Pastifício Primo (São Paulo/Sorocaba), Mi Corazón Late en 2T (Colômbia), Empório Motoneta (Santos), The Firm Records (ABC), Ordinary Recordings (São Paulo), Sergio Andrade Fotografia (São Paulo), Soul Suor e Sacanagem (São Paulo), Luis das Vespas (Santos), Trece Shop (São Paulo), Crasso Records (São Paulo), Marzela (São Paulo), W.A.C.K. (ABC), Piazza Zini (S.Paulo), Clausen Aromas e Perfumes (S.Paulo), Zini Alimentos, (S.Paulo), Barra Forte Racing Team (São Paulo), projeto Asfalto (Colômbia) e Vespa Club Bogotá (Colômbia). 

Me disseram que havia uma propaganda (??) por lá que dizia que a Colômbia era perigosa. E hoje, mais do que nunca, eu concordo! De fato, a gente corre muito perigo de acabar ficando por lá para sempre. Um dia eu volto, e que esse dia não demore. A todos os colombianos que conheci em dois-tempos, o meu afeto e mais sinceros sentimentos.

"So remember, out there somewhere you've got a friend, and you'll never walk alone again"
 From São Paulo with love.

Relato por Marcio Fidelis

sábado, 4 de outubro de 2014

LOCÔMBIA: DUAS SEMANAS DE COLÔMBIA (Parte 02 de 03)

Foram 14 dias entre Bogotá, Medellín, El Carmen de Viboral, Bello, Rionegro e outros povoados. 1200 kms rodados com La Pelada, a Vespa PX150 cedida por uma das pessoas mais ativas e contagiantes da cena old scooter da América do Sul: Maryzabel Cárdenas (Vespa Club Bogotá / Mi Corazón Late en 2T). Na primeira parte desse relato contei da capital e sua admirável cena dois-tempista. Agora vem o lado B, vivido no departamento de Antioquia, quando enterro meu coração na Colômbia.


Terça-feira, 09 de Setembro. Despertamos antes do sol, era a primeira noite da lua cheia. Acho que vê-la horas antes tão bem pintada no buraco de uma nuvem me fez dormir pensando demais. Juan Montoya e eu teríamos uma cruzada de doze horas até as redondezas de Medellín - 450 kms. Ele falava com orgulho dos paisas, os oriundos do departamento de Antioquia. Falava do estilo de vida, do calor, das festas, da natureza, das motonetas, antigos amigos. Na saída da cidade paramos para abastecer e consertar o manete da embreagem da La Pelada. Entrei numa borracharia procurando por uma porca de 7 polegadas e me deparei com uma visão horripilante. Saiu uma mulher de uns trinta e poucos anos, de estatura baixa, pele vermelha, indígena. Notei no dorso da sua mão duas pequenas tatuagens grossas e desbotadas; cheguei mais perto quando pude, e para meu espanto havia ali no coro cravados uma Suástica nazista e a Sigma integralista. Eu me perguntava por que catzo aquilo? Talvez um dia ela tivesse sido violentada por neo-nazis? Ou vítima de algum tatuador ignorante, e da própria ignorância? Ela tinha algo de cansada, ombros altos que formava uma corcunda e escondia o seu pescoço, olhar caído ao chão, mãos grossas e marcadas do trabalho bruto. Seria irônico se não fosse trágico.

Já saindo de Bogotá, lá estava o sol, como se esperasse do lado de fora da cidade. Era 8h30, fazia calor. Juan disparava na frente, ele conhecia bem aquela pista, era a sua décima quarta viagem pela Ruta Medellín-Bogotá. Eu sentia alguma insegurança pairando, algo diferente no "manejar da carruagem", e me demorei para lembrar do dado geográfico: estávamos a 2500 metros acima do nível do mar. Talvez isso justifique o acidente que sofri na hora seguinte. Foi numa curva cega, estreita, cercada por enormes rochedos, descida. De repente um cachorro atravessou a pista, tranquilamente, como se fosse hábito. Pisei no freio e gritei pro animal, ele deu ré assustado e eu caí. A roda traseira derrapou para um lado e para o outro quatro vezes. A queda era inevitável, eu até poderia controlar a moto se fosse em linha reta, mas acertaria em cheio alguém na mão contrária. Tinha que manter a trajetória arqueada e garantir o menor dos estragos. Ai como dói. A Vespa tombou para a esquerda e eu voei por cima do guidão. Foi sapato para um lado, celular para o outro, e eu feito um saco de batatas caindo da Kombi a caminho da feira. Deitado no acostamento mexi a cabeça e vi La Pelada sobre uma poça de gasolina. Motoristas paravam. Alguém sacou o telefone e pediu uma ambulância; foi quando dei falta do celular. Na base do saci fui pulando e recolhendo os cacos do asfalto; ergui a Vespa e me deitei outra vez. Apesar da dor, sentia alívio. Tive sorte. Ralei as mãos e a perna, nada mais. Estava de jeans e jaqueta Bomber. La Pelada era toda escovada, Rat, e com pouco ela voltaria ao estado no qual a peguei. Toquei adiante, e nada de Juan. Numa das barreiras de obras da pista, um funcionário ao me ver machucado, veio ao meu apoio, trazendo anti-sépticos e curativos. Cordialidades comum a brasileiros e colombianos que me fazia sentir em casa.

Máquinas: de rodar e de lavar
Curativos na pista













Cinco quilômetros adiante encontro Montoya voltando. O painel da La Pelada estava solto e o cabo da embreagem arrebentaria na hora seguinte. Num vilarejo qualquer consegui um par de elástico e amarrei o painel no guidão. Era 11h, o mormaço baixava no asfalto, a dor e a tensão transformava aquela viagem numa prova estilo "12 Horas de Resistência", mas sem revezamento de pilotos. Tomamos um café em Guaduas e abastecemos em Honda. A tocada seguia forte, no ritmo de Montoya. Quando estourou a embreagem a coisa ficou tensa. Estávamos a meia hora de qualquer civilização. Ah se aquele motor travasse, seria de novo chão. Chegando em La Dorada (no departamento de Caldas) Juan foi comprar um cabo enquanto eu caçava um sinal de wi-fi para avisar Maryzabel do acontecido. "La Pelada es Rat! Cada golpe es una historia. Lo único importante es que ande para que sigas tu camino", ela respondeu, me enchendo de motivação. Juan trocou o cabo, eu paguei o almoço.

De barriga cheia naquele calor o sono descia igual pai-de-santo. As imagens da estrada se misturavam com algum sonho, e no capacete ouvia o barulho do motor misturado com vozes falando qualquer coisa em espanhol.  De La Dorada a La Florida o motor travou cinco vezes, mesmo com o autolub e a mistura de óleo no tanque. Como fazem os lambreteiros que vão pra longe, saquei a tampa do cofre (a saia direita), acomodei-a no assoalho junto da mochila, e "taquei-lhe pau".

Por Puerto Triunfo entrávamos finalmente no departamento de Antioquia, aonde nasceu, viveu, prosperou e morreu Pablo Escobar, o maior narcotraficante da história do país. Sua fazenda (Nápoles) hoje é um zoológico e museu, e na entrada o avião monomotor usado nas operações do Cartel de Medellin figura em exposição, o que me fez pensar no quanto a Colômbia parecia alimentar um sentimento contraditório por seu personagem. Por que preservar, e bem visível, esse avião? O que se quer comunicar com isso? Dali em diante eu perderia a conta de quantos Tuk-Tuks Bajaj cruzaria o nosso caminho. Só uma dúzia ali nas redondezas era da própria Hacienda Nápoles. Aliás, a história da Vespa na Colômbia também passa por Escobar, e muitos sustentam que seu dinheiro era lavado também na Itália, trazendo PX150 e outras especiarias. Lambrettista que foi, vai saber...

Na fazenda de Pablo Escobar
O final da rodovia era estreito e curvo, com caminhões indo e vindo às pressas, compensado pela natureza generosa, carregada de vida, de vento, de verde, de Vespas. Sim, já as via pelas ruas e garagens. Rionegro é um povoado à moda antiga, com suas casas de janelas grandes, postes baixos e pessoas felizes. Ela teve a sua importância na história do país; lá foi escrita a Constituição da independência. São cem mil habitantes, um deles é Juan Montoya.

El Carmen de Viboral fica a 15 kms de Rionegro. É a terra das porcelanas, cidade de artistas. Terça-feira a noite as pessoas vão para a praça central, na quarta, na quinta, todos os dias vão. Na rua de cima funciona a Sede do Parche Scooter Oriente, um bar de esquina, exclusivo, com capacidade para 40 pessoas em festa. Arley, Hugo e Free nos conduziram até lá. Sair, presidente-fundador, é cinco vezes mais entusiasmado do que a média da humanidade sobre a Terra, daqueles que procura te agradar, que puxa assunto, que faz de tudo para que seus amigos e visitas se sintam bem em comunhão. Eu precisava de um banho urgente, lavar os machucados, fazer a barba e melhorar minha cara de laranja ressecada. Foi uma água santa na casa da mãe de Sair. Quando voltei à Sede já havia ali vinte e tantas motonetas, uma mais linda que a outra. Reuniu-se o Parche Scooter Oriente e o Vespa Club Medellín, com seu presidente Jonny Garcia e a primeira dama Carolina, acompanhado do Mod Nacho Caleano, Wilsoooooon, Burro, Jaiber, Wil, Laura, Andrés Gonzales, Alejo, Estefania, Sebastian e companhia. Um encontro relâmpago, com quase cinquenta paisas, metade da cidade grande, metade dos povoados. Ali Nacho me presenteou com um par de botas para cavalete antigo, e um outro Juan, com o um pára-choques cromado de fabricação própria. Era uma nova Colômbia aquela. Tomávamos cerveja antes de conduzir, ouvíamos rock eclético e falávamos daquilo que nos unia: motonetas. Que chimba!! Lá dentro meia PX decorava o mezanino. O pessoal tinha preparado petiscos e hot-dogs. Sair me acompanhou a pé pela praça; as casas adornadas com porcelanas e pinturas davam um tom de cenário de novela de época. Juan Montoya me chamou para confidenciar algo. Perto dali estava bem guardada simplesmente aquela Vespa, a original, com a qual viajou pela América do Sul, a que conhecemos. Ele a reproduziu fielmente, guardando o chassis com adesivos e marcas da viagem que a eternizou. Ver aquilo me respondia alguma coisa. Dava todo um sentido para as escolhas de vários amigos meus; os anos passam e suas motonetas continuam sendo reconhecidas de longe. Sair também se orgulhava da sua, num branco perfeito, repletas de acessórios e kits da S.I.P. Scootershop. Corria muito, ninguém pegava. Vi na volta. Montoya, eu e Free dormiríamos no sítio do Daniel Zuluaga, um vespista diferente de todos os que já conheci. Ator de teatro, planta o que consome, aprendeu tudo de Vespa assistindo a tutoriais e ouvindo  dicas dos amigos. Jovem de 28 e membro do Parche Scooter Oriente, nos ofereceu um cigarro de ervas que havia plantado naquelas hortas. E esse dia interminável, de um sol escaldante, fechava as cortinas numa imensa lua amarela.

Parche Scooter Oriente - Chess, Fidelis, Sair, Fred, Juan e Daniel
Quarta-feira, 10 de Setembro. El Carmen de Viboral amanhecia ensolarada. Passamos um café e nos sentamos diante das vacas. Daniel contava da sua nova peça pelos teatros brasileiros. (São Paulo à confirmar). Depois de um banho gelado, tocamos para o município vizinho, San Antonio, aonde Juan fazia planos de visitar um amigo. Nessa tarde a equipe Mi Corazón Late en 2T, clubes e scooteristas cachacas anunciariam o Bogotá Scooterfest para domingo. De Medellin Jonny Garcia escrevia "Cómo así que Marcio Fidel ya está organizando eventos acá?", com direito a uma honrosa réplica de Maryzabel:  "El vino a hacer historia y a ponernos a trabajar... mientras viaja y disfruta en Medellín!"

Medellin
El Carmen de Viboral














Chegamos no pôr-do-sol da cidade grande. Pelo caminho muitas motonetas, a maioria desgastadas, de uso comum, desprovidas de qualquer senso scooterista nos seus proprietários. Eu achava o máximo! Definitivamente, Colômbia é um país dois-tempista. Descemos pela serra cortando uma favela. Em outros tempos ouvi sobre o perigo, traficantes violentos, bandoleiros em toda a parte. Não achei. Para mim aquelas "comunas" (favelas) tinham muita vida própria: homens voltando do trabalho, motociclistas sem capacetes, cheiro de janta, crianças brincando de pique-esconde, mulheres falando alto, Plus Bajaj vindo e indo. Inclusive no dia seguinte eu fotografaria um cara carregando uma máquina de lavar no garupa da motoneta. (Foto lá em cima do post).

No pé do morro, no bairro Villatina, chegávamos à Vespa Estazione, oficina de Andrés González. Lugar apertado, e infinito. Suas capacidades vão além do espaço. Foi de lá que Montoya saiu, também de onde saiu algum suporte à Elizabeth Benitez durante essa viagem pela América do Sul. Andrés González, el Apá - mais que um papá, por Juan - é um mecânico distinto, daqueles que parecem fazer pela causa, que querem ver os seus nas estradas. Um tipo amigo para sempre. Junto das cervejas chegavam os cicerones do Vespa Club Medellin: Jonny Garcia, Nacho Galeano, Silvio Andrés e Laura Rubio. Passamos essa noite proseando sobre acessórios, clubes e encontros, e ouvindo reggaeton entre goles e tragos até as 23h. Laura Rubio me levaria no carro para o seu apartamento, no bairro de Boston, perto dali. Lau vive com as duas gatas, filhotinhas hiperativas, as suicidas Mia e a Gaya. Eu só dormiria depois das gatas, e acordaria com elas pulando na minha cabeça, um possível comportamento dos bichos paisas.

Vespa Estazione - Medellin
Quinta-feira, 11 de Setembro. Laura saiu cedo, fiquei com as gatas, um café, e os meus pensamentos. Meditando me descia na cabeça frases assim: "não adianta buscar dinheiro (porra), busque seus sonhos." E outras mais, bastante pessoais. Ler no timeline do Facebook é meio ridículo, na própria cabeça, dependendo da ocasião, faz algum sentido. Desatava um nó emocional, queimava 4 quilos de gordura mental. Juan veio me buscar com a PX200 de Andrés, a única "alta" cilindrada do pedaço. A questão aí era que em Medellín, por causa de crimes com uso de motocicletas, está proibido conduzir engarupado. Tremi as pernas quando um policial parou ao lado. Fez que não viu, e passamos. Aonde houvesse sinal de wi-fi, eu lá estava mexendo na tela quebrada do celular. Em Bogotá se preparava uma grande festa. Na "cidade da eterna primavera" Silvio Andrés tinha planos para a tarde, Jonny para a noite.

Estava Juan, Silvio, Jorge Vásquez, Elmer Ramírez, Santiago Espinosa, eu. Em seis Vespas rodamos pela cidade até Pueblito Paisa, a réplica colorida de um vilarejo do final do século XIX, nas alturas do Cerro Nutibara. Medellin é cercada por sete montanhas, mas essa em especial era tida como patrimônio histórico, turístico e artístico. Não por menos.

Cerro Nutibara - Medellin
De repente o céu fechava, e com a ventania veio a chuva, interrompendo a aula de história da "Silvio's Tour" (segundo já apelidam em Bogotá). Tocamos na chuva para a casa do Jorge, que nos prepararia um chocolate quente com arepas. Eu gosto das casas das pessoas, sejam grandes, pequenas, simples ou sofisticadas, ela fala de criação, de estilo de vida. Comecei a notar que dentro delas ventava e entrava mais luz, que sem tantas paredes dividindo cômodos as pessoas pareciam passar mais tempo em comunhão, conversando com alguém da sala enquanto frita um ovo, ou tocando no piano um tema para a esposa que descansa com pés pro alto na rede. Era assim por toda a Colômbia. Lá fora a chuva fina trocava de turno. Anoitecia. Nos despedimos de Jorge e Sebastian e tocamos para o Hamburgo Bar, aonde acontecia o Juelves Vespa, o tradicional encontro de quinta-feira do Vespa Club Medellín.

Motorino em mãos: Nacho, Andrés, Fidelis, Sebastian, Hugo e Jaiber
Vespa Club Medellín - 15 Anos
Hamburgo Bar - Maria, Santiago, Wilson, Silvio, Elmer, Alexa, David, Dilan
No fim escuro de uma rua sem saída, a cena das motonetas nos cavaletes e os cromos brilhando na garoa pareciam sair de um cartão postal. Vinte e tantas passariam por lá. Começando às avessas, conheci os estrangeiros do clube: Gustavo Adolfo, de Portugual, e Mateo Jaramillo com Willian Casadiego, da Venezuela. Enquanto vendia meus materiais ficava à par do grupo. Sebastian Gaviria me contava da cena skinhead paisa. Andrés López me mostrava uma mão sem dois dedos, havia perdido num acidente de Vespa. Conhecia Dilan, David Restrepo, Maria Alejandra, Lucy Puerta, Hugo Boss, e outros que vou incluindo nessa linha nos próximos dias conforme lembrança. Nessa noite o dono do bar fez questão de passar os vídeo-clipes do W.A.C.K. - banda que eu toco bateria - nos televisores do bar. Era cômico ver Willian "dançar Oi". Nacho e Jonny não me deixava de bico seco. Era especial estar com essa gente toda, são jovens, festivos, sonhadores, investem tudo no bom gosto e tocam com orgulho o maior e mais antigo clube da Colômbia. Jonny, com ares de mafioso dos anos 90, me perguntou "Fidel, que quieres hacer hoy?". Como respondendo ao gênio da lâmpada, pensei até besteira para fazer piada, mas disse "quero que me leves a um legítimo bar de salsa". E para lá nós fomos, o Jonny com Carol, Hugo, Andrés e eu, na chuva mesmo, rumo ao município de Bello.


Descemos umas cervejas e doses sobre doses de Ron Viejo de Caldas (Rum). Jonny é um cara caricatural. Está sempre metido numa camiseta mais apertada do que seu físico pede, usa um óculos bolha retangular que me lembra aqueles televisores dos anos 70, está sempre com o mullet umedecido e anda numa Vespa Originale 150 em dois tons de verde no legítimo estilo Mod, ainda que não seja um. Já Hugo é um dançarino nato, entre um gole e outro cantava com expressão de sofrimento os temas do salão. Me trouxe todas as mulheres para dançar salsa. E que vergonha, eu não sei dançar nada. Parodiando a Plebe Rude, "nunca fui tão brasileiro". As 2h fomos para a casa de Jonny e Carol, lugar de notável tradição etílica. Até as 4h não largaríamos a garrafa de Whisky, na companhia dos mesmos loucos. Mas não sem antes forrarmos o estômago com os sanduíches de praça mais saborosos que já comi desde que morei em Londrina/PR, no início do século. Dormi tão embriagado quanto naqueles tempos dormia.

Jonny Garcia, il capo
Vespa Ride TV gravando











Sexta-feira, 12 de Setembro. Jonny saía para o trabalho enquanto Carol preparava mil refeições, a começar com ovo mexido acompanhado de arroz e arepas, seguido de um suco de maracujá, e um derradeiro café. Silvio, Jorge, Elmer e Santiago chegavam de Medellin para mais um Silvio's Tour. Perto dali uma das construções mais emblemáticas do povo paisa era a casa na qual meu quase-xará, Marco Fidel, Presidente da Colômbia no início do século XX, teria nascido e vivido. Era pequena, baixa, feita em barro e madeira, de telhado de palha, constituída de três cômodos apertados, protegida por uma construção que servia de cúpula desse pedaço da história. Um dos seguranças do local nos contava com orgulho a história de Fidel, da sua infância pobre e sofrida à suas capacidades como filósofo, escritor, poeta e político. Um pioneiro em seu tempo. Na metade da tarde chegávamos em Carlos Restrepo, na casa de Silvio, aonde sua mãe, doña Amparo, havia preparado um banquete incrível, com arroz, bife, salada e batatas, etceteras, fechando com uma pratada de brownie de chocolate. Que chimba!!! Depois da breve siesta, mastiguei uma folha nativa e segui com a tropa até Ciudad del Rio, aonde gravaria uma entrevista para a Vespa Ride TV, iniciativa de Edwin e Wilson. Juan Montoya chegaria com a chuva. Silvio andava preocupado com as questões do seu clube, queria saber da Scooteria, do modo como fazemos as coisas. E eu queria aprender com eles. Já aprendia, uma delas é que generosidade em excesso não fazia mal a ninguém, ela enobrecia a cena e desarmava os desconfiados. Ali nos separamos, com a promessa de replay.

Na Vespa Estazione Juan e eu nos despedimos de Andrés. Fazíamos planos de viajar para Rionegro naquela noite. Desde a primeira vez que pisei lá estava de olho num pára-brisas sujo pendurado na parede do banheiro. Lancei uma proposta para Andrés, que pensou e repensou. Dinheiro ele não aceitaria, me deu a peça e pediu-me que pagasse a Montoya o que ele precisasse. Os olhos de Juan se encheram d'água; o aventureiro naquela tarde havia tomado uma multa de quase "200 Reais" por estacionar em local proibido, e andava perturbado com a falta da grana. Havia muita generosidade naquele povo, me impressionava, por compreender também que o brasileiro (do sudeste e do sul) vem perdendo esse tempero. No apartamento de Laura Rubio aprontamos tudo, nos banhamos, e as 20h, quando estávamos quase prontos, olhei para aquele morro ladrilhado das luzes das casas, para as árvores balançando ao vento, o céu estrelado, as pessoas nas ruas, e sugeri uma cerveja derradeira, para fechar Medellin com uma cereja no bolo. Laura sorria como que dando pulos por dentro, e Juan me dizia: "parce, eso que yo quiero, que usted desfrute de todo; yo estoy acá para hacer lo que quieres". De pronto saímos a pé. Era essa a Medellin que me faltava. Fomos ao Parque del Periodista, aonde centenas de jovens se reúnem para fumar algo, beber cerveja barata e trocar ideia, a maioria estudantes, artistas e afins. Bares abertos, algum jazz rolando ao vivo, jovens prostitutas tatuadas, uma tradicional sexta-feira do bairro. Comemos dois pastéis e tocamos de táxi até o Parque del Poblado, a 7 quilômetros dali, num bairro de jovens abastados. Ali tomamos alguma coisa estranha que me fazia ver tudo diferente. E caminhamos muito, andamos pelo bairro todo, duas vezes, por duas horas, que brisa! Estávamos em El Poblado, a "Vila Madalena" de lá - bairro boêmio de São Paulo. Nas ruas se ouvia de tudo, num bar tocava salsa, no outro Black Flag. Medellin é a cidade das mulheres de perna grossa. Ela é toda montanhosa, e as pessoas caminham, desfrutam do espaço. Lá no topo entramos numa festa de música eletrônica. Juan e Laura queriam visitar alguém lá dentro, e falavam com apreço do espaço, que funcionava como que um coletivo de artistas, tatuadores, grafiteiros. Eu não gosto desse estilo musical. A grosso modo gosto de músicas dos anos 60, variantes do punk e trilhas sonoras de western-spaghetti. Apesar disso, naquela hora era mágico ficar parado feito totem observando o modo como os paisas se divertem. Eles riem o tempo todo, e se orgulham de serem felizes, e têm consciência disso. Visitam-se, falam ao telefone, aonde chegam reconhecem alguém. São livres, desprovidos de qualquer senso de sofisticação. E quanto mais cervejas, mais amigos, mais tempo por lá, mais paisa você fica. Rica Perrone é um paulista que foi morar no Rio, e a sua descrição do carioca, ao meu ver, se aplica ao paisa: "Gosto deles. Gosto de sol, de abraço, de rir muito alto e de não me achar um merda por estar sem grana. Gosto de como eles se viram. Gosto da simplicidade e da informalidade que os aproxima do amadorismo. A vida não tem que ser profissional."


Sábado, 13 de Setembro. Deixamos o apartamento de Laura, Mia e Gaya, as 11h, dando início a mais uma saga rodoviária. Passamos antes no centro da cidade para negócios. Me sentei com o dono de uma das maiores tapeçarias de Antioquia, a Tapivan, e negociamos um anúncio no Almanaque Motorino, com possibilidade de futuras encomendas ao Brasil. Depois passamos nos camelôs para comprarmos uma camiseta do Deportivo Independiente Medellín para um amigo boleiro de Mauá/SP. Essas coisas atrasaram a nossa partida e deixava Juan preocupado. Rodamos por quase uma hora até Rionegro, sua mãe havia preparado um banquete. Voltamos à estrada as 17h, quase com o sol se pondo. Tínhamos pouco dinheiro, algo como que um tanque de combustível para cada Vespa, e moedas para alguns pães. Isso nos deixava preocupados, só que não. Vamos até aonde for possível. No impossível improvisamos.

A noite chegava e os caminhoneiros não cessavam o expediente. A rodovia era perigosa, estreita, movimentada, escura, e cercada de mata. Redobrávamos a atenção ao guidão. Aliás, aquela concentração toda não evitou que eu colidisse com um cachorro na rodovia, outro. Definitivamente eu rebatizaria essa rodovia de "Ruta de los Perros". Eu seguia na faixa central ultrapassando um caminhão, quando um cão, preto, forte, atravessou meu caminho. Atrás dele vinha um boi, correndo como uma locomotiva. Num golpe de reflexo decidi atropelar o cão mesmo, o estrago seria menor e ele não me esmagaria numa patada. Acertei-o com a roda dianteira e saí cambaleando. Pensava: "não acredito que vou cair outra vez". O cão rolava na contra-mão, atrás de mim o caminhão freava. Tive sorte, mais uma vez saía aliviado. Não caí, o boi passou, e o cão saiu mancando. Toquei adiante, amedrontado. Rodamos no escuro por mais uma hora e meia, até Santa Ana ou Las Vegas, aonde paramos para descansar num posto a beira-pista. Ali fomos abordados por dois soldados do exército, que saíram das sombras desconfiados da gente. Pediram documentos e explicações. É uma operação de praxe quando as coisas saem do comum, muito porque aquela rota ainda é reconhecida pelas movimentações da guerrilha. Tocamos mais uma hora de viagem até a região de Rio Claro. Ali vendemos cartões postais em troca de combustível, e até que nos demos bem. O dono de uma pousada nos ofertou um dos seus quartos. No cair do primeiro pingo de chuva, topamos. Conviver com o acaso o tempo todo te dá alguma leveza na forma de conduzir a vida. Deveria ser o contrário, talvez seja mesmo, para quem não está disposto... enfim, cada um sabe aonde o sapato aperta, cada cabeça um simulador de realidade. Passamos a noite compartilhando cigarros de ervas, contemplando a chuva; os relâmpagos clareavam o verde escuro a perder de vista. Estávamos no coração de uma selva. Juan contava que ali já foi uma das zonas mais perigosas de toda a Colômbia. Era a rota do narcotráfico de Medellin, quando até a poucos anos atrás os guerrilheiros mandavam e desmandavam em tudo. Por exemplo, as rodovias fechavam as 18h e só eram liberadas no dia seguinte as 6h. Todos viviam com medo. Agora não mais. Eu só tive medo mesmo (e me tranquei lá dentro) quando Juan falou dos casos de febre amarela na região. No ano passado ele mesmo tinha pego.

Juan Montoya e Fidelis - Vespa: La Pelada PX150
Aqui dorme o segundo tempo dessa pelada, laricando pão seco e ouvindo a tempestade. Ainda tenho alguma coisa para compartilhar com vocês, pessoas a conhecer, breves giros, considerações finais e agradecimentos eternos. Colômbia é o país mais brasileiro da América do Sul, eu gostava disso. Identificar nossas qualidades no outro talvez nos faça mais bem-resolvidos. Febre amarela eu não pegaria, mas nesse momento já estava contaminado pelo incurável rotavírus da espécie Locômbia. Dormia doente um paulista-brasileiro metade cachaca, metade paisa.

Eeee Ave Maria pues hombre!!!
Relato por Marcio Fidelis
Fotos por Fidelis, Jonny Garcia, Montoya, Silvio etc

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

LOCÔMBIA: DUAS SEMANAS DE COLÔMBIA (Parte 01 de 03)

Foram 14 dias entre Bogotá, Medellín, El Carmen de Viboral, Bello e outros povoados. 1200 kms rodados com La Pelada, a Vespa PX150 cedida por uma das pessoas mais ativas e contagiantes da cena old scooter da América do Sul: Maryzabel Cárdenas (Vespa Club Bogotá / Mi Corazón Late en 2T). Situando a Scooteria no assunto, desde a fundação (abril de 2010) até hoje já recebemos sete colombianos viajantes. Tanta sugestão uma hora nos levaria para lá. E esse dia chegaria para Fabio Much e para mim. Contei aqui do "Mods vs Rockers" (Enmca1) e do "Bogotá Scooterfest", ambos com conceitos bastante enraizados nas subculturas juvenis da segunda metade do século XX. Agora, a quem possa interessar, contarei um pouco dessa experiência como visitante. Faça um mate, feche a porta, desça o cursor.

Fabio Much e Marcio Fidelis - Scooteria Paulista
Quarta-feira, 03 de Setembro. O avião pousava em chão molhado. Mayra Garcia foi de carro ao Aeroporto Eldorado (mesmo odiando dirigir quatro rodas), e me levou até Chapineiros, o bairro aonde Maryzabel Cárdenas tratou de me hospedar, no apartamento do seu irmão Alejandro. Mayra, para quem não se lembra, esteve em São Paulo e no Rio durante a Copa do Mundo, e participou da II Girata D'Inverno, em Taboão da Serra/SP, e de uma reunião de batismo da SP. Na Calle 63 me esperavam Maryzabel e Oscar Matiz, sujeito bem-humorado - chistoso - de posse de uma Vespa T5. Me aguardava também, e em especial, o amigo paisa Juan Montoya, na cidade a duas semanas. Desde que o escrevi anunciando minha chegada, ele que é de Medellin - a 450 kms de Bogotá -, tratou de arrumar um trabalho qualquer na grande cidade para viver conosco a maior parte dessa história que vem abaixo. Ali já me sentia na melhor fase de Jack Kerouak. E falando nele, pessoalmente conheci Maryzabel no Paraguay, no acampamento de um Encontro de Vespas. Quer mais beatnik do que isso? Começava a maratona...


De pronto seguimos para o praça Quinta Camacho, no bairro Carulla, aonde semanalmente os Escuteristas Bogotá se reúnem. Fui apresentado a Gerardo Rodriguez, Anderson, Jaime, Elmer, Daniel, Luis, Alfonso, Bob, e mais gente. Não sei se ouvi direito, mas ao me cumprimentar Gerardo, presidente do clube, disse algo como "que puedas mejorar el clima de las cosas acá". Sujeito calmo, quase sempre escutando atentamente os seus enquanto traga devagar um cigarro, sua deixa me fez pensar noite adentro no que catzo aquilo significava. De Kerouak a embaixador de qualquer coisa, eu chegava na garupa de Juan Montoya, a que considero um Dean Moriarty sem benzedrina, a cruzar a América, só que de norte a sul. Uma versão vespista de "On the Road".

Nessa noite fui apresentado ao modelo Plus 150 da Bajaj, bastante similares às 150 Super da Piaggio. Também à Vespa GS160 espanhola, um misto de três ou quatro modelos dos anos 60, incluindo a própria GS italiana. Vale lembrar que em toda a Colômbia é obrigatório o uso de coletes ou fitas refletivas nas jaquetas durante a noite. Além dos cromos, os humanos refletem luz.

Maryzabel Cárdenas













Juan Montoya me levava na garupa, a exatos quatro anos depois de quando nos conhecemos. Em setembro de 2010 o recebemos naquela Vespa PX150 preta da Raf Mod, no Curitiba em Vespa, na Scooterboys, na capital; e entre festas e giros aprendemos com ele que distância pouca é bobagem. Como viajante creio que ele tenha alimentado um lado internacionalista no nosso imaginário, anunciando um novo Zeitgeist - espirito do tempo - que nascia no sul da América. Seu projeto se chamava Sur Sueño Vespa. (China, Much, Isbú, Andreas, Koré, Emerson, e eu, te saudamos aqui de casa, parceiro).

Céu nublado, pista molhada, borracha no asfalto. A 50 quilômetros por hora tudo parecia calmo pela Carrera 68, só que não. Em uma fração de segundo nossas vidas podem mudar de rota para sempre. Sem precisão, "viver não é preciso". Foi de súbito que, bem na nossa frente, uma Plus Bajaj derrapou e levou Anderson ao chão. Escapamos por pouco, estávamos logo atrás. Paramos o trânsito para recolher os cacos, o colega sangrava no rosto, no queixo, estava atordoado. Ele caiu rolando todo torto, usava capacete aberto, quase foi um estrago. Seu clube tratou de trocar o farol e alinhar a roda dianteira. Oscar, que é médico, daria um diagnóstico imediato. A judiaria foi que Anderson havia pintado a moto a poucos dias num verde metalizado; ela era a mais admirada da noite. A derrapada tinha a ver com o freio dianteiro, que a princípio parecia estar só muito apertado. E não é que sobrou pra mim? Conduzi a sua Plus Bajaj até mais tarde, quando fizemos a foto abaixo, aonde provei o Ajiaco Santafereño, prato típico, um caldo cremoso de frango acompanhado de uma enorme coxa cozida. Lugares aonde vendem esse tipo de comida durante a madrugada se chamam "Caldo Parado".

Três horas que pareciam seis, e essa quarta-feira inaugural fecharia com umas aromáticas e uns tragos em qualquer esquina do caminho. Se eu descuidasse do pensamento minha mente voltava para São Paulo, como se aquelas esquinas me fossem costumeiras. Nunca antes viajei de avião para tratar de motonetas. E de repente, como num pulo lá estava eu. A distância e o tempo na estrada te prepara, e talvez por isso a gente já chega no espírito, e com a pele queimada e os lábios rachados do sol da estrada. Talvez seja isso.
Quarta-feira: Reunião oficial dos Escuteristas Bogotá + Mary + Juan
Quinta-feira, 04 de Setembro. Juan me levaria para fazer o câmbio. 600,00 Reais virou 420.000,00 Pesos Colombianos, que era compensado pelo baixo custo de vida no país. Vendo tudo sob a luz do constante céu nublado bogotano me surpreendia nas ruas a quantidade de pessoas metidas em botas inglesas, sobretudo nas tradicionais Doctor Martens. Tão logo descobri uma filial da marca na Carrera 7. Como levar criança a uma loja de doces, só me faltou chorar na porta. Tocamos para a Avenida 127, aonde a Andes Motos, a representante da Piaggio na Colômbia, promovia um esquenta para o "Mods vs Rockers". Reuniu-se ali algumas dezenas de scooteristas clássicos. Conheci Jonatan Alape, Alejandra "Omaira" Vargas, German, Crystian Ruiz, Camilo Bernal, Andres Archila, Julian, Kisis/Mara, Vivi Neva e outros tantos. Alguns eram dos Mottoretos, outros do Vespa Club Bogotá e do Vespané. Surpresa para mim, além dessa boa gente toda que me era apresentada, foi conhecer de perto a nova Vespa Primavera, e a 946. Lindas ordinárias.

Estávamos em 18 motonetas pela noite. Por lá os comboios correm, represam nos semáforos, esticam, aglomeram em algum posto, e tocam adiante, cada qual alertando o companheiro dos buracos no chão, que não eram poucos. Me recorria lembranças dos nossos giros de uns anos atrás, aqueles sem instruções, de pouca experiência, totalmente espontâneos. Só que eles são rodados, fazem da Vespa um modo de vida, os vespistas de lá são o reflexo do cotidiano. E tudo acabaria na Monapizza, um lugar rústico, de três andares apertados, num bairro boêmio e gastronômico chamado La Macarena. Aliás, devo dizer que a pizza lá é tão saborosa e recheada quanto a nossa, talvez até mais leve. Dormi digerindo.

Vespa 946

Sexta-feira, 05 de Setembro. Fabio Much chegaria com o sol. As 4h da manhã fui pra rua, e me perderia por mais de meia hora até encontrar a rota para o Aeroporto Eldorado. (Fui parar em Monserrate, o lado contrário da cidade). Tive de enganar a Juan, Mary, e Mayra, que apesar das obrigações diurnas, faziam planos para madrugarem. Eu não queria incomodá-los, então inventei que o nosso amigo tomaria um táxi, e que racharíamos as despesas mais tarde. Mentirinha. Na ponta dos dedos, no tranco esquina afora, pelas ruas vazias me sentia muito bem, e sentia muito frio. As luzes amarelas vistas através da neblina me lembrou alguma coisa de São Paulo nos anos 80. Estava cá e lá. As 6h resgatei o soldado Much na base aérea.
Juan, Fidelis, Camilo, Hernan, Mayra e Much
Antes de abrir o comércio abrimos nossas primeiras cervejas: Poker, Costeña e Club Colômbia, seguidas de um pão prensado feito a base de milho, parecido com arepas, essas que são como que acompanhamentos de todas as refeições do menu colombiano. Durante a tarde Juan nos levaria até a casa de câmbio mais próxima. Pensando em economia, comemos algo barato na rua, algo que não caiu muito bem no Much, salvo pelas goladas na Colombiana - uma espécie de tubaína - e dois cigarros seguidos. Na Plaza Lourdes o movimento de sexta-feira era voraz, pessoas nas calçadas se atropelavam em fim de expediente enquanto táxis e ônibus paravam o trânsito por toda a parte. Pombos, comediantes, índios mendigos, alguém fumando um baseado às pressas, duas belas garotas apressadas, ventania arrastando cartazes, vendedores de relógios falsificados, o barulho das portas dos comércio fechando, essas coisas me remetiam ao centro velho de São Paulo, de Porto Alegre, do Rio de Janeiro. Funcionários dos bares quase nos puxavam pela camisa. Aliás isso é um outro dado: vendedores vão te chamar para conhecer seus produtos, vão te agradar para isso, vão insistir. Entramos em alguns, todos escuros, com canais de esportes ligados no silencioso enquanto a cumbia era tocada no volume máximo. Decidimos pelo mais discreto da praça, ou melhor dizendo, pelo mais obscuro: um bar de rock'n'roll setentista, de três andares, com cervejas a bons preços e barbudos desconfiados vestindo jaquetas jeans surradas. Não, também havia um pessoal naquele pique de happy our, e metade das cadeiras estavam ainda vazias. Avisamos aos amigos que por lá ficaríamos. Começava o amistoso "Brasil x Colômbia" - vitória canarinho que passaria como que desapercebida. Abrimos a rodada portanto com Fabio, Juan Montoya, Mayra Garcia e eu, seguidos da Maryzabel, do Alape, do Oscar, Juan Pablo, os irmãos Camilo London e Hernán. Foi uma noite especial, com direito a um Vallenato na saída...

video

Sábado, 06 de Setembro. Metade da motivação dessa viagem estava depositada nesse dia, aconteceria nas próximas horas o primeiro "Mods vs Rockers" oficial da América Latina. Como poucos sabem, toquei em duas bandas que foram consideradas por aí como Garage / Mod Revival: Os Migalhas e Sprint 77. Minha escola em motonetas, a zona leste de São Paulo, Os Tralhas Scooter Club, a Scooterboys, as bandas da cena, é a quem devo algum crédito nisso que vivo. Fabio Much, no caso, é testemunha ocular, tendo crescido na quebrada e antecipado o surgimento da cena Mod/Sixties da Z/L em seis ou sete anos. Numa entrevista para o Almanaque Motorino #1 (capa vermelha) ele contou: já são vinte anos em 2 Tempos. Noto que a maioria dos vespistas e lambrettistas que conheço não sabem de fato do que estou falando, e nem precisam. Acho que a motoneta por si já é um legado que temos preservado muito bem, e que assim seja. Sinto tédio com vergonha alheia quando rola um desaforo gratuito sobre a identidade, e a cidade alheia. Lembro de um completo imbecil debochar no Orkut do termo "scooterboy". Isso faz uns anos. Tento imaginar hoje aonde é que anda esse fedelho cheio de auto-estima. Me desce imagens de um cara que a anos não vê o seu próprio pênis sem esforço ou espelho, daquele tipo classe média que um dia comprou uma Vespa e entrou para um clube, e ponto. Bem, ninguém vai se esforçar para ser o que não é, ou para saber do que não quer. Tudo bem ter uma PX e não viver com ela. Mas como disse o filósofo: "a asneira é sempre faladora". O melhor que fazemos é fazer-nos melhores. E voltando às raízes da nossa escola, não era Brighton (UK), mas como se fosse, Bogotá falava de 1964: MODS vs ROCKERS.

Much e as Cherry Pin-Ups
Nessa noite rodamos em quinze, no comboio mais tenso desses dias. Foram quase duas horas desde o Encontro até o coração da cidade. Passando por pontos históricos e turísticos, Mayra tentava me contar às pressas do que se tratava o caminho. Nas alturas de La Candelaria ver a cidade, os limites pelos postes amarelos, a civilização num sábado a noite, foi fantástico, como descer pra Santos pela primeira vez na vida. Ancoramos na Plaza Chorro Quevedo, aonde Camilo London insistia em nos levar para uma festa de Ska Music. Abraçamos sua idéia e quase nos demos mal. Ao chegarmos notamos o clima um tanto hostil. Um sujeito suado, zoado, usando uma camiseta amarrotada do DRI nos olhava com ares de deboche. Na sequência Camilo tomaria dois chutes na bunda, e era posto a correr. Em um minuto todas as motonetas já estavam na esquina outra vez. Sobramos nós, Fabio Much e eu, ali no beco com a Vespa afogada. Os mesmos estúpidos que bateram em Camilo vieram pra cima da gente. Pensávamos no pior. Dois caras - um deles com uma cicatriz no canto do rosto, falante, acelerado, "louco" - vieram nos intimar. Na segunda frase eles entenderam que éramos brasileiros, desinformados do que cobravam, que estávamos pela música e pelas motos. Os dois maloqueiros nos saudaram e até se desculparam pelo escândalo, explicando o desafeto antigo. Não vou dizer que não ficamos assustados com o possível desastre: imagine você sair de um Mods vs Rockers contente e limpo - um evento com histórico mundial de confusão -, cruzar a cidade com seus novos amigos em suas Vespas adornadas, e sem saber o porque, tomar uma surra num beco escuro cheirando urina, e pasmem: na porta de uma festa de ska... ah, tenha dó. Mas La Candelaria estava linda aquela noite, com seus transeuntes, bares abertos e música em toda a parte. Daniel contava pra gente a história da praça central, a Chorro Quevedo, o berço de Bogotá.

Fechamos a noite com uns sanduíches e mais tarde algumas cervejas com Mary, Jonatan, Andres Felipe, Viviana e Mayra, naquele "bar de sempre". Que dia!
Much, Fidelis, Topo, Andy, Laura e Albert
Domingo, 07 de Setembro. Frio, ressaca, domingo preguiçoso. Seria assim se fosse no Brasil, mas lá o entusiasmo não acaba. Na metade da tarde Maryzabel passaria para recolher o que sobrou da gente. Estava com Jonatan Alape, Carlotica, Andy Shot, Laura Pérez, Andres e Viviana. Fomos à Plaza Usaquén, aonde experimentaria os melhores pães até então. (Mayra falou tão bem desses pães, no quarto dia eu entendia). Quando a noite caía, as 18h45, tomamos outro café na Quinta Camacho, na companhia de Alejandra "Omaira", Mayra, Rafael Rubio e Carlos Vigoya. Aliás, rodar entre cafés e postos de serviços é bem comum também.
Moonstomp Riders
Alejandra "Omaira"














Tocamos para o miolo da cidade, dessa vez para a Plaza Bolívar, o coração da história. Ali conheci um boêmio que cheirava uma mistura de aguardente com azedo de sovaco, e metido num sobretudo preto meio sujo, me olhava de canto, medindo meu ar de turista deslumbrado. Passou por mim e disse baixo: "lo que usted estás mirando es una Puerta Secreta". "O que"? - disse em português. Daí em diante tivemos uma verdadeira aula de Colômbia. Guilherme era o nome desse distinto boêmio à moda antiga. Sem gaguejar, contaria, por meia hora a fio, a história de cada prédio e as personalidades que andaram por eles, com precisão de datas e detalhes. Quando falava das guerras civis e das conquistas populares, seus olhos tremiam e enchiam d'água, seguido de uma fungada mais forte. Não sei o que ele fazia lá, apareceu como um fantasma do século XVIII, e naquela calmaria ele sumiu na neblina. Foi mágico, surreal, não sei. E o domingo que amanheceu para o nada, terminou com tudo...

Segunda-feira, 08 de Setembro. Religiosamente as manhãs começavam do outro lado da rua, com um copo de aveia com leite e uns pares de buñuelo - uma bola de massa frita feita com farinha de trigo e um queijo tipo qualhada -, seguido de um café. Viciei nos buñuelos, num dia comi oito. Valia como que cinquenta e cinco centavos brasileiros, era delicioso, do tamanho de uma bola de tênis. Para não passar em branco o lado exclusivamente turístico dos turistas que éramos, Fabio Much e eu tomamos umas cervejas e um táxi até o pé de Monserrate. Por algo equivalente a 18 Reais um teleférico te leva até o mirante da cidade. Lá em cima tem a igreja, tem restaurante, lanchonetes e diversas tendas de souvenires, colecionáveis e especiarias. Aliás, é o único lugar da cidade aonde se vende o chá de coca. (Não se enganem, ele me dava muito sono). Fizemos uma hora por lá e voltamos com a chuva. No pé do morro uma llama:
As 17h Juan Montoya chegaria para nos acompanhar na despedida do amigo brasileiro. Na sequência Maryzabel Cárdenas trazia Jhon Gonzales. Faltava ele. Sujeito magro, bem-humorado, daqueles que observam tudo sem virar muito os olhos. Um dos fundadores do Vespa Club Bogotá, deixou a presidência e o grupo recentemente, e ainda ressentido se prepara para integrar a cena mexicana. Uma personalidade, estava conosco por consideração. No caminho do Aeroporto Eldorado, pela tortuosa hora de corredores estreitos e buracos enormes, Jonatan Alape nos esperava na marginal da Calle 26. Jonatan, aliás, estava em todas, o Mottoreto tinha um aspecto calmo e discreto, otimista e ativo. Parceiro para todas as horas! Até que chega a triste despedida, mais uma de Fabio Much, outra da qual ele parte antes, levando aos nossos as boas, deixando para mim o final da história. Foi a quarta viagem internacional do Muchiba, a terceira ligada à Scooteria Paulista em eventos da classe. Clique nos links abaixo e relembre as outras duas:


Dia Del Scooter Clásico #3 (Argentina 2011)


Depois de uma parada num café pelo caminho, tocamos para a Chapineros de novo. Lembrando que era segunda-feira. Escolhemos um bar estreito da Plaza Lourdes, e ali dois funcionários, e um casal tragando algo, acompanhados de uma terceira mulher impaciente segurando vela, era o que tínhamos de mais animado nas redondezas. No rádio, salsas de amor e desamparo. Eu estava cercado de pessoas que são como mestres dos magos: Juan Montoya,  Maryzabel Cárdenas, Jhon Gonzales e Jonatan Alape. No passar dos dias elas me surpreenderiam demonstrando um pouco de suas capacidades em criação e execução, coisa que raramente vi se manifestar em tão curto tempo em prol de um espontâneo encontro de motonetas. Na mitologia grega o Rei Midas era o personagem que transformava em ouro tudo o que tocava. Naquela semana eu entenderia que andei me sentando com uma cúpula de magos, na qual tudo o que era dito era transformado em fatos. Sugeri uma festa, e dito e feito: em seis dias aconteceria o primeiro BOGOTÁ SCOOTERFEST.

Fidelis, Tatiana, Leonardo Castañeda e Jhon Gonzales

Duas da manhã, sentando na ponta do colchão o coração apertava. Juan Montoya e eu, entre uns goles e tragos, devaneamos pelos assuntos da vida, das viagens, da Vespa, do destino dos homens, das garotas, do futuro. Ele se preparava para outra trip beatnik, agora rumo ao México. O que me tocava a pensar na minha condição humana era não somente o fato de estar lá, mas a cumplicidade com que a vida me conectava às certas coisas que beiram o absurdo do improviso. Nunca uma viagem é só uma viagem. Eu andava motivado por causas novas que poderiam existir em algum lugar do coração ou das ideias de alguém. Perdido e acolhido em outra capital, a poucas horas de um tiro longo para Medellin ao lado de quem bem entende do riscado, éramos nós: confusamente confiantes. Eu parecia um tolo sem resposta ao desamparo a que tenho consciência de viver sem querer ou sempre que a grana acaba, e Juan um sonhador com um otimismo contagiante, que todos os dias mantinha limpo e bem visível o projeto da próxima aventura. Alguns vespistas são fora-de-série, tão valentes quantos seus motores, criam um elo com a máquina de modo a fazer com que nenhum outro veículo possa lhe cair tão bem quanto uma Vespa. Desse marco em diante começa um estilo de vida sério e impreciso: a liberdade de escolha pela liberdade escolhida. 

Relato por Marcio Fidelis
continua...